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GIDALARDA LEZZET ALGISININ OBEZİTE GELİŞİMİNE ETKİSİ

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GIDALARDA LEZZET ALGISININ OBEZİTE GELİŞİMİNE ETKİSİ

As primeiras meretrizes que se estabeleceram na zona de meretrício do Farol vinham de vários pontos da cidade. Como já foi contado neste capítulo, o general Cordeiro Neto, então prefeito de Fortaleza, foi o responsável pelo marco fundador daquela zona de meretrício, quando desapropriou as casas da “rua da Frente”, no Mucuripe, que dariam lugar à avenida Beira-Mar, e determinou que as meretrizes que ali residiam fossem indenizadas e transferidas para as proximidades do Farol, na zona portuária da cidade. Após este primeiro momento, de transferência do meretrício do Mucuripe, a zona do Farol receberia outros grupos de mulheres, das pensões do Centro da cidade, do Curral, e da zona da rua Franco Rabelo, expulsas de seus locais originais pela Secretaria de Polícia. Essa história de nomadismo de reflete nas narrativas de cada uma das entrevistadas desta pesquisa. Enquanto viveram do meretrício, elas transitaram por diferentes áreas da cidade, sendo coagidas pelo poder público a deixar determinadas áreas da cidade, ou mudando o local de moradia e trabalho como forma de resistência59. No caso das mulheres cujas falas

aparecem nesta pesquisa, embora tenham continuado a mudar de casas após a ida para o Farol, a moradia passou a se circunscrever nos limites do Serviluz. Algumas chegaram a possuir suas próprias casas de meretrício, outras deixaram a vida nas casas de recursos para se casar, mas a maioria permaneceu na prostituição até ver seus ganhos diminuídos pela chegada da velhice. Nesta fase, o sustento de algumas passou a ser garantido pela aposentadoria conseguida junto ao INSS, ou pela ajuda dos filhos, enquanto outras passaram a trabalhar como lavadeiras em busca da subsistência. Ao longo da pesquisa, conheci mulheres idosas, nas diversas situações descritas acima, que moram no Serviluz há décadas, desde a fundação da zona de meretrício. Entre elas, o sentido de pertença ao bairro é nítido. Apesar das dificuldades vividas ali, em função do abandono do poder público ao longo de diferentes gestões do governo estadual e municipal, as ex-prostitutas adaptaram-se à vida no bairro, e compensam as carências de sua posição social e econômica por meio de uma complexa rede de interações, em que os vizinhos ajudam-se mutuamente e trocam favores a cada vez que a necessidade exige.

Como afirma Ecléa Bosi, “os bairros tem não só uma fisionomia como uma biografia” (BOSI, 2003, p. 73). Enquanto a face do bairro se humaniza, à medida que experiências vão sendo vividas pelos moradores, a história do bairro se torna inseparável das biografias de seus habitantes. Esse sentido está muito presente para as mulheres que habitaram o bairro desde a sua fundação. É o caso de Novinha e Augusta, cujos anos iniciais nas casas de

59 No trabalho de Ivonete Pereira, sobre a prostituição em Florianópolis nas primeiras décadas do século XX, encontramos boas referências para pensar os trânsitos de meretrizes pela cidade como formas de resistência à opressão das autoridades. CF. PEREIRA, Ivonete. As decaídas: prostituição em Florianópolis (1900-1940). Florianópolis: Editora da UFSC, 2004.

prostituição coincidiram com os anos iniciais da zona do Farol. Sentada em uma cadeira plástica, na calçada de Dona Augusta, a escuto contar a história de como chegou ao Farol, de modo que a narrativa mistura sua própria trajetória e as mudanças no bairro. Ao longo da rua ela aponta várias casas e bares onde existiram as boates do Serviluz que estão em sua memória, nomeando uma a uma, e me assegurando que cada nome tem suas próprias histórias. A todo momento, a conversa na calçada é interrompida pelos cumprimentos dos vizinhos, que cumprimentam e iniciam rápidas conversas com Augusta.

