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Durante o período colonial, a política se desenvolveu tendo o município por núcleo. A autonomia do poder local era percebida através da eleição dos seus representantes à

Câmara Municipal, que eram recrutados entre os proprietários rurais, os chamados “homens bons”.

Predominou um poder centrífugo devido ao fato da metrópole Portuguesa não fazer-se presente no vasto território brasileiro face à impossibilidade técnica, econômica, militar e política. Assim, devido à ausência de um Estado central que impusesse uma ordem pública, o poder local possuía muito poder.

O Estado era representado no poder local apenas pela presença de um servidor do Estado português, o juiz-de-fora, que muitas vezes se submetia ao poderio dos mandões locais. É importante observar que a colonização foi iniciada não pela ação do Estado, mas pela iniciativa particular. Muitas famílias ocuparam e colonizaram os territórios, visto que esse era o método mais seguro para garantir a solidariedade de todos na defesa da terra contra os aborígines. Como bem mostra Gilberto Freyre (1987, p. 18-19) na página seguinte.

A família, não o indivíduo, nem tampouco o Estado nem nenhuma companhia de comércio, é desde o século XVI o grande fator colonizador do Brasil, a unidade produtiva, o capital que desbrava o solo, instala as fazendas, compra escravos, bois, ferramentas, a força social que se desdobra em política, constituindo-se na aristocracia colonial mais poderosa da América.

A história da colonização dos Inhamuns confunde-se com a narrativa da família Feitosa. Assim, não tivemos a presença do Estado no sentido weberiano do termo16, passando a instituição familiar a preencher essa lacuna, dando brecha para a ocorrência de inúmeros conflitos.

Na historiografia brasileira existiu uma discussão se o país teria experimentado ou não o feudalismo. Entre a tradição “feudalista”, temos a interpretações de Nestor Duarte (1939), Oliveira Vianna (1955) e, posteriormente, Alberto Passos Guimarães (1968) e Maria Isaura Pereira de Queiroz (1976), que defendem a tese de que o Brasil teve um passado feudal, argumentação assentada no poder dos potentados rurais e sua parentela diante do Estado. Em contrapartida, Raymundo Faoro (1975) sustenta a hipótese de que uma organização patrimonial assentada em estamentos burocráticos empreendeu no Brasil uma colonização marcada por um capitalismo mercantilista.

Nos Inhamuns, a família Feitosa preencheu o vácuo da ausência do Estado. Queiroz (1976), ao abordar o mandonismo local na política brasileira, cita a família Feitosa como exemplo de poder privado que dificultou a penetração do Estado nessa região. Essa família ficou conhecida na historiografia brasileira, sobretudo após a guerra privada em que se envolveu com os Montes, descrita na obra de Costa Pinto (1980), que trata de lutas de famílias no Brasil. Nesse livro, o autor aborda dois estudos de caso sobre vingança privada, destacando o conflito entre as famílias Pires e Camargo, que habitavam o interior paulista, e as famílias Monte e Feitosa, que se localizavam no interior do Ceará. Esse segundo conflito17 durou apenas dois anos, mas teve um impacto grande no imaginário coletivo sertanejo, sendo o nome Feitosa sinônimo de valentia, poder e prestígio.

Os Feitosas, à semelhança dos Bezerra de Menezes descrito por Lemenhe (1996), dedicaram-se à produção e publicação de sua história como grupo familiar. Assim, o registro que se segue sobre essa família baseia-se nas seguintes obras: Leandro Feitosa (1952):

“Tratado genealógico da família Feitosa”; Nertan Macêdo (1967): “O clã dos Inhamuns”;

16 Para Weber (2004, p. 60), o Estado é uma comunidade humana que, dentro dos limites de determinado território, reivindica o monopólio do uso legítimo da violência física, se transformando na única fonte legítima

com “direito” à violência.

Gomes de Freitas (1972): “Inhamuns (terras e homens)” e Aécio Feitosa (2006): “Sesmarias dos Feitosas no Ceará”.

