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5. ACTUAL ROLE OF SPATIAL DESIGNERS IN HOUSING: A CRITICAL

5.2. Revealing the Role of Spatial Design(ers) in Practice: the Case of Housing

5.2.4. Evaluation of the Findings

Antes de adentrar propriamente ao tema do “politicamente correto”, necessário se faz analisar conceitualmente o termo política.

Política deriva de politikós, adjetivo originado de pólis, “que significa tudo o que se refere à cidade e, consequentemente, o que é urbano, civil, público e até mesmo sociável e social”505; política relaciona-se à “ação que tem por sujeito ou objeto a pólis”506, ou seja, “compreende toda a sorte de relações sociais, tanto que ‘político’ vem a coincidir com o ‘social’”507.

A despeito da conotação essencialmente social da política – e por isso é forçoso envolver uma pluralidade de sujeitos508 –, HANNAH ARENDT afasta da essencialidade do homem o caráter político; para a autora o homem não é essencialmente político, “o homem é apolítico. A política surge entre os homens; portanto, absolutamente fora do homem509.

Extrai-se do DICIONÁRIO DE FILOSOFIA de NICOLA ABBAGNANO, que o termo política pode assumir diversas conotações, porém, mais precisamente é utilizado em quatro concepções: para designar “a doutrina do direito e da

moral”, “a teoria do Estado”, “a arte ou a ciência do governo” ou “o estudo

dos comportamentos intersubjetivos”510.

504 KANT, Immanuel. Idee zu einer allgemeinen Geschichte in weltbürgerlicher Absicht. Kant’s gesammemelte Schrifften. Vol. 8. Berlim, 1910, p. 23. Apud BERLIN, Isaiah. Limites da utopia:

capítulos da história das ideias. São Paulo: Cia das Letras, 1991, p. 5.

505 BOBBIO, Norberto. MATTEUCCI, Nicola. PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. 5ª ed. São Paulo: Imprensa Oficial, 2000, p. 954.

506 Ibid., p. 961. 507 Ibid., p. 960.

508 Cf. ARENDT, Hannah. A promessa da política. Rio de Janeiro: Difel, 2008, p. 144. 509 Ibid., p. 146, destaques do original.

A política como “a doutrina do direito e da moral” foi desenvolvida por

ARISTÓTELES, tratando-se da ciência que estuda “o bem e o bem supremo”, abrangidos pela ética511.

HOBBES, no mesmo sentido, afirmou que a política é “a ciência do justo e do injusto, do equânime e do iníquo”, podendo ser demonstrada por meio das leis e das convenções, ou seja, pelas “causas da justiça”512.

A distinção entre a moral e a política deve-se à MAQUIAVEL, que procurou demonstrar que as ações políticas e as ações morais são julgadas por princípios diversos513. As primeiras visam o bem-estar da pólis, não importando os meios utilizados para conquistar o objetivo; as segundas visam ao cumprimento de normas tidas por categóricas, não sendo relevante o resultado514.

O segundo conceito – mais utilizado – refere-se à política como a teoria do

Estado, o qual também advém de ARISTÓTELES e foi abordado pelo filósofo no

livro “Política”515. Sob esse prisma, a política assume a investigação do que seja a “melhor constituição”, ou seja, “a melhor forma de governo em sentido absoluto e qual é a melhor forma de governo em determinadas condições”516. A política, então, deveria determinar “a forma do Estado ideal” ou “a forma do melhor Estado possível em relação a determinadas circunstâncias”517; nessa noção se insere na busca utópica de PLATÃO pelo Estado perfeito518.

O Estado ideal, pode-se afirmar, é aquele no qual é permitido ao homem se realizar em sua plenitude. Para HANNAH AREDNT, na seara da política, o homem só se realiza:

(...) na forma de direitos iguais que os absolutamente diferentes garantem uns aos outros. Essa garantia voluntária

511 Cf. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2012, p. 901. Ética, conforme ABBAGNANO, é em geral a ciência da conduta; trata-se da análise dos meios e dos fins da conduta humana e o que move essa conduta. “A primeira fala a língua do ideal para o qual o homem se dirige por sua natureza e, por conseguinte, da ‘natureza’, ‘essência’ ou ‘substância’ do homem. Já a segunda fala dos ‘motivos’ ou ‘causas’ da conduta humana, ou das ‘forças’ que a determinam, pretendendo ater-se ao conhecimento dos fatos” (Ibid., p. 442).

512 Cf. Ibid., p. 901.

513 Cf. BOBBIO, Norberto. MATTEUCCI, Nicola. PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. 5ª ed. São Paulo: Imprensa Oficial, 2000, p. 961.

