4. THE ROLE OF SPATIAL DESIGN IN THE CAPITALIST PRODUCTION OF
4.4. Planners and Designers in the Production of Housing in Turkey: A Critical
Etnia, “em sua origem, designava os povos não civilizados [exóticos] (...), estando implícita aí a ideia de progresso. Atualmente, a classificação etnia estende- se a praticamente todas as minorias que pretendem o direito de manter um modo de ser distinto”339. De acordo com o DICIONÁRIO DE CIÊNCIAS SOCIAIS da FGV:
O termo etnia, em geral, é empregado na literatura antropológica para designar um grupo social que se diferencia de outros por sua especificidade cultural. O conceito de etnia está ligado aos conceitos de grupo étnico e de cultura; em muitos casos, etnia também é usada como sinônimo de grupo étnico340.
O DICIONÁRIO HOUAISS traz a vertente antropológica do termo etnia que, apesar de sucinto, atende aos objetivos deste estudo: trata-se de uma “coletividade de indivíduos que se diferencia por sua especificidade sociocultural, refletida principalmente na língua, religião e maneiras de agir”341.
JACQUES D’ADESKY ensina que a comunidade étnica possui, fundamentalmente, um “sentimento de identificação etno-religiosa, etno-racial ou etnolinguística essencialmente cumprido e reconhecido”342. A etnia não se circunscreve ao Estado, pois “a extensão de uma etnia é totalmente independente da dimensão territorial do Estado e as suas características não derivam da forma da organização política deste”343, haja vista o exemplo dos povos ciganos e judeus, “que mantiveram sua identidade cultural sem estarem ligados a um determinado
339 Dicionário de Ciências Sociais/Fundação Getúlio Vargas. Benedito da Silva (coord. geral). 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1987, p. 436.
340 Ibid., p. 435.
341 HOUAISS, Antônio. VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009, p. 847, destaque nosso. Uma conceituação mais completa é encontrada no DICIONÁRIO JURÍDICO OXFORD: “Um grupo numericamente inferior ao resto da população de um estado, cujos membros são nacionais daquele estado e possuem características culturais, religiosas ou linguísticas distintas da população total, e mostra, ainda que implicitamente, um senso de solidariedade, ligada diretamente à preservação social dos seus costumes, religião ou língua. O atentado à extinção de uma minoria étnica pelas forças da maioria de um estado (conhecido como limpeza étnica) pode ser considerado como crime contra a humanidade, justificando intervenção humanitária”. (MARTIN, Elizabeth A. A dictionary of law. Oxford: Oxford University Press, 2003, p. 182. Tradução livre.
342D’ADESKY, Jacques. Racismo e anti-racismos no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2001, p. 190. 343 BOBBIO, Norberto. MATTEUCCI, Nicola. PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. 5ª ed. Vol. 1, Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2000, p. 450.
território”344. Conforme expõe o autor: “a base territorial não é um dado indispensável à existência de grupos étnicos”345, mas sim a consciência de grupo.
Nesse passo, a etnia estaria mais próxima ao conceito de nação que ao conceito de Estado346, ambos propostos por DALMO DALLARI. Segundo o autor, a
nação, mais afeta ao sentido de comunidade que ao de sociedade347, é formada involuntariamente por membros com afinidades espirituais ou psicológicas, com costumes comuns, cuja intenção é a preservação da própria comunidade, envolvidos por um sentimento de solidariedade348. Com essas premissas, JACQUES D’ADESKY propõe o seguinte conceito de etnia:
(...) propomos entender por etnia um grupo cujos membros possuem, segundo seus próprios olhos e ante os demais, uma identidade distinta, enraizada na consciência de uma história ou de uma origem comum, simbolizada por uma herança cultural comum que caracteriza uma contribuição ou uma corrente diferenciada da nação. A consciência desse fato é baseada em dados objetivos, tais como uma língua, raça ou religião comum, por vezes um território comum, atual ou passado, ou ainda, na ausência deste, redes de instituições e associações, embora alguns desses dados possam faltar349.
Alguns autores, equivocadamente, relacionam o termo “etnia” a uma base biológica comum, relacionando-a a um estrito conceito de raça350, o qual, por sua
344 BOBBIO, Norberto. MATTEUCCI, Nicola. PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de política. 5ª ed. Vol. 1, Brasília: Editora Universidade de Brasília, 2000, p. 450.
