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Babam Sana Emanet

Belgede GENÇ OLMAK. 80 Yazardan 80 Öykü (sayfa 160-176)

Para realizar esta análise dos conflitos ambientais, Pierre Bourdieu nos auxiliará com a noção das estratégias de dominação, entendida como:

A dominação não é o efeito direto e simples da ação exercida por um

conjunto de agentes (“a classe dominante”) investidos de poderes de coerção,

mas o efeito indireto de um conjunto complexo de ações que se

engendram na rede cruzada de limitações que cada um dos dominantes, dominado assim pela estrutura do campo através do qual se exerce a dominação, sofre de parte de todos os outros. (BOURDIEU, 2011, p.52).

Um dos pontos centrais da teoria de Bourdieu50 consiste na compreensão da função política dos sistemas simbólicos, que além de uma função de comunicação e de conhecimento, exercem um poder que a um só tempo é estruturante e estruturado socialmente. O poder simbólico, em Bourdieu, se apresenta como um poder invisível, gnosiológico, de dar sentido, de impor significados como legítimos. Sua capacidade de ser exercido é diretamente proporcional ao seu reconhecimento como legítimo, naturalizando as categorizações dos objetos sociais que faz, ocultando sua historicidade e arbitrariedade, servindo, portanto, às dominações ideológicas51.

Pode-se deduzir que o poder simbólico é uma condensação legitimada de outras formas de poder, constituída pelo que o autor chama de eufemização, ou seja, a transformação de outros capitais (econômico, social, político...) em capital simbólico, que dissimula e transubstancia as relações de força (BOURDIEU, 2010; 2011). Os sistemas simbólicos são instrumentos estruturados e estruturantes de comunicação e de conhecimento que cumprem funções de imposição ou legitimação das relações de dominação, reforçando, com a força que lhe é atribuída, as relações de poder que lhe sustentam (BOURDIEU, 2010, p.11). Esses sistemas produzem, portanto, sistemas de percepção e crenças que fundamentam as opressões. A esta produção chama-se ‘violência simbólica’, que Bourdieu caracteriza como:

A violência simbólica é esta violência que extorque submissões que sequer são percebidas como tais, apoiando-se em “expectativas coletivas”, em crenças socialmente inculcadas. Como a teoria da magia, a teoria da

violência simbólica apóia-se em uma teoria da crença, ou melhor, em uma teoria da produção da crença, do trabalho de socialização necessário para produzir agentes dotados de esquemas de percepção e de avaliação que lhe farão perceber as injunções inscritas em uma situação, ou em um discurso, e obedecê-las. (BOURDIEU, 2011, p. 170-171) (grifo

nosso)

Desta forma, os grupos e agentes sociais se inserem em uma luta simbólica para a imposição de uma categorização do mundo social conforme seus interesses e posições em um correspondente campo social52. Essas estruturas não geram, entretanto,

50 Bourdieu apresenta uma teoria que busca compreender as relações entre indivíduo e sociedade e a

reprodução das estruturas sociais, propondo uma teoria da prática social na qual os indivíduos detém múltiplas possibilidades de agir, entretanto, dentro de um campo delimitado, o que induz que as chances de ações se encontram condicionadas pelas estruturas objetivas (ORTIZ, 1983).

51Para Bourdieu, “As ideologias, por oposição ao mito, produto coletivo e coletivamente apropriado,

servem interesses particulares que tendem a apresentar como interesses universais, comuns ao conjunto

do grupo.” (BOURDIEU, 2010, p.10)

52 Para Bourdieu, “todas as sociedades se apresentam como espaços sociais”, que só podem ser

apreendidos por meio dos seus princípios diferenciadores que fundam as diferenças entre os agentes na

incapacitação, tampouco interditam divergências, embora não as propicie. O que se pretende considerar é que as potencialidades de ações dos agentes sociais encontram-se determinadas por sua posição nos campos e pelo quantum de distribuição e peso relativo dos capitais que possuem. Trata-se de uma luta pela imposição de sentidos legítimos que correspondem a uma visão de mundo a estruturas objetivas de determinadas classes ou frações de classes.

Desta forma, o campo com relativa autonomia, estruturado pelas posições dos agentes e instituições, aparece como um espaço de possíveis que orienta a busca dos agentes sociais e define as regras e coordenadas para se entrar no jogo. As lutas concorrenciais ocorrem internamente a um determinado campo (o científico, por exemplo, no qual se disputa a máxima autoridade científica) ou entre campos distintos (o científico e o econômico, por exemplo).

Quando se fala de luta, de divisão em campos antagônicos, de jogo, quer- se dizer a relação a um poder. O campo é estruturado a partir das relações

de poder, que se traduz em uma oposição de forças, distribuídas entre posições dominantes e posições dominadas, segundo o capital simbólico, econômico e cultural dos agentes e instituições (LIMA, 2010, p.16). (grifo nosso)

Na relação entre os capitais e as estruturas, Bourdieu afirma que “as relações de força objetiva tendem a reproduzir-se nas relações de força simbólica” (BOURDIEU, 2010, p.145), embora esta não seja uma transformação automática ou voluntarista. Na luta por esta imposição da visão legítima de mundo, de sua categorização, os agentes possuem um poder proporcional ao reconhecimento que recebem de um grupo53.