514 Cf. Id.

515 BOBBIO se refere a essa obra de ARISTÓTELES, como o “primeiro tratado sobre a natureza, funções e divisão do Estado, e sobre as várias formas de Governo” (Ibid., p. 954).

516 ABBAGNANO, Nicola. op. cit., p. 901. 517 Id.

e essa outorga do direito à igualdade jurídica reconhecem a pluralidade dos homens, que podem então dar graças a si mesmos por sua pluralidade e ao criador do homem por sua existência519.

Por essas razões, os temas relacionados ao Estado continuam a aparecer sob o nome de “política”520. A respeito dessa simbiose Estado-política, despontam as explicações de BOBBIO:

Aquilo que “Estado” e “política” têm em comum (e é inclusive a razão de sua intercambialidade) é a referência ao fenômeno do poder.

(...).

Não há teoria política que não parta de alguma maneira, direta ou indiretamente, de uma definição de “poder” e de uma análise do fenômeno do poder. (...). A teoria do Estado apoia- se sobre a teoria dos três poderes (o legislativo, o executivo e o judiciário) e das relações entre eles. (...) o processo político é ali definido como a “formação, a distribuição e o exercício do poder”. Se a teoria do Estado pode ser considerada como uma parte da teoria política, a teoria política pode ser, por sua vez, considerada como uma parte da teoria do Poder521.

Entende-se por poder “uma relação entre dois sujeitos, dos quais o primeiro obtém do segundo um comportamento que, em caso contrário, não ocorreria”522. Portanto, conclui-se estar o poder “estreitamente ligado ao conceito de liberdade”523. Nessa linha de raciocínio, não passa despercebido o fato de estar implícito ao “politicamente correto” uma forma de exercício do poder, de impor

à sociedade os pensamentos e as práticas que se reputam melhores ou superiores. Na visão de MARIA CRISTINA C. COSTA, “o politicamente correto parece funcionar, muitas vezes, como justificativa para afirmação de valores doutrinários e

519 ARENDT, Hannah. A promessa da política. Rio de Janeiro: Difel, 2008, p. 146.

520 Cf. BOBBIO, Norberto. Estado, governo e sociedade: para uma teoria geral da política. 8ª ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000, p. 76.

521 Ibid., p. 76-77, destaques nossos. Acrescenta o autor: “Do grego Kratos, ‘força’, ‘potência’, e arché, ‘autoridade’, nascem os nomes das antigas formas de governo, ‘aristocracia’, ‘democracia’, ‘oclocracia’, ‘monarquia’, ‘oligarquia’ e todas as palavras que gradativamente foram sendo forjadas para indicar formas de poder, ‘fisiocracia’, ‘burocracia’, ‘partidocracia’, ‘poliarquia’, ‘exarquia’ etc. (Id.).

522Ibid., p. 78. HANNAH ARENDT chega a afirmar que política, no sentido usual, é definida “como a relação entre dominadores e dominados”. Contudo, a autora acrescenta a seguinte observação: “o poder – que indivíduo algum é capaz de possuir, dado que só pode surgir da ação cooperativa de muitos – com o uso da força, cujos meios um indivíduo pode tomar e controlar” (ARENDT, Hannah. op. cit., p. 149, 151).

ideológicos de certos grupos no poder, quer de um país, de uma associação ou de uma instituição”524

Os que pregam o “politicamente correto” sentem-se, de alguma forma, imbuídos de sentimentos e intenções superiores em relação aos demais, ou seja, consideram-se, mesmo que de modo inconsciente, em patamar mais elevado; lado outro, e paradoxalmente, hasteiam a bandeira da igualdade e do respeito à diversidade.

Partindo-se da premissa de que o “politicamente correto” pressupõe a coexistência de grupos diversos, confiram-se a colocações de HANNAH ARENDT a respeito da política:

Política diz respeito à coexistência e associação de homens

diferentes. Os homens se organizam politicamente segundo

certos atributos comuns essenciais existentes em, ou abstraídos de um absoluto caos de diferenças. Vistos que os corpos políticos são baseados na família e concebidos à sua imagem, o parentesco em todos os seus graus é visto, por um lado, como algo capaz de unir diferenças individuais extremas

e, por outro, como um meio pelo qual grupos assimilares a

indivíduos podem ser isolados e contrastados.

(...). Deus criou não apenas o homem, mas também a própria família.

Na medida em que vemos a família como mais do que participação, ou seja, a participação ativa de uma pluralidade, começamos a fazer o papel de Deus, agindo como se pudéssemos escapar naturalmente do princípio humano da diferenciação. Em vez de engendrar um ser humano, tentamos criar o homem à nossa própria imagem525.

