6. CONCLUSION
6.1. Limitations of the Research and Further Studies
O movimento “politicamente correto” “surgiu nos Estados Unidos, um país que tem uma longa tradição de defesa dos direitos humanos e, paradoxalmente, uma longa tradição de preconceitos”587.
O surgimento da expressão remonta aos anos 30, conforme reportagem assinada por MAURÍCIO HORTA, publicada na revista Super Interessante:
Ele [o termo “politicamente correto”] apareceu pela primeira vez com um significado bem diferente do que usamos hoje: na China dos anos 30, para denotar a estrita conformidade com a linha ortodoxa do Partido Comunista, tal como enunciado por Mao Tsé-tung. Mas o significado com que a expressão chegou até nós é uma criação dos Estados Unidos dos anos 60588.
A retomada da expressão “politicamente correto” permanece inspirada nos regimes esquerdistas:
(...) foi tomada do jargão stalinista dos anos 50, que designava a obediência irrestrita à linha política ditada pelo comitê central. A referência ao stalinismo não é sem razão e contribuiu para o sucesso da expressão, conferindo-lhe conotações detestáveis589.
A massificação da “expressão ‘politicamente correto’ se firmou na língua inglesa como parte de uma ofensiva da direita estadunidense nas chamadas guerras culturais dos anos 1980 e 1990”590. Como explica ELISABETH ROUDINESCO:
587 BEARD, Henry. CERF, Christopher. Dicionário do politicamente correto. Porto Alegre, L&M Editores, 1994, p. 9.
588 HORTA, Maurício. O que você pode falar, afinal? In Revista Super Interessante. Edição de julho de 2011. Disponível em http://super.abril.com.br/cultura/o-que-voce-pode-falar-afinal. Acesso em 30-8-2015.
589 SEMPRINI, Andrea. Multiculturalismo. Bauru: EDUSC, 1999, p. 61. OWEN FISS ensina que a “supressão do Partido Comunista e sua liderança foi frequentemente justificada em termos de salvar os Estados Unidos do stalinismo. O medo era que a propaganda comunista fosse persuasiva e levasse à derrubada do governo ou mesmo ao estabelecimento de uma ditadura totalitária” (A ironia da
liberdade de expressão: estado, regulação e diversidade na esfera pública. Rio de Janeiro: Renovar,
2005, p. 46).
590 AVELAR, Idelber. As origens da expressão “politicamente correto”. In Revista Fórum, nº 96. Edição de 4 de abril de 2011. Disponível em http://www.revistaforum.com.br/idelberavelar/2011/04/04/as-origens-da-expressao-
Esta expressão foi criada por conservadores para designar de forma pejorativa uma política de ensino julgada de “esquerda radical” (no sentido norte-americano do termo) que consistia em reler obras clássicas de literatura, da filosofia ou da história da arte a partir de um critério multiculturalista. Seria preciso “corrigir” essas obras extirpando o que contivesse de “incorreto” a respeito das minorias oprimidas (mulheres, negros, hispânicos, homossexuais, colonizadores etc.). Daí a ideia de “censurar” todos os textos da cultura ocidental (de Platão a Freud passando por Sade) que comportassem passagens ditas “incorretas” em relação às minorias591.
O movimento ganha força com a “ascensão social dos negros americanos”592, e com a transformação do perfil dos estudantes universitários, uma vez que as universidades “antes habitadas exclusivamente por homens brancos, agora viam chegar mulheres, negros, gays, imigrantes. Era preciso ensinar as pessoas a conviver com a diferença”593.
A expressão ganha notoriedade a partir de um artigo assinado por RICHARD BERNSTEIN, publicado no jornal The New York Times no final de 1990, no qual noticiava a inclusão, no programa de literatura clássica da Universidade do Texas, da disciplina “Redação sobre a Diferença”, que abordaria as injustiças cometidas contra as minorias, nelas incluídas as mulheres e os homossexuais, de modo a ampliar a tolerância e o debate:
O termo "politicamente correto", com sua sugestão de ortodoxia stalinista, é falado mais com ironia e desaprovação do que com reverência. Mas em todo o país o termo “pc”, como é comumente abreviado, está sendo ouvido mais e mais em debates sobre o que deve ser ensinado nas universidades. Há até mesmo iniciais – “p.c.p.” [“polically corretct person”] – para designar uma pessoa politicamente correta. E, embora os termos não sejam utilizados na absoluta seriedade, até mesmo pelos PCP, existe uma grande crença na academia e em outros lugares de que um grupo de opiniões sobre a raça, a ecologia, o feminismo, a cultura e a política externa define uma espécie de atitude "correta" para os problemas do mundo, uma espécie de ideologia oficial da universidade594.
591 DERRIDA, Jacques. ROUDINESCO, Elisabeth. De que amanhã... diálogos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004, p. 38-39.
592 PONDÉ, Luiz Felipe. Guia politicamente incorreto da filosofia: ensaio de ironia. São Paulo: Leya, 2012, p. 29.
593 HORTA, Maurício. O que você pode falar, afinal? In Revista Super Interessante. Edição de julho de 2011. Disponível em http://super.abril.com.br/cultura/o-que-voce-pode-falar-afinal. Acesso em 30-8-2015.