Segundo relatos históricos, os Feitosas dos Inhamuns descendem de João Alves Feitosa, português que no século XVII era sesmeiro no distrito de Penedo, próximo à foz do rio São Francisco, rio dos currais, como era conhecido. Em 1707, seus dois filhos, Lourenço Alves Feitosa e Francisco Alves Feitosa, invadiram o planalto dos Inhamuns, solicitando a sesmaria do Jucá, um afluente do Rio Jaguaribe (FEITOSA, 1952).

Os Inhamuns (no tupi inho, inham: sertão, e um: alto)18 eram de excelência para a pecuária devido aos seus vastos planaltos com altitude média de 450 metros e de topografia mais ou menos uniforme, com solos secos e pedregosos, apropriados para a criação de animais. Dessa forma, foi colonizado para a criação extensiva de gado que abasteceria a zona açucareira de Pernambuco e Bahia, transformando os Inhamuns em um dos principais produtores de gado do Nordeste.

A primeira sesmaria nessa região foi doada a Lourenço Alves Feitosa, seu irmão Francisco Alves Feitosa e mais quatro companheiros em 26 de janeiro de 1707. Lourenço se tornou o maior latifundiário dos Inhamuns durante décadas, pois além de receber do Estado vinte sesmarias espalhadas ao longo do Jaguaribe, posteriormente herdou as terras seu irmão Francisco Alves Feitosa após sua morte em 1770 (CHANDLER, 1980).

Os Feitosas dos Inhamuns são descendentes de Francisco Alves Feitosa19, de suas três esposas e de seus filhos e enteados, além dos filhos dessas esposas e de seus cônjuges. Conforme a genealogia traçada por Leandro Feitosa, muitos descendentes de Francisco escolheram pessoas dentro da parentela ou do seu grupo familiar para se unirem, ocorrendo casamentos não só entre primos em primeiro grau como também entre tios e sobrinhos. Assim, das trinta e duas pessoas que casaram na primeira geração (filhos de Francisco e suas esposas) dessa família, vinte e quatro escolheram os membros do próprio grupo (CHANDLER, 1980).

Essa família utilizava de variados recursos para a manutenção de seu status quo, por exemplo: casamento entre membros do próprio grupo familiar para evitar as divisões de terra, alianças por meio de casamento ou parentesco ritualizado com famílias de igual prestígio político e econômico, ocupação de cargos-chave na burocracia municipal e, principalmente, a organização em rede de parentela.

18 Freitas (1972, p. 33).

Conforme Dulci (2007), durante o período colonial tivemos, no Brasil, a existência de duas elites. O primeiro grupo de elite era formado pelas autoridades da coroa, que formava uma elite burocrática. A origem do poder dessa elite vinha da força e do prestígio da monarquia e da competência dos indivíduos desse grupo em lidar com assuntos burocráticos do governo.

O outro grupo de elite era formado pelas autoridades locais, uma elite de proprietários rurais. Seu poder provinha da posse de terras, da riqueza e do uso da violência.

Compunha um poder intitulado por Queiroz (1976) como “mandonismo”. O mandão local ou

chefe exerceu sobre a população um domínio pessoal e arbitrário que impedia que seus subordinados tivessem livre acesso ao mercado e à sociedade política. Houve uma tendência à privatização do poder, antagônica e hostil ao Estado como poder público. O Estado, por sua vez, omitia reduzindo suas tarefas à mera coleta de impostos.

Conforme Chandler (1980), o principal elemento de controle social nesse período era o poder dos indivíduos. Os potentados rurais recebiam o beneplácito oficial para outorgar comissões na milícia e, em alguns casos, a patente de capitão-mor local. O autor ressalta que:

A relação coroa-fazendeiros ressentia-se do elemento necessário da reciprocidade. Enquanto a coroa precisava dos potentados e exigia muito deles, eles, em contrapartida, tinham poucos motivos para respeitar ou confiar na coroa (CHANDLER, 1980, p. 48)

Os Feitosas passaram a ocupar cargos importantes na hierarquia do governo português nos Inhamuns. Francisco Alves Feitosa, primeira autoridade portuguesa na região, foi nomeado coronel da cavalaria dos Inhamuns em 1719; seu neto, Eufrásio Alves Feitosa, nomeado Tenente-Coronel; seu bisneto, José Alves Feitosa, nomeado Capitão-mor dos Inhamuns (1791-1823). O último capitão-mor nos Inhamuns, pois este posto foi extinto em 1831, foi Antônio Martins Chaves, que embora não fosse Feitosa, era casado com uma prima de primeiro grau dos Feitosas.