A política como a arte e ciência de governo foi exposta por PLATÃO em sua obra “O Político”526. Para o filósofo, a política é retratada como a “ciência

524 COSTA, Maria Cristina Castilho. Liberdade de expressão e censura na atualidade. In BLANCO, Patricia (org.). Pensadores da liberdade: a liberdade como princípio. Coleção Pensadores da Liberdade. Vol. 2. São Paulo: Palavra Aberta, 2015, p. 93. A autora justifica suas concepções no episódio que suspendeu “a participação do diretor dinamarquês Lars Von Trier no Festival de Cannes de 2014, em função de declarações feitas no festival de 2011, quando afirmou ser capaz de compreender (sem apoiar ou desculpar) Hitler. Desde então, o diretor foi considerado persona non grata pelo festival, que suspendeu sua participação em 2014, quando concorreria com o filme Ninfomaníaca. A falta de consistência desses critérios e dessas sanções fica ainda mais evidente quando lembramos que nem Woody Allen, nem Roman Polanski sofreram interdições, mesmo quando processados por abuso sexual a menores de idade” (Ibid., p. 92-93).

525 ARENDT, Hannah. A promessa da política. Rio de Janeiro: Difel, 2008, p. 145, destaques do original.

régia”527que investiga “de que maneira surge um governo e de que maneira, depois de surgir, pode ser conservado durante o maior tempo possível”528. A política como arte de governar foi descrita por MAQUIAVEL:

E muitos imaginaram repúblicas e principados que nunca foram vistos nem conhecidos como existentes. Porque é tanta a diferença entre como se vive e como se deveria viver, que quem deixa o que faz pelo que que deveria fazer aprende mais a arruinar-se do que a preservar-se, pois o homem que em tudo queira professar-se bom é forçoso que se arruíne em meio a tantos que não são bons. Donde ser necessário ao príncipe que, desejando conservar-se, aprenda a poder não ser bom e deixar de sê-lo ou não, segundo a necessidade529.

Referindo-se ao conceito de política como governança, KANT relaciona-a com honestidade: “a honestidade é a melhor política”530. Já HEGEL relaciona-a com a moral, declarando superada a antítese entre uma e outra531, mesmo ciente de que a moral do Estado pode não coincidir com a moral do indivíduo532.

O quarto significado de política (estudo dos comportamentos

intersubjetivos) foi introduzido por AUGUSTE COMTE na obra Sistema de

Política Positiva. O autor entrelaça política e sociologia533. No entanto, ABBAGNANO afirma ser impróprio conceituar política desta forma, já que a sociologia compreende, atualmente, todas as ciências sociais534.

Como pondera o autor, a política é “considerada há muito tempo como a arte suprema do bem-viver”535; e prossegue:

Definir a P. [política] é, portanto, já por si mesmo assumir posição sobre os fins do agir humano, é estabelecer uma hierarquia entre as diferentes formas da vida em sociedade, é, em suma, uma escolha de valores, prenhe de

527 Cf. ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2012, p. 901. 528 Cf. Id.

529 Cf. Id. 530 Cf. Id.

531 Cf. Ibid., p. 901-902.

532Pondera ABBAGNANO que “apesar de Hegel ter declarado superada a antítese entre P. [política] e moral, o conflito entre as duas exigências ainda está vivo e na prática política e na consciência comum, e as formas de equilíbrio, por elas alcançadas, ainda hoje são provisórias e instáveis” (Ibid., p. 902).

533 Cf. Id. 534 Cf. Id. 535 Ibid., p. 903.

consequências práticas e indicativas de uma visão

específica da vida e do homem536.

Do exposto, conclui-se que a política refere-se às relações sociais; desde as mais estreitas e localizadas até às mais amplas e globais. Orienta-se sempre na busca do bem-estar e da satisfação individual e coletiva. Porém, as condições para o “bem- estar” e para a “satisfação”, muitas vezes, ficam limitados à concepção daqueles responsáveis pela condução dos assuntos do Estado e ocupam altos cargos nos Poderes que o compõe. Obviamente, numa democracia, a representação governamental é – ao menos em tese – escolhida majoritariamente. E quem exerce o poder, por representação, reputa exercê-lo do modo “correto”; ações contrárias às diretrizes em que fundadas as políticas governamentais são, assim, num primeiro momento, consideradas “equivocadas”.

