4. THE ROLE OF SPATIAL DESIGN IN THE CAPITALIST PRODUCTION OF
4.3. Production of Housing in Turkey: Actors and Relations
4.3.1. Early Republican Period (1923-1950)
JANE PEREIRA, amparada pelas concepções filosóficas de ROUSSEAU e LOCKE, refere: “a ideia de que é preciso limitar as ações humanas para viabilizar a coexistência das pessoas é tributária da própria noção de liberdade” 217.
Para KANT, o homem social não renuncia à sua liberdade em troca de proteção e segurança, pois sua liberdade só existe na convivência com a liberdade de seus semelhantes. É esta “a condição de vida correspondente à sua natureza de ser racional”218. Nas palavras do filósofo: “É justa toda a ação que, por si, ou por sua máxima, não constitui um obstáculo à conformidade da liberdade do arbítrio de todos com a liberdade de cada um segundo leis universais”219. A lei universal referida por KANT é a lei que impõe a obrigação de respeitar a liberdade do outro, sendo este o limite atribuído à liberdade220. Assim, tendo em conta que a obrigação exigível decorre do ordenamento jurídico, a liberdade só existe enquanto limitada por esse mesmo ordenamento.
Importante trazer à baila a concepção de liberdade defendida por STUART MILL, para quem esta só merece ser restringida em benefício da coletividade e do outro:
O único objetivo pelo qual a humanidade pode, de forma individual ou coletiva, interferir com a liberdade de ação de qualquer de seus membros, é a proteção dela própria. E que o único propósito pelo qual o poder pode ser constantemente exercido sobre qualquer membro de uma comunidade, contra a vontade deste, é o de prevenir danos aos outros membros. O próprio bem dele, seja físico ou moral, não é causa suficiente. [...] Para justificar uma intervenção, a conduta que se deseja
217 JANE REIS GONÇALVES PEREIRA expõe as duas concepções filosóficas fundamentais sobre a liberdade: (i) a liberdade como autonomia, preconizada por ROUSSEAU; (ii) a liberdade como
heteronomia defendida pelos jusnaturalista liberais, como LOCKE. Para ROUSSEAU, a liberdade
não se traduz em abstenções do Estado, mas decorre do fato de as pessoas obedecerem a leis de cuja elaboração participaram. Para LOCKE, a liberdade é a ausência de obstáculos (Cf. Interpretação
constitucional dos direitos fundamentais: uma contribuição ao estudo das restrições aos direitos fundamentais na perspectiva da teoria dos princípios. Rio de Janeiro: Renovar, 2006, p. 132).
218 Cf. CICCO, Cláudio. Introdução à Doutrina do Direito de Immanuel Kant. In KANT, Immanuel.
Doutrina do direito. 4ª ed. São Paulo: Ícone, 2013, p. 9. “Por seu turno, Kant defendia o direito como ‘uma justa restrição à liberdade de cada um para que todas as liberdades coexistam” (FARIAS, Edilsom. Liberdade de expressão e comunicação: teoria e proteção constitucional. São Paulo: Revista dos Tribunais, p. 243). “Atue externamente de maneira que o uso livre do teu arbítrio possa estar de acordo com a liberdade de qualquer outro segundo uma lei universal” (PEREIRA, Jane Reis Gonçalves. op. cit., p. 133).
219 KANT, Immanuel. Doutrina do direito. 4ª ed. São Paulo: Ícone, 2013, p. 49. 220 Ibid., p. 50.
impedir da parte dele deve ameaçar outra pessoa. [...] Naquela parte que só diz respeito a si mesma, a independência de cada pessoa é, por direito, absoluta. Sobre si mesmo, sobre seus próprios corpo e mente, o indivíduo é soberano221.
Por outro ângulo, ISAIAH BERLIN, ao citar BENJAMIN CONSTANT, “o mais eloquente de todos os defensores da liberdade e privacidade”222, afirma que “devemos preservar um mínimo de liberdade pessoal”, especialmente no tocante à “liberdade de religião, opinião, expressão e propriedade”223, sob pena de “degradar ou negar nossa natureza”224.
As concepções filosóficas acima expostas fazem deferência ao Estado Democrático de Direito como instituição essencial para a “manutenção de um ordenamento jurídico como condição para a coexistência das liberdades externas”225. Porém, um dos problemas da democracia é a invasão da liberdade pela maioria. Nesse sentido o pensamento de TZVETAN TODOROV:
O princípio democrático recomenda que todos os poderes sejam limitados: não só os dos Estados, mas também os dos indivíduos, inclusive quando veste os ouropéis da liberdade. (...).