Cabe ressaltar que o cargo de capitão-mor local era ocupado pela personalidade mais poderosa da área, numa tentativa da autoridade real utilizar os poderes dos potentados locais ao seu próprio favor. Esse capitão-mor local funcionava como um soberano absoluto.

Em 1802, os Inhamuns foi promovido à posição de vila, e Tauá, território dos Feitosas, escolhido para sediá-la. A vila foi batizada de São João do Príncipe e englobava os povoados de Arneiroz, Cruz (mais tarde intitulada Saboeiro), Flores e Maria Pereira

(atualmente Mombaça). Em 1823, a vila de São Mateus (atualmente Jucás) foi instalada e o povoado de Cruz foi anexado a essa vila.

Nesse período, o poderio dos Feitosas começa a ser ameaçado pela emergência de outra família influente na política da região dos Inhamuns, a Fernandes Vieira (Carcará), que tinha Cruz (Saboeiro) como zona de influência.

Chandler (1980), analisando o poder exercido pelos Feitosas, indaga se haveria

nos Inhamuns o conceito de “governo” que funcionasse independente da família, ou seriam o

poder da família e o poder público as mesmas coisas? Para responder a esse questionamento, o autor analisa as tentativas de impor um governo representativo nos Inhamuns no século XIX e percebe que as mesmas foram mal sucedidas, uma vez que os Feitosas, em São João do Príncipe, e os Fernandes Vieira, em Saboeiro, consideravam suas respectivas áreas como domínios pessoais e as instituições governamentais como agências de seu controle.

Durante o Império, o poder municipal continuou sendo o locus político mais importante, sendo o Estado privatizado e agindo em função dos interesses da classe proprietária rural. Nos fins do século XVII e XVIII, a coroa começou a afirmar sua autoridade pública contra a autoridade pessoal das elites locais, sobretudo depois da descoberta de ouro. A autoridade régia assume o papel de defender e povoar a terra, o que vinha sendo

desempenhado pela “nobreza” rural. Assim, a coroa começou a fortalecer e prestigiar os seus

agentes na colônia: juízes municipais, juízes de paz, ouvidores, governadores (LEAL, p. 1975).

Posteriormente, devidos aos constantes conflitos entre os mandões locais, proprietários rurais, e as autoridades do governo, a Coroa buscou uma conciliação. Assim, instituiu-se a Guarda Nacional em 1831, fornecendo aos chefes locais o seu posto mais alto, o de coronel, institucionalizando o poder privado, à medida que o chefe político passou a ser um chefe militar, não só de fato como de direito.

Carvalho (1997) comenta que a Guarda Nacional foi a instituição patrimonial que ligou proprietários rurais ao governo, transformando-se no grande mecanismo patrimonial de cooptação dos proprietários rurais. Mesmo que esses chefes locais servissem como oficiais da Guarda gratuitamente e pagassem pelas patentes, fardando inclusive as tropas com recursos próprios, essa instituição garantia a esses chefes o controle da população local.

No período Imperial, com o surgimento dos partidos políticos, as duas famílias mais influentes da região se posicionavam em lados opostos na política: Feitosas representando os liberais, tendo a vila de São João do Príncipe como zona de influência; e os Fernandes Vieira, representando os conservadores e dominando a vila de Saboeiro.

Os Fernandes Vieira passaram a acumular prestígio político quando Miguel Fernandes Vieira, graduado de Direito em Olinda, passou a ser chefe do Partido Conservador no Ceará, cargo que exerceu durante vinte anos. Esse partido surgiu no Ceará em oposição ao regime de José Martiniano de Alencar, presidente da província e membro do Partido Liberal, e foi fortalecido nos anos de 1838 e 1845 quando nacionalmente o Partido Conservador desbancou o poder dos Liberais. Miguel Fernandes Vieira ocupou, inclusive, o cargo de Senador e conseguiu para seu pai, Francisco Fernandes Vieira, o título de Visconde do Icó.