5. ACTUAL ROLE OF SPATIAL DESIGNERS IN HOUSING: A CRITICAL
5.2. Revealing the Role of Spatial Design(ers) in Practice: the Case of Housing
5.2.3. Mahall Ankara
O conceito de “orientação sexual” trazido por MARIA BERENICE DIAS é elucidativo:
A orientação sexual indica o impulso sexual de cada indivíduo, aponta para a forma como ele vai canalizar sua sexualidade. A orientação sexual tem como referência o gênero pelo qual a pessoa sente atração, desejo afetivo e sexual. Quando for por pessoa que tem identidade de gênero diverso do seu, se diga que a pessoa é heterossexual. Se for por alguém do mesmo gênero, a pessoa é rotulada de homossexual. E, se a atração for por pessoa de ambos os gêneros, a pessoa é classificada como bissexual473.
A sexualidade, apesar de ser um assunto sobre o qual se evita falar abertamente, dada a carga moral que envolve, é um aspecto natural da personalidade humana. A felicidade e a dignidade da pessoa estão amalgamados à vivência plena da orientação sexual. Segundo CLÁUDIO BAHIA: “inegável se mostra a assertiva de que a sexualidade é um dos componentes intrínsecos a qualquer ser humano, e, como tal, deve, obrigatoriamente, estar sob a égide protetiva do dogma fundamental em apreço [dignidade da pessoa]”474.
A existência de um vetusto standard, quanto à orientação sexual, em contraposição a outros vieses enseja, de alguma forma, segmentação. De um lado, há o comportamento heterossexual; de outro, comportamentos desviados; “é o que se chama de heterossexismo”475. Nas palavras de MARIA BERENICE DIAS:
O comportamento sexual divergente da ordem da heterossexualidade é situado fora dos estereótipos, restando rotulado de anormal, ou seja, fora da normalidade. O que não se encaixa nos padrões é rejeitado pelo simples fato de ser diferente. A discussão é invariavelmente fulcrada na moralidade, imoralidade ou amoralidade, sem se buscar a identificação de suas origens: se orgânicas, sociais ou comportamentais476.
473 DIAS, Maria Berenice. Homoafetividade e os direitos LGBTI. 6ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 42. “Não se fala em opção sexual, mas em orientação sexual, expressão que significa que o desejo sexual está em direção a determinado gênero. (...) a orientação sexual – quer para heterossexuais, quer para homossexuais – não parece ser algo que uma pessoa escolha” (Ibid.). 474 BAHIA, Claudio José Amaral. Proteção constitucional à homossexualidade. Leme: Mizuno, 2006, p. 75.
475 DIAS, Maria Berenice. op. cit., p. 35. 476 Id., destaques nossos.
Neste quadrante, os LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros [travestis e transexuais]), por não serem vistos como “naturais” ou “normais”, passam por todo tipo de discriminação, preconceito e violência. Como destaca ANA CRISTINA SANTOS:
(...) avolumam-se as evidências históricas da opressão que vitimou homens e mulheres homossexuais, bissexuais e transgêneros ao longo de séculos, à mercê da hegemonia heterossexual. Desde os tempos do Tribunal da Santa Inquisição até hoje, são conhecidos inúmeros casos de perseguição, tortura e morte com base na orientação sexual, o que ainda é legalmente permitido em muitos países477.
Como afirmou CONTARDO CALLIGARIS em coluna semanal no jornal Folha de São Paulo, “de fato, os homossexuais, sem nem mencionar os transgêneros, morreram nos grandes matadouros do século 20 e, da democrática Inglaterra até a Cuba comunista, foram vítimas de perseguições até os anos 1960, no mínimo”478.
Para ALEXANDRE BAHIA, “a discriminação contra homossexuais no Brasil (e, de resto, no mundo) está intimamente ligada a questões sexistas quanto a papéis de gênero e de relação de desigualdade entre estes, de forma que o gênero masculino estaria em oposição ao gênero feminino (sexismo)”479. Dessa forma, a homofobia estaria presente nos países nos quais as mulheres são mais subjugadas pela população masculina.
