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5. ACTUAL ROLE OF SPATIAL DESIGNERS IN HOUSING: A CRITICAL

5.2. Revealing the Role of Spatial Design(ers) in Practice: the Case of Housing

5.2.2. Kuzu Effect

Historicamente, à menor força física e à perda de poder econômico da mulher em relação ao homem436, deve-se a “deformação cultural”437 de ser ela considerada relativamente incapaz de gerir a própria vida e responder por seus atos. Conforme expõe a doutrina, a mulher, em razão de seu gênero, passa a ser subjugada em casa, onde é vítima de violência doméstica, e no trabalho, onde cargos mais elevados são ocupados por homens ou com salários superiores438. Isto, além dos recidivos casos de assédio sexual439. Trata-se de uma minoria qualitativa, ou seja, uma maioria discriminada.

A emancipação feminina adveio entre os sécs. XIX e XX, com “a industrialização e urbanização”440, e depois de duas grandes guerras, quando “as

436 No período pré-histórico, quando surge a pecuária e a noção de propriedade, prevalecia, inicialmente, o “direito materno, isto é, enquanto a descendência contava apenas em linha feminina, e segundo o costume hereditário primitivo em uso na gens, os membros dessa herdavam, a princípio, dos seus parentes próximos falecidos [consanguíneos do lado materno]”. Não havia herança transmitida pelo pai, “porque não pertenciam à sua gens”. (...). À medida, portanto, que as riquezas aumentavam, estas davam ao homem, por um lado uma situação mais importante na família do que a da mulher, e, por seu turno, faziam nascer nele a ideia da utilização dessa situação reforçada a fim de que revertesse em benefício dos filhos a ordem de sucessão tradicional. (...). Assim, foi revertida a filiação feminina e o direito hereditário materno e estabelecida a filiação masculina e o direito hereditário paterno. Como e quando se verificou essa revolução entre os povos civilizados, não o sabemos. Ela pertence inteiramente ao período pré-histórico. A reversão do direito materno foi a grande derrota do sexo feminino. O homem passou a governar também a casa, a mulher foi degradada, escravizada, tornou-se escrava do prazer do homem, e um simples instrumento de reprodução” (MARX, ENGLES, LENIN. Sobre a mulher. 2ª ed. São Paulo: Global Editora, 1980, p. 14-15).

437 Expressão utilizada por HUGO NIGRO MAZZILI, A defesa dos interesses difusos em juízo: meio

ambiente, consumidor, patrimônio cultural, patrimônio público e outros interesses. 25ª ed. rev.

ampl. atual. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 757.

438 Cf. Ibid., p. 757-758. Na visão de MANUEL CASTELLS, “as mulheres não estão sendo relegadas a realizar serviços que exijam menor especialização: são empregadas em todos os níveis da estrutura e o crescimento do número de cargos ocupados por mulheres é mais na camada superior da estrutura organizacional. E é exatamente por isso que existe a discriminação: as mulheres ocupam cargos que exigem qualificações semelhantes em troca de salários menores, com menos segurança no emprego e menores chances de chegar às posições mais elevadas”. (CASTELLS, Manuel. O poder da

identidade. Vol. II. 8ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2013, p. 200). A Constituição Federal de 1988, em

seu art. 7º, XXX, proíbe a diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil.

439“Por ‘assédio sexual’ entende-se toda forma de pressão ou solicitação exercida a fim de obterem- se favores sexuais de alguém, normalmente uma mulher. O assédio pode ser exercido por alguém que se aproveite de sua posição de poder, como acontece normalmente no mundo do trabalho. O que distingue o assédio das formas mais explícitas de violência sexual é seu caráter ambíguo, implícito. O objetivo do aproveitador é obter o ‘consentimento’ de sua vítima. A pressão exercida pode ser física, embora se exerça geralmente de modo mais sutil, por indiretas, exploração de alguma característica psicológica ou de uma posição dominante, por um conjunto de sinais e comportamentos individualmente desprovidos de gravidade, mas que no seu conjunto tornam-se claros e constrangedores”. (SEMPRINI, Andrea. Multiculturalismo. Bauru: EDUSC, 1999, p. 53).

mulheres começaram a assumir um papel mais independente e dinâmico no trabalho e na vida social”441. Apesar do triunfo do feminismo, conceituado por MANUEL CASTELLS como “o compromisso de pôr um fim à dominação masculina”, ALEXANDRE BAHIA ressalta que “um dos maiores desafios que o Brasil ainda enfrenta no que tange ao direito de igualdade é, certamente, a promoção de igualdade entre homens e mulheres”442.

