5. ACTUAL ROLE OF SPATIAL DESIGNERS IN HOUSING: A CRITICAL
5.1. Housing Production in Ankara: The Current State of the Art
As pessoas com deficiência, desde os primórdios da civilização, sofrem discriminação por serem considerados “diferentes” dos demais; a discriminação ocorria ora por rejeição, por serem vistos como “inúteis” ou um “fardo” à manutenção e sobrevivência do grupo; ora por admiração, por se acreditar que eram enviados divinos. Como explica RUBENS V. ALVES:
De acordo com os dados históricos, na era primitiva devido quase sempre ao fator sobrevivência, os “deficientes físicos” eram exterminados pelo grupo tribal, quando nasciam ou ao longo de suas vidas, ou eram poupados por serem consideradas pessoas exóticas. No entanto, a prática do extermínio não constituía uma regra geral; alguns povos consideravam o “deficiente físico” como um membro qualquer do grupo ou mesmo até um enviado pelos “deuses” para beneficiar a tribo399.
Em Roma e na Grécia antigas, os filhos nascidos com alguma deficiência não eram bem-vindos. A doutrina cristã, influente na Idade Média, fez com que o extermínio da pessoa com deficiência perdesse força, passando a ser considerado vítima do destino400. A ideia de integração social surge apenas no período renascentista; no entanto, a cultura da segregação permanece, pois objetivava-se a cura da deficiência, de modo a tornar o indivíduo “normal” e apto a interagir com a sociedade401.
A mudança desse paradigma tem início com o encerramento da Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918). O retorno dos militares mutilados, acrescido dos civis vitimados por artefatos de guerra, gerou forte mobilização no sentido da reabilitação dessas pessoas. Mas a intenção de fundo permanecia a de transformar pessoa com deficiência numa “pessoa normal”.
A partir da Segunda Guerra Mundial, cujas atrocidades, dentre outras consequências nefastas, também deixaram milhares de pessoas com deficiências
399 ALVES, Rubens Valtecides. Deficientes físicos: novas dimensões da proteção ao trabalhador. São Paulo: LTr, 1992, p. 8.
400 Cf. SILVA, Juliana Luciani. A pessoa com deficiência e o sistema interamericano de proteção dos
direitos humanos. In IKAWA, Daniela. PIOVESAN, Flávia. FACHIN, Melina Girardi (coord.). Direitos humanos na ordem contemporânea: proteção nacional, regional e global. vol. IV. Curitiba:
Juruá, 2010, p. 208-209. 401 Cf. Ibid., p. 209.
físicas e mentais irreversíveis, o mundo já se viu mais preparado para lidar com as consequências da guerra. A integração das mulheres e das pessoas com deficiência nos postos de trabalho deu início a uma verdadeira mudança na visão da sociedade a respeito da capacidade dessas pessoas.
Nesse cenário de pós-guerra, em que o mundo exigiu uma resposta aos horrores cometidos contra a humanidade, a Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 afirmou os direitos universais e indivisíveis de “todo ser humano (...), sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição”402 (art. 2º, item 1). Trata-se do documento internacional de maior influência na legislação de diversos países no tocante à proteção e integração da pessoa com deficiência.
Segundo informações da ONU403, essa é a maior e mais frágil das minorias404. Em números, correspondem a 10% da população brasileira405 e 10% da população mundial, o que significa 45 milhões406 de brasileiros com deficiência e 650 milhões de pessoas na mesma condição no mundo. Se contados os familiares diretamente conectados, ultrapassar-se-ia um bilhão de pessoas afetadas. A vulnerabilidade evidencia-se, mormente, pelo dado de que 80% das pessoas com deficiência no mundo vivem nos países considerados pobres ou em desenvolvimento, apresentando-se as barreiras respectivas “como causa e consequência da pobreza”407.
402 Disponível em http://www.dudh.org.br/wp-content/uploads/2014/12/dudh.pdf. Acesso em 13- 5-2015, destaque nosso
403 United Nations Enable. Disability treaty closes a gap in protecting human rights. Publicado por United Nations Department of Public Information - DPI/2507B. Maio de 2008. Disponível em www.un.org/disabilities. Acesso em 22.10.2015.
404 id.
405 Cf. ARAUJO, Luiz Alberto David. A proteção constitucional das pessoas portadoras de
deficiência. 3ª ed. Brasília: CORDE, 2003, p. 25.
