Só 20 anos depois da recomendação do chefe de polícia, já em 1938, foi realizado o intento de localizar o baixo meretrício longe do Centro da cidade. O interventor Menezes Pimentel providenciou a remoção das prostitutas das ruas centrais de Fortaleza para uma área próxima ao Passeio Público, por trás da Estação Ferroviária Engenheiro João Felipe. Na quadra das ruas Senador Pompeu (lado nascente) e General Sampaio (lado poente), estava localizado o início da área, conhecido reduto de prostitutas e boêmios. O bairro conhecido como Arraial Moura Brasil passou a ser chamado pelo povo de “Curral das Éguas”, embora a zona de meretrício não tenha chegado a abranger a totalidade do bairro, como fez questão de destacar um morador entrevistado por um jornal local: “entre o Arraial e a cidade (na Praia Formosa) está a zona de baixo meretrício. ‘Seu’ José Valter lamenta que as famílias, para ir ao centro, tenham de passar por ali”16. Próximo à zona do Curral,
ainda nos limites do bairro Moura Brasil, ficava a área denominada de Cinza, também citada na imprensa local como região de desordem e promiscuidade. A denominação de Cinzas
deveu-se, à época, aos resíduos da combustão de madeira utilizada nas atividades da Usina Light, responsável pelo fornecimento de energia para a cidade de Fortaleza17.
“Oitão Preto”, nome de uma casa de meretrício localizada na entrada do “Curral”, foi outra denominação recebida pela comunidade do Moura Brasil. Nas reminiscências de Edna, que morou por muitos anos na zona de meretrício do Curral, o nome deste estabelecimento encontra uma explicação: “era um murozão preto, com um oitozão pintado, era o número oito, de longe a gente via, e o povo ficou chamando o Oitão Preto”. A grandiloquência de Edna, revelada nos superlativos que definem o Oitão, está também na descrição de seu cotidiano no meretrício, na época do antigo Curral: “mulher, e aí a gente passava a noite bebendo mais os caboco, e aí ia pro quarto, menina, e era putaria demais”. O passado ganha, na fala dos narradores que viveram a época, contornos grandiosos. No discurso do memorialista Zenilo Almada, o Oitão Preto aparece revestido de um ar legendário:
[...] na descida do ´Curral´ mais à frente, famoso pela localização, célebre também pelo esconderijo, o inesquecível ´Oitão Preto´ - por detrás da Estação Central, no extenso prolongamento de muro pintado de preto com degraus e descida para rua do trilho do trem, um grande número de casas populares de propriedade do Sr. João Pernambuco, as quais também se instalaram freges e ´basfond´18. [Jornal DIÁRIO DO NORDESTE, 18/11/2007]19.
As falas de quem viveu a época vão além do lugar-comum da zona de baixo meretrício como local de promiscuidade. O artista plástico cearense Descartes Gadelha, que morou, na década de 1960, na rua Castro e Silva, próxima à zona de meretrício, conheceu o lugar quando jovem e descreveu o Curral das Éguas como “o lado romântico e ingênuo da prostituição, muito diferente das casas de hoje”20. Suas lembranças evocam a Amplificadora
Brasil, rádio popular do bairro, em que se transmitiam recados e se dedicavam músicas “de um alguém para outro alguém”.
As reminiscências do artista plástico ganharam expressão em 1991, quando a velha dedicatória deu o título de uma exposição do artista sobre o bairro. Mais de oitenta telas, de autoria de Gadelha, retrataram suas lembranças do cotidiano do Curral. Madames
17 As informações deste parágrafo foram extraídas do livro “O Cliente: o outro lado da prostituição”, de Ilnar de Sousa. Cf. SOUSA, 1998, p. 65-66.
18 Freges e basfonds eram denominações utilizadas na época para os locais de meretrício. O uso da terminologia basfond foi verificado, principalmente, como eufemismo para áreas de prostituição, principalmente em matérias policiais do jornal católico O Nordeste (1950-1956).
19 Diário do Nordeste, 18 de novembro de 2007. Disponível em: http://diariodonordeste.globo.com/m/materia.asp?codigo=487190.