MARIA BERENICE DIAS apresenta como razão para a aversão ao homossexualismo o fato de ser este considerado um risco à família tradicional (casamento heterossexual e prole), ou seja, um risco “à sobrevivência da instituição
477 SANTOS, Ana Cristina. Orientação sexual em Portugal: para uma emancipação. In SANTOS, Boaventura de Sousa (org). Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo
multicultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 337.
478 CALLIGARIS, Contardo. O mistério de Viviany. Edição de 18.06.2015. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2015/06/1643675-o-misterio-de-
viviany.shtml. Acesso em 18.6.2015.
479 BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. Proteção à minoria LGBT no Brasil: avanços e desafios. In JUBILUT, Liliana Lyra. BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. MAGALHÃES, José Luiz Quadros. Direito à diferença: aspectos de proteção específica às minorias e aos grupos vulneráveis. Vol. 2. São Paulo, Saraiva, 2013, p. 340.
em seu papel de mantenedora de toda uma ordem social: hierarquia entre os sexos, meio para a transmissão da propriedade e, principalmente, valores tradicionais”480. Os LGBT (lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros [travestis e transexuais]) são minorias que sofrem no Brasil e no exterior discriminação no trabalho, são rejeitados como pais adotivos481, além de sofrerem violência física e verbal, em razão “de uma sociedade que continua a ser patriarcal e heterossexista”482. O patriarcalismo, conforme ensina MANUEL CASTELLS “caracteriza-se pela autoridade, imposta institucionalmente, do homem sobre a mulher e filhos no âmbito familiar”483, além de exigir uma “heterossexualidade compulsória”484.
A respeito desse cenário preconceituoso e discriminatório, alerta BERENICE DIAS:
A rejeição gera o ódio que se manifesta nas mais diversas formas de homofobia: bullyng nas escolas, do mobbing no trabalho, às agressões físicas e psíquicas e a um assustador número de homicídios. A discriminação contra homossexuais é uma histórica, universal, notória e inquestionável realidade social485.
É nesse sentido a manifestação da ONU sobre a vulnerabilidade da minoria ora em foco, apontando as preocupações e alguns caminhos a serem adotados para minimizar e eliminar a discriminação em razão da orientação sexual:
480 DIAS, Maria Berenice. Homoafetividade e os direitos LGBTI. 6ª ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2014, p. 37.
481 O Projeto de Lei nº 2.153/2011 proposto pela Deputada Federal Janete Rocha Pietá, o qual pretendia alterar o § 2º do art. 42 da Lei nº 8.069 de 13 de junho de 1990, para permitir a adoção de crianças e adolescentes por casais homoafetivos, foi arquivado em 31-1-2015 em virtude do fim da
legislatura. Disponível em
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=517660. Acesso em 24-4-2015. Há três Projetos de Leis, PL nº 674/2007, nº 4.508/2008 e nº 7.018/2010 para proibir a adoção por homossexuais; os dois primeiros estão sem andamento e o último foi arquivado.
Disponível em
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=347575; http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=420940;
http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=470695. Acesso em 28-4-2015.
482 SANTOS, Ana Cristina. Orientação sexual em Portugal: para uma emancipação. In SANTOS, Boaventura de Sousa (org). Reconhecer para libertar: os caminhos do cosmopolitismo
multicultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 346.
