4. THE ROLE OF SPATIAL DESIGN IN THE CAPITALIST PRODUCTION OF
4.2. Planning and Design for Housing Markets: An International Perspective
A liberdade de comunicação positivada no art. 5º, IX172 da
Constituição Federal de 1988 e o direito à informação previsto no inciso XIV173 do mesmo dispositivo, nem sempre estiveram presentes nas Constituições brasileiras. As Constituições de 1824, 1891, 1934 e 1946 são silentes a respeito; a palavra “informação” sequer é mencionada.
A despeito de a Constituição de 1967 ser considerada “mais autoritária do que as anteriores”174, o direito constitucional à informação esteve previsto, pela primeira vez, em seu art. 150, § 8º175. No entanto, o art. 166, § 2º dessa Constituição permitiu à lei “estabelecer outras condições para a organização e o funcionamento das empresas jornalísticas ou de televisão e de radiodifusão, no interesse do regime democrático e do combate à subversão e à corrupção”, dando margem a interpretações expansivas a respeito do que seja “interesse do regime democrático”, “subversão” e “corrupção”, o que fragilizou tanto o direito à informação quanto a liberdade de informar. Apesar de o direito à informação estar formalmente previsto na Constituição de 1967, a liberdade de comunicação ainda não aparece no cenário constitucional.
A Emenda Constitucional nº 1 de 1969, no tocante ao direito de
informação, manteve intactas as disposições anteriores; já no que concerne à liberdade de comunicação, esta surge, pela primeira vez, no campo da
educação:
Art. 176. A educação, inspirada no princípio da unidade nacional e nos ideais de liberdade e solidariedade humana, é
172 Art. 5º, IX – é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
173 Art. 5º, XIV – é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional
174 BASTOS, Celso Ribeiro. Curso de direito constitucional. 22ª ed., São Paulo: Malheiros, 2010, p. 198.
175 Art 150 - A Constituição assegura aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no Pais a inviolabilidade dos direitos concernentes à vida, à liberdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: § 8º - É livre a manifestação de pensamento, de convicção política ou filosófica e a prestação de informação sem sujeição à censura, salvo quanto a espetáculos de diversões públicas, respondendo cada um, nos termos da lei, pelos abusos que cometer. É assegurado o direito de resposta. A publicação de livros, jornais e periódicos independe de licença da autoridade. Não será, porém, tolerada a propaganda de guerra, de subversão da ordem ou de preconceitos de raça ou de classe (destaque nosso).
direito de todos e dever do Estado, e será dada no lar e na escola.
(...).
§ 3º A legislação do ensino adotará os seguintes princípios e normas:
(...).
VII - a liberdade de comunicação de conhecimentos no exercício do magistério, ressalvado o disposto no artigo 154. Como não poderia deixar de ser, em consonância com a opressão instalada no País, o artigo 154 da Emenda Constitucional nº 1/69 previa que “o abuso de direito individual ou político, com o propósito de subversão do regime democrático ou de corrupção, importará a suspensão daqueles direitos [os direitos individuais] de dois a dez anos (...)”. Deste modo, é possível afirmar que a liberdade de comunicação do conhecimento era amplamente restringível diante das cláusulas abertas empregadas pelo constituinte.
Finalmente, a Constituição de 1988 consagrou a todos a liberdade de
comunicação independentemente de censura ou licença, bem como o acesso à informação. O Constituinte foi além do artigo 5º, inserindo no Título VIII – “Da
Ordem Social”, um capítulo exclusivo dedicado à “Comunicação Social” (Capítulo V, art. 220 a 224), voltado a proteger a liberdade jornalística ou liberdade de imprensa176.
O direito de informar, ao assegurar “ao seu titular a posição jurídica de poder divulgar fatos e notícias que sejam de interesse coletivo”177, tem seu núcleo na
liberdade de informação jornalística ou liberdade de imprensa178. Mas para JOSÉ AFONSO DA SILVA, o direito de informar “não se resume mais na
176 Para o Supremo Tribunal Federal, “a Constituição reservou à imprensa todo um bloco normativo, com o apropriado nome "Da Comunicação Social" (capítulo V do título VIII). (...). O corpo normativo da Constituição brasileira sinonimiza liberdade de informação jornalística e liberdade de imprensa” (STF, ADPF nº 130-DF, Tribunal Pleno, Relator Ministro Ayres Britto, julgamento de 30 de abril de 2009, por maioria de votos, julgou procedente a ação para declarar a não recepção da Lei Federal nº 5.50 de 9.2.1967 pela Constituição Federal de 1988).