20 Cf. Jornal Diário do Nordeste, 26 de fevereiro de 1991, matéria “De um alguém para outro alguém: Cenas da prostituição em Fortaleza em 80 quadros de Descartes Gadelha”.
ostentando jóias, meretrizes com trajes rotos e cabos-de-polícia divertindo-se nos bares locais são alguns dos temas dos quadros.
Figura 2 Retrato da ada e
Figura 4 A autoridade
Figura 6 A atalha
As imagens de 1 a 5 são reproduções das obras de Descartes Gadelha. Fonte: Acervo do Museu de Artes da UFC (MAUC).
Para Descartes Gadelha, o Curral das Éguas consolidou-se como o local do final de carreira das meretrizes da cidade. Ele descreve uma trajetória exemplar, em que a moça interiorana, “perdida” após a perda da virgindade e expulsa de casa pelos pais, não teria alternativas para prover seu sustento, senão o meretrício, e assim descreve uma carreira típica dessas mulheres desviantes:
Elas começavam nas grandes pensões como a Fascinação, na esquina da Senador Alencar com Castro e Silva que tinha como marca registrada a música Fascinação na voz de Carlos Galhardo. Outra casa considerada "classe A" era a Hollywood, onde se encontrava as novidades que apareciam na praça. Garotas com 18 anos, recém-acolhidas pela dona da pensão. Da Fascinação e Hollywood as mulheres desciam para a América, Los Angeles ou Califórnia. De lá para o Zé Tatá ou o Oitão Preto, quando as mulheres atingiam 25 anos, já estavam no Curral. Esse movimento de decadência e de descida era natural e encarado como inevitável. [Jornal DIÁRIO DO NORDESTE, 26/02/1991, grifos meus]21.
21 Cf. Jornal Diário do Nordeste, 26 de fevereiro de 1991. Disponível em: http://www.mauc.ufc.br/expo/1991/01/index1.htm
Me permito afirmar que a trajetória descrita por Gadelha pode ser tomada como típica, pois, guardadas as idiossincrasias de cada mulher, havia um fluxo de mudança dos locais de moradia/trabalho ao longo de seus períodos na prostituição. No meretrício, a mudança de local pode ter valor estratégico, quando se considera que mulheres desconhecidas em um local, tidas como novidade, despertam maior interesse e alcançam melhores ganhos. Outros fatores, como indisposição com madames ou a impossibilidade de quitar o aluguel dos quartos de pensão poderiam ser motivo de expulsões ou mudanças voluntárias, determinando a curta permanência em cada lugar. Como explica Edna, citando o nome de várias pensões do Centro da cidade:
O primeiro cabaré que eu fui... Deixe eu ver se eu me lembro. Acho que foi no Bar da Alegria. Tinha a América e o Ubirajara, que era duas pensão, uma de frente pra outra. Parece que era a rua da Coelce, não é, a Barão do Rio Branco? Como era o nome da outra, não sei se era América. Eu já morei na Ubirajara. Eu não morava muito tempo... Passava um mês... Porque ninguém não passa muito tempo num canto não. [EDNA, 2010].
A rápida depreciação do corpo no trabalho prostituinte, no entanto, determinava a queda progressiva nos ganhos. Edna corresponde, em vários aspectos, à trajetória típica apresentada. Após a vinda do interior e estréia em uma pensão requintada, de mulheres “selecionadas”, Edna passou a alugar quartos no Curral, tendo seguido de lá para a zona portuária do Farol, onde fez seus últimos programas. A continuação da trajetória exemplar descrita por Gadelha, entretanto, não se aplica a Edna, a quem conheci com mais de setenta anos e ainda nômade, morando alternadamente em pequenas casas alugadas nos bairros do Moura Brasil e do Serviluz.
No Curral, elas arranjavam velhos para sustentá-las até mais ou menos uns 35 anos e, depois disso, tornavam-se cafezeiras, boleiras e executavam pequenos serviços. [...] Elas não passavam dos 50 anos, talvez pelas condições de vida, alimentação e, principalmente, pela grande quantidade de bebida que consumiam22.