Através das leis e das normas que estabelece, o povo soberano tem de fato o direito de restringir a liberdade de todos, porque ela pode tornar-se uma ameaça. A tirania dos indivíduos é certamente menos sanguinária que a dos Estados; mas também é um obstáculo a uma vida comum satisfatória. Nada nos obriga a limitar-nos à escolha entre “o Estado é tudo” e “o indivíduo é tudo”: precisamos defender
221 MILL, Stuart. Sobre a liberdade. São Paulo: Hedra, 2010, p. 21, destaque nosso. Explica o autor o que entende por “autoproteção” e “prevenir danos às outras pessoas”: “trata-se do direito à vida, o direito à autopreservação da vida de outrem, o exemplo clássico” (Id.). Assim, se uma conduta não causa prejuízos a terceiros, salvo a quem pratica a própria conduta (como por exemplo, um homem solteiro e sem ligações que gaste todo seu dinheiro em bebida), aceita-se apenas a reprovação moral da sociedade, sem que um “poder legal” restrinja a liberdade de ação daquele que se autoprejudica (Ibid., p. 21-22). O autor ressalva que essa doutrina “deve ser aplicada somente em serem humanos que estejam na maturidade de suas faculdades” (Ibid., p. 50). O autor aponta, ainda, outro tipo de restrição à liberdade, diverso daquele advindo da lei: “Acresce, porém, outro tipo de controle, o controle da sociedade sobre seus membros, que numa sociedade composta por muitos membros caracteriza-se por ser uma tirania da maioria, quando a sociedade é ela mesma a sociedade-tirana, coletivamente, sobre os indivíduos que a compõem” (Ibid., p. 23).
222 BERLIN, Isaiah. Estudos sobre a humanidade: uma antologia de ensaios. Companhia das Letras: São Paulo, 2002, p. 233.
223 Id.
224 Id. Prossegue o autor: “Não podemos permanecer totalmente livres e devemos abrir mão de alguma liberdade própria para preservar o resto. Mas a rendição total do eu é a derrota do eu” (Id.). 225 CICCO, Cláudio. Introdução à Doutrina do Direito de Immanuel Kant. In KANT, Immanuel.
os dois, Estado e indivíduo, cada um limitando os abusos do outro226.
A Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão de 1789, ao dispor sobre “os direitos naturais, inalienáveis e sagrados do homem”, consagrou “a livre comunicação das ideias e das opiniões”, como “um dos mais preciosos direitos do homem” (art. 11). Estabeleceu também que “todo cidadão pode, portanto, falar, escrever, imprimir livremente, respondendo, todavia, pelos abusos desta
liberdade nos termos previstos na lei”227. Em outras palavras, a liberdade de expressão não admite abusos; eis a primeira restrição.
No mesmo sentido as colocações de STUART MILL:
A liberdade de expressão e de opiniões também não é irrestrita: uma coisa é afirmar, numa roda de amigos, que toda propriedade é um roubo. Bem outra é expressar a mesma opinião aos brados, acompanhando de uma multidão enfurecida, diante da mansão de uma pessoa rica228.
Acompanhando o modelo francês, a República Federativa do Brasil – Estado Democrático de Direito (art. 1º, caput, da Constituição Federal de 1988) –, ao adotar como um de seus fundamentos a dignidade da pessoa humana (art. 1º, III), não admite direitos absolutos.
Pode-se afirmar que o direito fundamental à liberdade de expressão229, “a despeito de seu inestimável valor para o indivíduo (preservação da dignidade e das habilidades intelectuais da pessoa humana) e para a sociedade (formação da opinião
226 TODOROV, Tzvetan. Os inimigos da democracia. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, p. 149, destaque nosso. Acresce o autor: “Por definição, nenhuma sociedade organizada atribui liberdade ilimitada aos seus habitantes, visto que adota um corpo de leis” (idem, p. 150). “Depois de 1968, declarou-se com frequência que é proibido proibir, esquecendo-se que não há sociedade sem proibições, sem normas e, portanto, também subordinação. A frase ‘os homens nascem livres e iguais’ procede de um espírito generoso e por servir a objetivos louváveis, mas, no plano antropológico, é uma inverdade” (Ibid., p. 180).
227 Disponível em http://www.direitoshumanos.usp.br. Acesso em 12.3.2014. 228 MILL, Stuart. Sobre a liberdade. São Paulo: Hedra, 2010, p. 26, destaque nosso.
