O contexto barcelonense de implantação do modelo de planejamento estratégico, em meados da década de 1980, era, de certa forma, semelhante ao contexto do Rio de Janeiro. Após o fim da ditadura franquista, em 1976, a Espanha vivia uma crise econômica, reflexo do cenário econômico internacional em crise desde o choque do petróleo. Porém, outros dois fatores agravavam a crise em Barcelona:
Primeiramente, a reestruturação produtiva em escala planetária e a consequente mudança nos padrões locacionais das empresas que, de acordo com diversos autores, induziram administradores municipais à promoção econômica de sua cidades (...). Em segundo lugar, a simultânea reorganização do Estado, e os impactos financeiros e político-institucionais que, em função das mudanças na administração pública, recaíram sobre as unidades locais (...). (LIMA JÚNIOR, 2010, p.108)
Além disso, Barcelona se identificava como uma das principais áreas industriais da Espanha, setor que mais sofreu com a crise do fordismo. Dessa forma, houve um agravamento em seus problemas habitacionais e de infraestrutura, em função, sobretudo, da intensa expansão da urbanização a partir da década de 1960.
Agravada pela crise econômica, Barcelona sofria, também e especialmente, com uma crise de identidade. Durante o período franquista, após a derrota dos Republicanos na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), a Catalunha perdeu a sua autonomia conquistada no ano de 1931 e sofreu uma importante e pesada repressão cultural e linguística, com a proibição do uso do catalão, por parte do Estado Nacionalista Espanhol22. Porém, após a morte de Franco e o fim da
ditadura em 1975, a Catalunha recuperou sua autonomia, portanto, Barcelona, como capital, vivia um momento de luta pela retomada de direitos e reforço de sua identidade frente ao restante da nação e à Comunidade Europeia. É nesse momento que surge a definição de que Barcelona seria a cidade sede dos Jogos Olímpicos de 1992, o que se tornaria uma alternativa para um conjunto de questões acerca da inserção política e econômica, tanto da Espanha, como de Barcelona (e da Catalunha) no eixo dos países visíveis da Comunidade Europeia. Na verdade, sediar os Jogos Olímpicos significaria atravessar escalas, ou seja, articular Barcelona ao restante da Europa, sem a mediação de Madrid.
Desde o início da retomada de autonomia política, o governo de Barcelona se concentrou nas intervenções urbanísticas como principal instrumento político, apoiadas na justificativa da
limitada capacidade do governo municipal de intervir nas dinâmicas da economia. Num primeiro momento, as políticas urbanas estavam voltadas para produzir um efeito distributivo e para tanto caracterizavam-se por intervenções pontuais espalhadas pela cidade. A ideia era que tais intervenções provocassem um efeito de alastramento, incentivando a população a investir em sua vizinhança. Vale destacar que a decisão do Comitê Olímpico Internacional – COI sobre a escolha de Barcelona para sede dos Jogos se deu somente em 1986, após a formulação do projeto das intervenções pontuais pelos bairros da cidade. Porém, após a definição do evento, houve uma transferência de prioridades e de recursos (públicos e privados) para projetos de grande porte, na escala da cidade.
No entanto, havia dificuldades em conciliar as políticas de intervenção urbana com a participação popular, um dos pilares do governo. Além disso, devido à urgência imposta pelo calendário das atividades olímpicas, houve diversos acordos com agentes privados visando a arrecadação de fundos para serem aplicados nas obras, implicando numa ampla divisão do poder de investimento e decisão.
Após hipotecar o poder de decisão que lhe fora atribuído, tornou-se aos poucos evidente a orientação à direita do governo socialista, enquanto a prática de planejamento urbano na cidade se definia como um processo elaborado por especialistas e orientado para as elites. (LIMA JÚNIOR, 2010, p.116-117)
Nesse momento, passou a predominar o discurso de que era fundamental a construção de um consenso, o que implicou um ajustamento coletivo de forma a gerar uma sintonia entre os agentes, públicos e privados, no sentido de que todos agissem de modo sincronizado. Esse consenso se configurava como uma espécie de técnica de governo uma vez que possibilitaria maior agilidade na tomada de decisões e fluidez na implementação das mesmas (LIMA JÚNIOR, 2010). Houve, para tanto, a criação do conceito de “patriotismo de cidade” que visava à difusão do pensamento estratégico entre todos os setores da sociedade.