345 D’ADESKY, Jacques. Racismo e anti-racismos no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2001, p. 53. 346 Segundo DALMO DE ABREU DALLARI, Estado é a “ordem jurídica soberana que tem por fim o bem comum de um povo situado em determinado território” (Elementos de teoria geral do estado. 31ª ed. São Paulo: Saraiva, 2012, p. 122).
347 DALMO DE ABREU DALLARI expõe as diferenças entre sociedade e comunidade: (i) a sociedade se forma voluntariamente em prol de uma finalidade comum, enquanto a comunidade é formada involuntariamente, sem que haja um objetivo a ser atingido, salvo a aspiração de preservar a própria comunidade; (ii) a sociedade liga seus membros por laços jurídicos, enquanto os membros de uma comunidade ligam-se por sentimentos comuns, sem que haja relação jurídica entre eles; (iii) em toda a sociedade há um poder social, enquanto na comunidade isso não é observado, podendo existir, quando muito, centros de prestígio que podem influenciar o comportamento comunitário. (Ibid., p. 135-136).
348 Cf. Ibid., p. 133-138.
349D’ADESKY, Jacques. op. cit., p. 191, destaque nosso.
350 O Dicionário de Ciências Sociais da Fundação Getúlio Vargas traz um conceito defasado do que atualmente se entende por raça, mas vale transcrevê-lo para registro da pesquisa; ademais, ainda hoje há quem o utilize: “Raça é um subgrupo de pessoas que possui uma combinação definida de caracteres físicos de origem genética; essa combinação serve, em grau variável, para distinguir o subgrupo de outros subgrupos da humanidade, e a combinação é transmitida à descendência, fornecendo todas as condições que inicialmente deram origem a que a combinação permanecesse relativamente inalterada; em geral o subgrupo habita, ou habitou, uma região geográfica mais ou
vez, “foi eliminado do vocabulário das ciências sociais (...), mais por razões de ordem ética e política do que científica: os excessos do racismo que contaminaram o conceito científico de raça”351. A respeito do conceito de raça, destacam-se as considerações de D’ADESKY:
Existe um consenso comum de que raça remete, simbolicamente, a uma origem comum. Seja qual for seu grau de indeterminação, ela evidencia a continuidade das descendências, o parentesco pelo sangue, a hereditariedade das características fisiológicas, e mesmo das psicológicas e sociais. Mas, do ponto de vista da genética, a ideia de raça é desprovida de conteúdo ou valor científico. Raça não é um conceito operacional. Portanto, não permite fixar, na área da pesquisa genética, sistemas de classificação universal.
(...).
Do ponto de vista da genética, não existe raça branca ou negra. Não existe raça ariana ou latina. Também não existe raça brasileira. Os povos nunca cessaram de se misturar uns com os outros. Daí a evidente diversidade dos tipos físicos que formam a população mundial352.
No entanto, pondera o autor que, a despeito da inexistência de uma raça baseada numa característica biológica/genética comum, nem por isso o termo deveria ser abandonado, pois as pessoas, em geral, não veem umas às outras com olhar científico, mas apenas assimilam as características visíveis, mantendo em evidência uma “raça simbólica”, uma “raça percebida e invariavelmente interpretada”353. Evitar ou suprimir o termo “raça”, como se tal atitude fizesse desaparecer o racismo ou o preconceito, “é uma tentação do politically correct”354.
Importante pontuar que a Constituição de 1988 utiliza o termo “raça” no art. 3º, IV, justamente para afirmar, como um dos objetivos fundamentais da República, a promoção do bem de todos, sem preconceitos ou discriminação. No entendimento de JOSÉ AFONSO DA SILVA, o preconceito de raça e cor tem por alvo, via de regra, a população negra. Porém, já afirmou o Supremo Tribunal Federal,no
menos restrita” (Dicionário de Ciências Sociais/Fundação Getúlio Vargas. Benedito da Silva (coord. geral). 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getúlio Vargas, 1987, p. 1020).
351 Ibid., p. 436.
352D’ADESKY, Jacques. Racismo e anti-racismos no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas, 2001, p. 44-45. 353 Ibid., p. 45-46.
paradigmático “Caso Ellwanger” (HC nº 82.424-RS)355, que qualquer discriminação negativa com base em estigmas evidenciam a prática do racismo.