229 Invocando o pensamento de JANE REIS GONÇALVES PEREIRA, por fundamental entende-se aquilo que é essencial para “a implementação da dignidade humana. Essa noção é relevante pois, no plano constitucional, presta-se como critério para identificar direitos fundamentais fora do catálogo”, não havendo como conceber uma vida digna sem a possibilidade de expressão livre. (Interpretação constitucional dos direitos fundamentais: uma contribuição ao estudo das
restrições aos direitos fundamentais na perspectiva da teoria dos princípios. Rio de Janeiro:
e da discussão pública no regime democrático)”230, está submetido aos objetivos da República: “promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (art. 3º, IV da Constituição).
Ademais, a Constituição de 1988 não admite violação “à intimidade, à vida privada, à honra e à imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação” (art. 5, X). Permitem-se outras restrições constitucionais à liberdade de expressão231, como no caso de defesa da “segurança da sociedade e do Estado”, impondo-se o sigilo de informações públicas ou particulares (art. 5º, XXXIII). A Constituição limita, ainda, a propaganda de bebidas alcóolicas, tabaco, medicamentos e terapias (art. 220, § 4º), bem como determina que a produção e a programação das emissoras de rádio e televisão deem preferência a finalidades educativas, artísticas, culturais e informativas; promova a cultura nacional e regional e estimule a produção independente que objetive sua divulgação e, por fim; respeite aos valores éticos e sociais da pessoa e da família (art. 221).
Diante do conjunto normativo inserto na Constituição, PAULO GONET BRANCO entende que “a liberdade de expressão, portanto, poderá sofrer recuo quando o seu conteúdo puser em risco uma educação democrática, livre de ódios preconceituosos e fundada no superior valor intrínseco de todo o ser humano”232. Neste sentir, também não compõe o âmbito de proteção da liberdade de expressão mensagens que provoquem ou incitem a violência, assim como palavras belicosas “que configuram estopins de ação, em vez de pautas de persuasão”233. Porém, não deixa o autor de argumentar:
Isso não pode significar, contudo, que palavras duras ou desagradáveis estejam excluídas do âmbito de proteção da liberdade de expressão. A diferença entre uma discussão
230 FARIAS, Edilsom. Liberdade de expressão e comunicação: teoria e proteção constitucional. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004, p. 242.
231 No caso da liberdade de expressão, além das restrições advindas do respeito aos direitos fundamentais e aos objetivos da República acima citados, o artigo 220, § 3º da Constituição Federal/88 expressamente delegou ao legislador federal a regulação (rectius, restrição) das “diversões e espetáculos públicos, cabendo ao poder público informar sobre a natureza deles, as faixas etárias a que não se recomendem, locais e horários em que sua apresentação se mostre inadequada” (art. 220, §3º, inciso I); bem como da “propaganda de produtos, práticas e serviços que possam ser nocivos à saúde e ao meio ambiente” (inciso II).
232 MENDES, Gilmar Ferreira. BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de direito constitucional. 9ª ed. São Paulo: Saraiva: 2014, p. 271.
robusta e uma diatribe repelida pela Constituição, está em que, no primeiro caso, há chance e oportunidade de se corrigirem os erros do discurso, expondo a sua falsidade e as suas falácias, evitando o mal por meio de um processo educativo. Nesses casos, o remédio seria mais liberdade de expressão, mais discurso. No caso desviado da Constituição, essa perspectiva não existe234.
Nessa seara restritiva inclui-se o discurso do ódio ou hate speech, como como é denominado no Direito Comparado235, o qual abarca, como explica DANIEL SARMENTO, além da manifestação de ódio, as manifestações de “desprezo ou intolerância contra determinados grupos, motivadas por preconceitos ligados à etnia, religião, gênero, deficiência física ou mental e orientação sexual, dentre outros fatores”236.
O emblemático “Caso Ellwanger”, apreciado no Supremo Tribunal Federal (HC nº 82.424-RS), deu origem à mais importante decisão no Brasil sobre o tema do discurso do ódio frente à liberdade de expressão e à possibilidade de persecução penal pela prática de crime de racismo237. Discutiu-se, na oportunidade, o conteúdo de livros238 editados, distribuídos e vendidos por SIEGFRIED ELLWANGER, os quais, na visão da maioria dos Ministros239, veiculavam “ideias antissemitas, que buscam resgatar e dar credibilidade à concepção racial definida pelo regime nazista, negadoras e subversoras de fatos históricos incontroversos como o holocausto” e por isso “equivalem à incitação ao discrímen com acentuado conteúdo racista”240.
234 MENDES, Gilmar Ferreira. BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de direito constitucional. 9ª ed. São Paulo: Saraiva: 2014, p. 273.