À imagem decadente que o local adquire ao ser descrito como o ponto final da carreira e da vida das meretrizes, imediatamente sobrepõe-se, no discurso de Gadelha, um sentido nobilitante da comunidade que ali existiu, quando o narrador enfatiza a solidariedade que se manifestava em momentos críticos. A morte de uma das meretrizes, segundo o antigo freqüentador,
22 A morte precoce da totalidade das prostitutas, vítimas de doenças ou da violência, é um dado que me pareceu menos verossímil a considerar que conheci tantas mulheres idosas, ex-prostitutas, em uma pequena área do Serviluz.
[...] revelava-se o momento mais fraterno e religioso da comunidade. Quando a companheira não tinha dinheiro para ser enterrada, as prostitutas se quotizavam e iam deixar o dinheiro na sede da amplificadora Brasil que passava todo o dia tocando a Ave-Maria, de Schubert, na voz de Vicente Celestino. O código era tão perfeito que ao se ouvir a música, todos no arraial sabiam da morte da prostituta, a ser velada na capela de Santa Terezinha, construída pelas mulheres-damas, hoje o único marco referencial da extinta comunidade. [Jornal DIÁRIO DO NORDESTE, 26/02/1991].
Manuseando os jornais fortalezenses das décadas de 1950 1960, no entanto, tem-se um contraponto aos discursos dos narradores. Os jornais impressos da época revelam outro ponto de vista, que se coaduna com ideais de moralização da cidade, especialmente no caso do jornal católico O Nordeste. Percebe-se que o bairro do Arraial Moura Brasil foi estigmatizado, pela imprensa, como um local de promiscuidade e contaminação moral. A proximidade dos casebres de famílias pobres e casas de bebidas, de trabalhadores e vagabundagem, era vista com preocupação:
Os meios de trabalho são os mais variados. Há de todas as profissões. E o maior perigo local é, todavia a vagabundagem explorada pelos agitadores e pelas casas de bebidas. [Jornal O POVO, 9/02/1953]23.
A mistura das famílias pobres às meretrizes e bêbados é objeto das reclamações de um morador do Moura Brasil, que relata seu constrangimento pela proximidade dessas personagens nos transportes públicos do bairro: “Mesmo nos ônibus viaja gente da pior espécie” [Jornal O Nordeste, 24/12/1951]24. O Arraial Moura Brasil também ocupa as
manchetes policiais, com notícias de violência contra meretrizes e entre clientes do local25.
Na década de 40, entretanto, as características da zona de baixo meretrício do Curral estavam apenas se delineando. Parte desse processo de identificação do lugar se fez por oposição à imagem do meretrício no Centro da cidade, caracterizado por uma clientela mais abastada. O próprio deslocamento das meretrizes para a área que passaria a ser conhecida como Curral está, também, relacionado com a implantação da modalidade de meretrício de pensões, no Centro da cidade. O estabelecimento do baixo meretrício no Curral e a multiplicação das casas voltadas para o meretrício de luxo, no Centro, são fatos ligados entre si, igualmente influenciados pelas medidas de restrição da prostituição que a Chefatura de Polícia passara a adotar a partir de 1935. Em 12 de junho do referido ano, duas portarias do Chefe de Polícia Manuel Cordeiro Neto determinaram mudanças na prostituição em Fortaleza. A primeira suspendia a realização de festas nos cabarés da cidade, até que fosse expedida ordem em contrário. Outra medida ditava um toque de
23 Cf. O Povo, 9 de fevereiro de 1953, p.3.
24 Cf. Jornal O Nordeste, 24 de dezembro de 1951, p.8.
recolher, a partir da meia-noite, nas pensões do Centro. No dia 22 de junho do mesmo ano, o jornal O Nordeste, órgão da Arquidiocese de Fortaleza, repercutia positivamente as portarias de restrição do meretrício e também aplaudia uma nova determinação, que vetava a circulação das mulheres cadastradas como meretrizes pelas ruas da cidade, antes das vinte e uma horas:
Baixou, há pouco, a Chefatura de Polícia, uma portaria referente às horizontaes. Proíbe-lhes perambularem pelas ruas antes das 21 horas, e regulariza a realização de certas diversões nas suas residências coletivas. [...] Medida digna de louvor, pois visa a acautelar o princípio da moral social, como, aliás, se pratica em todos os centros adiantados e policiados. Não quer dizer que essas infelizes criaturas fiquem coibidas de ir à rua, de se locomover, mas objetiva, apenas não o fazerem com atitudes e exibições atentatórias das boas normas de conduta, provocando escândalos e determinando reparos... Com licenciosidades. [Jornal O NORDESTE, 22/06/1935]26.
