Eu fui pra rua porque eu achava que lá eu ia ter mais liberdade, e tinha mesmo, fiz muito amigo lá, tive umas parceiras, as vezes descolava um grana legal, era massa, ah! E conheci os educador que as vezes ajuda a gente, né?! Tu entende?! Mas eu também passava fome, frio, não tomava banho, só era ruim por isso e também quando eu era novato que eu não tinha amigo, ó?!” (ADOLESCENTE abrigado em ONG).
De acordo com esse discurso, dá para observar que a rua é um espaço de grandes contradições para as crianças e os adolescentes. Ao mesmo tempo em que ela é desejada com euforia, é rejeitada com medo, pelo fato de ser um universo a priori desconhecido; traz retornos esperados, como dinheiro e afetos, mas também conduz fome e frio. A permanência nela remete-me a uma ideia a priori de grandes rupturas, contudo com a casa, com a família, com a escola. Contudo, para seus habitantes, a rua passa a ser também o lugar da proteção, da atenção e do cuidado, como afirmou o adolescente cuja fala foi reproduzida há pouco, pois nela se constroem afetos e afagos, laços são criados, amores são encontrados, desejos são vividos, filhos são encomendados. Por mais paradoxal que possa parecer, na rua essas aspirações são satisfeitas concreta e simbolicamente.
2.4.1. Situação de vivência na rua
Cabe salientar, ainda, o que esses meninos e meninas dizem fazer quando na rua. Neste sentido, a maioria diz que está “pedindo” e “perambulando”, ou seja, em situação de “vulnerabilidade social”, somando 68,5% dos casos. Apenas 13,4% verbalizam estar em situação de conflito com a lei, furtando, roubando e envolvidos com o tráfico de drogas. Essas situações, porém, se entrecruzam, pois existem aqueles envolvidos com todas essas situações. Para ilustrar, segue a fala de um educador a respeito dos “meninos da Beira-Mar”
Os meninos aqui são muito artista, quando vêem um gringo fazem cara de fome e até choram, até que ganham um Mc’ Lanche Feliz, mas é só o tempo de ganhar porque vendem a R$ 1,00 para os taxistas. Sem contar que ao mesmo tempo que pedem estão prestando atenção para ver se os gringos vacilam pra dar pra levar alguma coisa deles. Pode perguntar a qualquer um aqui, eles mesmos contam isso. (EDUCADOR DE RUA DE UMA ONG)
Esses vários papéis assumidos fazem da rua o espaço da criação de personagens. Segundo Maria Filomena Gregori (2000),
[...] os meninos e meninas circulam e se viram na rua na tentativa de manipular recursos simbólicos e identitários para dialogar, comunicar e se posicionar, o que implica a adoção de várias posições: comportam-se como ‘trombadinha’, como ‘menor carente’, como sobrevivente, como adulto, como criança [...] (Op. cit., P. 31)
Assim sendo, acrescenta a autora, eles incorporam as diferentes representações sociais e encenam ações de acordo com a situação que lhes for mais conveniente. Portanto, a rua que os classifica é também um espaço de vivência onde encontram lugar “simbólico, indentitário e material” (Op.cit).
Gráfico 3: Distribuição por situação de vivência na rua
43 9 21 72 213 259 72 0 50 100 150 200 250 300 Trabalha P erambula P edinte F urta/R ouba S ituaç ão de Tráfic o S ituaç ão de E x ploraç ão S ex ual O utras
Fonte: Núcleo de Articulação dos Educadores Sociais de Rua 2.4.2. Parcerias na rua
Um vez no campo, notei que, no afã de tais práticas cotidianas, há constituição de um enredo que organiza a rede de relações na rua. Os laços criados não substituem os liames familiares, mas são fundamentais para a sobrevivência nela.
Para tanto, a sobrevivência na rua muitas vezes está vinculada aos tipos de parcerias que nela são feitas. Nesta pesquisa, as amizades aparecem em primeiro lugar, com 58,2%, como as relações estreitas mais estabelecidas. Em segundo, aflora a família (pais, irmãos e outros parentes) com 25,3%. Este elemento guia para dois tipos de análises: primeiro, se há família na rua é sinal de que nem todas as crianças e os adolescentes estão totalmente abandonados; a segunda situação valida a informação de
que a família é uma grande motivadora da ida para a rua, já que ela mesma também se encontra lá.
2.4.3. Uso de drogas
O uso de drogas é outra prática recorrente entre esses agentes. Dentre os entrevistados, 67,11% se disseram usuários. O índice é alto, perfaz mais da metade dos meninos, portanto, não pode ser ignorado. É importante destacar, porém, que 31,52% dizem estar fora dessa prática. Dentre as drogas mais utilizadas, estão a cola38 (solvente) e o crack39 (derivado da cocaína).
2.4.4. A intimidade vivida nas ruas
Os amores são peças/instrumentos que não podem deixar de ser assinalados. Defrontar a questão das relações sexuais é trabalhar também com o não-dito. Para isso, basta observar que 40,6% dos entrevistados não responderam ao item. É importante encarar, todavia, com suporte nos dados, que 36% disseram já ter tido esse tipo de experiência. É como ilustra a fala desse adolescente, em conversa com um educador na rua: “Num tem essa menina aí, ó?! Ela diz que não fica com nenhum de nós, né?! Mas só essa semana ela já pegou num sei quantos aqui, ontem mesmo ela tava ali atrás daquela árvore com o fulano de tal”. É interessante perceber, por meio dessa fala, como “naturalmente” eles lidam no espaço público com uma ação que, mais do que qualquer outra, está vinculada, no imaginário coletivo, ao espaço privado.
As experiências relatadas auxiliam no entendimento das dinâmicas institucionais que serão apresentadas adiante. Tendo em mente que a criança e o adolescente em situação de moradia nas ruas, como segmento específico da sociedade,
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“Entende-se por ‘Cola de Sapateiro’ todo produto cuja composição química tenha solvente hidrocarboneto aromático (tolueno) e seus similares químicos” (Lei Estadual nº 1.070/92, art. 2º). Os efeitos dos solventes, substância contida na “cola de sapateiro”, vão desde uma estimulação inicial, seguindo-se de uma depressão, podendo aparecer processos alucinatórios. Os solventes causam tolerância, ou seja, levam o usuário a consumir quantidades cada vez maiores da mesma droga ou a recorrer a substâncias mais fortes para obter o efeito desejado. Ver detalhes sobre essa substância no site:
http://www.ac.gov.br/mp/coladesapateiro/index.html#about. Acessado em 07 de maio de 2008
39 O crack deriva da planta de coca, resultante da mistura de cocaína, bicarbonato de sódio ou amônia e
água destilada, resultando em grãos que são fumados em cachimbos ou “na lata”. Por ser estimulante, ocasiona dependência física e, posteriormente, a morte, por sua terrível ação sobre o sistema nervoso central e cardíaco. Em decorrência de sua ação sobre o sistema nervoso central, ele enseja aceleração dos batimentos cardíacos, aumento da pressão arterial, dilatação das pupilas, suor intenso, tremores, excitação, maior aptidão física e mental. A dependência se constitui em pouco tempo no organismo.
possui características peculiares, o que a mim particularmente interessa é o passo seguinte: como cada entidade elabora sua política e atua.
Para isso, tomo como pressuposto a noção de que a crença em um determinado tipo de atendimento e a estrutura das organizações são peças fundamentais para pensar os pormenores das entidades no agenciamento de atenção ao público em foco, bem como para entender os conflitos entre os que compõem a rede de abordagem de rua.