235 Cf. SARMENTO, Daniel. Livres e iguais: estudos de direito constitucional. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2006, p. 208.
236 Id.
237 O art. 20 da Lei Federal nº 7.716/89, com a redação dada pela Lei Federal nº 9.459 de 15 de maio de 1997, considerada crime de racismo “praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Pena: reclusão de um a três anos e multa. Se a conduta “é cometido[a] por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza”. Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa.
238 Trata-se de livro de autoria do paciente, intitulado “Holocausto Judeu ou Alemão? Nos Bastidores da Mentida do Século e de autoria de autores nacionais e estrangeiros: “O Judeu Internacional”, de Henry Ford; “A Histórica Secreta do Brasil”, “Brasil Colônia de Banqueiros” e “Os Protocolos dos Sábios de Sião”, os três de autoria de Gustavo Barroso; “Hitler – Culpado ou Inocente?”, de Sérgio Oliveira; e “Os Conquistadores do Mundo: Os Verdadeiros Criminosos de Guerra” de Louis Marschalko.
239 Vencidos os Ministros Moreira Alves, Relator sorteado, e o Ministro Marco Aurélio que concediam a ordem para reconhecer a prescrição da pretensão punitiva do delito; e o Ministro Carlos Ayres Britto que concedia a ordem, ex-officio, para absolver o paciente por falta de tipicidade de conduta. 240 STF, HC nº 82.424-RS, Tribunal Pleno, Relator para acórdão Ministro Maurício Corrêa, julgado em 10 de setembro de 2003, por maioria.
No tocante à restrição da liberdade de expressão, constou da ementa do julgado:
13. Liberdade de expressão. Garantia constitucional que não se tem como absoluta. Limites morais e jurídicos. O direito à livre expressão não pode abrigar, em sua abrangência, manifestações de conteúdo imoral que implicam ilicitude penal. 14. As liberdades públicas não são incondicionais, por isso devem ser exercidas de maneira harmônica, observados os limites definidos na própria Constituição Federal (CF, artigo 5º, § 2º, primeira parte). O preceito fundamental de liberdade de expressão não consagra o "direito à incitação ao racismo", dado que um direito individual não pode constituir-se em salvaguarda de condutas ilícitas, como sucede com os delitos contra a honra. Prevalência dos princípios da dignidade da pessoa humana e da igualdade jurídica241.
Conforme o voto proferido pelo Ministro CELSO DE MELLO242, “os postulados da igualdade e da dignidade pessoal dos serem humanos constituem limitações externas à liberdade de expressão (...) tendentes a fomentar e a estimular situações de intolerância e de ódio público”. O Ministro introduziu no julgamento o critério da ponderação de bens e valores, desde que “não importe em esvaziamento do conteúdo essencial dos direitos fundamentais”.
Isso porque, como explica JANE PEREIRA, um direito fundamental, tal como é o direito à liberdade de expressão, em razão de seu caráter universal e
sistemático, deve coexistir com outros direitos fundamentais, bem como com
outros bens e direitos protegidos pela Constituição243. Assim, os direitos constitucionais em colisão, conforme expõe CANOTILHO244, são passíveis de harmonização pelo método da ponderação. A harmonização é necessária para a efetivação dos direitos fundamentais, “o que implica logicamente a imposição de limites”245.
241 STF, HC nº 82.424-RS, Tribunal Pleno, Relator para acórdão Ministro Maurício Corrêa, julgado em 10 de setembro de 2003, por maioria.
242 Id.
243 Cf. PEREIRA, Jane Reis Gonçalves. Interpretação constitucional dos direitos fundamentais: uma
contribuição ao estudo das restrições aos direitos fundamentais na perspectiva da teoria dos princípios. Rio de Janeiro: Renovar, 2006, p. 133.
244 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7ª ed., Coimbra: Almedina, 2003, p. 1270-1271.
ROBERT ALEXY amplia o efeito das normas de direitos fundamentais para além das relações Estado-pessoa (verticalizada), admitindo a irradiação de efeitos também paras as relações entre particulares (horizontal)246. A respeito, confiram-se as considerações de WILLIS SANTIAGO GUERRA:
(...) os direitos fundamentais são mais amplos, pois também vinculam particulares, como vimos, e inda dispõe de uma outra dimensão, além daquela subjetiva, que é a dita objetiva, significando isso que os direitos fundamentais não são apenas direitos subjetivos, mas também pautas objetivas de valor e de conformação político-institucional do Estado (...)247.
