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Piçali Yazanağı

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O processo de consolidação do capitalismo na América Latina não pode ser compreendido sem a consideração da dura imposição de relações coloniais e da estreita dependência com os diferentes padrões de dinâmica do capitalismo internacional, que impôs uma forte dominação dos mercados nacionais e posicionou os países latino- americanos na divisão internacional do trabalho como eminentemente exportadores de produtos agrícolas e matérias primas industriais.

A alta injeção de produtos primários no mercado internacional foi profundamente funcional para a industrialização européia que, com o tempo, teve os processos de dominação econômica repousados sobre a reprodução das relações de trocas, na qual a fixação dos preços de mercado consolidou um importante mecanismo de transferência de valor oriunda dos países latino-americanos. Em função das trocas desiguais, as burguesias e aristocracias locais procuravam compensar a perda de renda gerada por meio de uma superexploração do trabalho, na pretensão de criar competitividade internacional (MARINI, 1973).

O avanço da nascente industrialização latino-americana torna-se, posteriormente, estimulado pelas grandes corporações que recorriam à exportação de capitais para aplicar seus recursos excedentes e criar mercado para o maquinário de indústria pesada (MARINI, 1973). Destarte, essa industrialização situa-se em uma nova divisão internacional do trabalho, em que se transferem as etapas inferiores da produção industrial e se concentram as etapas mais avançadas e suas tecnologias, em uma “dominação externa que estimula a modernização e o crescimento, nos estágios mais avançados do capitalismo, mas que impede a revolução nacional e uma autonomia real” (FERNANDES, 2009, p. 34).

Com estas considerações, não pretendemos ignorar as especificidades de cada país, tampouco homogeneizar as diferentes etapas em que estes mecanismos se consolidaram. Entretanto, para compreensão do atual interesse brasileiro na retomada de políticas mineradoras e de produção de energia nuclear, cumpre situar historicamente os recentes processos de reprimarização voltada à exportação pela qual passa sua

economia. Para isto, situaremos dois processos em curso no cenário atual dos países latino-americanos e, em especial, do Brasil: o neodesenvolvimentismo e o neoextrativismo.

Sampaio Jr. (2012) caracteriza o desenvolvimentismo como uma composição ideológica fruto do período da industrialização por substituição de importações, que acreditava nas possibilidades de conter o capitalismo criando a capacidade da sociedade nacional em controlar os fins do desenvolvimento e superar a dupla articulação entre a situação de dependência externa e a extrema desigualdade entre classes. Consistia em mudanças estruturais que combatessem o subdesenvolvimento e enfrentasse o imperialismo por meio da ‘vontade política nacional’.

O declínio da idéia desenvolvimentismo ocorre devido aos entraves de conciliação entre capitalismo, democracia e soberania no contexto de expansão do imperialismo econômico norte-americano, das ditaduras implementadas na América Latina após a década de 1960 e pelo declínio do modelo de industrialização por substituição de importações. A partir de então, desenvolvimento reduz-se à questão da modernização e da inserção em um mercado globalizado (SAMPAIO JR., 2012).

Após a redemocratização dos países latino americanos, em especial do Brasil, polarizam-se modelos ideológicos e políticos de sustentação dos governos que se seguem. Na década de 1990, observa-se a incidência de políticas neoliberais, marcada pelas privatizações, ajuste econômico e flexibilização de direitos, enquanto que o período após os anos 2000 é marcado por uma política neodesenvolvimentista associada ao crescimento do neoextrativismo, em continuidade às posturas econômicas da década anterior.

Ambos os conceitos, embora diferentes, possuem em comum a idéia de progresso como crescimento ilimitado, de nação como um pacto interclassista, o foco na inserção internacional da economia, a concepção do Estado e mercado como complementares para geração de crescimento econômico que significaria condição para distribuição de recursos e bem estar (MILANEZ & SANTOS, 2013).

Desta forma, o neodesenvolvimentismo constitui um fenômeno recente e localizado, de incidência especial na sociedade brasileira após a década de 2000 (SAMPAIO JR., 2012). Caracteriza-se como um “paradigma ideopolítico”, na medida em que serve às dimensões analítica-descritivas, mas também para formulação de um quadro normativo-propositivo de políticas públicas. Para seus defensores, seria visto como uma ‘estratégia de desenvolvimento’, uma alternativa ao programa neoliberal.

Sob sua concepção, o Estado seria complementar ao mercado, devendo criar uma aliança interclassista com vistas a garantir a realização do ‘interesse nacional’. (MILANEZ & SANTOS, 2013).