483 CASTELLS, Manuel. O poder da identidade. Vol. II. 8ª ed. São Paulo: Paz e Terra, 2013, p. 169. 484 Ibid., p. 238.
Lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros (LGBT) são vulneráveis a uma série de violações de direitos humanos, incluindo violência homofóbica, assassinatos, estupro, prisão arbitrária e discriminação generalizada no ambiente de trabalho e no acesso a serviços básicos, como moradia e cuidados de saúde. Em mais de 70 países, leis criminalizam o homossexualismo, expondo milhões ao risco de detenção, prisão e, em alguns casos, execução. O Secretário-Geral da ONU, a Alta Comissária dos Direitos Humanos e Chefes de várias agências da ONU se manifestaram – pedindo a descriminalização da homossexualidade em todo o mundo, e medidas adicionais para proteger pessoas da violência e da discriminação baseadas na orientação sexual e na identidade de gênero486.
No Brasil, a partir da Constituinte nomeada para a elaboração da
Constituição de 1988 a proteção dessa minoria atraiu atenção. A expressão
“orientação sexual” “esteve presente em pelo menos duas Comissões da Assembleia Nacional Constituinte”487, as quais sugeriram sua inclusão no atual art. 3º, IV488. A sugestão não foi acolhida por ter sido considerada “desnecessária”, dada a amplitude da redação do referido dispositivo ao rechaçar “preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”489. Conforme explica JOSÉ AFONSO DA SILVA, a respeito da não inclusão da expressão “orientação sexual” no art. 3º, IV da Constituição:
A questão mais debatida feriu-se em relação à discriminação dos homossexuais. Tentou-se introduzir uma norma que a vedasse claramente, mas não se encontrou uma expressão nítida e devidamente definida, que não gerasse extrapolações inconvenientes. Uma delas consistiu em conceder igualdade, sem discriminação, de orientação sexual, reconhecendo, assim, na verdade, não apenas a igualdade, mas igualmente à liberdade de as pessoas de ambos os sexos adotarem a orientação sexual que quisessem. Teve-se
486 ONU. Combate à discriminação com base na orientação sexual e na identidade de gênero. Disponível em http://www.onu.org.br/docs/discriminacao-onu-pt_br.pdf. Acesso em 29.10.2015. 487 BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. SANTOS, Daniel Moraes dos. O longo caminho contra
a discriminação por orientação sexual no Brasil no constitucionalismo pós-88: igualdade e liberdade religiosa. In Revista Mandrágora, v. 18, n. 18, 2012, p. 7. Disponível em
https://www.metodista.br/revistas/revistas-ims/index.php/MA/article/viewFile/3228/3319. Acesso em 28-4-2015. Tratam-se da Comissão da Soberania e dos Direitos e Garantias do Homem e da Mulher e da Comissão da Ordem Social.
488 Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
489 Cf. BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. SANTOS, Daniel Moraes dos. op. cit., p. 7-8. Disponível em https://www.metodista.br/revistas/revistas- ims/index.php/MA/article/viewFile/3228/3319. Acesso em 28-4-2015.
receio de que essa expressão albergasse deformações prejudiciais a terceiros. Daí optar-se por vedar distinções de qualquer natureza e qualquer forma de discriminação, que são suficientemente abrangentes para recolher também aqueles fatores que têm servido de base para desequiparações e preconceitos490.
Nesse passo, LUIZ ALBERTO DAVID ARAÚJO, ao abordar a “proteção [constitucional] do transexual e seu direito de redesignação sexual”491, considera estar implícito no art. 3º, IV da Constituição Federal o direito à felicidade, a qual só poderá ser vivenciada plenamente pelas minorias sexuais quando a orientação sexual não for um fator discriminatório:
Ao arrolar e assegurar princípios como o do Estado Democrático, o da dignidade da pessoa humana e o da necessidade de promoção do bem de todos, sem qualquer preconceito, o constituinte garantiu o direito à felicidade. Não o escreveu de forma expressa, mas deixou claro que o Estado, dentro do sistema nacional, tem a função de promover a felicidade, pois a dignidade, o bem de todos, pressupõe o direito de ser feliz. Ninguém pode conceber que um Estado tenha como objetivo a promoção do bem de todos possa colaborar para a infelicidade do indivíduo. Portanto, a interpretação constitucional leva à busca da felicidade do indivíduo, não se uma infelicidade. E, como veremos adiante, felicidade pressupõe atenção aos valores da minoria492.