O Direito, por ser um sistema de normas da conduta humana, incorporou às normas jurídicas as diferenças naturais e biológicas entre homens e mulheres, assim como a realidade discriminatória que as cercam. Por isso, em respeito ao princípio da isonomia, foram criadas disposições constitucionais, infraconstitucionais e normatização internacional que garantem direitos e políticas públicas voltadas especialmente às mulheres.

Na esfera internacional, a Convenção sobre a Eliminação de Todas as

Formas de Discriminação Contra a Mulher (CEDAW na sigla em inglês443), adotada pela Resolução nº 34/180 da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 18 de dezembro de 1979, inicia uma série de ações protetivas direcionadas à mulher, com o objetivo duplo de “eliminar a discriminação e assegurar a igualdade”444. A Convenção foi ratificada no Brasil com reservas (art. 15, § 4º445e 16, § 1º, “a”, “c”, “g” e “h”446) pelo Decreto Legislativo nº 93 de 14 de novembro de 1983 e promulgada

441 MAZZILLI, Hugo Nigro. A defesa dos interesses difusos em juízo: meio ambiente, consumidor,

patrimônio cultural, patrimônio público e outros interesses. 25ª ed. rev. ampl. atual. São Paulo:

Saraiva, 2012, p. 758. “Foi no dia 17-03-1911 que, por proposta da Internacional Socialista, organizou- se na Dinamarca, na Alemanha, na Áustria e na Suíça, o primeiro dia das mulheres. As manifestações e reuniões reivindicaram o direito de voto e o direito ao trabalho sem discriminação para as mulheres” (www.vie-publique.fr/focus/8-mars-journee-femmes.html, acesso em 1º-05-11, trad. livre). “Entre nós, foi o Código Eleitoral de 1932, sob o Governo Provisório de Getúlio Vargas, que reconheceu o direito de voto às mulheres; a França, país da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789), não concedeu às mulheres o direito de votar senão em 1944” (Idem, p. 758). 442 BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. Proteção à minoria LGBT no Brasil: avanços e desafios. In JUBILUT, Liliana Lyra. BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. MAGALHÃES, José Luiz Quadros. Direito à diferença: aspectos de proteção específica às minorias e aos grupos vulneráveis. Vol. 2. São Paulo, Saraiva, 2013, p. 340.

443 Convention on the Elimination of all Forms of Discrimination Against Women.

444 PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 352.

445 4. Os Estados-Partes concederão ao homem e à mulher os mesmos direitos no que respeita à legislação relativa ao direito das pessoas à liberdade de movimento e à liberdade de escolha de residência e domicílio.

446 1. Os Estados-Partes adotarão todas as medidas adequadas para eliminar a discriminação contra a mulher em todos os assuntos relativos ao casamento e às ralações familiares e, em particular, com base na igualdade entre homens e mulheres, assegurarão: a) O mesmo direito de contrair matrimônio; (...);c) Os mesmos direitos e responsabilidades durante o casamento e por ocasião de sua dissolução; (...);g) Os mesmos direitos pessoais como marido e mulher, inclusive o direito de escolher sobrenome, profissão e ocupação; h) Os mesmos direitos a ambos os cônjuges em matéria

em 20 de março de 1984, por meio do Decreto nº 89.460. As reservas foram afastadas pelo Decreto Legislativo nº 26 de 22 de junho de 1994, promulgado pelo Decreto nº 4.377, de 13 de setembro de 2002.

A Convenção afirma que, apesar do disposto na Declaração Universal dos Direitos Humanos447, no Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos e no Pacto Internacional de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais448, a mulher continua sendo objeto de grandes discriminações. A Convenção reconhece que a discriminação viola os princípios da igualdade de direitos e do respeito da dignidade humana; dificulta a participação da mulher, nas mesmas condições que o homem, na vida política, social econômica e cultural de seu país; constitui um obstáculo ao aumento do bem-estar da sociedade e da família; e dificulta o pleno desenvolvimento das potencialidades da mulher para prestar serviço a seu país e à humanidade. Admite, ainda, que a participação máxima da mulher, em igualdade de condições com o homem, em todos os campos, é indispensável para o desenvolvimento pleno e completo de um país, o bem-estar do mundo e a causa da paz449.