O desafio do neodesenvolvimentismo consiste, portanto, em conciliar os

aspectos “positivos” do neoliberalismo — compromisso incondicional com a

estabilidade da moeda, austeridade fiscal, busca de competitividade internacional, ausência de qualquer tipo de discriminação contra o capital internacional — com os aspectos “positivos” do velho desenvolvimentismo

— comprometimento com o crescimento econômico, industrialização, papel

regulador do Estado, sensibilidade social. (SAMPAIO JR, 2012, p.679)

A crítica a este paradigma compreende que não existe ruptura, mas sim continuidade em relação ao paradigma neoliberal, considerando que se perdem de vista as relações entre a presença do capital internacional com a vulnerabilidade externa, entre a desindustrialização e a especialização regressiva da produção, entre a especulação financeira como base de acumulação e a dependência estrutural com um modelo de exportação de commodities.

Os novos desenvolvimentistas são entusiastas do capital internacional, do agronegócio e dos negócios extrativistas. Defendem a estabilidade da ordem. Não alimentam nenhuma pretensão de que seja possível e mesmo desejável mudanças qualitativas no curso da história. São entusiastas do status quo. Na sua visão de mundo, desenvolvimento e fim da história caminham de mãos dadas. (SAMPAIO JR., 2012, p.685)

Na América Latina, embora não se desprezem as particularidades de cada país e processo histórico, observa-se a emergência do que se denomina de neoextrativismo, com a ampliação e especialização da produção de bens primários, extrativos, minerais, combustíveis e bens oriundos de monocultivos agrícolas voltados à exportação. Trata-se de um sistema “focado no crescimento econômico e baseado na apropriação de recursos naturais, em redes produtivas pouco diversificadas e na inserção internacional subordinada.” (MILANEZ & SANTOS, 2013, p.10)

Conforme apontado, a indústria mineral vem ganhando centralidade no neodesenvolvimentismo brasileiro, em muito motivada pelo atual aumento do preço dos minérios, de sua demanda global e da relevância internacional do Brasil no setor, devido à intensa quantidade de fontes destes materiais. Esta estratégia de crescimento demonstra-se percebendo que, no caso brasileiro, em 2013 o país duplicou a produção de alumínio, triplicou a de cobre, além da abertura de novas minas (GUDYNAS, 2009). O quadro abaixo também reflete este cenário:

Fonte: FASE, 2012, p.38

Para explicação do fenômeno, GUDYNAS (2009, p. 194) expõe a tese de que estamos diante de um neoextrativismo progressista, comandado por governos que se autodenominam de esquerda, o que não significa que se “puede defenderse una postura ilusionada en que estos nuevos gobiernos han modificado sustancialmente el extractivismo, y que están resolviendo sus impactos sociales y ambientales.”

A chegada destes governos progressistas na região, ao invés de implicar em um questionamento da indústria extrativista, alavancou-a como um dos pilares de desenvolvimento e lhe conferiu novos argumentos de legitimação, traduzidos na expressão do “interesse público”, do “sacrifício para o desenvolvimento nacional”, na “vocação da região” que não poderia ser desperdiçada, ou mesmo das condições para geração e redistribuição de renda.

Um dos principais aspectos que diferencia a atual retomada da indústria extrativista encontra-se no papel protagonista do Estado, com intervenções diretas no setor, explorando-o muitas vezes via empresas públicas. Além disso, o Estado também atua por meio da concessão de subsídios, do provimento de infraestrutura, com o apoio à internacionalização das empresas, de adaptação da legislação para permitir o avanço das práticas minerais etc.

Entre as atuais funções do Estado, merece destaque o que Gudynas chama de “Estado Compensador”, que consiste na criação de formas de legitimação da atividade por meio da compensação realizada com políticas de combate à pobreza e redistribuição de renda, gerando o argumento de que a exploração dos recursos naturais seria condição indispensável para apropriação de excedentes e garantia destas políticas.

A este discurso de legitimação, somam-se as promessas de geração de empregos, de fortalecimento do comércio e criação infraestrutura em regiões que muitas vezes suportam uma ausência histórica na prestação de serviços e garantias de direitos, aprofundando um cenário de vulnerabilização socioambiental:

Mientras que en ellos se expresa fuerte presencia estatal, están rodeados de

amplias regiones “desterritorializadas”, donde el Estado no logra asegurar su

presencia en forma adecuada y homogénea, observándose limitaciones por ejemplo en la cobertura de los derechos ciudadanos, los servicios de salud o la aplicación de la justicia. Es un Estado débil o ausente en muchas de esas

áreas, pero activo y presente en apoyar y proteger actividades extractivas en unos poços sitios. (grifo nosso) (GODYNAS, 2009, p.201).