177 FARIAS, Edilsom. Liberdade de expressão e comunicação: teoria e proteção constitucional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004, p. 86. Outrossim, “com relação à titularidade do direito fundamental de informar, cumpre frisar que ele pode ser exercido por qualquer cidadão, conquanto não se possa olvidar que a complexidade da informação na sociedade contemporânea tem feito com que esse direito fundamental venha sendo realizado cada vez mais por experts, ou seja, por profissionais da comunicação” (idem p. 88).
178 STF, ADPF nº 130-DF, Tribunal Pleno, Relator Ministro Ayres Britto, julgamento de 30 de abril de 2009, sob a presidência do Ministro Gilmar Mendes, por maioria de votos, julgou procedente a ação para declarar a não recepção da Lei Federal nº 5.50 de 9.2.1967 pela Constituição Federal de 1988.
simples liberdade de imprensa, pois esta está ligada à publicação de qualquer veículo impresso de comunicação”179.
Ao contrário da Constituição anterior, e sob a constante preocupação de não impor qualquer tipo de censura, a Constituição de 1988, ressalvada a observância dos princípios estabelecidos no art. 221180, vedou qualquer forma de restrição à manifestação do pensamento, à criação, à expressão e à informação (art. 220, caput), assim como proibiu qualquer lei de “constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social, observado o disposto no art. 5º, IV181, V182, X183, XIII184 e XIV185” (artigo 220, §
1º); vedou “toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística” (artigo 220, § 2º) e libertou do jugo da “licença de autoridade” a “publicação de veículo impresso de comunicação” (art. 220, § 6º).
Em síntese, as formas de comunicação regem-se pelos seguintes princípios delineados no art. 220 da Constituição de 1988: (i) ausência de restrição, observado o disposto na Constituição; (ii) liberdade de informação jornalística sem embaraço; (iii) ausência de censura política, ideológica ou artística; (iv) publicação independente de autorização pública; (v) ausência de monopólio dos meios de comunicação social186.
A liberdade de comunicação, apesar de se manter muito próxima da
liberdade de expressão, com esta não se confunde. Enquanto a liberdade de
expressão “se refere a assuntos privados, manifestações de pensamentos, ideias, opiniões, crenças, juízos de valor”187, a liberdade de comunicação está relacionada
179 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 27ª ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 246.
180 Art. 221. A produção e a programação das emissoras de rádio e televisão atenderão aos seguintes princípios: I – preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; II – promoção da cultura nacional e regional e estímulo à produção independente que objetive sua divulgação; III – regionalização da produção cultural, artística e jornalística, conforme percentuais estabelecidos em lei; IV – respeito aos valores éticos e sociais da pessoa e da família.
181 Art. 5º, IV: é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
182 Art. 5º, V: é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem;
183 Art. 5º, X: são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;
184 Art. 5º, XIII: é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer;
185 Art. 5º, XIV: é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional;
186 Cf. SILVA, José Afonso. op. cit., p. 99.
187 SILVA, Paulo Thadeu Gomes da. Sistema constitucional das liberdades e das igualdades. São Paulo: Atlas, 2012, p. 35.
“à difusão de fatos e notícias”188, ou seja, refere-se ao direito fundamental de informar189 e der ser informado, o qual está atrelado à verdade190. Por sua vez, o direito de informar insere-se na “dimensão clássica da liberdade de comunicação”191.
Por informação deve-se compreender “o conjunto de condições e modalidades de difusão para o público (ou colocado à disposição do público) sob formas apropriadas, notícias ou elementos de conhecimento, ideias ou opiniões”192. Conforme ensina VIDAL SERRANO NUNES JUNIOR, “o direito de
informar, na Constituição brasileira, de regra, assume uma feição de permissão,
vale dizer, é permitido a todo indivíduo veicular informações que julgar pertinentes, desde que possua os meios necessários para tanto”193. Observa o autor que a Constituição “não assegurou um direito positivo a meios para informar”194, mas apenas garantiu “a liberdade, em sentido negativo, de qualquer indivíduo
188 SILVA, Paulo Thadeu Gomes da. Sistema constitucional das liberdades e das igualdades. São Paulo: Atlas, 2012, p. 36.
189 Cf. FARIAS, Edilsom. Liberdade de expressão e comunicação: teoria e proteção constitucional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004, p. 164. O autor complementa: “O direito fundamental de informar, aspecto ativo da liberdade de comunicação, obviamente está amparado no aludido inciso IX do art. 5º da Constituição Federal” (Ibid.).
