C. Tazminat
V. ĐDARĐ PARA CEZALARI
Breve no futuro, [Georges] Lucas prediz, em uma garagem não muito longe, dois caras vão utilizar a tecnologia de vídeo
digital para fazer um filme inesquecível.15
KELLY & PARISI
A esperança é nômade.16
Geneton Moraes Neto
Pedro Oliveira: Dois garotos e uma garota podem fazer mais do uma ménage à trois,
juntos, numa garagem. Podem gravar um disco, produzir um livro, montar um aplicativo capaz de mudar o modo como as pessoas se relacionam, produzir um filme, organizar um protesto. E, claro, também podem fazer sexo! No caso em questão, optaram por fazer filmes, no plural.
Essa história começou em 2007, quando Txai Ferraz e Vinícius Gouveia resolveram convidar Larissa Cavalcanti para participar do filme que estavam realizando, Bárbara, a
bárbara.
Ou melhor, essa história começou bem antes. Antes, talvez, deles terem se conhecido no Colégio de Aplicação da UFPE, onde estudaram. Começou com a revolução das tecnologias e da comunicação digitais...
Lembro-me perfeitamente da primeira vez que usei uma câmera fotográfica digital. Foi no ano 2000. Era de um aluno. Não sou capaz de lembrar a resolução máxima das fotos, mas era sensacional poder fotografar sem precisar usar filme. Claro que sentia falta dos ajustes possíveis numa câmera analógica profissional. Depois, usei outra câmera dessas para fazer um pequeno vídeo de um minuto. Nesse caso, o tempo do vídeo não foi determinado por nenhum festival on-line, ou necessidade estética, mas pela limitação de espaço na memória da câmera que tínhamos à nossa disposição. Isso foi em 2003. Quando comprei uma Cyber-shot pra mim, a resolução já era bem diferente daquela primeira câmera, e a capacidade de armazenagem de informação estava resolvida pelo cartão de memória que ampliava sua capacidade a passos largos. Bom, aquelas primeiras fotos, eu as perdi. Colocamos no computador da universidade e, antes que tivéssemos encontrado um meio técnico de enviá-las para um lugar seguro, foram deletadas por um desconhecido. Se os pen drives (2000) já fossem populares isso não teria acontecido, teríamos transferido as fotos da máquina diretamente para ele. Tão pouco tínhamos Dropbox (2007), iCloud (2011), ou Google Drive (2012). O anúncio de um e-mail grátis
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com a capacidade do Gmail era quase um esoterismo: Para poucos!! Era preciso receber um convite. Também era preciso ser convidado por alguém para entrar no Orkut: Uma rede para pessoas especiais, com contatos especiais. Acho que quase ninguém lembra mais disso... Também, depois de termos visto o Orkut se transformar numa plataforma de spam e ser desativado pelo Google!!
Ouve um tempo em que internet rápida, era internet com 256k! E um HD com 1 Gb, coisa para profissionais ou para os nerds de plantão! Hoje meu iPhone tem 128 Gb de memória e está quase lotado! Posso usá-lo para fazer fotos e vídeos em alta definição e compartilhar com os amigos no Instagram, WhatsApp, YouTube, Twitter, Facebook, Snapchat. Aliás, acho que alguém já falou nessa Mostra que o Facebook teve sua morte anunciada em várias revistas. Ele nega! Mas na minha caixa de correio, chega diariamente um apelo para que eu volte a acessá-lo. Sinto muito! Prefiro o Instagram e o WhatsApp: é mais pessoal, íntimo, e menos publicidade explícita de si mesmo vinte e quatro horas por dia... E, sim, eu sei que o Facebook comprou o Instagram e o WhatsApp, e só não migrei de vez para o Telegram porque meus amigos resistem.