No âmbito da legislação nacional, conforme retrospecto feito por ALEXANDRE BAHIA:

Até o final do século XX, mulheres, ao se casarem, eram destituídas da condição de “maiores e capazes” e se tornavam relativamente capazes (art. 6º, II do Código Civil de 1916) – o que só foi alterado om a Lei 4.121/62, chamada de “Estatuto da Mulher Casada”. Mesmo assim, a mulher ainda aparecia em uma condição de inferioridade perante o marido e apenas com a Constituição Federal/88 essa situação se alterou, pois esta prevê logo no caput do art. 5º: “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza [...]”, e, em seu inciso I: “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações nos termos desta Constituição”450.

de propriedade, aquisição, gestão, administração, gozo e disposição dos bens, tanto a título gratuito quanto à título oneroso.

447 Reafirma o princípio da não-discriminação e proclama que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos e que toda pessoa pode invocar todos os direitos e liberdades proclamados nessa, sem distinção alguma, inclusive de sexo.

448 Nos quais os Estados Partes se comprometeram a garantir ao homem e à mulher a igualdade de gozo de todos os direitos econômicos, sociais, culturais, civis e políticos.

449 Disponível em http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1980-1987/decreto-89460-20- marco-1984-439601-publicacaooriginal-1-pe.html. Acesso em 25.10.2015.

450 BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. Proteção à minoria LGBT no Brasil: avanços e desafios. In JUBILUT, Liliana Lyra. BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. MAGALHÃES, José Luiz

A promulgação da Constituição de 1988 marcou a fase democrática da história do Brasil e consolidou os direitos fundamentais ao introduzir relevantes mecanismos de promoção da igualdade material para os grupos sociais mais vulneráveis, no qual se inserem as mulheres. FLÁVIA PIOVENSAN ressalta a importância do movimento feminista desenvolvido durante a elaboração da Constituição de 1988, que “culminou na elaboração da ‘Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes”451 e, também, na “incorporação da maioria significativa das reivindicações formuladas pelas mulheres no texto constitucional”452. A Carta das Mulheres, datada de 1985, traz a seguinte mensagem inicial:

Nós, mulheres, estamos conscientes que este país só será verdadeiramente democrático e seus cidadãos e cidadãs verdadeiramente livres, quando, sem prejuízo de sexo, raça, cor, classe, orientação sexual, credo político ou religioso, condição física ou idade, for garantido igual tratamento e igual oportunidade de acesso às ruas, palanques, oficinas, fábricas, escritórios, assembleias e palácios.

Nesse importante momento, em que toda a sociedade se mobiliza para uma reconstrução de seus ordenamentos, gostaríamos de lembrar, para que não se repita, o que mulheres já disseram no passado: “Se não for dada a devida atenção às mulheres, estamos decidias a fomentar uma rebelião, e não nos sentiremos obrigadas a cumprir leis para as quais não tivemos voz nem representação” (Abigail Adams, 1776).453

Na Constituição brasileira, o reconhecimento da mulher como minoria qualitativa e a necessidade de maior proteção a esse grupo pode ser observado logo no início do Título II – “Dos Direitos e Garantias Fundamentais”, ao prever expressamente que homens e mulheres têm os mesmos direitos e obrigações (art. 5º, I), inclusive na condução da sociedade conjugal (art. 226, § 5º). As especificações de gênero (homens e mulheres) certamente advêm de uma cultura na qual aos

Quadros. Direito à diferença: aspectos de proteção específica às minorias e aos grupos vulneráveis. Vol. 2. São Paulo, Saraiva, 2013, p. 340.

451 PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 367. 452 Id.

453 A Carta das Mulheres está disponível na íntegra e no formato original no site oficial da Câmara dos Deputados. Disponível em http://www2.camara.leg.br/atividade- legislativa/legislacao/Constituicoes_Brasileiras/constituicao-

homens eram garantidos mais direitos que às mulheres, correndo-se o risco de uma interpretação literal, gramatical e “politicamente incorreta” caso o dispositivo constitucional previsse apenas: “todos os homens são iguais em direitos e obrigações”.

Em razão da frequente discriminação da mulher no mercado de trabalho, o art. 7º, XX454, garante a “proteção do mercado de trabalho da mulher, mediante incentivos específicos, nos termos da lei”; o inciso XXX455 proíbe a diferença de salários, de exercício de funções e de critério de admissão por motivo de sexo, idade, cor ou estado civil. As especificidades físicas e biológicas da mulher também foram consideradas, garantida sua a isenção em relação ao serviço militar obrigatório (art. 143, § 3º da Constituição Federal/1988), a licença maternidade e sua proteção nas esferas social, trabalhista e previdenciária (art. 6º, 7º, XVIII, art. 201, II, e art. 203, I da Constituição Federal), além de condições especiais para as presidiárias amamentarem seus filhos (art. 5º, L da Constituição Federal)456.

