Jane Pinheiro: Existe uma vasta literatura acadêmica que trata da representação do
jovem e do adolescente no cinema;34 e, uma produção substancial de artigos e pesquisas
que tratam da importância do cinema, e do audiovisual em geral, para a formação do adolescente em contextos educacionais e pedagógicos.35 Entretanto, não há na academia
um interesse pelos filmes produzidos de forma independente por adolescentes; a não ser, como apontado anteriormente, com relação àqueles audiovisuais voltados claramente para uma hipervalorização do eu.36
Os pesquisadores de cinema, Jo Moseng e Håvard Vibeto, em artigo publicado em 2012, analisam 300 filmes produzidos por crianças e adolescentes exibidos no Amandus Film Festival que acontece na Noruega desde 1987. Em sua pesquisa, que abarca um período de 25 anos, analisam a evolução da qualidade cinematográfica e estética das produções
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selecionadas e investigam os temas abordados. Os filmes analisados caracterizam-se por “apresentarem uma dupla fidelidade aos filmes comerciais, tanto em termos de sua forma semiprofissional de cinema, quanto em termos dos temas e atitudes morais expressas” 37. O resultado parece ter intrigado os autores que se perguntam se essas
produções podem ser realmente pensadas como a voz de uma geração. Para eles, a correção política e polidez dos filmes selecionados para o Amandus Film Festival estão diretamente ligadas ao contexto institucional em que foram produzidos, distribuídos e exibidos. A maioria dos filmes foi produzida em contextos formais ou informais de educação, onde a presença de um professor pode ter limitado o quê e como os temas foram abordados; além disso, o contexto do próprio festival de cinema cria um quadro em que os realizadores são susceptíveis de tentar satisfazer os gostos de um júri adulto.38
Ainda que de forma indireta, Moseng e Vibeto reforçam a necessidade de pesquisas que investiguem os filmes produzidos por crianças e adolescentes fora do âmbito das organizações educacionais.39
Esse é um dos méritos dessa I Mostra Imaginária de Audiovisuais. Voltada para filmes de diversas metragens produzidos por adolescentes de forma independente, chama atenção para o silêncio da academia em relação a um universo tão rico.
Há muito a produção audiovisual dos adolescentes atravessou o espelho narcísico, ultrapassou os muros da escola, interfere na nossa cultura, na sociedade, provoca debates, mobiliza pessoas.40
De que falam esses filmes? Como falam? O que nos revelam dos adolescentes, de nós mesmos, do nosso mundo? Como são pensados, elaborados e produzidos? Podemos pensar numa poética própria desse grupo? Ao longo dos próximos dias, teremos a oportunidade de estreitarmos o contato com esse universo e dialogarmos com as questões que ele suscita. Espero revê-los nas próximas sessões da Mostra.
C ONFERÊNCIA DE ABERTURA NOTAS E REFERÊNCIAS 1 (HOISEL, 1998). 2 (BAUMAN, 2014, p. 8).
3 (ZASLOW & BUTLER, 2002, p. 39).
4 (Cf. SOTOMAIOR, 2007, p. 19; MOSENG & VIBETO, 2012).
5 Desde 2008, o YouTube possui seu próprio editor de vídeo. Em 2011, a plataforma
melhorou sua integração com o WeVideo, outro serviço de edição de vídeo em nuvem, com recursos avançados e planos de assinatura gratuitos e pagos.
6 (DOSHI; SIEGEL, 2010; ADICIONE..., 2008).
O YouTube disponibiliza uma biblioteca de áudios para ser incorporada aos vídeos que serão publicados na plataforma. Centenas de músicas e efeitos sonoros são disponibilizados gratuitamente. Outras músicas são liberadas em troca de propagandas em vídeo adicionadas a cada exibição do produto no YouTube. Também é possível trocar alguma faixa de áudio (AudioSwap) com problemas de direitos autorais usando as ferramentas disponíveis no site.
7 (Cf. IKEDA&LIMA, 2011).
8 Em janeiro de 2012 eclodiu uma grande campanha na internet contra três propostas
de legislação de alcance global: SOPA – Stop Online Piracy Act , proposta de lei contra a pirataria on-line apresentada em outubro de 2011 nos Estados Unidos; PIPA – Protect IP Act, Lei proposta, em maio de 2011, nos Estados unidos pelo senador Patrick Leahy, com o intuito de combater sites relacionados à pirataria, especialmente aqueles hospedados fora desse país; ACTA – Anti-counterfeiting Trade Agreement, tentativa de tratado comercial internacional para proteger direitos autorais, patentes. Essa legislação interessava principalmente às grandes empresas de entretenimento que tiveram seus lucros diminuídos com a livre circulação de conteúdo na web. A campanha de proporções mundiais com ações virtuais, hackerativismo e passeatas nas ruas, conseguiu desacelerar as investidas americanas de legislar contra a livre circulação de conteúdo na internet. Apesar disso, nesse mesmo período, inúmeros sites que disponibilizavam cópias de livros, músicas, filmes e sites de compartilhamento de arquivos como o MegaUpload, foram tirados do ar, este último por uma ação do FBI.
9 (SILVA et al., 2007). 10 (MORIN, 1997, p. 32-33).
11 Refiro-me ao vídeo Charlie bit my finger que em fevereiro de 2015 registrava mais de
oitocentos e dez milhões de acessos e gerou uma renda de, pelo menos, quinhentos mil dólares aos pais das crianças (Cf. FREEMAN, 2012).
12 (MORIN, 1997, p. 33). 13 (MORIN, 1997, p. 32).
