4.5. İlaç sektöründe verimlilik ve teşvikler
4.5.4. İlaç üretimini destekleyen politikalar ve Yeni Teşvik Sistemi
Dedicamos este capítulo a uma palavra final acerca da pesquisa. „Final‟ apenas no sentido de arrematar nossa discussão, porque sabemos as lacunas, pistas e apontamentos deixados, tão dignos de abordagem, quanto ao que propomos aqui. Não somos hipócritas de acreditar que esta seria a entoação última dos discursos da sexualidade, do corpo, das performatividades, do desejo, pois constituem verdades múltiplas, as quais, até então, têm sido espaço de réplicas e tréplicas nos diferentes âmbitos da inteligência humana.
Retomando nossa última epígrafe, se não há como fugir à palavra, não há como fugir à
vontade de verdade em busca da qual operam os discursos (FOUCAULT, 1979, 1996, 2002).
Apoiamo-nos, então, em Norman Fairclough (2001a, 2001b, 2003), na compreensão dos discursos enquanto práticas sociais, cujo processo de significação, tanto ao nível do léxico, quanto ao de quaisquer composições textuais, revelam-se motivado política e ideologicamente.
Para Fairclough (2001b, 2003), o discurso é operacionalizado em relações de força, implicando a defesa por uma abordagem filosófica e investigativa caracteristicamente dialética. Nas palavras do autor, o discurso não é determinado estruturalmente, conforme a descrição althusseriana, nem constituiria um ato livre; porém, constrangido socialmente, imerso na articulação de práticas discursivas, sociais, princípios e valores inerentes a específica ordem do discurso. Dessa forma, levando-se em consideração sua propriedade constitutiva, o discurso configura o espaço para constituição e representação de identidades, tanto no que se refere à sua perpetuação, quanto à contestação cultural, política e histórica, acerca das posições de sujeito e categorias do ser e do tornar-se.
125 Coadunamo-nos à visão performativa de Judith Butler (2010a, 2010b), acerca do processo de identificação, cuja base epistemológica e filosófica também dialética fundamenta uma abordagem crítica, tanto a respeito da reprodução de um campo de regularidades discursivas correspondentes à suposta impressão de uma configuração identitária estável, assim como admite a possibilidade de transformação e mudança, coerente a ideia de agência social, defendida por Fairclough (2001b, 2003).
Em percurso genealógico, Butler (2010a, 2010b) problematiza toda a economia hegemônica hétero normativa, cujo exercício de bio poderes incide na produção e docilização de corpos sexuados. Aceitamos a crítica sobre o caráter de naturalidade e originalidade, na definição de homens e mulheres verdadeiros, compreendendo as categorias de gênero e sexualidade como táticas bio políticas e disciplinares, na manutenção e cuidado dos corpos humanos, tornando evidente seu caráter performativo, na reiteração de regras historicamente compartilhadas acerca do tornar-se homem e tornar-se mulher.
Nesse sentido, Bento (2008) e Ventura (2010) discorrem sobre a transexualidade como experiência identitária conflituosa nos limites da matriz heterossexual. A transexualidade contesta a estabilidade inerente às categorias de gênero social e sexo, e que corpos sexuadamente marcados como masculinos e femininos não significam homens e mulheres, respectivamente. No entanto, a constituição discursiva dos transexuais como uma outridade
abjeta, corroborada por discursos médicos, psicanalíticos e jurídicos, marcam a
marginalização política e social das pessoas que transgridem os ditames hegemônicos de gênero social e sexo.
Destarte, podemos voltar para as perguntas desta pesquisa, e as conclusões da análise, conforme discutido nos Capítulos 5 e 6.
126 7.1. A Colônia Zorra Total e o humor como crítica social
A descrição dos gêneros discursivos articulados na configuração do programa Zorra
Total permitiu-nos problematizar o campo de inteligibilidade sobre a cadeia interdiscursiva,
no próprio termo bakhtiniano, na qual as Narrativas Cômicas das personagens Valéria Vasques e Janete fazem parte, levando-se em consideração sua estrutura, propósitos e a rede de relações globais, na qual a Rede Globo está inserida.