JOSÉ AFONSO DA SILVA, ao comentar o art. 3º, IV da Constituição Federal/88, afirma que:

O sexo sempre foi um fator de discriminação. O sexo feminino esteve sempre inferiorizado na ordem jurídica, e só mais recentemente vem ele, a duras penas, conquistando posição paritária, na vida social e jurídica, à do homem. A Constituição deu largo passo na superação do tratamento desigual fundado no sexo, ao equiparar os direitos e obrigações de homens e mulheres (art. 5º, I). Ao fazê-lo, dir-se-ia desnecessário estabelecer expressas proibições de discrímen como no sexo (art. 3º, IV e 7º, XXX), embora ela própria o tenha feito, como lembramos acima, a favor das mulheres (art. 40, III e 201, § 7º, na redação da Emenda Constitucional 20/1998)457.

A respeito de ações positivas introduzidas pela legislação brasileira para afirmar e ampliar os direitos fundamentais da mulher, o Supremo Tribunal Federal,

454 Regulamentado pela Lei nº 9.799/99 de 26 de maio de 1999. 455 Regulamentado pela Lei nº 9.029/95 de 13 de abril de 1995.

456 Como pontua HUGO NIGRO MAZZILLI: Nem se diga que, ao proteger mais intensamente a mulher, a lei está dando exequibilidade a tratados internacionais que obrigam o Brasil a essa preocupação tuitiva. Na verdade, tanto a Constituição como os tratados internacionais exigem, com razão, que de defenda a mulher, mas não que não se defenda o homem que esteja em condições de necessitar de igual proteção (A defesa dos interesses difusos em juízo: meio ambiente, consumidor,

patrimônio cultural, patrimônio público e outros interesses. 25ª ed. rev. ampl. atual. São Paulo:

Saraiva, 2012, p. 759-760).

457 SILVA, José Afonso da. Comentário contextual à constituição. 5ª ed. São Paulo: Malheiros, 2008, p. 48.

em decisão exemplar, reconheceu a constitucionalidade do art. 384 da Consolidação das Leis do Trabalho que prevê um intervalo de 15 minutos para mulheres trabalhadoras antes da jornada extraordinária (RE nº 658.312-SC); a redação da ementa vale ser transcrita:

Recurso extraordinário. Repercussão geral reconhecida. Direito do Trabalho e Constitucional. Recepção do art. 384 da Consolidação das Leis do Trabalho pela Constituição Federal de 1988. Constitucionalidade do intervalo de 15 minutos para mulheres trabalhadoras antes da jornada extraordinária. Ausência de ofensa ao princípio da isonomia. Mantida a decisão do Tribunal Superior do Trabalho. Recurso não provido. 1. O assunto corresponde ao Tema nº 528 da Gestão por Temas da Repercussão Geral do portal do Supremo Tribunal Federal na internet. 2. O princípio da igualdade não é absoluto, sendo mister a verificação da correlação lógica entre a situação de discriminação apresentada e a razão do tratamento desigual. 3. A Constituição Federal de 1988 utilizou-se de alguns critérios para um tratamento diferenciado entre homens e mulheres: i) em primeiro lugar, levou em consideração a histórica exclusão da mulher do mercado regular de trabalho e impôs ao Estado a obrigação de implantar políticas públicas, administrativas e/ou legislativas de natureza protetora no âmbito do direito do trabalho; ii) considerou existir um componente orgânico a justificar o tratamento diferenciado, em virtude da menor resistência física da mulher; e iii) observou um componente social, pelo fato de ser comum o acúmulo pela mulher de atividades no lar e no ambiente de trabalho – o que é uma realidade e, portanto, deve ser levado em consideração na interpretação da norma. 4. Esses parâmetros constitucionais são legitimadores de um tratamento diferenciado desde que esse sirva, como na hipótese, para ampliar os direitos fundamentais sociais e que se observe a proporcionalidade na compensação das diferenças. 5. Recurso extraordinário não provido, com a fixação das teses jurídicas de que o art. 384 da CLT foi recepcionado pela Constituição Federal de 1988 e de que a norma se aplica a todas as mulheres trabalhadoras458.

A proteção às mulheres ganha reforço internacional com a aprovação da

Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher ocorrida em Belém do Pará em 9 de junho de 1994, também

458 STF, RE nº 658.312-SC, Tribunal Pleno, Rel. Ministro Dias Toffoli, julgado em 27.11.2014, votação por maioria.

denominada Convenção de Belém do Pará459. Nas considerações de FLÁVIA PIOVESAN:

A Convenção de Belém do Pará é o primeiro tratado internacional de proteção dos direitos humanos a reconhecer, de forma enfática, a violência contra a mulher como um fenômeno generalizado que, alcança, sem distinção de raça, classe, religião, idade ou qualquer outra condição, um elevado número de mulheres460.

