1.2 Tarihsel Süreç İçerisinde Şöhret Kültürü
1.2.2 Kapitalizm ve Şöhret Kültürü
1.2.2.4 Post Fordist Dönemde Şöhret Kültürü
Blecker (2009) estabelece que a pedra fundamental dos modelos liderados pelas exportações pode ser encontrada já em “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith. De fato, quando propôs que “a divisão do trabalho é limitada pela extensão do mercado” (SMITH, 1776 p. 27), o autor vislumbrava um processo dinâmico de retornos crescentes no qual tanto maior o tamanho do mercado consumidor, maior também o grau de especialização e assim a produtividade e o crescimento do produto. Já estava implícito aí o que foi tratado mais profundamente nos capítulos seguintes da sua obra prima: a existência de feedbacks dinâmicos entre as exportações e a produtividade do trabalho. Esse mecanismo foi então resgatado em Myrdal (1957), através do seu “principio da causação circular cumulativa”. Mais tarde, Kaldor (1966, 1978) utilizou esta mesma abordagem teórica para justificar as diferenças entre as taxas de crescimento entre os países e fundamentar sua crítica aos modelos de equilíbrio geral, invalidados pelos retornos crescentes. As ideias de Kaldor, basicamente um conjunto de fatos estilizados, podem ser sumarizadas como “leis de Kaldor”. Dentre estas, algumas são particularmente relevantes para a análise a seguir:
(I) Quanto maior a taxa de crescimento do setor manufatureiro, maior será a taxa de crescimento do produto interno bruto (PIB);
(II) Quanto maior a taxa de crescimento do produto manufatureiro, maior a taxa de crescimento da produtividade do trabalho de indústrias com economias de escala estáticas, dinâmicas ou de rendimentos crescentes em sentido amplo (Lei de Verdoorn)26.
(III) A taxa de crescimento do produto manufatureiro não é restringida pela oferta de trabalho, mas é fundamentalmente determinada pela demanda agrícola nos estágios iniciais de desenvolvimento e pelas exportações em estágios mais avançados.
(IV) Uma maior taxa de crescimento das exportações e do produto tenderá a desencadear um processo cumulativo, ou um ciclo virtuoso de crescimento através do vínculo entre crescimento do produto com o crescimento da produtividade.
Diversas especificações alternativas são possíveis dentro da ELCC. Neste sentido, seguindo Blecker (2009), será apresentada uma versão mais genérica do modelo, em linha com os trabalhos de Dixon e Thirlwall (1975), Cornwall (1977), Setterfield e Cornwall (2002) e Setterfield (2002). Nesta, a lógica que fundamenta o modelo é a causação circular e cumulativa entre o crescimento das exportações, que determina o crescimento do produto e então o crescimento da produtividade e da competitividade externa que, por sua vez, implica em novo crescimento das exportações, reiniciando o ciclo. Inversamente, círculos viciosos também podem ser derivados do mesmo esquema, que é ilustrado a seguir em sua forma genérica.
26 A lei de Verdoorn é uma homenagem ao economista holandês, Johannes Petrus Verdoorn e se refere à relação entre o crescimento da produção e o crescimento da produtividade. De acordo com a lei, em decorrência dos retornos crescentes, tanto mais rápido crescimento da produção, maior o incremento da produtividade. Para maiores detalhes, consultar Verdoorn (1993).
FIGURA 2 - O Modelo Básico de Crescimento Liderado pelas Exportações
Fonte: Adaptado a partir de Blecker (2009)
Em termos de suporte empírico, é importante ressaltar que o modelo ELCC é derivado a partir da generalização de regularidades empíricas encontradas por diversos autores. Em particular, cada uma das setas no desenho acima representa uma equação estrutural no modelo.
A partir de uma adaptação de Blecker (2009) para o modelo de Setterfield e Cornwall (2002), formalizamos as relações acima descritas. Tal modelo, para fins de comparação com o modelo da BPCG a ser apresentado na próxima seção, não diferencia o setor manufatureiro dos demais – rompendo com a primeira lei de Kaldor. No entanto, conserva as principais características de tal categoria de modelos.
A demanda por exportações ( ) pode ser especificada da forma convencional através de uma função de elasticidade constante (CES) da taxa de câmbio real ( ) e da renda externa ( ): (1) Crescimento da produtividade do trabalho Crescimento da competitividade externa ou apreciação do câmbio nominal
Crescimento das exportações Crescimento do produto
Baseado no markup sobre o custo da unidade de trabalho, tomando os incrementos no salário nominal como dado
Retornos crescentes de escala induzidos pela inovação tecnológica, P&D (Lei de Verdoorn)
Efeitos multiplicadores keynesianos, incremento nas taxas de utilização, estímulo ao investimento
Função de demanda por exportações com uma relativamente alta elasticidade preço
As letras minúsculas representam as taxas de variação das variáveis (diferenças em logaritmos naturais); e representam as taxas de mudanças dos níveis de preços interno e externo, respectivamente; > 0 a elasticidade-preço da demanda por exportações; e > 0 a elasticidade-renda da demanda por exportações. A relação , portanto, representa a taxa de depreciação real da moeda doméstica.