406 Dados do IBGE de 2010.
407 LOPES, Laís Vanessa Carvalho de Figueirêdo. Convenção sobre os direitos das pessoas com
deficiência da ONU, seu protocolo facultativo e a acessibilidade. Dissertação de Mestrado. Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2009, p. 19. Prossegue a autora: “Com efeito, entendendo-se a deficiência como causa, sabe-se que a deficiência pode gerar ou potencializar a pobreza, na medida em que pessoas com deficiência estão mais vulneráveis à marginalização e à discriminação de diferentes ordens e em que requerem custos adicionais com ajudas técnicas e tecnologias assistivas. Em outras situações, percebe-se que a deficiência é consequência, haja vista que pessoas com deficiência que vivem em situação de pobreza estão mais propensas a terem sua condição agravada ou adquirem novas deficiências durante a vida, parte das quais pode ser ocasionada pela falta de acesso a sérvios públicos básicos e de informações sobre prevenção” (Id.).
O fato de a pessoa com deficiência ser vista como “diferente” é suficiente para estarem sujeitos a preconceitos e discriminação. Conforme expõe LUIZ ALBERTO DAVID ARAUJO, as pessoas pertencentes a esse grupo são referidas de diversas formas, como por exemplo: “‘indivíduos de capacidade limitada’, ‘minorados’, ‘impedidos’, ‘descapacitados’, ‘excepcionais’, ‘minusválidos’, ‘disable person’, ‘handicapped person’, ‘unusual person’, ‘especial person’, ‘inválido’, além de ‘deficiente’, que é o termo mais usado”408. Os termos retro citados possuem carga intrínseca de preconceito e ignorância a respeito da real condição das pessoas com deficiência. Como bem pontua o autor:
O que define a pessoa portadora de deficiência não é a falta de um membro nem a visão ou audição reduzidas. O que caracteriza a pessoa portadora de deficiência é a dificuldade de se relacionar, de se integrar na sociedade. O grau de dificuldade para a integração social é que definirá quem é ou não portador de deficiência409.
Os empecilhos à integração efetiva da pessoa com deficiência à sociedade são muito. Desde a presença de barreiras arquitetônicas ou da carência de dispositivos físicos facilitadores (rampas de acesso, guias rebaixadas na via pública, transporte público adaptado para cadeirante, linguagem em braile, semáforos sonoros, etc.), até a precária formação pedagógica para a educação especial.
Interessante mencionar, que a dificuldade de interação/integração social não decorre apenas de obstáculos físicos, mas também da estética (por exemplo, uma macha no rosto, cicatrizes), ou do aspecto alimentar (doenças que impõem dieta especial, tais como diabetes ou deficiência enzimática) ou, então, até mesmo da estigmatização da doença (como o HIV)410.
Antes da promulgação da Constituição de 1988, apenas a Emenda
Constitucional nº 12 de 17 de outubro de 1978411, por meio de “artigo único”, assegurou aos deficientes a melhoria de sua condição social e econômica, sobretudo através da educação especial e gratuita (inciso I); da assistência, reabilitação e
408 ARAUJO, Luiz Alberto David. A proteção constitucional das pessoas portadoras de deficiência. 3ª ed. Brasília: CORDE, 2003, p. 15.
409 Ibid., p. 24, destaque nosso. 410 Cf. Ibid., p. 28.
411 Disponível em
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Emendas/Emc_anterior1988/emc12-78.htm. Acesso em 24.10.2015.
reinserção na vida econômica e social do país (inciso II); da proibição de discriminação, inclusive quanto à admissão ao trabalho ou ao serviço público e a salários (inciso III); da possibilidade de acesso a edifícios e logradouros públicos (inciso IV).
A Constituição brasileira de 1988, ao reintroduzir a ordem democrática no Brasil e adotar um “perfil eminentemente social”412, incluindo a dignidade da pessoa humana como um dos fundamentos da República (art. 1º, III) e a promoção do “bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação” (art. 3º, IV) como objetivo fundamental, além de manter a proteção e as garantias previstas na EC nº 12/78, as ampliou.
Ademais, o tratamento constitucional também passa pelo princípio da igualdade, previsto no art. 5º, caput. Especificamente, o art. 7º, XXXI da Constituição proíbe “qualquer discriminação no tocante a salário e critérios de admissão do trabalhador portador de deficiência”. Por sua vez, o art. 37, VIII, determina que “a lei reservará percentual dos cargos e empregos públicos para as pessoas portadoras de deficiência e definirá os critérios de sua admissão”. E sensível à relação de causa e efeito entre deficiência e pobreza, a Constituição incluiu a pessoa com deficiência na categoria de beneficiários específicos da assistência social (artigo 203, V).
