Entender a dinâmica da globalização no espaço urbano é o primeiro passo para delinear e compreender seus efeitos sobre o contexto urbano do Rio de Janeiro e, principalmente, sobre a complexidade urbana e social das favelas cariocas. A importância das cidades nesse novo contexto mundial é justificada pelo crescente aumento da população e das áreas urbanizadas em nível global, o que se deu através de um processo de concentração, devido à migração da população rural, e de expansão, devido ao crescimento da população já urbanizada; e pela sua enorme capacidade de acumulação e reprodução capitalista, o que fez com que a economia mundial passasse a ser organizada de acordo com as dinâmicas entre os espaços urbanos locais, regionais e mundiais (LOPES, 1998).
Saskia Sassen, socióloga e professora na Universidade de Chicago, foi uma das primeiras estudiosas a sistematizar o que seriam as novas funções das cidades de acordo com a nova ordem econômica mundial. Em seu trabalho As cidades na economia mundial, de 1998, ela demonstra que algumas cidades desenvolveram a capacidade de desempenhar um papel estratégico na nova economia mundial, sendo chamadas de cidades globais, as quais concentram em seu território as infraestruturas de telecomunicações necessárias à implementação e ao gerenciamento das operações econômicas globais, além de abrigarem as próprias matrizes das empresas globais (SASSEN, 1998). Os exemplos de cidades globais utilizados por Sassen em sua análise são, historicamente, centros do comércio mundial e da atividade bancária, pontos de comando na organização da economia mundial e, consequentemente, lugares e mercados fundamentais para a indústria de destaque do atual período e lugares de produção fundamentais para essas indústrias, incluindo a produção de inovações tecnológicas e mão de obra qualificada. Por outro lado, na economia global, o mercado de trabalho que ganha relevância é aquele relacionado à mão de obra qualificada, de sólida formação, deixando à margem um conjunto de atividades e tipos de trabalhadores que são tão vitais quanto as finanças internacionais e as telecomunicações globais. A globalização econômica potencializa, porém, uma nova geografia de centralidades, possibilitando a inclusão de economias periféricas (adiantadas) na dinâmica da concorrência global.
O crescimento do investimento direto, desde 1991, fortaleceu ainda mais o papel dos grandes centros comerciais latino-americanos, sobretudo a Cidade do México, São Paulo e Buenos Aires. (...) O investimento estrangeiro direto, via privatizações e outros canais, tem sido associado com a desregulamentação dos mercados financeiros e das instituições econômicas fundamentais. Assim, o considerável papel desempenhado pelo mercado de ações e outros mercados financeiros, nesses
complexos processos de investimento, aumentou a importância econômica das grandes cidades onde tais instituições estão concentradas. Devido ao peso do valor dos investimentos em empresas privatizadas e de outros investimentos muitas vezes relacionados, que ocorreram no México, Argentina e Brasil, o impacto de vastos fluxos de capital é particularmente sentido nos setores empresariais e financeiros (...). Vemos nessas cidades o surgimento de condições que reúnem padrões evidentes nas grandes cidades ocidentais: mercados financeiros altamente dinâmicos e setores de serviços especializados; supervalorização do produto, das empresas e dos trabalhadores desses setores e desvalorização do resto do sistema econômico. (SASSEN, 1998, p. 56)
Manuel Castells, em seu trabalho Sociedade em rede, publicado ao final da década de 1990, cria o termo espaço de fluxos referindo-se ao espaço estruturante da cidade informacional ou espaço urbano globalizado, ou seja, a organização material das práticas sociais de tempo compartilhado que funcionam por meio de fluxo. Segundo o autor, esse espaço de fluxos pode ser descrito pela combinação de três camadas: a) primeira camada constituída por um circuito de impulsos eletrônicos; b) segunda camada constituída por seus nós, os quais são centros das funções estratégicas mais importantes, e pelos centros de comunicação; e c) terceira camada constituída pela organização espacial das elites gerenciais dominantes (e não pelas classes) que exercem as funções direcionais segundo as quais esse espaço é articulado.
Na cidade informacional, cada vez mais as pessoas trabalham e administram os serviços desde a sua própria casa, é a “centralidade da casa”, uma tendência importante da nova sociedade que irá refletir na configuração espacial. Esse caráter não significa, necessariamente, o fim da cidade, pois locais de trabalho, escolas, hospitais, postos de atendimento ao consumidor, áreas recreativas, ruas comerciais, shopping centers, centros esportivos, dentre outros, continuarão a existir. Porém, o avanço tecnológico e das redes informacionais permitirão com que as pessoas se desloquem entre esses lugares durante todo o tempo, uma vez que uma determinada categoria de trabalho não está mais vinculada a um espaço específico, o que irá exigir uma infraestrutura de mobilidade cada vez mais avançada e crescente, sendo considerada mobilidade em escala local e em escala global. Em decorrência dessas mudanças, o autor apresenta a tendência de criação de um estilo de vida derivado dessa nova lógica social, e de formas espaciais que unifiquem o ambiente simbólico dessas elites em qualquer ponto do mundo. É nesse contexto que surgem os espaços (segregados) ao longo das linhas conectoras do espaço de fluxos: hotéis internacionais, aeroportos, acesso móvel pessoal e on-line às redes de telecomunicações e um sistema de procedimento de viagens, serviços secretariais e hospitalidade recíproca que mantém um círculo fechado baseado em ritos similares independente do país, um estilo de vida que transcende as fronteiras culturais de todas as sociedades (CASTELLS, 2008). Em suma, essa mesma infraestrutura, com os mesmos padrões,
pode ser encontrada em cidades como Nova Iorque ou Rio de Janeiro, sendo expressivas no que tange à competitividade global por investimentos.
Vale ressaltar que o pensamento de Sassen e Castells são relevantes, acima de tudo, por representarem a base conceitual e teórica das metodologias de gestão e intervenção urbana que começaram a ser elaboradas a partir da década de 1980 e que pretendemos analisar ao longo deste trabalho. Além disso, através do conceito de espaço global de ambos os autores, é possível perceber como essa lógica está restrita à presença de um circuito econômico capitalista formal e desenvolvido, estando excluídos os contextos dos países periféricos e dos espaços urbanos subcapitalizados (DE SOTO, 2001)
As transformações no espaço urbano globalizado baseiam-se em um discurso de que são necessárias novas formas de gestão, como é defendido pelos sociólogos urbanos Jordi Borja e Manuel Castells (1996), uma vez que elas estão apoiadas na lógica de que “o global condiciona o local” (BORJA & CASTELLS, 1996, p.9) e numa dinâmica mais instantânea à qual o planejamento urbano normativo tradicional seria incapaz de responder através de suas ferramentas rígidas. Para os defensores de um novo modelo de planejamento, as cidades globais precisariam de um sistema de gestão flexível o suficiente para serem capazes de propor ações rápidas e eficazes a uma dinâmica urbana incapaz de ser “dirigida4” a longo prazo.