Para ser bem franco, embora adore tecnologia, sonho em me livrar dessa correspondência virtual compulsiva, não gosto nenhum pouco da ideia que estão vigiando todas as minhas conversas e publicações. Já tinha ficado muito desconfiado e seletivo nas minhas postagens depois das denúncias de Edward Snowden, em 2013. Agora, depois do 7 de janeiro em Paris, e das declarações da Agências de Segurança de que precisam vigiar inclusive as conversas privadas, e da fala de Mark Zuckerberg comprometendo-se nessa vigilância, tenho vontade de voltar a trocar cartas! Para aqueles que acham que estou exagerando, sugiro a leitura de Vigilância liquída de Bauman17! Nesse livro, podemos ter
uma ideia da abrangência e complexidade da vigilância a que estamos sujeitos. E não é só no mundo virtual, não! Toda essa quantidade de câmeras espalhadas pelas cidades e ainda os drones – Esses objetos voadores, manipulados à distância, que têm feito das ações americanas no Paquistão, Iêmen, Somália, um pesadelo para civis, incluindo crianças e adolescentes. Há pouco, numa noite de insônia, avistei um drone espionando a janela do meu vizinho do vigésimo andar. Será que alguns minutos antes vigiava minha janela?
Desculpem a digressão, estava falando de Vinícius, Txai e Larissa, e de como começou o Coletivo Tapacurá...
Larissa participou de um filme dirigido por Txai e Vinícius, Bárbara, a bárbara, que vocês terão a oportunidade de assistir na Sessão Longa dessa Mostra. A gravação do filme durou mais de dois anos, eles se tornaram grandes amigos e Larissa fez vestibular para o recém-criado curso de Cinema da UFPE.
Em 2009, Larissa quis participar de um concurso de vídeos on-line promovido pela Olimpikus. Chamou Txai e Vinícius para ajudar. Os três ficavam na casa de Larissa conversando e pensando no roteiro do filme. Foi numa dessas conversas que decidiram criar o Coletivo Tapacurá.
Larissa Cavalcanti: A gente estava discutindo justamente o roteiro de Fôlego. Como é
que ia ser, quem é que ia fazer, como é que a gente podia fazer da forma mais simples já que era o primeiro filme e a gente não queria coisas mirabolantes. Eu estava lendo uma revista do bairro, do Poço da Panela, e tinha uma reportagem sobre [Fernando] Spencer, o cineasta daqui. Ele é do Poço [da Panela], se não me engano, e tava lá uma entrevista sobre ele. Aí, Vinícius falou: Imagina no futuro, daqui a alguns anos, falarem: Aquela geração de Tapacurá!!! Porque o nome da minha rua é Tapacurá... A gente riu, riu... Depois eu fiquei pensando, pô velho, é um nome legal! E como a gente tava começando cinema, a gente começou a ver que aqui em Pernambuco havia várias produtoras, coletivos. Antes a gente não via isso, a gente via Warner Bros, Colúmbia, isso pra gente era coisa muito grande, mas aí depois a gente viu que existia coletivo. Coisa pequena, sem tanto dinheiro,
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fazendo filme mais simples, que era coletivo. A gente: Pô, vamos fazer um assim? Já que nós três meio que pensa parecido e cada um meio que tem um foco de trabalho.18 Vinícius Gouveia: Eu entrei em cinema querendo fazer. Pelo fetiche, pela técnica, pela
produção daquela hora, daquele momento... E também da mensagem, mesmo. Eu acho que eu tenho uma voz como artista e eu quero dividir com as pessoas.19 Eu vim muito
mais pela parte de fazer, e hoje em dia eu tô muito inclinado para a parte de refletir.20
Mas, eu acho que a gente queria fazer cinema e tal. E, na época, em Recife, tinha uma coisa que se chamava coletivo. Todo mundo fazia coletivo, todo mundo dava certo, todo mundo produzia. Aí, vamos criar um coletivo? Vamos. Ao mesmo tempo, Larissa queria participar de um concurso e chamou eu e Txai pra fazer. Vamos!