Estruturalmente, o programa pode ser analisado de acordo com a descrição de Hoey (1986) sobre a metáfora da Colônia. Constatamos a organização de diferentes esquetes em uma relação de correspondência, cujo sentido emerge na proposta de um enquadre contextual atrelado á construção discursiva de um espaço onde „tudo‟ é permitido, cujas práticas retomam um contexto de algazarra e bagunça.
Por meio de diferentes elementos presentes na vinheta de abertura, percebemos que esse espaço, que corresponde ao Metrô Zorra Brazil, pode significar a representação do Estado e da nação brasileiros. Isso nos permitiu interpretar o programa Zorra Total a partir de sua tentativa de representar um espaço que possibilitaria, inclusive, a emergência de seres
abjetos, estes configurados satiricamente como as outridades relativas a um ideal hegemônico.
Eis que situamos, então, as personagens Valéria Vasques e Janete, caracterizadas grotescamente, como a representação de estereótipos relativos a duas configurações de outridades constitutivas de uma feminilidade hegemônica, por meio de diferentes elementos semióticos, inerentes aos sistemas linguísticos, imagéticos, cromáticos e de vestuário.
A representação de Valéria remete-nos a uma transexual materializada por meio de atributos exuberantes, mas que também marcam de forma imprecisa às caracterizações de gênero social, segundo concepção heterossexual hegemônica. A representação de Janete, em contrapartida, remete-nos a uma mulher cujo corpo estaria escondido e velado.
Segundo as reflexões de Bérgson (2001) e Pavis (2008), ambas as personagens assemelham-se a descrição do Bufão. Perguntamo-nos, então se isso não implicaria um propósito implícito crítico das Comédias, logo, do programa, uma vez que esse tipo de representação constituiria uma maneira de problematizar a concepção performativa e corpórea, sobre padrões perpetuados pela matriz heterossexual, conjugada a outras hegemonias, como de classe.
127 Dessa maneira, acreditamos que o Programa Zorra Total, como prática de
governança, corrobora com a recontextualização de relações identitárias, de maneira a
conferir visibilidade às outridades marginalizadas, por meio de um discurso jocoso, satírico e grotesco, transmitido a nível global.
Em um primeiro momento, a descrição de Valéria e Janete pode ser lida como a reprodução de estereótipos. Entretanto, em uma interpretação diferenciada, tais estereótipos podem revelar a interface para representações diferenciadas de mulheres, as quais também podem se atribuir características relativas à feminilidade e à beleza, fazendo emergir, simultaneamente, significações para tais conceitos de maneira a abranger àquelas pessoas que transgridem o padrão hegemônico determinado culturalmente.
Ainda no que diz respeito aos gêneros do discurso, gostaríamos de ressaltar que este se apresenta como um campo temático profícuo para pesquisas, inclusive para os Estudos Discursivos. A importância de analisar os gêneros do discurso como momento de prática discursiva está na possibilidade de compreender o(s) modo(s) como o discurso funciona em termos de pratica social, no curso de eventos sociais, em uma determinada rede de relações, historicamente situada. Em outras palavras, trata-se de um percurso genealógico para estimular o posicionamento crítico sobre o enquadre cultural que confere inteligibilidade aos textos.
Nesta dissertação, considerar os gêneros foi de extrema relevância para tornar plausível o entendimento do discurso político implícito nas práticas de humor e comicidade, nas quais os esquetes de Valéria e Janete são produzidos, distribuídos e consumidos, nos termos de Fairclough (2001b, 2003). Especificamente, somente a partir da descrição dos gêneros do discurso é que se tornou possível compreender tais personagens segundo as características típicas do Bufão, como representação do sujeito crítico, questionador e transgressivo socialmente.