As mulheres que não estavam confinadas em pensões no Centro da cidade haviam sido, anteriormente, removidas para o Curral das Éguas, ainda próximo ao Centro, mas longe dos olhos das famílias que ali circulavam. Assim, duas modalidades de prostituição passaram a se desenvolver nessas duas áreas. O baixo meretrício no Curral, e a prostituição de alto nível nas chamadas “pensões galantes”.
A maior vigilância das casas após a meia-noite parece ter sido de fato exercida, considerando-se o fato de outros espaços da cidade terem começado a ser procurados para as farras boêmias. Nos anos 40, a praia do Mucuripe tornou-se local de diversão para boêmios e algumas das prostitutas do Centro, que frequentavam os bares da rua da Frente (atual avenida Beira-Mar) com seus clientes. O relato de uma antiga moradora do bairro do Mucuripe ao historiador Blanchard Girão fornece um quadro desta mudança de costumes:
“aquelas mulheres das pensões do Centro vinham com seus amigos para completar a noitada. Os pescadores, o povo todo da vila, ficavam esperando para ver aquilo. Elas muito bem vestidas, bonitas, diferentes das mulherzinhas pobres do Mucuripe” (GIRÃO, 1998, p. 115).
No início da década de 1950, o Arraial Moura Brasil já era considerado, juntamente com o Pirambu, bairro vizinho, como a área de maior densidade demográfica da capital, com dezoito mil e cem habitantes27. As condições de moradia no bairro eram precárias, “as casas
construídas sem o critério de qualquer plano, trepadas em dunas, soterradas na areias fofa das depressões, cobertas de telha, palha, zinco”28.
26 Cf. O Nordeste, 22 de junho de 1935, p.3. 27 Cf. Jornal O Povo, 9 de fevereiro de 1953, p.3. 28 Cf. Jornal O Povo, 9 de fevereiro de 1953, p.3.
Todos os anos, o avanço do mar sobre a Praia Formosa, que delimitava o bairro, causava o desabamento de casebres ali existentes29. “Na praia de Iracema, houve dinheiro
para construir um quebra-mar. No Arraial, o povo é pobre e sem prestígio”, reclamava um morador que constatava a violência das ondas, 195130.
O Curral foi uma forma encontrada pelas autoridades para equacionar, temporariamente, a localização do meretrício em Fortaleza. Desta forma, recebeu o tratamento que a sociedade brasileira destina aos espaços marcados pela contradição social, destinados a serem soluções transitórias:
geralmente são regiões periféricas ou escondidas por tapumes. Jamais são concebidas como espaços permanentes ou estruturalmente complementares às áreas mais nobres da mesma cidade, mas são sempre vistos como locais de transição: "zonas", "brejos", "mangues" e "alagados". Locais liminares, onde a presença conjunta da terra e da água marca um espaço físico confuso e necessariamente ambíguo". (DAMATTA, 1997, p. 45, grifo meu). Como região transitória, a zona de prostituição localizada no bairro Arraial Moura Brasil, dividida nas áreas conhecidas como Curral das Éguas, Cinzas e Oitão Preto, resistiu por pouco mais de três décadas, até que os casebres da região foram desapropriados, visando à construção da avenida Presidente Castelo Branco, que foi inaugurada em 1973. A maior parte das mulheres que ali se localizavam foram então transferidas para os arredores do Farol do Mucuripe, onde já se estabelecia, desde o final da década de 1950, uma área de meretrício marcada pela proximidade do Cais do Porto. As mulheres do Curral não foram recebidas por suas companheiras da zona do Farol sem maiores reservas. Pelo contrário, a chegada das mulheres paupérrimas fez com que as meretrizes do Farol acionassem, contra as recém-chegadas, um amplo leque de estigmatizações, fato que será objeto de discussões mais detalhadas ainda neste capítulo.