E era isso, ter vontade de fazer coisas, e ter pessoas pra fazer. Porque em cinema uma andorinha só não faz verão, sabe? Deu certo no curta que eu fiz, o do Exchange [Human
Colours], mas pra fazer melhor, maior, mais organizado, querer mesmo se profissionalizar,
tem que ser com mais gente. Então eu acho que a vontade da gente era essa, na época, de... vamos fazer! Experimentar também, qual era a nossa vibe, que a gente queria se testar. Então aquilo de vamos fazer um coletivo, foi de, vamos... pra mim, foi de vamos fazer, vamos testar, quero ver se eu quero mesmo isso, se eu gosto mesmo disso, e ao mesmo tempo já vamos nos profissionalizando.21
Txai Ferraz: É, eu também vejo que a ideia de criar o Tapacurá... Surgiu observando o
pessoal que tava fazendo cinema por aqui. Eu li, acho que numa entrevista da... Acho que da formação da Símio Filmes, acho que Marcelo Pedroso dizia que começou fazendo filmes com uma câmera Cyber-shot, pelos corredores do CAC [Centro de Artes e Comunicação da UFPE]. Aí, nessa hora, a gente atinou: Pô, talvez o que a gente tá fazendo aqui não seja tão idiota assim, não é tão besta... Isso aqui pode levar a alguma coisa. E aí a gente teve milhões de reuniões pra decidir que coletivo, logo, nome. É engraçado que hoje, num sei se eu já posso falar disso, mas a gente já vê que a gente se preocupou de colocar um milhão de regras, e menos em fazer mais filmes, sabe? A gente, sei lá... Se o filme tiver cinquenta por cento de pessoas que não são do coletivo, como fica essa questão de assinar ou não com a logo do coletivo?...Tudo de boca! Mas, a gente pensava em tudo, menos em... filmes! [risos]22
Pedro Oliveira: Que bom que aceitaram minha proposta de interferir. Alguns aspectos
chamaram minha atenção na fala de vocês. Um, relativo à memória. De como lembramos dos fatos e como construímos a narrativa das nossas vidas. Por mais que os três narrem o surgimento do Tapacurá de forma muito parecida, ganhamos ao escutar todos, porque ampliamos a nossa visão sobre esse momento, pois cada um nos brinda com uma novidade, um pequeno aspecto, que faz diferença! O outro, diz respeito à alusão que os três fizeram à cena da produção cinematográfica e à formação de coletivos como uma referência. Esse é um dos tópicos dos meus apontamentos e que eu acho interessante que vocês tenham consciência de que se inserem num movimento maior, numa tendência do cinema pernambucano, ao menos. O que eu quero chamar atenção é que, naquele momento, essa era uma tendência do cinema brasileiro.
De um cinema que se viu quebrado, fraturado com o fim da Embrafilme no Governo Collor, que recobrou suas forças com a criação das leis de incentivos fiscais, momento conhecido como o Cinema da Retomada.
O que essa grande crise trouxe de informação fundamental? Ela colocou um holofote sobre a dependência que o cinema brasileiro tem dos fomentos estatais. E que continua tendo até hoje. O cinema brasileiro não se sustenta. Suas produções não se pagam, ou retornam ao Estado o investimento quando há lucro. Mesmo filmes como Xuxa e qualquer coisa, se beneficiam das leis de fomento a cultura. Se, por um lado, é bom que o Estado apoie as produções possibilitando que se façam coisas que sem
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esse apoio não sairiam do papel. Por outro, a consciência de que se depende do Estado para produzir arte é um tanto quanto assustadora. Bom, pelo menos para mim isso é assustador. Com a democratização das tecnologias, Txai falou disso antes da sessão, não sei se vocês lembram – Mas com o lançamento no mercado das DSLR que filmam em Full HD, surgiu a possibilidade de se fazer cinema de qualidade a custos mais baixos. Essa produção de cinema digital, arrombou as portas dos festivais para a entrada de uma maior diversidade de formatos de imagens e suportes (mídias). Se antes só era possível enviar um filme para festivais em películas 35mm – alguns festivais alternativos aceitavam em 16mm e super 8. Hoje, é possível ir ao Festival de Veneza com um filme produzido numa Cyber-shot, enviado em arquivo digital simples – caso do filme de Luiz Pretti, O mundo é belo. A arquivos digitais simples estou chamando os formatos mp4, mov, dentre outros, e excluindo o DCP 2k, formato de prensagem ainda inacessível para produções modestas.
O barateamento da produção junto com o bom momento do cinema brasileiro foi como um fermento na massa na proliferação de coletivos no Brasil. Juntar os amigos, dividir as funções, dividir os gastos... Em alguns casos os amigos se cotizam para produzir o filme de um dos integrantes. Creio que o próprio Coletivo Tapacurá fez isso em De novo aqui...