A respeito do conceito de raça, JOSÉ AFONSO DA SILVA assim comenta:
Emprega-se “raça”, que não é termo suficientemente claro, porque, com a miscigenação, vai perdendo sentido. Convém, no entanto, verificar que sentido tem o termo “raça” na Constituição, para que não se esvazie seu conteúdo condenatório sob o argumento de que não existe raça. A questão constitucional não está a perquirir se existe ou não “raça”, porque essa é uma indagação científica, que foge ao seu objeto. Ela parte da ideia de que há uma concepção social de “raça”, fundada em certas correntes antropológicas (Gobineau, por exemplo), que dá ao termo um sentido discriminatório sob o fundamento da existência de raças inferiores e raças superiores (...)356.
O Supremo Tribunal Federal, ao apreciar o supracitado “Caso Ellwanger”, debateu exaustivamente o conceito de raça. O voto do Relator para acórdão, Ministro MAURÍCIO CORREA, acolhendo parecer ofertado por CELSO LAFER e atento à orientação multicultural das sociedades atuais, assim se manifestou:
(...) raça é, sobretudo, uma construção social, negativa ou positiva, conforme o objetivo que lhe queira dar. Assim, o problema não está na existência ou não de raças, mas no sentido que se dá ao termo. Se atribuirmos caracteres inerentes, naturais e inseparáveis, às diferenças físicas, psíquicas, linguísticas ou etno-religiosas de qualquer população, estaremos sendo racistas, quase sempre para o mal. Veja-se que, se abstrairmos a questão social, chegaremos em face das descobertas do projeto genoma, ao absurdo de concluir que o racismo não existe, consequência lógica da ausência de raças357.
Conforme exposto por CELSO LAFER, o termo “raça” transcende qualquer conceituação fundada em características biológicas, transformando-se numa “construção histórico-social, voltada para justificar a desigualdade”; explica o autor:
355 STF, HC nº 82.424-RS, Tribunal Pleno, Relator para acórdão Ministro Maurício Corrêa, julgado em 10 de setembro de 2003, por maioria.
356 SILVA, José Afonso da. Comentário contextual à constituição. 5ª ed. São Paulo: Malheiros, 2008, p. 49, destaques nossos.
O avanço do conhecimento e o desvendar do sequenciamento do genoma humano se incumbiram de mostrar que não há fundamentação biológica em qualquer subdivisão racial da espécie humana e que os critérios de diferenças visíveis, a começar pela cor da pele, são apenas juízos de aparência. Neste sentido as ciências biológicas são um elemento adicional para a afirmação do princípio da igualdade e da não discriminação, que resultaram da positivação do valor do ser humano. As teorias racistas não têm fundamentação biológica. Persistem, no entanto, como fenômeno social358.
O artigo 4º da Constituição, por seu turno, estabelece o repúdio ao terrorismo e ao racismo como um dos princípios que regem as relações internacionais do Brasil (inciso VIII), considerado crime inafiançável (art. 5º, XLII), cuja interpretação, na visão de CELSO LAFER, deve favorecer amplamente “o conteúdo do direito nele contemplado”, uma vez que “nessa interpretação, o Direito Interno e o Direito Internacional interagem e não são estanques com vistas a reforçar a imperatividade do direito constitucionalmente garantido, voltado para impedir a prática do racismo”359.
De acordo com MARTINIANO JOSÉ DA SILVA, o racismo é a conduta baseada na “superioridade de certas raças, e ainda, a qualidade, sentimento ou ato de indivíduo racista, confrontado ou comparado ao segregacionismo”360. Para o autor, “a meta do racismo – como sistema ideológico dos que consideram superiores – [é] destruir e eliminar, amplamente, toda uma condição étnico-cultural de um outro povo”361. No entanto, o autor afirma que a palavra “racismo” foi eufemisticamente substituída por “preconceito”, em decorrência da linha “politicamente correta”, de modo a negar a existência daquele362.
JOSÉ AFONSO DA SILVA, ao comentar os dispositivos da Constituição de 1988, adota em parte a tese acima exposta, delineando a diferença entre racismo,
preconceito e discriminação:
358 LAFER, Celso. O caso Ellwanger: anti-semitismo como crime da prática do racismo. In Revista de Informação Legislativa. Ano 41, nº 162, abril-junho. Senado Federal: Brasília, 2004, p. 86, destaque nosso.
359 Ibid., p. 60.
360 SILVA, Martiniano José da. Racismo à brasileira: raízes históricas. Goiânia: Thesaurus, 1987, p. 21.
361 Ibid., p. 23.
362 Cf. Ibid., p. 24. Para o autor, “o sistema racista ibérico-latino, mais especificamente o luso- brasileiro, foi logo mascarado num rótulo chamado ‘preconceito’, etiqueta que, em pura verdade, não passa de mais um disfarce, por bem dizer, uma simbologia eufemizada do próprio racismo em seu caráter e jeitinho brasileiros (...)” (Id.).