190 Cf. SILVA, Paulo Thadeu Gomes da. op. cit., p. 47-48. Prossegue: “A verdade, então, enquanto justificativa para a existência do direito de liberdade de comunicação é aquela cujo descobrimento seja tanto quanto possível, ou, em outras palavras, uma verdade proporcional à capacidade de narrar fielmente o fato acontecido” (Ibid.).
191 FARIAS, Edilsom. op. cit., p. 164. Em complemento, cite-se: “Assim, a comunicação social, expressão cunhada pelo Vaticano, na ótica do presente trabalho, é objeto de uma garantia institucional conferida aos meios de comunicação de massa para fazerem circular, por toda a coletividade, os pensamentos, as ideias, as opiniões, as crenças, os juízos de valor, os fatos, as informações e as notícias de transcendência pública. Em outras palavras, a liberdade de comunicação social resume-se no exercício da liberdade de expressão e comunicação por meio dos órgãos de comunicação de massa” (Ibid., p. 102).
192 TORREOU, Fernand. L’information. Paris: Presses Universitaires de France, 1965, apud NOBRE, Freitas. Comentários à lei de imprensa: Lei nº 5.250/67, 3ª ed. atual. São Paulo: Saraiva, 1985, p. 8. 193 NUNES JÚNIOR, Vidal Serrano. A proteção constitucional da informação e o direito à crítica
jornalística. São Paulo: FTD, 1997, p. 31. Contudo, o autor fundamenta o direito de informar no art.
220, caput, da Constituição Federal, no que, com a respeitosa vênia, não concordamos, uma vez que o direito de informar não se restringe à informação em massa (comunicação social). Filiamo-nos ao posicionamento de EDILSOM FARIAS: “Não há que confundir os dois planos da proteção constitucional: a garantia institucional assegura uma proteção jurídica objetiva para os meios de comunicação em massa, como organização social, já o direito fundamental de informar, como polo ativo da liberdade de comunicação, dirige-se aos cidadãos para garantir-lhes a faculdade de comunicar informações. Sobretudo o direito de informar também protege os profissionais da comunicação na sua atividade de difusão de notícias” (FARIAS, Edilsom. op. cit., p. 164, destaques do original).
veicular informações”195. Mas EDILSOM FARIAS destaca a importância de conferir um viés positivo a esse direito:
É cada vez mais frequente a ocorrência de situações em que não basta a ação negativa do Estado para a concretização do direito fundamental em tela, ao revés, torna-se imprescindível a ação positiva.
(...)
Em suma, é obrigação do Estado agir para prevenir, fazer cessar ou afastar definitivamente todos os óbices ao livre exercício da informação, bem como fornecer ainda as estruturas necessárias para que o direito fundamental de informar seja realmente desfrutado por todos os cidadãos, e assim não fique reduzido a um mero enfeite jurídico ou a um alçapão verbal judicialmente formulado.196
JOSÉ AFONSO DA SILVA, ao comentar a liberdade de comunicação – na qual se insere o direito de informar – prevista no art. 5º, IX e 220 da Constituição Federal, expõe:
A “liberdade de comunicação” consiste num conjunto de direitos, formas, processos e veículos que possibilitam a coordenação desembaraçada da criação, expressão e a difusão do pensamento e da informação. É o que se extrai dos incisos IV, V, IX, XII e XIV do art. 5º, combinados com os arts. 220 a 224, da Constituição Federal. Compreende ela as formas de criação, expressão e manifestação do pensamento e de informação, e a organização dos meios de comunicação, está sujeita a regime jurídico especial (...). A liberdade de comunicação envolve também a escolha de meios de exteriorização do pensamento e difusão das informações, que são basicamente os livros, os jornais, e outros periódicos, os serviços de radiodifusão sonora e de
som e imagens e os serviços noticiosos (Lei 5.250/1967, arts.
2º e 12, parágrafo único)197.
Lado outro, VIDAL SERRANO NUNES JÚNIOR observa que a Constituição de 1988, ao assegurar a todos o acesso à informação (art. 5º, XIV), “desobstruiu o
195 NUNES JÚNIOR, Vidal Serrano. A proteção constitucional da informação e o direito à crítica
jornalística. São Paulo: FTD, 1997, p. 32.
196 FARIAS, Edilsom. Liberdade de expressão e comunicação: teoria e proteção constitucional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004, p. 87, destaques nossos.