Também na calçada de Dona Novinha, as interrupções dos conhecidos eram inevitáveis. Sua casa, em cuja entrada funciona um pequeníssimo bar, é ponto de parada, ao longo da tarde, para vizinhos que se servem de café, água ou porções de cuzcuz, e deixam cinquenta centavos ou um real como pagamento, ou ainda “penduram” a despesa. Novinha recebe as visitas e interrompe a entrevista para cumprimentar a cada um, perguntando-lhes sobre os problemas da família ou oferecendo conselhos. Esta performance me fala sobre sua conduta comum, de todas as tardes, mas creio que também seja reproduzida pela interlocutora para me mostrar o quanto é respeitada no bairro, o quanto seu papel de fundadora é reconhecido. Em uma dessas interrupções, um rapaz sem camisa servia-se, sem cerimônias, de um pouco de café. Novinha falava dos parentes que ajudara com seu trabalho, e o rapaz, que havia passado a ouvir a conversa, acrescentou prontamente, dirigindo-se primeiro a mim e depois à entrevistada: “Ela ajuda eu também, que eu tomo café e não pago. A senhora tem é muito filho, Novinha, e não sabe. Eu sou um deles”. No caso desta interlocutora, o fato de ter seu nome inscrito junto à história da fundação daquela comunidade, somado à conduta adequada ao modus vivendi da comunidade, lhe garante o atributo de “ter moral”, para usar uma expressão comum nos discursos das entrevistadas. Com essas palavras, Novinha resume a condição de respeitabilidade que lhe permite viver na comunidade de forma tranquila, apesar das imagens de medo associadas ao bairro pela mídia. Após a saída outro visitante, ela enfatiza a consideração que lhe é devida, mesmo pelas pessoas cuja conduta considera reprovável:

Novinha: E aqui eu não tenho medo. Tem muito vadio na rua, mas nenhum vem aqui na minha casa, que eles não são doido!

Érika: A senhora diz que isso é por quê? Não vem aqui por que a senhora é conhecida?

Novinha: É, eu acho que é. Nenhum deles vem aqui. Não mexe comigo não. Um dia desse eu dormi... Tem coisa que a gente faz sempre, e um dia se esquece. Eu fui dormir, pensei ter fechado essa porta. Deixei só encostada. De manhã, quando eu vi minha porta encostada, eu digo: “oh, meu São Francisco, levaram tudo que é meu. Olhei, as coisa tudo no mesmo lugar. Tá vendo? Se eu fosse mau pessoa aqui, eles tinha entrado, né. Que eu não sou. Às vezes eles faz malfeito, eu às vez dou o carão neles, mas não vou dizer ao

fulano: “você leve aquele menino preso, que ele fez isso e aquilo”. Não, de jeito nenhum!

Érika: Tem que saber viver, né?

Novinha: É. Quem luta na terra do ruim tem que ficar bem quietinha, viu? Né? Que é pra não acontecer nada, não ter inimizade com eles, né. Eles faz a danação deles pra lá. Aqui, não venham, não (NOVINHA, 2011).

Alguns dias após estas declarações, Novinha me conta que acabara de recusar uma oferta de vinte e dois mil reais por sua casa. O valor oferecido foi recusado, apesar de considerado alto. Novinha disse-me que não poderia sair do local onde conhecia a todos, e acrescentou: “se sair daqui, eu morro”. No mesmo dia, Augusta me fala de uma outra idosa, sua amiga, que teria sido uma das fundadoras do local. A neta de Augusta se oferece para apresentá-la a mim, mas Augusta interpela que a amiga está muito debilitada após sofrer um acidente vascular cerebral. O valor da pertença ao bairro, como condição para sobrevivência na velhice, é mais uma vez enfatizado neste episódio, quando Augusta afirma: “ela só não morreu ainda porque tem a ajuda de todo mundo aqui. Ela não tem família, mas os vizinhos conhecem, todo mundo ajuda, dá carona pro hospital, e assim vai”. Assim Augusta define sua opção de permanecer no Serviluz até o fim da vida:

Augusta: Mas o Farol é bom. O pessoal tem uma impressão... Mas aqui... Eu quero morar aqui, e não quero morar na Aldeota, tu acredita? Porque um lugar daquele todo fechado, às vezes a pessoa acontece uma coisa, um marginal, e aí aonde é que vai se esconder, tudo fechado as casas? Só se pular os muros. É, aqui é muito bom. Érika: Vizinho não se conhece, né, na Aldeota...