“Racismo” é teoria e comportamento destinados a realizar e justificar a supremacia de uma raça sobre a outra (...). Difere do simples preconceito de cor ou de raça, já que este consiste apenas numa rejeição pessoal, ainda que sistemática, de pessoas de outra raça ou cor. O primeiro está fundamentado numa ideologia de raça pura, que, pondo-se como superior, sente-se no direito de dominação da outra raça tida como inferior, ao ponto, até, de pretender sua eliminação do orbe da Terra. O segundo funda-se numa prevenção de pessoas de uma raça ou cor contra outras de raça e cor diferente, prevenção que leva à rejeição, ao pouco-caso, ao descaso e até aos maus-tratos. A “discriminação”, que é consequência tanto do racismo como do preconceito, consiste em qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseada em raça, cor, descendência ou origem com o objetivo ou efeito de anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício de direitos363.
Com um entendimento sutilmente diferente, para o Supremo Tribunal Federal, o racismo gera a discriminação e o preconceito (HC nº 82.424-RS).
No tocante ao âmbito jurídico internacional de proteção étnico-racial, ensina REMILLARD que:
(...) a história moderna de proteção internacional dos direitos das minorias começou nos séculos XVI e XVII em relação à proteção das minorias religiosas. Assim, o Tratado [de Paz] de Westphalia de 1648364, que declarou o princípio da
igualdade entre católicos e protestantes, pode ser considerado o primeiro documento em garantir direitos a um grupo minoritário365.
No entanto, o referido tratado e outros que se seguiram não se preocupavam especificamente com os direitos das minorias étnicas, mas em estabelecer a paz entre os povos; talvez a razão, como teoriza NORBERTO BOBBIO, seja porque a paz
363 SILVA, José Afonso da. Comentário contextual à constituição. 5ª ed. São Paulo: Malheiros, 2008, p. 52, destaque nosso.
364 Trata-se do tratado que pôs fim à guerra dos oitenta anos entre a Espanha e a Holanda e à fase germânica da guerra dos trinta anos. Disponível em http://www.britannica.com/EBchecked/topic/641170/Peace-of-Westphalia. Acesso em 18-4-2015. 365 REMILLARD, Gil. Les droits des minorités. In Conferência Internacional de Direito Constitucional. 2. 1986, Quebec. Atas... Quebec: [s.n.], 5-8 mar. 1986. Apud LOPES, Ana Maria D’Ávila. Proteção constitucional dos direitos fundamentais culturais das minorias sob a perspectiva
do multiculturalismo. In Revista de Informação Legislativa. Ano 45. Nº 177. janeiro-março de 2008.
“é o pressuposto necessário para o reconhecimento e a efetiva proteção dos direitos do homem em cada Estado e no sistema internacional”366. Neste cenário,
(...) o primeiro momento mais específico de proteção das minorias possa ser considerado a Conferência da Paz (Paris, 1919), que expressamente declarou a igualdade de todas as pessoas perante a lei, a igualdade dos direitos civis e políticos, a igualdade de trato e a segurança das minorias367.
A Declaração Universal de Direitos Humanos (1948) repudia, no artigo 2º, a distinção racial368. Em 1966 o Pacto Internacional dos Direitos Civil e Políticos, em seu artigo 27, estabeleceu:
Nos Estados em que haja minorias étnicas, religiosas ou linguísticas, as pessoas pertencentes a essas minorias não poderão ser privadas do direito de ter, conjuntamente com outros membros de seu grupo, sua própria vida cultural, de professar e praticar sua própria religião e usar sua própria língua369.
Em 1967 o Brasil ratificou a Convenção Internacional sobre a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial assinada em Nova
York no ano anterior (Decreto Legislativo nº 23/67), promulgando-a em 8 de
366 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Rio de Janeiro: Elsevier, 1992, p. 1.
367 LOPES, Ana Maria D’Ávila. Proteção constitucional dos direitos fundamentais culturais das
minorias sob a perspectiva do multiculturalismo. In Revista de Informação Legislativa. Ano 45. Nº
177. janeiro-março de 2008. Brasília: Senado Federal, Subsecretaria de Edições Técnicas, 2008, p. 20, destaque nosso.