No campo da educação, o artigo 208, III garante “atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino”.
No que tange à saúde, o art. 227, e seus §§ 1º e 2º determinam:
§ 1º O Estado promoverá programas de assistência integral à saúde da criança, do adolescente e do jovem, admitida a participação de entidades não governamentais, mediante políticas específicas e obedecendo aos seguintes preceitos: I – aplicação de percentual dos recursos públicos destinados à saúde na assistência materno-infantil; II – criação de programas de prevenção e atendimento especializado para as pessoas portadoras de deficiência física, sensorial ou mental, bem como de integração social do adolescente e do jovem portador de deficiência, mediante o treinamento para o trabalho e a convivência, e a facilitação do acesso aos bens e
412 Expressão utilizada por PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 467.
serviços coletivos, com a eliminação de obstáculos arquitetônicos e de todas as formas de discriminação.
§ 2º A lei disporá sobre normas de construção dos logradouros e dos edifícios de uso público e de fabricação de veículos de transporte coletivo, a fim de garantir acesso adequado às pessoas portadoras de deficiência.
Em 2001, foi promulgada no Brasil a Convenção Interamericana para a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência ou Convenção da Guatemala413, como ficou conhecida (Decreto nº 3.956/2001), sendo um de seus objetivos eliminar a discriminação, em todas suas formas e manifestações, contra as pessoas com deficiência, bem como propiciar sua plena integração à sociedade (art. 2º). De acordo com a referida Convenção, deficiência significa “uma restrição física, mental ou sensorial, de natureza permanente ou transitória, que limita a capacidade de exercer uma ou mais atividades essenciais da vida diária, causado pelo ambiente econômico e social” (art. 1º. 1). A inovação trazida, segundo FLÁVIA PIOVESAN, reside “no reconhecimento explícito de que o meio ambiente econômico e social pode ser a causa ou o fator de agravamento de deficiência”414. A Convenção destaca- se, ainda, como expõe LAÍS LOPES415, por ser a “única norma regional de caráter
413 A Convenção traz no preâmbulo todo o arcabouço protetivo internacional direcionado às pessoas com deficiência: Convênio sobre a Readaptação Profissional e o Emprego de Pessoas Inválidas da Organização Internacional do Trabalho (Convênio 159); a Declaração dos Direitos do Retardado Mental (AG.26/2856, de 20 de dezembro de 1971); a Declaração das Nações Unidas dos Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência (Resolução nº 3447, de 9 de dezembro de 1975); o Programa de Ação Mundial para as Pessoas Portadoras de Deficiência, aprovado pela Assembleia Geral das Nações Unidas (Resolução 37/52, de 3 de dezembro de 1982); o Protocolo Adicional à Convenção Americana sobre Direitos Humanos em Matéria de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, "Protocolo de San Salvador" (1988); os Princípios para a Proteção dos Doentes Mentais e para a Melhoria do Atendimento de Saúde Mental (AG.46/119, de 17 de dezembro de 1991); a Declaração de Caracas da Organização Pan-Americana da Saúde; a resolução sobre a situação das pessoas portadoras de deficiência no Continente Americano [AG/RES.1249 (XXIII-O/93)]; as Normas Uniformes sobre Igualdade de Oportunidades para as Pessoas Portadoras de Deficiência (AG.48/96, de 20 de dezembro de 1993); a Declaração de Manágua, de 20 de dezembro de 1993; a Declaração de Viena e Programa de Ação aprovados pela Conferência Mundial sobre Direitos Humanos, das Nações Unidas (157/93); a resolução sobre a situação das pessoas portadoras de deficiência no Hemisfério Americano [AG/RES. 1356 (XXV-O/95)] e o Compromisso do Panamá com as Pessoas Portadoras de Deficiência no Continente Americano [AG/RES. 1369 (XXVI-O/96)]. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/2001/d3956.htm. Acesso em 24.10.2015.
414 PIOVESAN, Flávia. Temas de direitos humanos. 7ª ed. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 470.
415 LOPES, Laís Vanessa Carvalho de Figueirêdo. Convenção sobre os direitos das pessoas com
deficiência da ONU, seu protocolo facultativo e a acessibilidade. Dissertação de Mestrado. Pontifícia
vinculante relacionada especificamente às pessoas com deficiência”, além de regular “a possibilidade de discriminação positiva que embasa ações afirmativas”.