197 SILVA, José Afonso. Comentário contextual à constituição. 6ª ed. São Paulo: Malheiros, p. 98-99 e 825, destaques do original.
caminho de acesso a qualquer fonte de informação”198, indistintamente a qualquer cidadão. Para além da concepção individual, FREITAS NOBRE, ao invocar a importância social da informação (não sem razão o art. 220 da Constituição Federal está inserido no Título VIII – “Da Ordem Social”), afirma tratar-se de direito que não se restringe ao direito individual nem pessoal do indivíduo, “nem simplesmente um direito profissional, mas um direito coletivo”199. Nas palavras de EDILSOM FARIAS:
Em razão da relevância da informação para o pleno exercício dos direitos sociais e individuais e para o bem estar de uma sociedade fraterna (preâmbulo da Constituição Federal de 1988), é possível ainda apoiar o direito de ser informado em vários princípios fundamentais do ordenamento constitucional. Com efeito, sem o recebimento de informação
pluralista, o cidadão não exercerá com dignidade a sua
cidadania200 e a soberania popular estará,
irremediavelmente, esvaziada (Constituição Federal, art. 1º, I, II, III e V).201
A liberdade de informar é um direito inerente ao ser humano e essencial à formação e maturidade da própria sociedade, não dependendo de legislação específica para ser exercido:
Não é, em verdade, a lei que assegura o exercício da liberdade de informar e, menos ainda, o fato de estarem inscritos na Carta Constitucional os princípios gerais dessa liberdade. A questão é mais profunda, com implicações de formação da própria sociedade.
É indubitável que uma legislação específica, adotada com base nos princípios constitucionais, é um passo mais concreto para a fruição desse direito à notícia e à crítica202.
198 NUNES JÚNIOR, Vidal Serrano. A proteção constitucional da informação e o direito à crítica
jornalística. São Paulo: FTD, 1997, p. 32.
199 NOBRE, Freitas. Comentários à lei de imprensa: Lei nº 5.250/67, 3ª ed. atual. São Paulo: Saraiva, 1985, p. 6, destaque do original.
200“O direito fundamental de informar é um instrumento valioso de participação ativa do cidadão, na vida pública e para a formação de um debate democrático estabelecido com base na livre discussão que premia os bons governantes e os cidadãos inatacáveis” (FARIAS, Edilsom. Liberdade de
expressão e comunicação: teoria e proteção constitucional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004,
p. 164-165) 201 Ibid., p. 169.
202 NOBRE, Freitas. Imprensa e liberdade: os princípios constitucionais e a nova legislação. Coleção Novas Buscas em Comunicação. Vol. 26. São Paulo: Summus, 1988, p. 35.
Tem a crítica como um dos aspectos essenciais da liberdade de comunicação e de informação. Nas palavras de GOMES DA SILVA:
Assim como a liberdade de expressão, a liberdade de comunicação encontra seus fundamentos tanto na autorrealização individual e na criação de consensos numa sociedade plural, quando na esfera política, especialmente por meio do exercício público da crítica. A crítica, palavra que significou, em sua origem, a habilidade para julgar a obra de um autor, constitui-se componente essencial da liberdade de comunicação, e atualmente significa a possibilidade racional de se emitir juízos a respeito de todos os eventos que ocorrem na sociedade, sejam eles de que cunho for, tais quais, artísticos, políticos e assim por diante203.
A expressão “veículo impresso de comunicação”, constante do § 6º do art. 220 da Constituição deve ser interpretada de acordo com a época em que redigida, quando o direito de informação era exercido basicamente por produto impresso, como jornais, panfletos, livros, periódicos etc. No entanto, é preciso atentar para o § 1º do mesmo disposto, o qual garante “plena liberdade de informação
jornalística em qualquer veículo de comunicação social”, o que por certo inclui, além da modalidade impressa, as rádios e a televisão. Atualmente, não há nada mais veloz e abrangente que a informação veiculada na rede mundial de computadores – a internet – protegida pela Constituição Federal de 1988 como afirmou o Supremo Tribunal Federal:
Silenciando a Constituição quanto ao regime da internet (rede mundial de computadores), não há como se lhe recusar a qualificação de território virtual livremente veiculador de ideias e opiniões, debates, notícias e tudo o mais que signifique plenitude de comunicação204.
No entendimento da Corte Constitucional, “a plenitude da liberdade de imprensa” é interpretada como “reforço ou sobretutela das liberdades de
203 SILVA, Paulo Thadeu Gomes da. Sistema constitucional das liberdades e das igualdades. São Paulo: Atlas, 2012, p. 48.
204 STF, ADPF nº 130-DF, Tribunal Pleno, julgado em 30-4-2009, Relator Ministro Ayres Britto, ação julgada procedente, por maioria, destaque nosso.
manifestação do pensamento, de informação e de expressão artística, científica, intelectual e comunicacional”205.