Larissa Cavalcanti: Sim, no De novo aqui a gente pagou pra trabalhar! A gente chamou uma
galera, formou uma equipe e disse, a gente não tem dinheiro e a gente precisa de dinheiro, porque a gente vai ter ator, tem gente que tá dando uma força pra gente, e a gente quer fazer esse filme e vocês acredito que querem, também. Querem produzir. Aí cada um deu um valor simbólico, e aí fez um miniorçamento, bem mini mesmo, bem [risos].23
Txai Ferraz: Eu coloquei um monte de dinheiro, assim, no filme, não sei, eu acho que
eu coloquei uns quatrocentos reais, um salário meu – na época eu estava estagiando. E tinha uma cota de trinta reais de cada membro da equipe do filme pra conseguir fazer.24
Pedi dinheiro a todo mundo!25 Como eu disse antes da exibição: A grande vontade era
que [De novo aqui] fosse um filme teste de todo mundo. E a gente colocou dinheiro, equipamentos emprestados...26
Pedro Oliveira: Imagino que ninguém quer pagar pra trabalhar o resto da vida! Os
coletivos apontam, sinalizam uma vontade de independência, de fazer filmes que não precisem ser aprovados por nenhuma instância burocrática de poder. Ao mesmo tempo, carregam, como disse Vinícius, uma vontade de profissionalização, de criar um currículo em cinema e um desejo de conseguir financiamento. Uma alternativa aos financiamentos estatais ou de empresas privadas, já que a origem do financiamento pode interferir nos planos de liberdade criativa, é o financiamento coletivo por meio de ferramentas on-line, o
crowdfunding, operacionalizados por sites como o Kickante, Catarse, Benfeitoria. Mesmo
nessa versão contemporânea da velha “vaquinha” um bom currículo é importante, pois é preciso convencer o público que seu projeto vale a pena.
E como o Coletivo Tapacurá tem construído seu currículo?
O primeiro filme do Coletivo foi produzido sem nenhum orçamento, com câmera e tripé emprestados, sem captação de som direto. As funções exercidas pelos integrantes não eram muito claras durante as filmagens, não foram pré-estabelecidas. Há divergências na ficha técnica do filme apresentado on-line – no concurso Olimpikus.mov –, e no novo corte apresentado no Cine-PE 2010. A motivação inicial para fazer o filme foi participar do concurso, cujo mote era movimentar-se com qualidade e estava vinculado a um tênis.
Txai Ferraz: Sim, mas a gente tava querendo algo que a gente pudesse usar pra outras
coisas depois, pra não ficar: a gente fez um comercial ruim de uma marca de sapato! [risos] Vamos fazer algo que, no mínimo, dê algum prazer fazendo! Aí a gente começou, enfim a gente pensou em Amanda, que é uma menina bonita, que a gente sabia que toparia atuar [risos], que já tinha uma câmera. E a gente começou a pensar que situações
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a gente poderia botar Amanda pra gravar que funcionasse bem pra câmera...27
Vinícius Gouveia: Vou polemizar, agora!! Quando a gente começou a escrever o roteiro,
os meninos [Larissa e Txai] partiam muito mais pro visual. Tem uma cena que tem um Tsuru na cabeça de Amanda, [a atriz]. E eu, mas por quê? Ia atrás do conceito. O que a gente quer passar com isso, sabe? Vamos justificar essa ideia, vamos voltar pro conceito: a gente quer falar de... pra ir procurar a imagem. Foi isso, a gente procurando as imagens, um lapidando a imagem do outro, foi isso.28
Txai ferraz: E o filme é experimental, no sentido de experimentação. Vamos colocar
Amanda digitando no computador e um projetor atrás com a imagem dela nadando. Vamos gravar na Agamenon [Avenida Agamenon Magalhães]. Vamos fazer pica-pica – que é uma técnica que Vinícius tinha aprendido quando tava no Geração Futura, uma oficina que ele fez extra. Tem um efeito na câmera que faz uma lente olho de peixe, vamos fazer uma cena com isso. Foi muito assim, sabe, uma vontade de experimentar com essas coisas.29
Pedro Oliveira: Fica muito clara essa vontade de experimentar e é evidente que o
Coletivo Tapacurá não fez uma propaganda de tênis! A participação numas das mostras competitivas do Cine-PE é um reconhecimento público do trabalho. Fôlego foi o primeiro filme de uma aluna do Curso de Cinema da UFPE a ser exibido no Cine-PE.