Embora a inflação externa seja exogenamente determinada, a inflação doméstica é determinada pelas mudanças nos custos da unidade de trabalho e pelo markup bruto dos lucros:
(2)
Onde é a taxa de mudança do markup sobre o custo da unidade de trabalho, é a taxa de inflação dos salários e a taxa de crescimento da produtividade do trabalho. Por simplicidade, 0, o que significa que assumimos que a taxa de markup não varia com modificações nos custos não-trabalho. Ademais, o crescimento da produtividade é endógeno, dada pela versão agregada simplificada da Lei de Verdoorn:
(3)
Onde > 0 é o fator de mudança autônomo da tecnologia e política tecnológica, > 0 representa o efeito de Verdoorn (retornos crescentes dinâmicos). Finalmente, a demanda agregada (renda nacional) cresce a uma taxa determinada pela média ponderada da taxa de crescimento da demanda por exportações e dos gastos domésticos, multiplicada pelo multiplicador keynesiano
.
(4) ( ! " )
Onde ! é a taxa de crescimento dos gastos domésticos e e " as proporções dos gastos domésticos e exportações na demanda total. As equações (1), (2) e
(4) são então combinadas para gerar o que Setterfield and Cornwall (2002) chamam de “equação do regime de demanda” (DR)27:
(5) Ω "
Onde Ω [ ! " ] e as variáveis ! , , , e são todas tratadas como constantes exogenamente determinadas. Assim, definindo a equação de Verdoorn (3) como “equação do regime de produtividade” (PR), os autores formam um sistema de duas equações lineares com duas variáveis endógenas (crescimento do produto e crescimento da produtividade ), sendo as demais variáveis exogenamente determinadas. Não havendo excessiva (sic) causação cumulativa (o que tornaria o sistema explosivo), esse sistema provê então um único e estável equilíbrio assim representado:
(6) ' ()*+,-./
012*+,-
A FIG. 3 ilustra o comportamento das duas equações do sistema. Qualquer choque que exogenamente estimule o crescimento da produtividade elevará e determinará uma rotação para a direita da função do regime de produtividade, resultando em um efeito positivo sobre a taxa de crescimento de equilíbrio '. Igualmente, qualquer evento que estimule um maior crescimento das exportações (maior taxa de depreciação da moeda “ ”, maior crescimento da renda externa “ ” ou a abertura de mercados externos que elevem a elasticidade-renda da demanda por exportações ") tornará a curva DR mais inclinada, elevando a taxa de crescimento de equilíbrio permanentemente28.
27 Ressalta-se que a versão aqui apresentada da relação é uma adaptação de Blecker (2009) para a mesma. De fato, no modelo original a taxa de câmbio e os salários são omitidos. Além disso, o nível de preços externo é determinado via equações simétricas de markup e da Lei de Verdoorn para o setor externo. 28 Note que para o modelo apresentado, qualquer estimulo à demanda doméstica (aumento em ! ) resultará em igual estímulo às exportações. A explicação para esse resultado está no fato de que o estimulo à demanda elevará a produtividade dos bens produzidos, aumentando com isso o grau de competitividade nacional e, assim, as exportações. Esse resultado forte, no entanto, é atribuído à excessiva simplificação do modelo. A natureza agregada da representação conduzida torna os setores econômicos indiferentes. Em uma versão mais completa do modelo da ELCC, no qual a Lei de Verdoorn aplica-se somente aos setores
FIGURA 3 - Equilíbrio ELCC
Fonte: Blecker (2009)
O resultado “otimista” do modelo da ELCC obviamente ignora uma série de importantes forças econômicas que podem limitar ou mesmo reverter o processo de ganhos cumulativos determinados a partir do estímulo à demanda, sejam estas domésticas ou vinculadas ao setor externo. Pode-se citar a hipótese necessária de que a taxa de que a taxa de câmbio nominal “ ” e os salários “ ” deverão permanecer constantes. A intuição econômica sugere que um país em pleno
boom do processo export-led tenderá a sofrer pressões pela apreciação cambial e
aumentos salariais. Em defesa do modelo da ELCC, pode-se argumentar que no caso da taxa de câmbio, havendo capacidade de esterilizar a acumulação de reservas, um dado país poderá adotar um regime de câmbio nominal fixo. No que diz respeito às pressões salariais, normalmente seus defensores argumentam que a oferta de trabalho não representa uma restrição inelástica no longo prazo, como aparece nos modelos neoclássicos tradicionais. Ao contrário, a oferta de trabalho seria amplamente elástica durante o processo desenvolvimento, seja pela migração internacional de fatores ou pela incorporação de trabalhadores de setores de baixa produtividade, caso de economias duais. Não obstante, mesmo
manufatureiros, somente a parcela do incremento dos gastos domésticos que se aplicam nos bens desse setor poderá iniciar o processo de causação cumulativa.
(3) Regime de Produtividade
(PR)
Ω 3
(5) Regime de Demanda (DR)
Taxa de crescimento da produtividade do trabalho (q) Taxa de crescimento do produto /∝ Ω 6'
nestes casos, dificilmente seria possível falar em uma oferta perfeitamente elástica de mão-de-obra e, dessa forma, alguma pressão inflacionária sobre os salários sempre ocorrerá (BLECKER, 2009).
De fato, muito embora não se deva assumir que estes ajustamentos possam compensar todos os ganhos competitivos do processo de causação cumulativa, não se pode ignorar o efeito destes ajustamentos (BLECKER, 2009), de forma que uma versão mais completa deste processo de crescimento liderado pelas exportações é necessária.