Neste ponto, tem importância a função das categorias de percepção do mundo social, enquanto produtos da incorporação das estruturas objetivas do espaço social e que levam os agentes mais a aceitarem como natural o mundo social do que a rebelarem-se contra ele, aqui, o sentido da posição social aparece como “o sentido eficientes no universo social considerado”, que variam de acordo com cada sociedade e o momento

considerado e, ainda, que não é imutável e sim caracterizada por uma dinâmica de conservação e transformação, de forma que o espaço social global constitui-se como um campo de forças e de lutas (BOURDIEU, 2011, p.50). Este espaço social delimita-se por meio de distintos campos, constituídos por relações socialmente distribuídas. O campo (como o econômico, cultural, político ou jurídico) se opera com certa autonomia e por meio de leis próprias; constituem-se mais pelas posições sociais que pelos agentes que dele participam, tendo em vista que refletem uma luta de forças, uma busca por posições e acúmulos de capitais, marcando a operação do campo por um mecanismos de dominação e conflito constantes. Os agentes e grupos ocupam posições relativas em campos de força cujas relações de força impostas independem da vontade dos agentes.

53 “O capital simbólico não é outra coisa senão o capital, qualquer que seja a sua espécie, quando

percebido por um agente dotado de categorias de percepção resultantes da incorporação da estrutura da sua distribuição, quer dizer, quando conhecido e reconhecido como algo de óbvio.” (BOURDIEU, 2010, p. 145)

daquilo que se pode ou não se pode permitir-se a si mesmo implica uma aceitação tácita da posição, um sentido dos limites (“isso não é para nós”) ou, o que é a mesma coisa, um sentido das distâncias” (BOURDIEU, 2010, p.141). Este sentido de distâncias será uma útil ferramenta para compreender a percepção que os moradores do entorno da mina fazem do licenciamento, bem como o sentimento de impotência de ação, muitas vezes partilhado em suas falas.

Considerando o mundo social como algo a ser construído, embora que dentro das determinantes das posições dos agentes, Bourdieu aponta que esse processo de reprodução e transformação ocorre inseparável das noções de cooperação (entre agentes para fortalecer seus poderes) e conflitos de interesses para ressignificar os princípios de distribuição e hierarquização de capitais. Neste conflito de interesses, especialmente nos conflitos ambientais, a assimetria de poder entre os grupos sociais vai impor um traçado de distintas injustiças para a análise da viabilidade ambiental de um projeto.

A disputa pela capacidade de naturalizar a categorização do mundo social implica em uma disputa por incidência no Estado, detentor do monopólio do uso legítimo da violência física e simbólica. O Estado, para Bourdieu, possui uma espécie de metacapital, que consiste na concentração de diversos capitais e no reconhecimento social, na legitimidade, que exerce, seja unificando códigos, seja nomeando e instituindo princípios de visão e divisão comuns. O Estado, portanto, “confere aparência de natural a um arbítrio cultural” (BOURDIEU, 2010, p.95).

A luta simbólica pela produção do senso comum, dirá Bourdieu, envolve a luta pelo monopólio da nomeação legítima que classifica a todos e tem, por meio do campo e da linguagem jurídica, um mecanismos também de nomeação e classificação oficial que se pretende autorizada e universal. A nomeação oficial será, então, “o ato de imposição simbólica que tem a seu favor toda a força do coletivo, do consenso, do senso comum, porque ela é operada por um mandatário do Estado, detentor do monopólio da violência simbólica legítima” (BOURDIEU, 2011, p.146), ainda que nas relações entre os agentes, este consenso seja questionado nas resistências contra-hegemônicas, que não exista uma plena identidade coletiva e sim fracionada entre os grupos sociais e os campos em que se encontram

Como dimensão do poder de nomear, o Estado detém o poder de juridificação, que incide efetivamente no campo ambiental “pela implementação de determinadas políticas e leis que anulam as diversidades socioculturais em função de uma visão

parcelar, legitimada pela “cientificização” e “juridificação” (ZHOURI; LASCHEFSKI; PAIVA, 2005, p.97). Assim,

no lugar de vínculos pessoais tradicionais, locais, pré-modernos, rompidos pelo avanço da economia de mercado, deve-se erguer uma enorme superestrutura político-jurídica que cuide continuamente da codificação das relações sociais e da preservação do caráter vinculatório do direito (ZHOURI; LASCHEFSKI; PAIVA, 2005, p.97).

Compreender este lugar privilegiado não importa em autonomizar o Estado. O que se reconhece, neste momento, é que o Estado aparece como estrutura política dotada de especificidades que o moldam como uma relação de forças capaz de dialogar e atuar sobre os conflitos ambientais por meio de uma gramática e de poderes próprios.

