As políticas ambientais e os procedimentos normativos tendem a invisibilizar as relações de poder envoltas nos conflitos socioambientais e na apropriação dos bens ambientais. Para Martinez Alier, tomando pelo ponto de vista da ecologia política, “o enfrentamento entre o crescimento econômico, a iniquidade e a degradação ambiental deve ser analisado nos marcos das relações de poder” (MARTINEZ ALIER, 2014, p.356).
Presentes não apenas no momento da decisão ambiental, as relações de poder sublinham e desenham a própria condução dos procedimentos técnico-jurídicos. Contribuir para sua revelação constitui tarefa indispensável para evidenciar as desigualdades envolvidas nos conflitos socioambientais, a subordinação de sujeitos, a oligarquização da esfera decisiva e as injustiças do marco epistêmico e desenvolvimentista que hegemoniza a questão ambiental.
Entrecortando as relações de poder e das classes sociais, nos situamos fora das alternativas que percebem as relações de poder como fundamento das relações de produção ou as relações de produção como fundamento das relações de poder. Distinguindo a dimensão das estruturas da dimensão das práticas de classes,
(POULANTZAS, 1977) afirma que, nesta posição binária, “entender-se ia com isso que as relações de produção são o fundamento exclusivo das classes sociais, não sendo os outros níveis de luta de classes, por exemplo, o poder político ou o poder ideológico, senão o simples fenômeno do econômico” (POULANTZAS, 1977, p. 96-97).
O autor traz a definição de poder como “a capacidade de uma classe social de realizar os seus interesses objetivos específicos” (POULANTZAS, 1977, p. 100). Diante do conflito sobre o Projeto Santa Quitéria, com fortes dimensões distributivas e territoriais, esta noção nos ajudará a compreender as distintas posições de classes na disputa pela apropriação dos bens ambientais. Entretanto, pontuamos que esta definição de poder restrita às relações de classe não nos parece dar conta de uma análise integral das distintas formas de relação de poder – e de opressões, como aquelas que se fundamentam em questões de gênero, questões étnicas, religiosas ou intelectuais, para citar alguns exemplos, e que também se configuram no conflito em estudo. No caso em apreço, pretendemos dialogar poder a partir da Teoria de Bourdieu, vista adiante, mas aproveitamos desta conceituação a relevante compreensão sobre a disputa de interesses objetivos.
Esta capacidade de realização de interesses é relacional e encontra-se situada no interior de um conflito no qual importa a organização do poder de classes como condição de sua ação, mas que, por outro lado, encontra limites pela capacidade de realização de interesses de outra classe antagônica, o que implica em uma relação específica de dominação de subordinação entre elas. (POULANTZAS, 1977, p.101).
Tal aspecto relacional implica, em nossa percepção diante de uma sociedade desigual, em uma assimetria de poder entre classes, na medida em que a capacidade de
realização dos interesses de uma limita o de sua oponente. Nos conflitos ambientais, percebe-se com nitidez como a expansividade do capital engloba, desestrutura e termina por aniquilar outros modos de vida e relação social. Não há, nestes casos, capacidade de alteridade na convivência, principalmente diante da necessidade do capital de internalizar os bens ambientais e externalizar os custos e passivos socioambientais para máxima realização de seus interesses.
Os interesses de classes constituem, nesta definição de poder, interesses objetivos, ou seja, são menos expressão de conotações psicológicas e mais interesses comuns a partir de uma realidade partilhada. Isso não significa que, nas práticas sociais, sua definição não sofra a influência das ideologias, levando às distintas representações que os agentes sociais fazem de seus interesses. “No terreno dos interesses a função da
ideologia pode dar lugar a numerosas formas de ilusão”, afirma Poulantzas (1977, p.108).