Sob essa perspectiva, o “politicamente correto” insere-se na obstinada busca pelo bem-estar de determinados grupos sociais, através da institucionalização de

standards comportamentais e modos específicos de expressão considerados

“corretos”. Condutas desviadas destas são aprioristicamente taxadas de “erradas”, violadoras de direitos. Contudo, é importante obtemperar com o funcionamento de uma democracia: é preciso ouvir, discutir, conviver, tolerar/respeitar, de modo a harmonizar uma pluralidade de pontos de vista, sempre respeitando os direitos fundamentais de todos.

3.2 “Politicamente Correto”: Análise Conceitual e Teoria da Linguagem

É árdua a tentativa de conceituar termos e expressões, quanto mais defini- los. Haverá sempre o risco de engessar as possíveis dimensões do objeto que se pretende analisar. A dificuldade permanece, em especial, para o termo/expressão “politicamente correto”; são inúmeras as situações nas quais vem sendo aplicada/invocada atualmente. Com essa mesma percepção, THEODORE DALRYMPLE expõe:

Não é fácil definir o politicamente correto com precisão, mas é fácil de reconhecer quando está presente. Ele age em mim como o som, de quando eu era criança, de unha de um professor arranhando a lousa (quadro-negro) porque seu giz era muito pequeno: isso me dava arrepios na espinha. É a tentativa de reformar o pensamento tornando algumas coisas indizíveis; também é a obscena, para não dizer intimidadora, demonstração de virtude (concebida como adesão pública às visões “corretas”, isto é, “progressistas”) por meio de um vocabulário purificado e de sentimentos humanos abstratos. Contradizer tais sentimentos, ou não usar tal vocabulário, é colocar-se fora do grupo de homens civilizados (ou deveria dizer “pessoas”?)537.

De acordo com o DICIONÁRIO DO POLITICAMENTE CORRETO, escrito por HENRY BEARD e CHISTOPHER CERF, “politicamente correto” ou “pc” “é um modo de falar que supostamente não fere sentimentos de pessoas pertencentes a grupos marginalizados”538. Na visão de RENATO JANINE RIBEIRO:

Politicamente correto é um termo pejorativo, usado para criticar a preocupação, nascida nos EUA, de movimentos sociais com expressões que depreciam grupos historicamente perseguidos. Por exemplo, os verbos denegrir e judiar vem do preconceito contra negros e judeus – embora ninguém pense nisso hoje, quando os usa539.

537 PONDÉ, Luiz Felipe. Guia politicamente incorreto da filosofia: ensaio de ironia. São Paulo: Leya, 2012, p. 11.

538 BEARD, Henry. CERF, Christopher. Dicionário do politicamente correto. Porto Alegre, L&M Editores, 1994, p. 9.

539 RIBEIRO, Renato Janine. A devassa da devassa. Jornal Folha de São Paulo. Edição de 7.6.2010. Caderno Mais. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0703201006.htm. Acesso em 18.6.2015.

A respeito da origem norte americana do “politicamente correto”, LUIZ FELIPE PONDÉ afirma tratar-se de “um ‘ramo’ do pensamento de esquerda americano”540:

O politicamente correto, assim, nesse momento, se caracteriza por ser um movimento que busca moldar comportamentos, hábitos, gestos e linguagem para gerar a inclusão social desses grupos [de “excluídos”] e, por tabela, combater comportamentos, hábitos, gestos e linguagem que indiquem a recusa dessa inclusão. Daí foi um salto para virar ações afirmativas, isto é, leis e políticas públicas que gerassem a realização do processo (cotas de negros, gays, índios nas universidades e nas empresas, por exemplo)541.

ANDREA SEMPRINI expõe a finalidade do movimento em defesa do “politicamente correto”:

Sua preocupação essencial é evitar que a sensibilidade ou a autoestima dos diferentes grupos sociais, minorias ou indivíduos possam ser ofendidas ou humilhadas por conversas, atitudes ou comportamentos inconvenientes, de modo a induzir ou reforçar na pessoa em questão uma visão desvalorizada ou culpabilizante dela mesma. Estas práticas, afirmam os defensores do “pc”, podem reforçar as condições de marginalidade ou insegurança em indivíduos-alvo e contribuir para a perpetuação de uma condição inferior inaceitável542.

Nesse aspecto, tratando-se o “politicamente correto” de um modo de expressão humana, não há como abordá-lo sem referir à teoria da linguagem, pois, segundo MARTIN HEIDEGGER, o homem se expressa pela linguagem, e esta, por sua vez, fala543, ainda que nenhuma palavra seja pronunciada544:

540 PONDÉ, Luiz Felipe. Guia politicamente incorreto da filosofia: ensaio de ironia. São Paulo: Leya, 2012, p. 29.

541 Ibid., p. 31

542 SEMPRINI, Andrea. Multiculturalismo. Bauru: EDUSC, 1999, p. 61-62, destaque nosso. De outro giro, RENATO JANINE RIBEIRO explica que “em nossos costumes há brincadeiras preconceituosas que rotulam negativamente grupos discriminados. Sem o ‘politicamente correto’, isso passaria batido” (RIBEIRO, Renato Janine. A devassa da devassa. Jornal Folha de São Paulo. Edição de

7.6.2010. Caderno Mais. Disponível em

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0703201006.htm. Acesso em 18.6.2015).

