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Após as gravações dos grupos focais, dei início, então, à tarefa de transcrição dos dados obtidos. Conforme nos mostra Gago (2002), não devemos confundir a atividade de transcrição com a atividade de preparação de material para posterior análise. O autor explica que a transcrição é em si mesma uma atividade de análise e representação, visto que, ao transcrevermos, utilizamos uma gama de procedimentos interpretativos e seletivos que fazem desta atividade uma atividade analítica plena.

Gago (2002) explica que, sendo uma representação, é uma nova entidade, diferente do encontro que realmente ocorreu e por isso está sujeita a problemas de representação geral. Como esclarece o autor,

Considera-se que uma transcrição não é um produto final, acabado, perfeito e que permanecerá alterado ao longo do tempo. Uma vez que depende da audição humana, por natureza imperfeita, cada nova audição poderá corresponder a nova representação dos fenômenos. O efeito do tempo também poderá contribuir para adicionarmos mais camadas de entendimento dos fenômenos, tornando mais “espessa” nossa descrição deles. (GAGO, 2002, p. 91)

44 Embora a transcrição não represente com fidelidade todos os dados da interação, ela é um passo muito importante, uma vez que ela oferece o principal meio para que a interação possa ser analisada. Dessa forma, torna-se necessário sempre voltar à fonte gravada para que mais detalhes sejam observados e, assim, o exame dos dados seja mais bem traçado (SACKS, 1996, apud LADEIRA, 2005).

As interações necessitam ser gravadas em áudio e, logo depois, transcritas para que as interrupções, hesitações, pausas, bem como as sobreposições, palavras ditas de forma incompleta, entonação ascendente ou descendente, dentre outras, sejam marcadas, pois, do contrário, seria difícil se ater aos detalhes no momento de análise dos dados. Por isso, a fim de representar a conversa com o máximo de detalhes possível, foi utilizado na transcrição um sistema gráfico convencionalmente escolhido para marcar pausas, hesitações, interrupções, ênfases, etc., criados por Gail Jefferson, com algumas modificações, e disponível em Sacks, Schegloff e Jefferson (1974). Apresentamos abaixo a tabela de convenções de transcrição utilizada nesta pesquisa.

.. Indicam pausa observada ou quebra no ritmo da fala, com menos de meio segundo.

... Indicam pausa de meio a um segundo, medida com cronômetro.

.... Indicam pausa de um segundo medida com cronômetro.

(1.5) Número entre parênteses demonstra a duração da pausa acima de um segundo durante a fala, medida com cronômetro.

. Sinaliza descida de entonação.

? Marca subida de entonação.

, Sinaliza entonação contínua, indicando que haverá prosseguimento da fala.

- Hífen sem espaço marca parada súbita na fala, revelando o abandono do vocábulo ou da estrutura.

: São utilizados como recurso para alongar a vogal precedente (:::alongamento maior).

! Designa fala animada.

>palavra< Palavras transcritas entre os símbolos “maior que” e “menor que” indicam fala acelerada.

<palavra> Palavras transcritas entre os símbolos “menor que” e “maior que” indicam desaceleração da fala.

Sublinhado indica acento ou ênfase no volume.

Sublinhado

MAIÚSCULA Palavras maiúsculas indicam acento muito forte no volume. = Sinal de igual indica que não há pausa entre a fala de dois falantes

distintos ou no enunciado de um mesmo falante (fala engatada).

/palavra/ A palavra transcrita entre barra revela fala em voz baixa.

45 Conforme Gago (2002, p.95), sistema gráfico é “o conjunto de símbolos utilizados para se representar na escrita o discurso produzido originalmente na modalidade oral”. Segundo esse autor, há dois sistemas que podem ser utilizados na transcrição, de forma complementar ou de forma excludente: a escrita padrão e a escrita modificada. No primeiro, a fala é grafada em registro padrão culto; enquanto no segundo, os detalhes de pronúncia do falante são fielmente incorporados à transcrição. Gago discute alguns problemas advindos da adoção da grafia modificada:

1. Profissionais não linguistas tendem a rebaixar a classe social ou o nível de escolaridade das pessoas cujas falas foram transcritas em grafia modificada, construindo uma imagem negativa dessas pessoas;

2. Os próprios participantes interpretam os fenômenos de linguagem oral como erro, falta de atenção, problemas de performance, avaliando de forma negativa sua competência comunicativa;

3. A dificuldade de leitura das transcrições sobrecarregadas de grafia modificada (principalmente quando o texto transcrito está em Língua Inglesa).

Inicialmente, pensei em utilizar a grafia modificada visto ser a diversidade linguística o tema central do meu estudo. Contudo, dados os problemas elencados acima, decidi seguir a recomendação de Marcuschi (1986), apud Gago (2002), para quem o ideal é utilizar um sistema misto de grafia padrão e grafia modificada, com peso recaindo na ortografia padrão. O autor sugere que devemos utilizar “alguns consensos” para grafar palavras pronunciadas de forma diferente do padrão, como “né, pra, prum, come, tava, etc., ou eliminação de morfemas finais: qué, sô, vô, etc.” (MARCUSCHI, 1986, apud GAGO, 2002, p. 98)

(palavra) Palavras transcritas entre parênteses designa transcrição duvidosa.

((palavra)) Parênteses duplos indicam comentários do pesquisador, relativos às notas de campo.

[ Colchete do lado esquerdo indica ponto de início de sobreposição de fala.

] Colchete do lado direito indica final da sobreposição.

46 Para Gago (2002), a escolha do método de transcrição deve estar relacionada com os parâmetros teóricos, objetivos e interesses específicos da área de pesquisa. Na Análise da Conversa Etnometodológica, o modelo parte do pressuposto de que as atividades da vida cotidiana são organizadas através da fala-em-interação, sendo esta o ponto central da vida social. Nas mais diferenciadas esferas da sociedade, as atividades humanas são organizadas e realizadas mediante o uso da linguagem em interação, como as atividades de prestação de serviços, as greves e manifestações, os noticiários radiotelevisivos, etc. Assim, “linguagem e ação estão, pois, em relação de interdependência – os seres humanos agem no mundo pela linguagem e usam a linguagem para agir no mundo” (GAGO, 2002, p. 92).

Após a transcrição dos dados, foi feita uma seleção dos excertos de fala, guiada pelos objetivos da pesquisa, seguida pela análise dos mesmos. O procedimento empregado nessa investigação foi a descrição e análise de sequências de falas extensas com o objetivo de averiguar, de forma mais minuciosa possível, o trabalho interacional dos atores sociais realizado por meio da fala-em-interação. As transcrições foram formatadas utilizando-se espaço simples, fonte “courier new”, número 10, e as linhas numeradas sequencialmente.