Durante esta pesquisa, muitas vezes falaremos acerca da capacidade de incidência dos sujeitos sociais nos processos decisórios, em especial quando tratarmos do direito de participação e das tomadas de decisões no licenciamento ambiental. Entretanto, compreendemos que a noção de poder não se confunde com a participação nas tomadas de decisões, sendo este apenas um dos campos nos quais as relações de poder se evidenciam.
Dialogar com a percepção de que vivemos em uma sociedade de conflitos e de classes faz com que a discussão sobre a incidência nas instâncias decisórias, ou mesmo sobre os conteúdos atribuídos ao direito de participação, se realize sob uma perspectiva de denúncia das desigualdades de poder e das diferentes formas de subordinar, que ocorrem por mecanismos tanto de exclusão como de integração subordinada. Desta forma, procuraremos nos distanciar de uma concepção voluntarista das tomadas de decisões e da participação, que incorre no risco de: ocultar os conflitos de interesse induzindo a uma concepção integracionista da sociedade; menosprezar a eficácia das estruturas sociais e não permitir que se localizem os reais centros de decisões nos quais se percebem as desigualdades de poder (POULANTZAS, 1977, p.100).
A capacidade de realizar o interesse de uma classe social, ou o exercício de uma relação de poder, nesta pesquisa estará relacionada com a criação das condições sociais de aceitação de um empreendimento em um contexto de conflito. Tais condições modulam-se a partir de processos de legitimação de práticas sociais, de desqualificação de oposições, de nomeação de idéias (a exemplo da caracterização de uma obra como “essencial”, “de interesse nacional”, “propulsora de desenvolvimento”...) que restringem a oportunidade de crítica e resistência ao projeto em debate. Produz-se um contexto em que “o imperativo da aceitação substitui a política pela submissão” (ACSERALD, 2014, p.92).
Trazer ao debate a relação de subalternidade na qual são colocados os sujeitos sociais atingidos por grandes empreendimentos é contribuir para desconstrução da hegemonia que procura lhes retirar a visibilidade. Klemens Laschefski caracteriza a subalternidade como um estado de exclusão de grupos sem acesso às estruturas hegemônicas de poder, o que não implica em uma condição de carência ou completa ausência de influência e resistência nos processos decisórios (LASCHEFSKI, 2011, p. 25). Em contraponto a estes mecanismos, o autor aponta para a desconstrução desta
relação de subalternidade ocorre pela afirmação do princípio da reciprocidade, compreendido como “a potencialização do paradoxo, explodindo na construção de significados e processos de subjetivação diversos dos habitus”, ou seja, a exploração das contradições entre os distintos projetos sociais que se encontram em jogo decisórios (LASCHEFSKI, 2011, p. 25).
Para Martinez Alier, o poder aparece de duas formas nos conflitos ambientais. Primeiro, pela capacidade de impor decisões. Segundo, pelo “poder de procedimento que, triunfando em aparência sobre a complexidade, se torna capaz de impor a todas as partes implicadas uma determinada linguagem de valoração como critério básico para julgar um conflito ecológico distributivo” (MARTINEZ ALIER, 2014, p.357).
No que tange ao licenciamento ambiental, a capacidade de impor decisões aparece legitimada pela ação do aparelho estatal, que confere aparente neutralidade às decisões ambientais. O poder de procedimento nos revela, além das determinantes econômicas sobre a burocracia estatal, as dimensões epistemológicas, discursivas e ideológicas do conflito.
Nas corridas para obtenção das licenças ambientais, as empresas traçam seus planos de ação e partir de estratégias racionalizadas, que irão conferir um padrão entre seus discursos e práticas. Deborah Bronz analisa as “cenas participativas” nos “rituais democráticos” do licenciamento ambiental sob a ótica destas estratégias, que considera como um “produto de um senso prático e de um sentimento de jogo; um jogo particular e historicamente determinado” (BRONZ, 2011, p. 82). Neste jogo, estão em disputa as condições de aceitação do empreendimento e, portanto, as narrativas que lhe justificam, os conceitos e conhecimentos que lhe legitimam e os espaços de debate que lhe democratizam.