14 Infelizmente, nem sempre a exposição da vida pessoal na internet é consensual.
Existem casos trágicos de publicações de fotos íntimas por parceiros inconformados com o fim de uma relação amorosa. As vítimas da chamada “pornografia de vingança” são principalmente mulheres adultas e adolescentes. No Brasil, há registros de vários casos em que o único caminho encontrado por aquelas que tiveram suas fotos ou vídeos expostos foi o suicídio (INTIMIDADE, 2013).
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16 (GROSSMAN, Lev. Time’s person of the year: You. Time, vol. 168, n. 26, 25 dez. 2006
apud SIBÍLIA, 2008, p.215).
17 (SOTOMAIOR, 2007, p.20).
18 (SOTOMAIOR, 2007; SIBÍLIA, 2008).
19 “[...] Estas novidades [as redes de sociabilidade] transformaram a tela de qualquer
computador em uma janela sempre aberta e ‘ligada’ a dezenas de pessoas ao mesmo tempo. Enquanto o portal de relacionamentos Orkut se tornou um fenômeno majoritariamente brasileiro, com cerca de 24 milhões de usuários desta nacionalidade (mais da metade do total), jovens do mundo inteiro frequentam e ‘criam’ espaços semelhantes. Calcula-se que 60% dos adolescentes dos Estados Unidos, por exemplo, já utilizam habitualmente essas redes” (SIBÍLIA, 2008, p. 12). Do outro lado do Atlântico, no velho continente, a primeira pesquisa do Foro Generaciones Interactivas
en Espana apontou que “Quatro em cada dez jovens têm website próprio ou é gerador
de conteúdos digitais e 70% utiliza as redes sociais” (GONZALEZ, 2009). Uma das características dessas redes de sociabilidade é a fragilidade de sua existência. Em 2011, aqueles que utilizavam as redes sociais puderam perceber a vertiginosa migração dos usuários brasileiros do Orkut para o Facebook. Depois de ouvirmos por muito tempo: “O Orkut morreu!”, recebemos, em julho de 2014, a declaração oficial de que famosa rede de relacionamentos seria desativada em setembro do mesmo ano. Ao mesmo tempo, o Facebook anunciou o crescimento no número de acessos. Cerca de 240 milhões de pessoas acessaram o site em 2014, dos quais 47 milhões são do Brasil (MICALI, 2014).
20 (SIBÍLIA, 2008, p. 13). 21 (YOUTUBE..., 2012).
Segundo as estatísticas do YouTube, em fevereiro de 2015 a plataforma tinha mais de um bilhão de usuários e trezentas horas de vídeo eram enviadas a cada minuto. “Todos os dias as pessoas assistem centenas de milhões de horas de vídeo no YouTube e geram bilhões de visualizações.” Metade dessas visualizações são realizadas em dispositivos móveis (Cf. ESTATÍSTICA, 2015).
O número de acessos a vídeos também cresceu no Facebook: em janeiro de 2015 foi anunciada a marca de três bilhões de acessos diários. Interessado em ampliar essa fatia do mercado, o Facebook comprou a QuickFire Networks, “startup de vídeo que foi projetado para oferecer arquivos de vídeo de alta qualidade, usando uma largura de banda menor” (LUNDEN, 2015). Ao integrar a QuickFire ao Facebook, a empresa está de olho nos usuários de dispositivos móveis, responsáveis por uma larga fração dos acessos diários à rede social.
22 Em 2010: Taka{Voir} - Festival de films avec téléphones móbiles. 23 (SOTOMAIOR, 2007, p. 12).
24 Os vídeos produzidos nesse projeto não podem ter diálogos verbais ou narração. São
elaborados apenas com imagens, sons e música.
25 (ZASLOW; BUTLER, 2002).
26 (Diamond Doll (nome fictício). ZASLOW; BUTLER, 2002, p. 34-5. Depoimento ao
Videocultures New York Project).
27 Zygmunt Bauman (2013a), em seu livro Identidade, alerta-nos para a fluidez e
ambivalência dessas identidades no mundo líquido-moderno e mesmo do que ele chama de “comunidades guarda-roupa” (Cf. BAUMAN, 2013a, p.37).
C ONFERÊNCIA DE ABERTURA 29 (CYRULNICK, 2006, p. 45). 30 (CYRULNICK, 2006, p. 51). 31 (MATURANA, 1998).
32 A vigésima-sétima edição do RLV está programada para maio de 2015. 33 (PROFISSÃO..., 2009).
34 (COLMAN, 2005; McCORD, 2007; MEYERS; BAXSTROM, 2006; MIRANDA, 2010)
35 (BACHMANN; MICHAUD, 2004; BERGALA, 2006; BEZERRA, 2005; FRESQUET,
2007a, 2007b, 2010, 2013; FRESQUET; XAVIER, 2008; OLIVEIRA, 2013; LIMA, s.d.).
36 (SIBÍLIA, 2008; SOTOMAIOR, 2007). 37 (MOSENG & VIBETO, 2012, p. 236). 38 (MOSENG & VIBETO, 2012, p. 248). 39 (Cf. MOSENG & VIBETO, 2012, p. 248).
40 Na França, por exemplo, a produção e divulgação de vídeos com celulares ou câmeras
domésticas atingiu tamanha proporção que obrigou as escolas a debaterem em seu interior a questão do direito de uso da imagem (TAKHEDMIT, 2010). O blog do YouTube, no artigo intitulado Proteja-se a si mesmo, as pessoas que aparecem em seu
vídeo e seus direitos humanos no YouTube, aborda questões gravíssimas decorrentes da
divulgação de imagens e que dizem respeito, inclusive, à integridade física daqueles que estão sendo expostos na web (GROVE; PADANIA, 2010).
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