594 Jornal The New York Times. Ideas & trends; the rising hegemony of the politically correct. Edição de 28 de outubro de 1990. Tradução livre. Disponível em
A reportagem faz alusão à ala acadêmica que se opunha ao novo programa, os quais sofriam pressões sob o risco de serem acusados de sexistas, racistas ou homofóbicos; para estes, “sob o nome do pluralismo e da liberdade de expressão, há uma tentativa de impor uma visão estreita e ideologicamente motivada tanto para o currículo quanto para o que significa ser uma pessoa educada, um cidadão responsável”595.
Conforme o DICIONÁRIO DO POLITICAMENTE CORRETO, “à medida, porém, que tais grupos [minoritários] fizeram valer seus direitos, o vocabulário teve de mudar”596. Vale dizer, “o politicamente correto corresponde, pois, a um determinado cenário histórico”597 marcado pelo racismo, preconceito e discriminação vivenciado nos Estados Unidos.
Nesse cenário, percebeu-se que o preconceito também podia ser expressado por meio da linguagem; “nisso, negro virou african-american, (‘afro-americano’),
fag (‘bicha’) virou gay (‘alegre’)”598.
ADELA CORTINA faz questão de pontuar o cenário violento e polêmico no qual se desenvolveu o debate, nos Estados Unidos, a respeito do “politicamente correto”:
Nos Estados Unidos, as polêmicas em torno do politicamente correto foram muito violentas, e um autor levou o sarcasmo ao ponto de escrever alguns Contos infantis politicamente
http://www.nytimes.com/1990/10/28/weekinreview/ideas-trends-the-rising-hegemony-of-the- politically-correct.html. Acesso em 30-8-2015.
595 Tradução livre. Disponível em http://www.nytimes.com/1990/10/28/weekinreview/ideas- trends-the-rising-hegemony-of-the-politically-correct.html. Acesso em 30-8-2015.
596 BEARD, Henry. CERF, Christopher. Dicionário do politicamente correto. Porto Alegre, L&M Editores, 1994, p. 10. O Dicionário traz como exemplo a substituição das abreviações americanas Mrs. e Miss, as quais designam, respectivamente, a mulher casada e a mulher solteira, pela sigla única Ms. para evitar a discriminação das solteiras.
597 Ibid., p. 11.
598 HORTA, Maurício. O que você pode falar, afinal? In Revista Super Interessante. Edição de julho de 2011. Disponível em http://super.abril.com.br/cultura/o-que-voce-pode-falar-afinal. Acesso em 30-8-2015. Prossegue o jornalista: “Tratava-se de não estigmatizar as pessoas por aquilo que elas eram - afinal, não faz sentido aumentar o peso do fardo que cada um tem de carregar na vida. Dessa maneira, não bastava combater só o sexismo e o racismo. E ‘obesidade’ virou ‘sobrepeso’; ‘deficiência física’ virou ‘necessidade especial’...”. No mesmo sentido o DICIONÁRIO DO POLITICAMENTE CORRETO: O estigma que cada etnia carregava era transformado em anedotas politicamente incorretas: “um americano, um inglês, um francês e um alemão sobreviveram a um naufrágio e foram dar numa ilha da Polinésia. Um ano depois, o alemão tinha organizado os navios a um exército, o americano estava explorando a mão-de-obra numa indústria, o francês tinha inaugurado um bordel e o inglês estava sentado na paria, esperando que alguém o apresentasse aos outros” (BEARD, Henry. CERF, Christopher. op. cit., p. 9-10).
corretos, nos quais se reconstrói a história de Chapeuzinho Vermelho e de Branca de Neve, entre outras, com uma
linguagem “politicamente correta”. No prólogo esclarece o que entende por esse tipo de linguagem quando se desculpa de antemão e anima o leitor a “apresentar qualquer sugestão destinada a retificar possíveis mostras de atitudes inadvertidamente sexistas, racistas, culturalistas, nacionalistas, falocêntricas, heteropatriarcais ou discriminatórias por questões de idade, aspecto, capacidade física, tamanho, espécie ou outras não mencionadas”599.
O “politicamente correto”, assim, visa afastar a linguagem que ofende as minorias, o que, de fato, não se pode reprovar. Porém, questiona MAURÍCIO HORTA:
Mas tem um problema aí: quem é o juiz para decidir o que é certo e o que é errado, o que ofende e o que não ofende? Onde fica a liberdade de pensamento, de expressão? A ideia de que o direito de um termina onde começa o do outro vale aqui também: pode alguém retirar o direito do outro de dizer o que pensa?600.
No entanto, como coloca CORTINA, a importância dos debates “não foi tanto que deles surgisse a obsessão de alguns grupos por uma linguagem ‘politicamente correta’, mas que a partir deles se promovesse uma séria discussão sobre os problemas apresentados pelo multiculturalismo”601.
Esses questionamentos são explanados nos próximos tópicos.
599 CORTINA, Adela. Cidadãos do mundo: para uma teoria da cidadania. São Paulo: Edições Loyola, 2005, p. 142. O livro citado pela autora é Contos de fada politicamente corretos, Rio de Janeiro: Ediouro, 1995, de autoria de JAMES FINN GARNER.
600 HORTA, Maurício. O que você pode falar, afinal? In Revista Super Interessante. Edição de julho de 2011. Disponível em http://super.abril.com.br/cultura/o-que-voce-pode-falar-afinal. Acesso em 30-8-2015.