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3.2.   Olağanüstü Yönetim Usullerinin Nedeni Olarak Kamu Düzeni İhlali

3.2.2.   Olağanüstü Hal

A Carta de 1988 teve como um de seus principais marcos o fato de ter

ampliado sobremaneira os direitos fundamentais, consagrando diversas garantias ao indivíduo e valorizando a cidadania. Foi, por isso, denominada de Carta Cidadã.

Dentre outros motivos, para assegurar o efetivo cumprimento de tais direitos, o Poder Judiciário teve seu papel fortalecido, passando a ser um forte elemento na concretização dos valores constitucionais. Nesse contexto, merece registro a lição de Cícero Martins de Macedo Filho (2009, ps. 49-50), que aduz:

Na trilha do que ocorrera em outros países, em que as constituições consagraram os princípios deônticos, a Carta de 1988 levou o Judiciário a fortalecer os princípios cada vez mais na sua força jurídica, quando os aplica aos litígios que lhe são submetidos. Notadamente houve, a partir de então, um enorme fortalecimento do Judiciário, que passou a ter ativo papel de protagonista nas questões políticas, na medida em que, chamado a concretizar os princípios constitucionais, cada vez mais se vê diante de situações em que tem que se pronunciar sobre questões administrativas.

A partir dessa nova concepção, ganhou destaque na doutrina o reconhecimento do Judiciário como um poder político, atenuando-se o velho dogma de que apenas os poderes diretamente eleitos pelo povo são compatíveis com a democracia.

O constituinte de 1988, portanto, seguindo a tendência do Neoconstitucionalismo – que busca reconstruir as bases do Direito Constitucional – foi generoso ao estabelecer os direitos e princípios fundamentais, prezando por trazer

maiores garantias ao indivíduo. Revelam-se valiosos, nesse contexto, os ensinamentos de Lenio Luiz Streck (2003 p. 261), que afirma:

Nesse sentido, em face das profundas alterações paradigmáticas ocorridas na teoria do Estado e da Constituição, a noção de Estado Democrático de Direito pressupõe uma valorização do jurídico, e, fundamentalmente, exige a (re)discussão do papel destinado ao Poder Judiciário (e à justiça constitucional) nesse (novo) panorama estabelecido pelo constitucionalismo do pós-guerra, mormente em países como o Brasil, cujo processo constituinte de 1986-88 assumiu uma postura que Cittadino muito apropriadamente denomina de “comunitarista”, onde os constitucionalistas (comunitaristas) lutaram pela incorporação dos compromissos ético-comunitários na Lei Maior, buscando não apenas reconstruir o Estado de Direito, mas também “resgatar a força do Direito”, cometendo à jurisdição a tarefa de guardiã dos valores materiais positivados na Constituição.

Reforçando a ampliação do papel conferido ao Poder Judiciário pelos novos horizontes traçados na era do Neoconstitucionalismo, acrescenta Leonardo Fernandes dos Anjos (2010, p. 147):

A idéia de ativismo judicial tem sido associada às novas propostas constitucionalistas, uma vez que estas podem prever uma participação mais ampla e intensa do Judiciário na concretização dos valores e fins constitucionais, que muitas vezes resulta em uma maior interferência no espaço de atuação dos outros dois Poderes. O neoconstitucionalismo, cujos textos são expressivos de valores, como a igualdade, a liberdade, a dignidade humana, dentre outro, permitiu uma maior ‘criatividade’ jurisdicional a partir das chamadas normas de princípios.

Tal atuação ampliada do Poder Judiciário com o intuito de garantir os direitos previstos na Constituição Federal pode ser vista de forma clara no que tange às políticas públicas, passíveis de serem implementadas pelo Judiciário quando os Poderes por elas responsáveis descumprirem a sua função.

A Constituição deixou de ser apenas um documento de intenções, passando ao patamar de base e mandamento primeiro do Estado, sendo sua obediência necessária em todas as circunstâncias. Passou-se a exigir a implementação dos direitos e garantias previstos na Carta Magna, sendo o Judiciário um importante instrumento no alcance de tal funcionamento. Nesse sentido, assevera Tércio Ferraz Jr. (on line, ps. 18-19):

Os direitos sociais, produto típico do estado do bem-estar social, não são, pois, conhecidamente, somente normativos, na forma de um a priori formal, mas têm um sentido promocional prospectivo, colocando-se como exigência

de implementação. Isto altera a função do poder Judiciário, ao qual, perante eles ou perante a sua violação, não cumpre apenas julgar no sentido de estabelecer o certo e o errado com base na lei (responsabilidade condicional do juiz politicamente neutralizado), mas também e sobretudo examinar se o exercício discricionário do poder de legislar conduz à concretização dos resultados objetivados (responsabilidade finalística do juiz que, de certa forma, o repolitiza). [...] Altera-se, do mesmo modo, a posição do juiz, cuja neutralidade é afetada, ao ver-se ele posto diante de uma co-responsabilidade no sentido de uma exigência de ação corretiva de desvios na consecução das finalidades a serem atingidas por uma política legislativa. Tal responsabilidade, que, pela clássica divisão dos poderes, cabia exclusivamente ao Legislativo e ao Executivo, passa a ser imputada também à Justiça.

É facilmente constatável, portanto, que a Constituição de 1988 alargou sensivelmente a área de atuação do Poder Judiciário, possibilitando, inclusive, a ocorrência de intervenções dos juízes em assuntos políticos e decisões administrativas.

Tal circunstância se dá, na maioria das vezes, em razão da postura omissa do Legislativo e do Executivo no que se refere ao cumprimento de suas funções estabelecidas constitucionalmente. Não se pode admitir que o Judiciário, quando requisitado, deixe de providenciar a devida resposta no caso concreto.

Podem ser citados como exemplos de mecanismos previstos na Constituição Federal de 1988 que manifestam a valorização do Judiciário o Controle de Constitucionalidade – com suas espécies, quais sejam Ação Declaratória de Constitucionalidade, Ação Declaratória de Inconstitucionalidade por Omissão e Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental -, as Ações Civis, as Ações Populares, Mandado de Segurança, Mandado de Injunção, a existência das súmulas vinculantes e da chamada mutação constitucional, permitindo-se que haja uma alteração no sentido da norma constitucional sem a mudança efetiva do texto.

O aumento das atribuições conferidas pela Constituição pátria ao Poder Judiciário e o consequente desenvolvimento progressivo de seu âmbito de atuação relevam-se como uma tentativa de suprir as omissões e as posturas abusivas do outros dois Poderes, prezando pela manutenção do equilíbrio. Sobre esse ponto, manifestou-se Cícero Martins de Macedo Filho (2009, p. 50):

Não há dúvida, pois, que, nos dias atuais, o Judiciário vem sendo chamado cada vez mais a intervir e suprir omissões ou ditar ações que deveriam ser realizadas pelos demais Poderes. O Congresso não legisla, o Executivo é um legislador solitário por meio das medidas provisórias, fazendo o que bem

entende, e aí o Judiciário, provocado principalmente por instituições e entidades, termina intervindo, suprindo aquilo que não fez os demais Poderes, ou proibindo os excessos de poder.

Percebe-se, portanto, que o desenvolvimento progressivo do Judiciário e o aumento de prerrogativas a ele conferido pela Constituição Federal surgiram como forma de suprir uma necessidade em razão da ineficiência do Poder Legislativo e Executivo, funcionando como meio concretizador dos valores constitucionais.