A construção do consenso realizou-se em Barcelona pela afirmação da crise e pela referência recorrente aos Jogos Olímpicos, que funcionaram como elemento mobilizador. De acordo com Subirós, o elevado grau de entusiasmo e consenso foi um dos principais aspectos do processo de renovação urbanística quando dos preparativos para as Olimpíadas. (LIMA JÚNIOR, 2010, p.118)
Outro fator relacionando ao suposto sucesso da construção do consenso foi a existência da figura de um líder carismático, com grande capacidade de comando e identificação com a cidade: Pasqual Maragall. Maragall foi prefeito de Barcelona pelo longo período de quinze anos, entre 1982 a 1997, “considerado por uma grande maioria como uma época de ouro na história
de Barcelona23” (RAVENTÓS, 2000, p.9) Retomando os autores de Local y global, Jordi Borja
afirma que:
(...) sem a liderança do prefeito Pasqual Maragall, que desde 1982 está à frente da cidade, dificilmente se teria conseguido conciliar essas forças e gerar as ilusões coletivas que tornaram possível a mudança. (Borja apud LIMA JÚNIOR, 2010, p.120)
E no texto de Local y global, Borja e Castells garantem que:
Mas, uma resposta positiva, dificilmente pode ser fornecida onde não há liderança personalizada. A figura do prefeito tem sido, muitas vezes, decisiva, (...) especialmente de Lisboa (Sampaio) e Barcelona (Maragall). (BORJA & CASTELLS, 1996, p.108)24
O elemento chave relacionado à consolidação do consenso e, além dele, à mobilização dos agentes em Barcelona, foi a criação de um “sentimento”, o qual vinha acompanhado de “confiança”, “entusiasmo” e “envolvimento”, condições que remetiam a uma mesma atitude mental, a qual antecedia a própria reflexão, e que poderia ser identificada na maioria dos grupos sociais da cidade. Uma importante ferramenta que possibilitou essa “transformação psicológica” (RAVENTÓS, 2000, p.9) foi o comprometimento da mídia em reproduzir tais discursos exaustivamente e de maneira sempre entusiasmada. Dessa maneira, a participação era substituída pela “retórica da participação” (LIMA JÚNIOR, 2010, p.121), a qual se produzia por um discurso de retroalimentação, ou seja, a recorrente afirmação da existência de um consenso social produzia um efeito sobre a realidade ao transformar a representação que alguns fazem do mundo social e possibilitar práticas sociais em conformidade com a representação transformada (LIMA JÚNIOR, 2010, p.121).
Conclui-se, portanto, que, no caso de Barcelona, o conceito de consenso transforma a própria concepção de participação em pacto, ou seja, num compromisso particular, no caso dos agentes envolvidos, com o plano e suas ações, mesmo nos casos em que articular agentes econômicos e garantir a harmonia social se configurem como esforços antagônicos.
Por fim, antes de retomarmos o caso específico da cidade do Rio de Janeiro, devemos analisar a forma como o modelo de Barcelona se tornou um modelo mimético, ou seja, como aquela prática específica se transformou em normativa e, ainda, avaliar criticamente como se deu esse processo de transformação da cidade. A afirmação de Barcelona como modelo se deveu ao
23 Tradução da autora: “considerado por una gran mayoría como una época dorada de la historia de Barcelona”. 24 Tradução da autora: “But a positive response can hardly be provided where there is no personalized leadership.
entendimento de que se tratava de um caso exemplar em que o método demonstrou sua eficácia. Essa avaliação não é feita somente por agentes políticos, mas também por técnicos e acadêmicos do planejamento urbano de várias partes do mundo. Inclusive, algumas escolas de planejamento urbano em Barcelona se tornaram referência mundial na área. Porém, transformar uma experiência de caráter político-social num exemplo mundial pressupõe um trabalho de apuração no sentido de isentá-lo de conteúdos empíricos específicos. Por exemplo, no caso de Barcelona, admitia-se que a experiência foi exemplar, portanto, deve-se compreender o que a constituiu como tal.
De um modo geral, a concepção de um modelo da prática implica a identificação de relações e elementos, num processo de sua sujeição a controles lógicos que garantam ao resultado coerência interna e correspondência com a realidade. Uma prática é, assim, liberada do particular. Sua formulação em termos de modelo a torna comunicável. (LIMA JÚNIOR, 2010, p. 136)
Dessa forma, a transformação do caso de Barcelona em modelo pressupõe que os fatores particulares envolvidos no processo são irrelevantes no caso da aplicação desse suposto modelo em outras cidades com outros contextos políticos, econômicos e, principalmente, sociais. O “modelo Barcelona”, como passou a ser conhecido, tem servido de inspiração primeira para os grandes acontecimentos esportivos que terão lugar no Rio de Janeiro, orientando as propostas de planejadores urbanos e arquitetos para sua transformação em “cidade olímpica”.
Manuel Delgado, professor titular de Antropologia da Universidade de Barcelona, elaborou um balanço crítico da experiência de preparação da capital catalã para os Jogos Olímpicos de 1992, o trabalho denominado La Ciudad Mentirosa, publicado em 2007. Delgado analisa a estratégia, apoiada no “modelo Barcelona”, de promoção do capital financeiro e imobiliário através da transformação das cidades em produto de consumo.