Para ANDRÉ DE CARVALHO RAMOS, “o direito fundamental à livre orientação sexual consiste no direito ao respeito, por parte do Estado e de terceiros, da preferência sexual e afetiva de cada um, não podendo dela ser extraída nenhuma consequência negativa ou restrição de direitos”493
Em que a pese a Constituição de 1988 destacar o princípio da dignidade humana (art. 1º, III) como um dos fundamentos da República, bem como rejeitar veementemente a discriminação ou preconceito (por qualquer que seja a razão), não
490 SILVA, José Afonso da. Comentário contextual à constituição. 5ª ed. São Paulo: Malheiros, 2008, p. 48, destaques nossos.
491 ARAUJO, Luis Alberto David. A proteção constitucional do transexual. São Paulo: Saraiva, 2000, p. 74.
492 Id., destaques nossos.
há no País lei federal que cuide especificamente da discriminação em razão da orientação sexual494.
Assim, é possível afirmar que os avanços sociais e a crescente tolerância em relação à diversidade sexual não vêm sendo refletida na produção legislativa. As razões são, na maioria das vezes, de ordem moral e religiosa, não se atentando para a uma das finalidades da democracia, qual seja, a proteção das minorias e a laicidade do Estado. Talvez, isso se deva à cultura patriarcal e autoritária impregnada na sociedade brasileira.
Contudo, importante mencionar que a legislação brasileira tem considerado a orientação sexual nos seus dispositivos como se observa, por exemplo, da Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/06), que em seu artigo 5º, considera família ou âmbito familiar qualquer relação íntima de afeto (inciso III), bem como a comunidade formada por indivíduos unidos por vontade expressa (inciso II). O Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (PRONASCI), criado pela Lei nº 11.530/2007 (com redação dada pela Lei nº 11.707/2008) elenca como uma de suas diretrizes a promoção dos direitos humanos, intensificando uma cultura de paz e de combate sistemático aos preconceitos de gênero, étnico, racial, geracional, de orientação sexual e de diversidade cultural (art. 3º, I).
O Estatuto da Juventude (Lei 12.852/2013), no artigo 17, garante ao jovem o direito à diversidade e à igualdade de direitos e de oportunidades, sem discriminação por motivo de orientação sexual (inciso II). O Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei nº 13.146/2015), ao assegurar atenção integral, universal e
494 Cf. BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. Proteção à minoria LGBT no Brasil: avanços e
desafios. In JUBILUT, Liliana Lyra. BAHIA, Alexandre Gustavo Melo Franco. MAGALHÃES, José
Luiz Quadros. Direito à diferença: aspectos de proteção específica às minorias e aos grupos
vulneráveis. Vol. 2. São Paulo, Saraiva, 2013, p. 350. Neste ponto, explica PAULO VECCHIATTI: “A criminalização da discriminação por orientação sexual nada mais é do que a imposição estatal de tolerância a qualquer pessoa independente de sua orientação sexual, o que significa dizer que o Estado não admitirá que uma pessoa seja discriminada pelo simples fato de ter uma determinada orientação sexual ao invés de outra” (VECCHIATTI, Paulo Roberto Iotti. Constitucionalidade da
classificação da homofobia como racismo (PLC 122/2006). In DIAS, Maria Berenice (coord).