ALEXY, reproduzindo precedente do Tribunal Constitucional Alemão, expõe os efeitos dos direitos fundamentais no sistema jurídico:
Segundo jurisprudência reiterada do Tribunal Constitucional Federal, as normas de direitos fundamentais contêm não apenas direitos subjetivos de defesa do indivíduo contra o Estado, elas representam também uma ordem objetiva de valores, que vale como decisão constitucional fundamental para todos os ramos do direito, e que fornece diretrizes e impulsos para a legislação, a Administração e a jurisprudência248.
O fato de os direitos fundamentais representarem “também uma ordem objetiva de valores”, significa que os direitos fundamentais são considerados
princípios objetivos que influenciam todo o sistema jurídico249. E princípios, por sua vez, “são normas que ordenam que algo seja realizado na maior medida possível dentro das possibilidades jurídicas e fáticas existentes”250. Explicitando o pensamento do autor, VIRGÍLIO AFONSO DA SILVA esclarece:
Isso significa, entre outras coisas, que, ao contrário do que ocorre com as regras jurídicas, os princípios podem ser realizados em diversos graus. A ideia regulativa é a realização máxima, mas esse grau de realização somente pode ocorrer se as condições fáticas e jurídicas forem ideais, o que dificilmente
246 ALEXY, Robert. Teoria dos direitos fundamentais. 5ª ed. São Paulo: Malheiros, 2012, p. 524. 247 GUERRA, Willis Santiago. Teoria processual da constituição. 3ª ed. São Paulo: RCS Editora, 2007, p. 80.
248 ALEXY, Robert. op. cit., p. 524-525, destaque nosso. 249 Ibid., p. 525.
ocorre nos casos difíceis. Isso porque, ainda que nos limitemos apenas às condições jurídicas, dificilmente a realização total de um princípio não encontrará barreiras na proteção de outros princípios. É justamente a essa possível colisão que Alexy quer fazer referência quando fala em “condições jurídicas”251.
No entanto, o fato de os direitos fundamentais “também” serem princípio, pressupõe a existência de outro elemento a constituir sua estrutura: as regras; como assinala ROBERT ALEXY, “faz-se referência às normas de direitos fundamentais como regras quando se afirma que a Constituição deve ser levada a sério como lei”252. Acerca do que entende por regras, confiram-se as lições do autor:
Já as regras são normas que são sempre ou satisfeitas ou não satisfeitas. Se uma regra vale, então deve se fazer aquilo que ela exige, nem mais nem menos. Regras contém, portanto, determinações no âmbito daquilo que é fática e juridicamente possível253.
Assim, em uma análise estrutural, as disposições de direitos fundamentais, como são aquelas que rezam sobre a liberdade de expressão, assumem caráter dúplice, assinalado por JANE PEREIRA:
(...) entende-se que os catálogos de direitos fundamentais veiculam normas com a estrutura de regras e de princípios. Nessa perspectiva, os direitos fundamentais, enquanto balizadores de definições precisas e definitivas, têm estrutura de regras, mas atrás e ao lado das regras, existem princípios.
Assim, os catálogos de diretos fundamentais possuem dois níveis, um nível de princípios e um nível de regras. Os princípios são subjacentes às regras254.
Esse caráter duplo atinge as “disposições de direitos fundamentais”255, ou seja, atinge o texto, o preceito de um direito fundamental, “mas isso não significa ainda que também as normas de direitos fundamentais compartilhem desse mesmo
251 SILVA. Virgílio Afonso da. Direitos fundamentais: conteúdo essencial, restrições e eficácia. São Paulo: Malheiros, 2009, p. 46, destaque nosso.
252 ALEXY, Robert. Teoria dos direitos fundamentais. 5ª ed. São Paulo: Malheiros, 2012, p. 86. 253 Ibid., p. 91, destaque em negrito nosso; destaque em itálico do original.
254 PEREIRA, Jane Reis Gonçalves. Interpretação constitucional dos direitos fundamentais: uma
contribuição ao estudo das restrições aos direitos fundamentais na perspectiva da teoria dos princípios. Rio de Janeiro: Renovar, 2006, p. 125, destaque nosso.
caráter duplo”256. Para que as normas de direitos fundamentais adquiram esse caráter duplo, é necessário que nela estejam reunidas as densidades das regras
e dos princípios; isso ocorre quando “na formulação da norma constitucional é incluída uma cláusula restritiva com a estrutura de princípios, que, por isso, está sujeita a sopesamento”257. Contudo, como pontua a autora, “uma mesma
disposição que enuncia um direito fundamental pode conter uma norma-regra e
uma norma-princípio. Essa ideia (...) concilia a flexibilidade que é ínsita aos