368 Art. 2º. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
369 Ratificado pelo Brasil por meio do Decreto Legislativo nº 226 de 12-12-1991, Promulgado pelo Decreto nº 592 de 6-7-1992. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1990- 1994/D0592.htm. Acesso em 18-4-2015. Como ensina FLÁVIA PIOVESAN, “a Recomendação Geral nº 23 se refere ao artigo 27 do Pacto, com o objetivo de proteger as minorias étnicas. O Comitê faz uma diferenciação entre o direito protegido no artigo 27 e os direitos protegidos nos artigos 2º e 26. Os artigos 2º e 26 tratam da não discriminação e da igualdade perante a lei, independentemente do indivíduo pertencer a uma minoria étnica ou não. As pessoas às quais se destina o artigo 27 são aquelas que pertencem a um grupo e têm uma cultura, religião e/ou língua comum. Apesar dos direitos protegidos pelo artigo 27 serem individuais, eles dependem da existência de uma minoria étnica, ou seja, de uma coletividade. A Recomendação nº 23, assim como a nº 18, prevê a possibilidade de ações afirmativas que garantam a igualdade dessas minorias étnicas, respeitando o disposto nos artigos 2º e 26 do Pacto (PIOVESAN, Flávia. In Novos Comentários à Convenção sobre
os Direitos das Pessoas com Deficiência. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da
República (SDH/PR)/Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SNPD): SNPD – SDH-PR, 2014, p. 15-16).
dezembro de 1969 por meio do Decreto nº 65.810/69. A Convenção afirma que “qualquer doutrina de superioridade baseada em diferenças raciais é cientificamente falsa, moralmente condenável, socialmente injusta e perigosa, e que não existe justificação para a discriminação racial, em teoria ou na prática, em lugar algum”370, causando apenas o ódio, políticas de apartheid e segregação.
A Convenção traz o significado de “discriminação racial”:
Significará qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência baseadas em raça, cor, descendência ou origem nacional ou étnica que tenha por objetivo o efeito anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício num mesmo plano (em igualdade de condições), de direitos humanos e liberdades fundamentais no domínio político, econômico, social, cultural ou qualquer outro domínio de vida pública371.
Inspirada nas disposições do artigo 27 do Pacto Internacional Sobre os Direitos Civis e Políticos (ONU, 1966), a UNESCO elaborou a Declaração sobre a Raça e os Preconceitos Raciais na sua 20º reunião, realizada em Paris, em 1978, constatando em seu preâmbulo:
(...) a mais viva preocupação que o racismo, a discriminação racial, o colonialismo e o apartheid continuam causando estragos no mundo sob formas sempre renovadas, tanto pela manutenção de disposições legais, de práticas de governo, de administração contrária aos princípios dos direitos humanos como pela permanência de estruturas políticas e sociais e de relações e atitudes caracterizadas pela injustiça e o desprezo da pessoa humana e que engendram a exclusão, a humilhação e a exploração, ou a assimilação forçada dos membros de grupos desfavorecidos372.
A Declaração da Unesco sobre Raça e Preconceitos Raciais (Paris, 1978), traz em seu bojo o significado de racismo, suas formas de manifestação, consequências:
Item 2, §2. O racismo engloba as ideologias racistas, as atitudes fundadas nos preconceitos raciais, os comportamentos discriminatórios, as disposições estruturais e as práticas institucionalizadas que provocam a desigualdade 370 Disponível em http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaTextoIntegral.action?id=94836. Acesso em 7-5-2015. 371 Id. 372 Disponível em http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/UNESCO-Organização-das- Nações-Unidas-para-a-Educaço-Ciência-e-Cultura/declaracao-sobre-a-raca-e-os-preconceitos- raciais.html. Acesso em 2-7-2105.
racial, assim como a falsa ideia de que as relações discriminatórias entre grupos são moral e cientificamente justificáveis; manifesta-se por meio de disposições legislativas ou regulamentárias e práticas discriminatórias, assim como por meio de crenças e atos antissociais; cria obstáculos ao desenvolvimento de suas vítimas, perverte a quem o põe em prática, divide as nações em seu próprio seio, constitui um obstáculo para a cooperação internacional e cria tensões políticas entre os povos; é contrário aos princípios fundamentais ao direito internacional e, por conseguinte, perturba gravemente a paz e a segurança internacionais373.
A mesma fonte serviu de inspiração para a Declaração sobre os Direitos
das Pessoas Pertencentes a Minorias Nacionais ou Étnicas, Religiosas e Linguísticas (ONU, 1992), em seu art. 4º dispõe:
1. Os Estados adotarão as medidas necessárias a fim de