Diversidade sexual e direito homoafetivos. São Paulo: RT, 2011, p. 517). Importante lembrar que tramitou no Congresso Nacional o Projeto de Lei nº 122/2006 para criminalizar a homofobia, de autoria da Deputada Iara Bernardi, apresentada na Câmara dos Deputados em 2001 e no Senado Federal em 2006, onde tramitou por oito anos, mas sem consenso terminou arquivada em 26.12.2014 por permanecer em discussão por três legislaturas. Trata-se de projeto de lei para alterar a Lei nº 7.716/89 (Lei dos Crimes de Racismo), o Código Penal e a Consolidação das Leis do Trabalho, para definir os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de gênero, sexo, orientação sexual e identidade de gênero, além de estabelecer as tipificações e delimitar as responsabilidades do ato e dos agentes. O andamento completo do PL nº 122/2006 está disponível em http://www25.senado.leg.br/web/atividade/materias/-/materia/79604. Acesso em 30.10.2015.
igualitário à saúde da pessoa com deficiência (art. 18), determina que as ações e os serviços de saúde pública respeitem a especificidade, a identidade de gênero e à
orientação sexual da pessoa com deficiência (art. 18, § 4º, VI).
No Supremo Tribunal Federal, a discussão acerca da liberdade de orientação sexual foi objeto da ADPF nº 132-RJ, julgada em 5 de maio de 2011 sob a relatoria do Ministro Ayres Britto. Trata-se de importante precedente no qual o Tribunal Pleno entendeu por dar interpretação conforme ao art. 1.723 do Código Civil495“para excluir do dispositivo em causa qualquer significado que impeça o reconhecimento da união contínua, pública e duradoura entre pessoas do mesmo sexo como família”496, equiparando a união homoafetiva à união estável heteroafetiva. O julgado se afina às corretes doutrinárias citadas linhas atrás:
O sexo das pessoas, salvo disposição constitucional expressa ou implícita em sentido contrário, não se presta como fator de desigualação jurídica. Proibição de preconceito, à luz do inciso IV do art. 3º da Constituição Federal, por colidir frontalmente com o objetivo constitucional de “promover o bem de todos”. Silêncio normativo da Carta Magna a respeito do concreto uso do sexo dos indivíduos como saque da kelseniana “norma geral negativa”, segundo a qual “o que não estiver juridicamente proibido, ou obrigado, está juridicamente permitido”. Reconhecimento do direito à preferência sexual como direta emanação do princípio da “dignidade da pessoa humana”: direito a autoestima no mais elevado ponto da consciência do indivíduo. Direito à busca da felicidade. Salto normativo da proibição do preconceito para a proclamação do direito à liberdade sexual. O concreto uso da sexualidade faz parte da autonomia da vontade das pessoas naturais. Empírico uso da sexualidade nos planos da intimidade e da privacidade constitucionalmente tuteladas. Autonomia da vontade. Cláusula pétrea497.
FLÁVIA PIOVESAN, por seu turno, traz valorosas informações acerca da jurisprudência internacional dos sistemas global e regional a respeito da proteção à diversidade sexual. Mesmo revelando “a ausência de um consenso normativo”498, as
495 Art. 1.723. É reconhecida como entidade familiar a união estável entre o homem e a mulher, configurada na convivência pública, contínua e duradoura e estabelecida com o objetivo de constituição de família.
496 STF, ADPF nº 132-RJ, Tribunal Pleno, Relator Ministro Ayres Britto, julgado em 05.05.2011, v.u. 497 Id.
decisões vêm apresentando “avanços extraordinários”499 nas duas últimas décadas. Anota a autora:
A inovadora jurisprudência global e regional tem sido capaz de romper com a indiferença, na afirmação do direito à igualdade com respeito à diversidade. Os direitos humanos simbolizam o idioma da alteridade: ver no outro um ser merecedor de igual consideração e profundo respeito, dotado do direito de desenvolver as potencialidades humanas, de forma livre, autônoma e plena. É a ética orientada pela afirmação da dignidade e pela prevenção ao sofrimento humano.
(...).
A impactante jurisprudência dos sistemas global e regionais europeu e interamericano revela a importância da justiça em assegurar que direitos triunfem, por vezes, de forma contramajoritária, no exercício de um contrapoder emancipatório radicado no princípio da prevalência da dignidade humana500.
