• Sonuç bulunamadı

Defendendo que a participação popular nas esferas política e social deva ser ampliada, procuramos uma teoria que justifique essa afirmação, ao contrário do que autores da democracia representativa moderna e contemporânea – como Montesquieu e Schumpeter – defendem.

Explicitamos à luz da teoria da democracia direta de Rousseau as vantagens que a participação pode trazer, ou suscitar, pois compreendemos que o desinteresse dos cidadãos comuns pelo campo da política não se deve à incapacidade, mas às poucas oportunidades que têm de aprender a participar. Por isso, consideramos a participação da comunidade no espaço escolar como uma importante oportunidade para a efetivação dessa aprendizagem.

É consenso que a força dos indivíduos isoladamente difere da sua soma, quando desempenha uma tarefa comum, o coletivo pode alcançar feitos que uma pessoa não tem possibilidade de obter. Rousseau (1978) considera que a força e a liberdade dos indivíduos são essenciais para a sua conservação, sendo assim necessário que estes encontrem uma forma de protegerem-se e aos seus bens, de forma que unidos continuem livres, obedecendo somente a si mesmos. Como solução para esse impasse, todos os homens devem participar da elaboração das leis que governam a coletividade.

Esta não é uma tarefa fácil, pois as vontades emergentes da coletividade normalmente não possuem uma direção única, porém o interesse comum estará acima dos particulares e a existência humana “absoluta e naturalmente independente, pode levá-lo a considerar o que deve à causa comum como uma contribuição gratuita, cuja perda prejudicará menos aos outros, do que será oneroso o cumprimento a si próprio” (ROUSSEAU, 1978, p. 35).

Percebemos que a participação conforme essa perspectiva teórica tem papel primordial, acontece quando os cidadãos unem-se para tomar decisões comuns, a fim de assegurar os direitos de todos, a liberdade e um bom governo. Para que isso aconteça é preciso que as decisões políticas, sejam tomadas pelos cidadãos, em condições de igualdade. Participar, dessa forma, implica que todos se tornem responsáveis pelo seu êxito. A igualdade entre os indivíduos faz com que se comprometam, porque gozam dos mesmos direitos.

Ao mesmo tempo em que ao votar cada cidadão tem liberdade de seguir suas concepções, pois a sua opinião não é subordinada à dos demais, todos estão ligados pelos benefícios e encargos que compartilham, comprometidos, portanto, com o sucesso da coletividade. A relação entre os membros de um grupo e destes com o corpo inteiro,

deverá ser no primeiro caso, tão pequena, e, no segundo, tão grande quanto possível, de modo que cada cidadão se encontre em perfeita independência de todos os outros e em uma excessiva dependência da pólis – o que se consegue sempre graças aos mesmos meios, pois só a força do Estado faz a liberdade de seus membros (ROUSSEAU, 1978, P. 69) .

Isso acontece porque tem por base a participação de todos na elaboração das leis, e, por conseguinte, são estas e não os homens que governam. Essa convenção é soberana e legítima porque tem “como base o contrato social, eqüitativa por ser comum a todos, útil por não poder ter outro objetivo que não o bem geral, e sólida por ter como garantia a força pública e o poder supremo” (ROUSSEAU, 1978, p. 50).

Examinando esse sistema, Pateman (1992, p. 37) entende que a igualdade política efetiva- se “nas assembléias em que as decisões são tomadas” e que o principal resultado político dessa teoria participativa é “que a vontade geral é, tautologicamente, sempre justa, (ou seja, afeta a todos de modo igual), de forma que os direitos e interesses individuais são protegidos, ao mesmo tempo em que se cumpre o interesse público”.

A autora considera, ainda, que a teoria de Rousseau é educativa porque o sistema ideal concebido pelo filósofo tem como objetivo desenvolver a responsabilidade política, social e individual das pessoas por meio de um processo de participação, por conseguinte,

o indivíduo aprende que a palavra ‘cada’ aplica-se a ele mesmo; o que vale dizer que ele tem que levar em consideração assuntos bem mais abrangentes do que os seus próprios e imediatos interesses privados, caso queira a cooperação dos outros; e ele aprende que o interesse público e o privado encontram-se ligados (PATEMAN, 1992, p. 38).

Assim, o indivíduo pode perceber que é afetado pelos acontecimentos políticos que parecem distantes do seu cotidiano e que a consecução dos objetivos de cada um passa pela sua participação nessa esfera. Talvez muitos não tomem parte na vida política porque ainda não perceberam essa relação, não se sentiram capazes de cooperar, nem responsáveis pelo que acontece ao seu redor. Talvez lhes falte aprender a participar para proteger os seus interesses e garantir um bom governo.

Dessa forma, a participação dos sujeitos nas instâncias educacionais, religiosas e nos grupos sociais pode constituir-se em uma instância de preparação para que avaliem a conexão entre a vida pública e a privada, conforme defende a teoria da democracia participativa (PATEMAN, 1992), podendo mesmo auxiliar no preparo dos indivíduos para intervirem no desempenho dos seus representantes em nível nacional.

Pateman (1992, p. 146) analisa ainda que o indivíduo pode interessar-se por assuntos que estão próximos a ele ou ao lugar onde mora, mas o desenvolvimento de uma sociedade participativa implica um envolvimento mais amplo

significa que ele estaria mais capacitado para intervir no desempenho dos representantes em nível nacional, estaria em melhor condições para tomar decisões de alcance nacional quando surge a oportunidade para tal, e estaria mais apto para avaliar o impacto das decisões tomadas pelos representantes nacionais sobre a sua própria vida e sobre o meio que o cerca. No contexto da sociedade participativa o significado do voto para o indivíduo se modificaria: além de ser um indivíduo determinado, ele disporia de múltiplas oportunidades para se educar como cidadão público.

Conhecendo seus direitos e lutando por sua ampliação, participando da vida da comunidade, novos horizontes sociais abrir-se-iam para a maioria da população de um país, impedindo que os seus representantes defendessem interesses próprios, em detrimento do bem- estar da coletividade. Consideramos que as grandes desigualdades sociais da atualidade e o acelerado processo de pauperismo de grande parcela da população mundial devem-se, em grande medida, à baixa participação do povo nas decisões que regem a vida coletiva. Isso permite que uma minoria legisle em causa própria, pois quem deveria fiscalizá-los não toma conhecimento das ações de seus representantes.

Nos países de Primeiro Mundo, onde os trabalhadores organizados e a atuação dos sindicatos construíram o Estado de Bem-estar Social, mesmo após a década de 80, quando esses países filiam-se ao ideal neoliberal, que tenta derrubar o poder dos sindicatos, a estrutura social não pôde ser totalmente desfeita, pois os trabalhadores aprenderam o poder da organização, da participação, não permitindo o seu desmonte. Isto demonstra o poder da participação e da organização dos trabalhadores defendendo a sua classe.

Por essas razões, alguns autores contemporâneos entendem a necessidade de ampliar a participação popular. Compreendemos, pois, que, para isso, é preciso que os cidadãos sejam preparados nas diversas instâncias em que atuam: nas relações de trabalho, na escola, nos grupos religiosos, atuando em sindicatos e em partidos políticos. Essa vivência pode auxiliá-lo a avaliar melhor a relação entre o que acontece na vida pública e privada.

Participando no âmbito social, os indivíduos podem incrementar essa prática no político. Nesse particular, consideramos que a democratização das relações escolares e o incremento da participação nessa esfera podem contribuir para essa empreitada.