A partir da implementação deste modelo, desencadeiam-se inúmeros conflitos socioambientais, seja pela exploração mineral, petrolífera ou de monocultivos, conduzidos, tantas vezes, pelas mãos do Estado e seu aparato regulador e militar, que ignoram a presença de comunidades tradicionais ou campesinas nestas regiões. Ainda que sejam conflitos localizados, expressam profundas contradições do modelo e atuam diretamente na conformação territorial, nas disputas por modos de vida, na relação entre os sujeitos sociais envolvidos, na determinação de políticas e na flexibilização da legislação pertinente. Cite-se, como exemplo mencionado anteriormente, as transformações da legislação pertinente, a fim de acolher o novo marco regulatório da mineração em processo de elaboração pelo Ministério de Minas e Energia (MME), cujas conseqüências envolvem a suscetibilidade de mineração em terras indígenas ou ambientalmente protegidas.

Em síntese, o neoextrativismo, menos que uma transformação na histórica dependência econômica dos países latino americanos, representa uma continuidade de políticas de expropriação dos bens socioambientais, com externalização de custos e sujeição diante das flutuações do mercado mundial de commodities. Tais práticas intensificam conflitos socioambientais nestes países e reafirmam as heranças coloniais que posiciona a América Latina no papel de exportadora de matérias-primas com baixo valor agregado e alto nível de dependência do mercado externo (FIRPO E FERREIRA,2013 p.4.)

Conforme destaca estudos realizados pela ong FASE - Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional, a estrutura do setor mineral destina aos países periféricos a “fase quente” (de transformação dos minerais em produtos semiacabados), a que mais utiliza energia e recursos ambientais, ao passo em que os países centrais concentram indústrias que operam na “fase fria”, aquela menos poluente e de

transformação em produtos de maior valor agregado (FASE, 2012, p.14). Este cenário vem levando pesquisadores a defender estratégias graduais de transição para a indústria mineral nestes países, incluindo:

a internalização progressiva dos custos socioambientais das atividades extrativas, a redução da dependência exportadora de recursos vinculando mais diretamente às atividades a cadeias econômicas nacionais e regionais, a definição de áreas livres em função da biodiversidade e da manutenção de dinâmicas socioprodutivas locais e, sobretudo, a construção de um debate público sobre os fins que orientam a produção mineral (FASE, 2012, p.15).

Tais estratégias evidenciam uma preocupação com a ausência de um marco protetivo eficaz da biodiversidade, das comunidades locais, da autonomia destes povos e dos procedimentos de deliberação democrática que ponham os grupos atingidos em condições de ter uma real incidência sobre as transformações do território em que vivem.

Para estudo do caso da mineração de urânio em Santa Quitéria, observa-se uma dupla inclusão nesta lógica. A exploração do colofanito49, minério de fosfato associado ao urânio, em um único complexo industrial, parece uma perfeita combinação do incremento da ‘autonomia’ nacional na produção de dois dos bens primários em destaque no mercado mundial: o fosfato, destinado à produção de fertilizantes agrícolas e o urânio, destinado à “diversificação” da matriz energética brasileira “limpa”, segundo o sustentáculo argumentativo de seus defensores.

Ao tempo em que se associam a exploração dos minérios, associam-se também indústrias extremamente perversas: a da mineração para produção de commodities sustentadoras do agronegócio e a da indústria nuclear. Associam-se, ainda, as justificativas dadas ao projeto: o aumento da produtividade agrícola e a diversificação da matriz energética como dimensões do ‘interesse público’ legitimador do empreendimento.

No terceiro capítulo iremos aprofundar o estudo sobre o empreendimento e as narrativas que procuram lhe legitimar, dentre as quais se destaca a noção de desenvolvimento como salvação, a promessa de geração de empregos, impostos, crescimento da região, contrapondo-as com as críticas ofertadas nas audiências públicas.

49 Após a purificação do ácido fosfórico extraído do colofatino, será produzido o Mono Amônio Fosfato

(MAP) e Fosfato Bicálcico (DCP) destinados à produção de fertilizantes e de nutrientes animais (ARCADIS LOGOS, 2014, p.24).

No capítulo que se segue, traçaremos nossas compreensões acerca de categorias fundamentais para esta pesquisa: conflito ambiental e poder.

3. CONFLITOS AMBIENTAIS E SEU ATRAVESSAMENTO POR

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