O avanço jurisprudencial culminou com aprovação, em 6 de junho de 2013, da Convenção Interamericana Contra Toda Forma de Discriminação e
Intolerância, pela Organização dos Estados Americanos, em Antígua, na
Guatemala. Trata-se do “primeiro documento internacional juridicamente vinculante a expressamente condenar a discriminação baseada em orientação sexual, identidade e expressão de gênero”501.
O posicionamento das minorias formadas pela orientação sexual, no tocante à liberdade de expressão, oscilam entre a exigência de linguagem “politicamente correta”, e o desprezo por ela. A título de ilustração, a cartilha intitulada “Politicamente Correto e Direitos Humanos” 502, lançada pelo Governo Federal em
499 PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 445. Vide Capítulo 19 da obra citada, p. 429-447.
500 Ibid., p. 447.
501 Conforme notícia veiculada pelo Ministério das Relações Exteriores em 7 de junho de 2013.
Disponível em
http://www.itamaraty.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=2361&catid=42:n otas&Itemid=280&lang=pt-BR. Acesso em 27-9-2015. Explica MARIA BERENICE DIAS que “a expressão homossexualismo, foi afastada por significar ‘desvio ou transtorno sexual’. O sufixo ‘ismo’ utilizado para identificar doença foi substituído por ‘dade’, que quer dizer “um modo de ser”. Assim, surgiu a palavra homossexualidade, que, na Classificação Mundial das Doenças – CID, passou a nominar: ‘transtorno da preferência sexual’. Texto disponível no site da autora: http://www.mariaberenice.com.br/uploads/14_-_politicamente_correto.pdf. Acesso em 20.10.2015.
502 QUEIROZ, Antônio Carlos. Politicamente correto e direitos humanos. Brasília: Secretaria Especial dos Direitos Humanos, 2004. Disponível em
2005, sugere que a palavra “homossexualismo” seja substituída por “homossexualidade (...), para definir a orientação sexual das pessoas que sentem atração ou mantêm relações amorosas ou sexuais com pessoas do próprio sexo”, pois "descreve essa condição de forma neutra”. Para o “politicamente correto”, homossexualismo “tem uma forte carga pejorativa ligada à crença de que a orientação homossexual seria uma doença, uma ideologia ou um movimento político a que as pessoas aderem de maneira voluntária”. No entanto, como aponta MARIA BERENICE DIAS, “não se trata apenas de buscar palavras politicamente corretas, mas – sobretudo – posturas humanas e sociais, libertárias e democraticamente corretas”503.
É nesse passo que o “politicamente correto” interfere na liberdade de expressão; ora invocado pelas minorias para “ganhar voz”, ora invocado para “alterar a voz” de quem a eles se refere. É um comportamento que, às vezes, soa contraditório.
http://www.dhnet.org.br/dados/cartilhas/a_pdf_dht/cartilha_politicamente_correto.pdf. Acesso em 24.10.2015.
503 Texto disponível no site da autora: http://www.mariaberenice.com.br/uploads/14_- _politicamente_correto.pdf. Acesso em 20.10.2015. Sob outro prisma, os mesmos homossexuais que comemoram o primeiro beijo gay na novela Amor à Vida, se insurgiram contra o autor da trama por caracterizar o personagem como uma pessoa má (novela transmitida pela Rede Globo em 2013- 2014). Ao ser questionado a respeito das críticas sofridas, WALCYR CARRASCO afirmou que “o politicamente correto virou uma obsessão” (Entrevista concedida ao jornal Folha de São Paulo. Versão impressa. Edição de 7 de abril de 2013). Houve descontentamento, no mesmo sentido, em relação a outro personagem homossexual, interpretado na novela Império, considerado caricato em excesso por alguns homossexuais (novela de autoria de Agnaldo Silva, transmitida pela Rede Globo em 2014-2015).