543“Para pensar a linguagem é preciso penetrar na fala da linguagem a fim de conseguirmos morar na linguagem, isto é, na sua fala e não na nossa”. “Fala é a expressão e comunicação sonora de movimentos da alma humana” (HEIDEGGER, Martin. A caminho da linguagem. Petrópolis: Editora Vozes, 2003, p. 9 e 10).

Costuma-se dizer que por natureza o homem possui linguagem. Guarda-se a concepção de que, à diferença da planta e do animal, o homem é o ser vivo dotado de linguagem. Essa definição não diz apenas que, dentre muitas outras faculdades, o homem também possui a de falar. Nela se diz que a linguagem é o que faculta o homem a ser o ser vivo que ele é enquanto homem. Enquanto aquele que fala, o homem é: homem545.

SÍRIO POSSENTI e ROBERTO BARONAS, ao analisarem a linguagem “politicamente correta” afirmam que “analisar dados do movimento politicamente correto é, em mais que um sentido, analisar o funcionamento ideológico da linguagem”546. Portanto, é preciso adentrar, ainda que superficialmente, na esfera da semiótica, entendida esta como a “ciência geral de todas as linguagens”547. A semiótica compreende a linguagem verbal e não verbal, compreende qualquer forma de expressão e comunicação humana, as quais são produzidas pelo nosso simples “estar-no-mundo”548.

A extensão do conceito de linguagem, conforme propõe LÚCIA SANTAELLA, abarca todo o fenômeno cultural:

Considerando-se que todo fenômeno de cultura só funciona culturalmente porque é também um fenômeno de comunicação, e considerando-se que esses fenômenos só comunicam porque se estruturam como linguagem, pode-se concluir que todo e qualquer fato cultural, toda e qualquer

545 HEIDEGGER, Martin. A caminho da linguagem. Petrópolis: Editora Vozes, 2003, p. 7.

546 POSSENTI, Sírio. BARONAS, Roberto Leiser. A linguagem politicamente correta no Brasil: uma

língua de madeira? In Revista Polifonia: Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem.

Vol. 12. Nº 2. Cuiabá: Instituto de Linguagens/Universidade Federal de Mato Grosso, 2006, p. 49. 547 SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. Coleção Primeiros Passos. 9ª edição. São Paulo: Brasiliense, 1990, p. 7.

548 Ibid., p. 10. “(...) nos comunicamos também através da leitura e/ou produção de formas, volumes, massas, interações de forças, movimentos; que somos também leitores e/ou produtores de dimensões e direções de linhas, traços, cores.... Enfim, também nos comunicamos e nos orientamos através de imagens, gráficos, sinais, setas, números, luzes... Através de objetos, sons musicais, gestos, expressões, cheiro, tato, através do olhar, do sentir, do apalpar. Somos uma espécie animal tão complexa quanto são complexas e plurais as linguagens que nos constituem como seres simbólicos, isto é, seres de linguagem” (Ibid., p. 10). CHARLES SANDERS PEIRCE (1839-1914) considera “toda e qualquer produção, realização e expressão humana como sendo uma questão semiótica” (Ibid., p. 23, destaque nosso). A artista BERNA REALE, ao lançar sua exposição Vapor na Galeria Millan, em São Paulo, concedeu entrevista ao jornal O Estado de São Paulo na qual exprime o significado da semiótica para as artes: “Acho a semiótica extremamente importante para as artes visuais, quando você consegue definir um símbolo e com ele seu trabalho seja lido pela maioria. Porque não adianta fazer uma coisa muito conceitual. Não gosto da arte que precisa de um texto, uma tabeleta” (Jornal O Estado de São Paulo. Berna Reale exibe sua elogiada obra sobre a violência. Caderno Cultura e Artes. Versão impressa. Edição de 7.12.2014, destaque nosso).

atividade ou prática social constituem-se como práticas significantes, isto é, práticas de produção de linguagem e de sentido549.

É no campo das formas de expressão humana, em especial a palavra escrita, verbal e ao universo artístico que o “politicamente correto” tem sido mais invocado e gerador de maiores polêmicas.