É nesse sentido que se repete que Barcelona é um modelo. Agora, um modelo do que? Oficialmente, ‘modelo de transformação urbana, melhoria da atratividade e da posição estratégica da cidade’. Na verdade, modelo de projeto visionário e alucinado de cidade, brinquedo nas mãos de planejadores que têm acreditado que seus desejos e a vontade ordenadora das instituições a que serviam foram suficientes para superar e banir conflitos, desigualdades, desconfortos... Modelo de uma vocação fanática de transparência, cujo destino tem sido constituir uma cidade legível e, portanto, obedecível e obediente. Modelo de simplificação identitária, à procura de uma personalidade coletiva padronizada e falsa, que sirva ao mesmo tempo para criar coesão cívica em torno de valores políticos hegemônicos e a esquematização própria de um produto comercial como qualquer outro. Modelo de intervencionismo tecnocrático e de um despotismo centralizador, que tem feito muito pouco para promover a democracia participativa, que tem aproveitado do
enfraquecimento do movimento local e tem sido hostil e agressivo contra os movimentos sociais cada vez mais ativos. (DELGADO, 2007, p.12-13)25
Ao longo de sua análise, o autor vai revelando aspectos obscuros implicados no processo que a transformou em cidade olímpica, tornando Barcelona uma expressão do padrão atual de gestão urbana de orientação neoliberal. Delgado aponta uma relação de continuidade entre as ações políticas do período democrático com ideias concebidas ainda no período franquista. Nota, inclusive, que um dos principais ideólogos do “modelo Barcelona”, Jordi Borja, se incorpora ao gabinete de ordenação urbana municipal em 1968, ano em que ainda estava vigente a ditadura franquista. Delgado pondera dizendo que a presença desses profissionais no corpo técnico de um governo autoritário de extrema direita não necessariamente vincula suas ideias àquele sistema de governo, porém indica que não houve uma ruptura total com o modelo de planejamento vigente anteriormente, o qual havia sido bastante questionado.
Denunciando seu caráter intervencionista e tecnocrático, Delgado afirma que o modelo foi concebido exclusivamente por autoridades políticas, planejadores urbanos e arquitetos que acreditavam que seus desígnios e sua vontade ordenadora seriam suficientes para fazer desaparecer conflitos e desigualdades, intrínsecos a qualquer espaço urbano. Destaca-se sua discussão acerca dos usos e manipulações da noção de diversidade cultural como uma espécie de slogan publicitário, o enaltecimento de uma mistura social no sentido de promover uma determinada imagem da cidade. Mistura essa muitas vezes combatida pelo mesmo governo que muitas vezes ignorou direitos da população pobre e imigrante. Esse fator nos relembra os esforços ideológicos, no caso do Rio de Janeiro, para transformar a favela, elemento de diversidade social tipicamente carioca, em símbolo cultural da cidade.
25 Tradução da autora: “Es en este sentido que se repite que Barcelona es un modelo. Ahora bien, un modelo, ¿de
qué? Oficialmente, ‘modelo de transformación urbana, mejora de la atractividad y de la posición estratégica de la ciudad’. En realidad, modelo de proyecto alucinado y visionario de ciudad, juguete en manos de planificadores que han creído que sus designios y la voluntad ordenadora de las instituciones que servían eran suficientes para superar y hacer desaparecer los conflictos, las desigualdades, los malestares... Modelo de una vocación fanática de transparencia, el destino de la cual ha sido constituir una ciudad legible y, por lo tanto, obedecible y obediente. Modelo de simplificación identitaria, en busca de una personalidad colectiva estandarizada y falsa, que sirva al mismo tiempo para crear cohesión ciudadana en torno a los valores políticos hegemónicos y la esquematización propia de un producto comercial como cualquier otro. Modelo de intervencionismo tecnocrático y de un despotismo centralizador, que ha hecho bien poco para promocionar la democracia participativa, que se ha aprovechado del debilitamiento del movimiento vecinal y que se ha mostrado hostil y agresivo contra unos movimientos sociales cada vez más activos”.
Além disso, destaca o uso de termos como “renovação”, “reabilitação” e “requalificação” urbana como eufemismos que, na verdade, mascaravam processos de gentrificação e transformação de bairros populares, muitas vezes identificados como bairros problemáticos e indesejáveis, em espaços enobrecidos e, consequentemente, inacessíveis à sua população de origem. Ele apresenta dados que demonstram que houve, num período de dez anos, entre 1997 e 2007, um aumento de cerca de 150% no valor dos imóveis e dos aluguéis nas áreas que sofreram intervenção. O projeto “Porto Maravilha”, divulgado como projeto urbano de “requalificação” do centro do Rio, é um exemplo típico de intervenção com grande potencial gentrificador, no sentido de beneficiar os setores financeiro e imobiliário e expulsar a população originária.
Por fim, Delgado aponta que o afastamento das populações mais pobres de áreas nobres da cidade de Barcelona, para dar lugar a projetos de “renovação”, estaria diretamente relacionado ao incremento do uso da força e da violência. A atuação do Estado e a violência contra as populações que habitam assentamentos urbanos precarizados ou áreas periféricas e sua criminalização são sempre justificadas em função dos interesses do jogo. Esse exemplo se assemelha à política das Unidades de Polícia Pacificadora – as UPPs - no município do Rio de Janeiro, a qual visa ao controle da violência e do tráfico de drogas em favelas próximas às áreas nobres da cidade, porém, muitas vezes com o uso de abordagens, paradoxalmente, violentas, desrespeitando direitos fundamentais dos cidadãos que vivem nesses locais.
Por todas essas questões, torna-se fundamental refletir sobre o processo de transformação em curso na cidade do Rio de Janeiro, o qual toma deliberadamente como modelo o caso de Barcelona.