É preciso lembrar que a liberdade primeira é a de acesso de todos à informação verdadeira e imparcial, sendo a liberdade de informação jornalística206 reflexa àquela, sob pena de esvaziamento do direito à informação previsto no art. 5º, XIV da CF207. Como expõe JOSÉ AFONSO DA SILVA:
O dono da empresa e o jornalista têm um direito fundamental de exercer sua atividade, sua missão, mas especialmente tem um dever. Reconhece-se-lhes o direito de informar ao público os acontecimentos e ideias, mas sobre ele incide o dever de informar à coletividade de tais acontecimentos e ideias, objetivamente, sem alterar-lhes a verdade ou esvaziar-lhes o sentido original, do contrário, se terá não informação, mas deformação208.
Sob esse mesmo prisma, a liberdade do jornalista, dado o alcance e poder de influência social das notícias veiculadas, carrega a responsabilidade de combater, com imparcialidade, os excessos cometidos pelos Poderes da República e pela sociedade. O Supremo Tribunal Federal, ao apreciar a ADPF nº 130-DF expôs o importante papel da imprensa:
A Constituição destinou à imprensa o direito de controlar e revelar as coisas respeitantes à vida do Estado e da própria sociedade. A imprensa como alternativa à explicação ou versão estatal de tudo que possa repercutir no seio da sociedade e como garantido espaço de irrupção do pensamento crítico em qualquer situação ou contingência. Entendendo-se por pensamento crítico o que, plenamente comprometido com a verdade ou essência das coisas, se dota de potencial emancipatório de mentes e espíritos
(...).
205 STF, ADPF nº 130-DF, Tribunal Pleno, julgado em 30-4-2009, Relator Ministro Ayres Britto, ação julgada procedente, por maioria.
206 EDILSOM FARIAS alerta ser inapropriado o uso da expressão “liberdade de informação jornalística” para se referir ao “exercício público da liberdade de expressão e comunicação pelos órgãos de comunicação de massa. Aquela expressão apresenta a inconveniência de provocar ambiguidades quando generalizada o uso da denominação informação jornalística para outras informações que não são provenientes de jornais”. (Liberdade de expressão e comunicação: teoria
e proteção constitucional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004, p. 103).
207 Cf. SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 27ª ed. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 247.
(...) as relações de imprensa [são] superiores bens jurídicos e natural forma de controle social sobre o poder do Estado209.
STUART MILL já afirmou que a liberdade de imprensa é a salvaguarda “contra um governo corrupto ou tirânico”210. Aliás, há quem considere a imprensa um quarto poder. Seu dever e sua missão de informar contribui sobremaneira para a emancipação da sociedade e a manutenção de uma democracia livre, chegando ao ponto de tornar-se essencial para a “expansão da liberdade humana”211.
A respeito da liberdade de imprensa, são oportunas as considerações de KARL MARX:
A imprensa livre é o olhar onipotente do povo, a confiança personalizada do povo nele mesmo, o vínculo articulado que une o indivíduo ao Estado e ao mundo, a cultura incorporada que transforma lutas materiais em lutas intelectuais, e idealiza suas formas brutas. É a franca confissão do povo a si mesmo, e sabemos que o poder da confissão é o de redimir. A imprensa livre é o espelho intelectual no qual o povo se vê, e a visão de si mesmo é a primeira condição da sabedoria212.
A despeito da primazia da liberdade de comunicação e do direito de informar, sabe-se que a Constituição não admite excessos ou abusos no usufruto dos direitos e liberdades por ela reconhecidos, ainda que elevados à categoria de fundamentais. Essa questão não passou incólume ao Supremo Tribunal Federal ao analisar a liberdade de imprensa e o direito à intimidade, vida privada, imagem e honra:
Os direitos que dão conteúdo à liberdade de imprensa são bens de personalidade que se qualificam como sobredireitos. Daí que, no limite, as relações de imprensa e as relações de
209 STF, ADPF nº 130-DF, Tribunal Pleno, julgado em 30.04.2009, Relator Ministro Ayres Britto, ação julgada procedente, por maioria (destaque nosso).
210 MILL, Stuart. Sobre a liberdade. São Paulo: Hedra, 2010, p. 57.
211 SILVA, José Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 27ª ed. São Paulo: Malheiros,