A partir de “um discurso com base na visão social dos direitos humanos, não mais voltada exclusivamente para o indivíduo enquanto problema a ser resolvido, mas sim para a sociedade como responsável pela inclusão das pessoas com deficiência”416, em 30 de março de 2007 foi celebrada em Nova Iorque a
Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência
e seu Protocolo Facultativo. A necessidade de um documento de alcance global adveio da constatação de que, “não obstante os diversos instrumentos e compromissos, as pessoas com deficiência continuam a enfrentar barreiras contra sua participação como membros iguais da sociedade e violações de seus direitos humanos em todas as partes do mundo”417.
Trata-se do primeiro tratado internacional do sistema global de defesa dos direitos humanos, “celebrado sob os auspícios da ONU”418, voltado especificamente para os integrantes desse segmento, até então considerados “invisíveis em suas sociedades e até mesmo na arena internacional”419. Nas palavras de ANDRÉ DE CARVALHO RAMOS:
Cabe salientar que a invisibilidade no que tange aos direitos das pessoas com deficiência é particularmente agravada pela separação existente entre elas e o grupo social majoritário, causada por barreiras físicas e sociais. Mesmo quando há notícia pública da marginalização, há ainda o senso comum de que tal marginalização é fruto da condição individual (modelo
médico da deficiência) e não do contexto social420.
416 LOPES, Laís Vanessa Carvalho de Figueirêdo. Convenção sobre os direitos das pessoas com
deficiência da ONU, seu protocolo facultativo e a acessibilidade. Dissertação de Mestrado. Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2009, p. 46. 417 Preâmbulo da Convenção, alínea “k”.
418 Expressão utilizada por ANDRÉ DE CARVALHO RAMOS ao afirmar que “até 2006, havia uma impressionante lacuna na questão ante a inexistência de um tratado internacional (celebrado sob os auspícios da ONU) sobre os direitos das pessoas com deficiência” (Curso de direitos humanos, São Paulo: Saraiva, 2014, p. 220).
419 United Nations Enable. Disability treaty closes a gap in protecting human rights. Publicado por United Nations Department of Public Information - DPI/2507B. Maio de 2008. Disponível em www.un.org/disabilities. Acesso em 22.10.2015. Essa conclusão foi extraída dos “relatórios dos Estados Partes encaminhados à ONU referentes ao cumprimento dos instrumentos existentes”, segundo os quais “muito pouca atenção foi dispensada às pessoas com deficiência” (LOPES, Laís Vanessa Carvalho de Figueirêdo. op. cit., p. 48.
Destaca-se que a Convenção foi a primeira a ser aprovada pelo Congresso Nacional na forma do § 3º do art. 5º da Constituição Federal421, ou seja, recepcionada com status de emenda constitucional, a demonstrar que a sociedade brasileira tem se preocupado em proteger e integrar a pessoa com deficiência, lembrando que, no país, as causas principais de vitimização desse segmento são o elevado índice de acidentes de trânsito, a carência alimentar e, também, de saneamento básico422.
Para o Tribunal Supremo423, a partir da Convenção da ONU, o Brasil se comprometeu “a implementar medidas para dar efetividade ao que foi ajustado”, de modo a instituir políticas públicas para integrar à sociedade as pessoas com deficiência. Isto com o objetivo de atingir a “igualdade de oportunidades e a humanização das relações sociais, em cumprimento aos fundamentos da República de cidadania e dignidade da pessoa humana, o que se concretiza pela definição de meios para que eles sejam alcançados”.
Destaca JULIANA DA SILVA a importância da Convenção no cenário nacional e internacional:
A importância de tal Convenção, no tocante à proteção das pessoas com deficiência, encontra-se na consolidação da mudança de paradigma, posto que, com o advento do documento da ONU, a deficiência ultrapassa definitivamente os limites da perspectiva médica, assistencial e integracionista para ser vista sob uma perspectiva social424.
421 Art. 5º, § 3º. Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais. Vide Decreto Legislativo de ratificação nº 186/08 de 9 de julho de 2008 e Decreto de promulgação nº 6.949/2009 de 25 de agosto de 2009.
422 Cf. ARAUJO, Luiz Alberto David. A proteção constitucional das pessoas portadoras de
deficiência. 3ª ed. Brasília: CORDE, 2003, p. 15.
423 ADI 2649-DF, Rel. Ministra Cármen Lúcia, julgado em 08.05.2008, por maioria de votos julgou improcedente o pedido de declaração de inconstitucionalidade da Lei nº 8.899/94 que concede passe livre às pessoas com deficiência.