Torna-se válido, para pesquisas futuras, analisar a constituição identitária de outros personagens do programa, a fim de verificar como são representados, e se são (re) produzidos estereótipos de sujeitos inerentes a outras paisagens culturais.
128 7.2. As diferentes performatividades de Valéria
A análise sobre a constituição identitária da personagem Valéria Vasques baseou-se em categorias de Estilo, como avaliações e modalidades. Dessa forma, delineamos três eixos os quais revelam momentos e perspectivas de interação diferenciados.
Primeiro, sobre a relação de Valéria consigo mesma, observamos a construção discursiva de seu passado, representado por Valdemar. Percebemos sua inserção em uma relação entre identidade e diferença que se baseia na oposição entre o presente e o passado, que também pode ser traduzida na oposição entre a vida e a morte. Para que Valéria pudesse nascer, isso decorreu da morte, ausência e negação de Valdemar, expressas em práticas discursivas e socais que retomam a cirurgia de transgenitalização.
Revela-se então a construção de um tipo de transexualidade que se configura em um processo de adequação corporal, fisiológica e plástica aos ditames da matriz heterossexual. Entretanto, ironicamente, tal prática constitui-se subversiva nos âmbitos da própria matriz, pois está atrelada à rearticulação das regras, evidenciando o caráter performativo dos gêneros e do sexo, passíveis de contestação e mudança.
A esse respeito, associamos a um dos possíveis significados do atributo „bandida‟, como representação de uma outridade transexual e feminina, quem transgride as regras e normas hegemônicas de constituição performativa e corpórea sobre as categorias de gênero e sexualidade.
Segundo, sobre o eixo relativo à interação entre Valéria e Janete, percebemos uma relação assimétrica de forças entre essas personagens, traduzida na oposição entre a beleza e a
fealdade. Neste caso, para que Valéria se torne bonita, na sua própria percepção de beleza,
Janete teria que se tornar feia. Faz isso por meio de um discurso articulado objetiva e categoricamente, o que lhe imprime o caráter de verdade incontestável. Apesar de ambas estarem inseridas em uma relação de conflito competitivo, principalmente por parte de Valéria, destacamos que as personagens reclamam para si, visibilidade política às outridades
de feminilidade que representam, em busca de diversidade performativa.
Terceiro e último eixo analisado, revelam-se conflitos entre Valéria e outros personagens, os quais expressaram dúvida e estranhamento quanto a sua constituição identitária, negando reconhecimento a Valéria em sua identificação como mulher. No entanto, ela se posiciona de forma ativa, reafirmando-se em sua percepção de gênero e sexo.
129 Portanto, percebemos que Valéria também representa o exercício de forças contra- hegemônicas, nas diferentes relações em que está inserida. A análise permitiu compreendermos uma personagem que luta constantemente para afirmar-se mulher, conforme sua própria concepção performativa do termo. Caracteristicamente bufônica, emerge como a expressão de práticas subversivas, constituindo-se mulher no seio de uma cultura heterossexista.
Ela se identifica como dada configuração feminina, reproduzindo a relação binária de gêneros sociais, paradoxalmente, sendo „bandida‟, na condição de desrespeito à lei, e às normas reproduzidas pelos discursos médicos e psicanalíticos. Valéria nos possibilita, assim, uma releitura das práticas que funcionam como controladoras na produção e docilização de corpos humanos, em favor de uma política de diversidade.
Visto a complexidade com pesquisas sobre identidades, e os diferentes campos de abordagem, acreditamos que nosso corpus também possa ser analisado a partir de um projeto transdisciplinar entre a Análise de Discurso Crítica e a Psicanálise Freudiana e Lacaniana, de maneira a analisar as formações discursivas sobre a sexualidade, tendo em vista a construção valorativa do falo como práticas discursivas inerentes ao corpo humano. Isso possibilitaria problematizar consistentemente as questões sobre o transito de sujeitos nas posições entre ser e ter o falo, como representação das posições de mulher e homem, conforme a cultura heteronormativa.
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