Nesse ponto, vale mencionar que o art. 226, § 8º da Constituição se alinha à normatividade internacional ao determinar ao Estado criar mecanismos para coibir a violência no âmbito das relações familiares. A respeito da violência doméstica, “que atinge principalmente a mulher”461, destaca-se a Lei nº 11.340/2006 ou Lei Maria da Penha462, considerada o marco nacional de proteção da mulher no âmbito

459 A Convenção foi ratificada pelo Decreto Legislativo nº 107, de 31 de agosto de 1995 e promulgada pelo Decreto nº 1.973 de 1º de agosto de 1996. A Convenção de Belém do Pará evidencia a existência de violência contra a mulher na forma física, sexual e psicológica (art. 1º e 2º). No art. 7º, os Estados Partes, dentre eles o Brasil, se comprometeu a agir com o devido zelo para prevenir, investigar e punir a violência contra mulher (art. 7º, “b”); a incorporar na sua legislação interna normas penais, civis, administrativas e de outra natureza, que sejam necessárias para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher, bem como adotar as medidas administrativas adequadas que forem aplicáveis (art. 7º, “c”); a adotar medidas jurídicas que exijam do agressor que se abstenha de perseguir, intimidar e ameaçar a mulher ou de fazer uso de qualquer método que danifique ou ponha em perigo sua vida ou integridade ou danifique sua propriedade (art. 7º, “d”); tomar todas as medidas adequadas, inclusive legislativas, para modificar ou abolir leis e regulamentos vigentes ou modificar práticas jurídicas ou consuetudinárias que respaldem a persistência e a tolerância da violência contra a mulher (art. 7º, “e”); estabelecer procedimentos jurídicos justos e eficazes para a mulher sujeita a violência, inclusive, entre outros, medidas de proteção, juízo oportuno e efetivo acesso a tais processos (art. 7º, “f”).

460 PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 359. 461 Ibid., p. 373.

462 Interessante expor a gênese da Lei nº 11.340/06 de 7 de agosto de 2006 (Lei Maria da Penha). A lei é fruto de uma advertência imposta ao Brasil em 13 de março de 2001 pela Corte Interamericana de Direitos Humanos ao julgar o caso nº 12.051, instaurado a partir da denúncia apresentada pela “Senhora Maria da Penha Maia Fernandes, pelo Centro pela Justiça e pelo Direito Internacional (CEJIL) e pelo Comitê Latino-Americano de Defesa dos Direitos da Mulher (CLADEM)”. “A denúncia alega a tolerância da República Federativa do Brasil (...) para com a violência cometida por Marco Antônio Heredia Viveiros em seu domicílio na cidade de Fortaleza, Estado do Ceará, contra a sua então esposa Maria da Penha Maia Fernandes durante os anos de convivência matrimonial, que culminou numa tentativa de homicídio e novas agressões em maio e junho de 1983. Maria da Penha, em decorrência dessas agressões, sofre de paraplegia irreversível e outras enfermidades desde esse ano. Denuncia-se a tolerância do Estado, por não haver efetivamente tomado por mais de 15 anos as medidas necessárias para processar e punir o agressor, apesar das denúncias efetuadas”. O Estado brasileiro não respondeu às três intimações da Corte Interamericana feitas nos anos de 1998, 1999 e 2000. Entendeu a Corte Interamericana de Direitos Humanos que, apesar de o Brasil ter tomado “algumas medidas destinadas a reduzir o alcance da violência doméstica e a tolerância estatal da mesma”, essas medidas não conseguiram reduzir “o padrão de tolerância estatal, particularmente em virtude da falta de efetividade da ação policial e judicial no Brasil, com respeito à violência contra a mulher” Por fim, entre outros apontamentos, a Corte recomendou ao Brasil “prosseguir e intensificar o processo de reforma que evite a tolerância estatal e o tratamento discriminatório com respeito à

conjugal/familiar. Nas palavras de FLÁVIA PIOVESAN, a Lei Maria da Penha “de forma inédita, cria mecanismos para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, estabelecendo medidas para a prevenção, assistência e proteção às mulheres em situação de violência”463.

A constitucionalidade da proteção dispensada à mulher pela Lei Maria da Penha foi afirmada pelo Tribunal Supremo por meio da Ação Direta de Constitucionalidade – ADC nº 16-DF proposta pela Presidente da República. A discussão teve por finalidade afirmar que a edição de uma lei específica para