Na época em que eu fazia super 8, o governo promoveu alguns concursos. Era um outro contexto histórico. Estávamos em plena ditadura militar. Para a gente toda aproximação com órgãos oficiais implicava numa aproximação com a ditadura.30 Lembro
de um concurso, sobre o carnaval do Recife, ganhava quinze mil cruzeiros, ninguém se inscreveu! Minto, um cineasta de São Paulo enviou um filme.31 Desculpem, acho que
estou divagando demais! Ao falar do Tapacurá, é inevitável que acesse o meu passado. Participar de concursos, era uma das motivações iniciais do Coletivo Tapacurá: Viajar, um grande prêmio. Felizmente, os tempos são outros, e eles podem produzir filmes e concorrer a viagens sem problemas de consciência...
Txai Ferraz: Sim, viajar era um grande prêmio! Na época era! Na época era a coisa
que mais importava no mundo [risos], era contabilizar viagens, era um sucesso, assim. Hoje em dia eu já penso diferente. Mas na época tinha essa vontade da viagem pela viagem, do sair, do conhecer. Hoje em dia eu já tô... eu quero viajar mas se for com uma oportunidade. Viagem por viagem... E até porque... a gente fez um curtinha, sei lá, eu gosto de Recife 85, eu acho que tem coisas boas nele, e a gente ganhou uma viagem, é massa, mas, isso não é muito mensurável numa carreira em cinema [risos]: Eu ganhei um concurso de um show e fui para um resort em Floripa com esse curta! Prêmio que recebeu: Gincana Redecard – que é uma máquina de cartão de crédito. Dá até um pouquinho de vergonhinha assim, sabe? Ganhei uma gincana!32
Pedro Oliveira: Eu compreendo, Txai. Mas, como você mesmo disse, isso não tira o valor
de Recife 85.
Txai Ferraz: Sim, eles pediam um vídeo que mostrasse os pontos turísticos da cidade,
mas, mais uma vez a gente ficou preocupado. Vamos fazer algo que dê pra usar em alguma coisa depois, pra não fazer um vídeo: “Nossa, amamos Recife!” Vamos fazer algo... vamos trabalhar em cima. Aí surgiu a ideia de pegar esses lugares que parecem que não mudaram no tempo e brincar! Foi feito naquela época, só que não foi!33
Bruna Monteiro: Porque o filme é sobre lembranças. A gente fez um exercício de
lembrança e de ficção, e brinca muito de não ser mentira, nem verdade.34
Txai Ferraz: brinca com essa coisa de forjar uma realidade, dizer que é documentário...35 Fernanda Lima: E a gente fez isso recuperando a memória dos nossos pais e dos nossos
avós, recuperando coisas da nossa relação com a cidade, vendo o que era interessante, e o que não era, de botar no filme.36
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E Recife 85 foi engraçado, porque eu não sou do Coletivo, eu não faço cinema, na época eu fazia um curso totalmente alheio que era engenharia, e eu não sabia como fazer um roteiro, eu não sei até hoje. Só que a minha relação era com a escrita e aí, muitas vezes, eu escrevia o roteiro como se estivesse escrevendo, como se estivesse escrevendo um conto. E os meninos, principalmente Txai, tentavam me explicar. E era muito difícil porque tinha tanta coisa que eu não aceitava...37
Pedro Oliveira: Fernanda tocou em um tema importante, ela falou que não era do
Coletivo. Várias pessoas que não são do Coletivo Tapacurá trabalharam em Recife 85. Em
De novo aqui, esse número é ainda maior. Então, o que define que um filme leve o selo do
Coletivo Tapacurá ou de qualquer coletivo em questão? Foi para adensar um pouco mais a discussão sobre esse problema que inserimos na sessão de hoje o filme Três voltas.
Três voltas não leva o selo do Tapacurá. Foi produzido em Rénnes, quando Txai e Vinícius
estavam participando do Ciência sem fronteiras...
Txai Ferraz: A gente fez uma disciplina lá, que era tipo conclusão de curso pros franceses.
Não era conclusão de curso, mas a gente se deu conta: pô, essa galera tá aqui, no último ano de faculdade, eles querem fazer um filme, já são amigos, já têm uns grupinhos; eu ficar aqui, gringo, nesse grupo, tentando fazer ele me entender, a gente vai perder um