Augusta: É, aqui é muito bom. Olha, o índio tem que morar na aldeia, onde ele conhece os índio. Aqui é muito bom. Eu gosto daqui do Serviluz, eu gosto, adoro aqui.

[...]

Não, eu moro aqui, esse horror de ano, todo mundo me respeita, gosta de mim, graças a deus, todo mundo me respeita, todo mundo. [Augusta, 2011]

A possibilidade de mudar de endereço no fim da vida assusta a algumas das entrevistadas. Enquanto estive em campo para a realização deste trabalho, um dos assuntos da ordem do dia na comunidade eram as reuniões do projeto Aldeia da Praia, da Prefeitura de Fortaleza, que prevê modificações nas áreas em que se situam as comunidades do Titanzinho e Serviluz, pertencentes ao bairro Vicente Pinzón. O projeto, que deve reestruturar a costa leste da cidade, pode afetar diretamente a algumas das entrevistadas, que teriam suas casas desapropriadas, após o pagamento de indenizações. As modificações urbanísticas poderão incluir, depois de terminadas as negociações entre Prefeitura e comunidade, construção de uma praça paisagística e calçadão ao redor da praia do Titanzinho. Para viabilizar as obras, seriam retiradas as casas da rua Titan, os

casebres nos becos próximos ao mar e parte das moradias do lado ímpar da avenida Zezé Diogo, nas proximidades do Farol. Algumas das mulheres participam ativamente das reuniões, e declaram os objetivos de, se possível, manter-se na mesma casa, ou obter outra residência nas proximidades do antigo endereço.

A despeito das mudanças no bairro, essas personagens encontram, no Serviluz, a possibilidade de reconhecer-se ali, onde as ruas ainda lhes possibilitam reter “um pouco de tempo em estado puro”60. Os indícios do passado que permeiam o lugar permitem que

sejam revividas experiências, consolidando, por esta repetição, a posição do sujeito no mundo. Na janela de dona Novinha, aberta no novo muro que fechou a varanda da casa há poucos dias, foi preservada a visão do Farol, que ensejou o início de muitas de nossas conversas: “esse Farol, minha filha, era tão bonito”.

Figura 19 O Farol do Mucuripe, retratado em aquarela de 1957, do artista plástico belga Georges Wambach (1901-1965).

Figura 20 Farol do Mucuripe. Fonte: Secretaria de Turismo do Estado/ Divulgação.

À visão da paisagem familiar, amada, "logo se libera a essência permanente das coisas, ordinariamente escondida, o nosso verdadeiro eu, que parecia morto, por vezes havia muito, desperta (...)" (PROUST apud BOSI, 2007, p. 443). Por isso, era reiterada a cada encontro a vontade de não sair do Serviluz: “hoje, dois sobrinhos vieram me visitar. Querem fazer de tudo pra eu sair daqui. Mas eu não saio, minha irmã, de jeito nenhum, meu canto é esse aqui”. Encontro uma metáfora para a situação dessas mulheres na fala de Novinha sobre as plantas que há alguns anos possuía na entrada da casa. Visitei-a em uma semana, quando decidiu transferir os arbustos para o quintal, para viabilizar a ampliação da frente da casa. Duas semanas depois, quando retornei, ela me contou que as plantas haviam morrido: “não se deram. Estavam aí há muito tempo, foi só mudar que se acabaram”. Como disse Ecléa Bosi: “Mudança e morte se equivalem para o idoso” (BOSI, 2003, p. 75).