424 SILVA, Juliana Luciani. A pessoa com deficiência e o sistema interamericano de proteção dos
direitos humanos. In IKAWA, Daniela. PIOVESAN, Flávia. FACHIN, Melina Girardi (coord.). Direitos humanos na ordem contemporânea: proteção nacional, regional e global. vol. IV. Curitiba:
Juruá, 2010, p. 213. Quando da comemoração dos cinco anos da Convenção no Brasil, o Governo brasileiro externou sua importância no cenário nacional: “(...) a importância alcançada pelo tema em nosso país e a busca incessante e permanente que o Brasil realiza na intenção de promover e proteger os direitos humanos de sua população, notadamente das pessoas em situação de maior vulnerabilidade. A internalização da Convenção pelo Brasil é também fruto de um processo de amadurecimento dos Direitos Humanos e da sociedade como um todo, que reconheceu a necessidade de reafirmar a dignidade e o valor inerente de cerca de 45 milhões de brasileiros e brasileiras com deficiência (censo IBGE, 2010)” (Novos Comentários à Convenção sobre os Direitos das Pessoas
Cabe ainda uma importante observação a respeito da terminologia utilizada pela Convenção da ONU e seus efeitos no plano interno, vez ter sido incorporada ao sistema nacional com status de norma constitucional. A Constituição, como delineado passos atrás, utiliza o termo “pessoa portadora de deficiência” (art. 7º, XXXI; art. 23, II; art. 24, XIV; art. 37, III; art. 203, IV e V; art. 208, III; art. 227, § 1º, II e § 2º; art. 224) que, como assevera ANDRÉ DE CARVALHO RAMOS, “realça o ‘portado’, como se fosse possível deixar de ter a deficiência”425. A ONU, ao utilizar na Convenção o termo “pessoa com deficiência” (person with disability), insere uma “atualização constitucional da denominação (...), que deve, a partir de 2009, ser o termo utilizado”426.
A Convenção reconhece que a “a deficiência é um conceito em evolução” que “resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras devidas às atitudes e ao ambiente que impedem a plena e efetiva participação dessas pessoas na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas”427. Nesse passo, a Convenção adotou o modelo social de direitos humanos que, nas palavras de CARVALHO RAMOS:
(...) vê a pessoa com deficiência como ser humano, utilizando o dado médico [a deficiência] apenas para definir suas necessidades. A principal característica desse modelo é a sua abordagem de “gozo dos direitos sem discriminação”. Este princípio de antidiscriminação acarreta a reflexão sobre a necessidade de políticas públicas para que seja assegurada a igualdade material, consolidando a responsabilidade do Estado e da sociedade na eliminação das barreiras à efetiva fruição dos direitos do ser humano. Assim, não se trata de exigir da pessoa com deficiência que esta se adapte, mas sim
com Deficiência. Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR)/Secretaria
Nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência (SNPD): SNPD – SDH-PR, 2014, p. 7).
425 RAMOS, André de Carvalho. Curso de direitos humanos. São Paulo: Saraiva, 2014, p. 221. 426 Id. Prossegue o autor: “Vale ressaltar, nesse ponto, que o medical model, modelo médico da
abordagem da situação das pessoas com deficiência, via a deficiência como um ‘defeito’ que necessitava de tratamento ou cura. Quem deveria se adaptar eram as pessoas com deficiência, que deveriam ser ‘curadas’. A atenção da sociedade e do Estado, então, voltava-se ao reconhecimento dos problemas de integração da pessoa com deficiência em sua vida cotidiana. A adoção deste modelo gerou falta de atenção às práticas sociais que justamente agravavam as condições de vida das pessoas com deficiência, gerando pobreza, invisibilidade e perpetuação dos estereótipos das pessoas com deficiência como destinatárias da caridade pública (e piedade compungida), negando-lhes a titularidade de direitos como seres humanos. Além disso, como a deficiência era vista como ‘defeito pessoal’, a adoção de uma política pública de inclusão era desnecessária” (Ibid., p. 221-222).
de exigir, com base na dignidade humana, que a sociedade trate seus diferentes de modo a assegurar a igualdade material, eliminando as barreiras à sua plena inclusão428.
O arcabouço protetivo nacional (constitucional e infraconstitucional429) e internacional, como revela FLÁVIA PIOVESAN430, fortalece o “processo de especificação do sujeito”, garantindo-lhe “um tratamento diferenciado e especial a todo um grupo de pessoas em iguais condições, próprias e específicas, que leve em consideração suas peculiaridades e suas necessidades essenciais”. Foi com esse intuito que o Governo Federal criou a Secretaria Nacional de Promoção dos Direitos