Seguindo nesta compreensão, temos que o Estado é marcado por contradições, o que significa que ele não constitui apenas um aparato de coação a serviço do capital, ainda que em muitas de suas formas e institutos materializem relações capitalistas de produção (como a figura do contrato, por exemplo).

Poulantzas situa o papel decisivo do Estado para as relações de produção. Para o autor, o Estado representa, a longo prazo, o conjunto da burguesia, dominado pelas suas frações que esteja no poder, “estas frações se situam no seu conjunto [...] fazendo então sempre parte do bloco no poder [...] O Estado capitalista deve deter sempre uma autonomia relativa com relação a esta ou aquela fração do bloco no poder” (POULANTZAS, 1977, p.21) (grifos no original).

Embora tenha uma relativa autonomia e represente, a longo prazo, hegemonicamente interesses burgueses, o Estado encontra-se em permanente disputa e em relação com os grupos sociais. O autor fornece importante contribuição para entender o Estado não como uma entidade intrínseca, como um sujeito autônomo ou como um instrumento do capital, mas como uma relação, uma

condensação material (o Estado-aparelho) de uma relação de forças entre classes e frações de classe tal como se exprimem, sempre de modo específico (separação relativa do Estado e da economia dando lugar às instituições próprias do capitalismo) no próprio seio do Estado (POULANTZAS, 1977, p. 22) (grifos no original).

Tal percepção do Estado como relação de forças deságua em um ponto que será fundante para esta análise, qual seja, a adoção de uma perspectiva dialética para compreender as pressões e disputas em torno do Estado e suas funções. Assim, considera-se sua autonomia relativa não como algo que lhe confere uma vontade racionalizante, que lhe autonomiza, mas algo que faz de suas políticas “a resultante das

contradições de classe inscritas na estrutura mesma do Estado (O Estado é uma relação)”, o que significa que ele é a todo tempo atravessado pelas contradições de classes e “não pode jamais ser um bloco monolítico sem fissuras” (POULANTZAS, 1995, p.23).

Essas contradições internas e fissuras do Estado, bem como seu papel privilegiado na distribuição de poder, podem servir de fontes explicativas na compreensão do licenciamento como espaço de disputas e conflitos de interesses e valores. Pode, ainda, auxiliar a compreender as disputas em torno dos canais de participação social das últimas décadas, dentre os quais se incluem as audiências públicas.

Quando Poulantzas (2011, p.24) explicita a contradição das decisões seletivas do Estado, os processos de tomada de decisões e de “não-decisões”, as prioridades elegidas fora dos espaços de fissuras ou de participação, a permeabilidade mais restrita aos interesses dominantes em relação aos centros de decisões e orientações determinantes de suas políticas, todos estes aspectos trazem elementos para compreender a dinâmica dos espaços de debate público.

Com aporte em Thompson (1995), Rigotto (2004) pondera que as teorias da reprodução social organizadas pelo Estado desconsideram uma fatia considerável do

dissenso, não-satisfação, ceticismo e cinismo, contestação e desacordo que há nas sociedades industriais modernas [...] Embora as instituições do Estado moderno sejam territórios extremamente importantes de poder e dominação,

“as relações de poder que atingem a maioria das pessoas na maior parte do

tempo são as caracterizadas pelos contextos sociais em que vivem suas vidas cotidianas: a casa, o local de trabalho, a escola, os companheiros. Ambos interessam ao estudo da ideologia” (RIGOTTO, 2004, p.133 apud THOMPSON, 1995, p.18).

Desta forma, torna-se possível conciliar uma visão do Estado e do Direito como campo de disputas que promovem mediações sociais, ao mesmo tempo em que incorporam diferentes fissuras provocadas pelas pressões de grupos e classes sociais.

Neste sentido, entre as políticas ambientais e os empreendimentos que carregam o discurso de promoverem o ‘desenvolvimento’, existem uma relação ambígua. Ora as políticas ambientais servem a estes empreendimentos, legitimando-os ou conferindo as condições técnico-jurídicas para sua instalação; ora os instrumentos desta política aparecem como ‘entraves’ a tais projetos. Disto decorre que o Estado, por seus distintos canais de atuação, assume distintas posições em relação a um projeto, que varia entre a figura do próprio empreendedor ou “parceiro” do projeto, a de mediador

dos sujeitos sociais, a de compensador dos impactos, a de julgador (administrativo ou judicial) dos conflitos (ZHOURI, 2010, p.5).

Feitas estas considerações sobre as relações de poder e de dominação no espaço social, precisamos ainda situar o leitor sobre mais um aporte conceitual que orientará nosso exercício de interpretação do conteúdo das audiências públicas. Trata-se de compreender que estas relações de poder permeiam também as regras, formas, intencionalidades e significados dos distintos discursos que se evidenciam neste espaço. A língua, assim como a técnica, não é neutra e deve ser analisada enquanto instrumento de poder social.

Belgede GENÇ OLMAK. 80 Yazardan 80 Öykü (sayfa 160-176)