2. BÖLÜM
3.2. Okur Kadın
Não se coloca aqui em discussão o diagnóstico e tratamento para as complicações médicas da anorexia e bulimia, que decorrem geralmente do processo de desnutrição ou do desequilíbrio hidroeletrolítico, potencialmente graves e constatados através das alterações fisiológicas.
O que se deseja discutir aqui é algo anterior: em que se baseia a definição de anorexia e bulimia?
O diagnóstico é baseado na definição médica de normalidade, não na normalidade biológica em si (já que o organismo encontra-se em funcionamento fisiológico, exceto quando passa a sofrer as complicações clínicas), mas na normalidade de um comportamento. O diagnóstico está baseado nos critérios do normal e do patológico para um comportamento que, reunidos, irão compor uma síndrome. Anorexia e bulimia estão definidas como transtornos mentais. Na página 27 do DSM-IV, é reconhecida a dificuldade para a definição dos transtornos mentais e a solução é colocada nos seguintes termos:
“... os transtornos mentais são concebidos como síndromes ou padrões comportamentais ou psicológicos clinicamente importantes, que ocorrem num indivíduo e estão associados com sofrimento (p.ex., sintoma doloroso) ou incapacitação (p.ex., prejuízo em uma ou mais áreas importantes do funcionamento) ou com um risco significativamente aumentado de sofrimento, morte, dor, deficiência ou perda importante da liberdade. (...) Qualquer que seja a causa original, a síndrome deve ser considerada no momento como uma manifestação de uma disfunção comportamental, psicológica ou biológica no indivíduo.” (AAP, 2002, p.27, grifos nossos)
“Para agir, é preciso ao menos localizar”, diz Canguilhem (2006, p.9) em seu livro O Normal e o Patológico ao se referir à necessidade terapêutica de procurar a teoria ontológica das doenças. Poderíamos traduzir para uma forma corriqueira: tratar do que? Para a concepção atual da anorexia e bulimia, consideradas transtornos mentais,
poderíamos desvirtuar a frase do médico-filósofo da seguinte forma: “não é necessário localizar, é preciso ao menos agir”. Qualquer que seja a causa original, diz-nos o DSM-IV na citação anterior.
O que foi tratado no caso de Willa? Cito, novamente, Canguilhem:
“O que é um sintoma, sem contexto, ou um pano de fundo? O que é uma complicação, separada daquilo que ela complica? Quando classificamos como patológico um sintoma ou um mecanismo funcional isolados, esquecemos que aquilo que os torna patológicos é sua relação de inserção na totalidade indivisível de um comportamento individual.” (ibid., p.54)
Canguilhem também se refere ao patológico em relação a um comportamento individual, relacionando-o ao seu pano de fundo, um contexto relacionado àquilo que ele complica; no caso, à Willa e suas razões. Como agir com ela sem localizar suas razões? De acordo com o DSM-IV, deve-se agir na disfunção, naquilo em que é possível construir-se todo um sistema descritivo sob o qual se pode operar de modo universal e técnico.
“Ao médico, lhe interessa diagnosticar e curar”, continua Canguilhem (2006, p.83), “o sentido destas palavras (saúde e doença) ou lhe é excessivamente vulgar ou excessivamente metafísico”. Para resolver este impasse
“o médico geralmente tira a norma de seu conhecimento da fisiologia, dita ciência do homem normal, de sua experiência vivida das funções orgânicas, e da representação comum da norma em um meio social em dado momento.” (ibid, 2006, p.83, grifo nosso)
Para os transtornos alimentares, na falta de evidências fisiológicas que sustentem a definição de normalidade, a medicina baseia-se na “representação comum da norma em um meio social em dado momento”.
“Se não é na biologia, em que a psiquiatria se fundamenta para a classificação internacional de transtornos mentais e de comportamento? Não há outra resposta: a norma de que se trata é a norma social.” (BARRETO, 2005, p.8)
2.2. O HIGIENISMO
Na história humana através dos tempos, quem passou a ditar as normas sobre a doença mental?
Elas foram determinadas pela psiquiatria a partir do momento em que a loucura – caracterizada como doença mental – tornou-se verdade médica, no fim do século XVIII e início do XIX, momento este muito bem explicitado por Foucault (2005) no livro História da Loucura.
Birman (1978) descreve a mudança ocorrida no estatuto da loucura, que acompanhará o movimento científico da medicina e a separação entre o homem e natureza. Após o Renascimento o homem passou a ser definido por ter um corpo anatômico, animal, mas que também transcendia ao ser-animal para se tornar possuidor de uma escala superior de valores que identificava a sua própria humanidade.
“Ficar retido nesta animalidade é ficar preso no nível dos instintos, ou, para ser mais preciso, é estimular a presença dos maus instintos, aqueles que não foram trabalhados para se manifestar senão entre certos limites de validade, não sendo educados pelos valores superiores da Ordem humana.” (ibid,. p.97, grifo nosso)
Inseriu-se um duplo sistema de regras, um que se articulava no nível do corpo e outro no nível da história vivenciada. O discurso da história vivenciada representava a escala superior dos valores humanos que educavam o corpo animal.
“Individualizando o sujeito, demarcado pelo duplo discurso (do corpo e da experiência vivenciada), a alienação mental será transformada em falha da suprema harmonia humana, que é o corpo e simultaneamente é mais do que corpo, submetendo-se a um sistema de regras que estaria além da mera animalidade.” (ibid., p.98, grifos nossos)
O sistema de regras será regido pela moral e pelos bons costumes. O homem não deveria se desviar do regime,
“conceito criado pela Higiene, trazido para o interior do conhecimento psiquiátrico, para traduzir a idéia do homem equilibrado, que se alimenta de modo ponderado. Com todos os ingredientes, para manutenção de sua saúde. Homem harmônico, sintetizador das várias tendências morais que nele existiriam, ponderador de todos os princípios.” (ibid., p.114)
A psiquiatria, como salienta Birman, era vigilante da Moral. Quando visava ao espaço externo, denominava-se “higiene moral”; quando operava no espaço interno, denominava-se “tratamento moral” (ibid., p.257).
“A medicina mental atuava pela eliminação no espaço social de tudo que perturbasse a manutenção de suas regularidades. Era um meio de proteção social.” (ibid., p.258)
Em primeiro plano para essas medidas de higiene moral e proteção social estava o isolamento. Pretendia-se afastar o alienado mental do conjunto de situações que poderiam ser obstáculo para a sua recuperação. A medicina mental encarava este artifício técnico como terapêutico, para isolar o alienado das possíveis forças externas que manteriam a doença, mas também, indica-nos o autor, para poder exercer medidas ativas sobre ele. O isolamento poderia ser completo, colocando-se o alienado em um asilo, ou incompleto, no regime domiciliar. Birman destaca que a psiquiatria do século XIX oferecia três grandes formas de tratamento aos alienados: o tratamento físico, o moral e o higiênico. O físico dizia respeito aos meios que atuavam sobre o corpo, medicamentosos ou não. O higiênico correspondia à realização de medidas gerais como exercícios físicos, formas de alimentação, vestimentas etc. O tratamento moral era formulado como um conjunto de medidas morais, feitas em nível pedagógico, que atuassem diretamente no espírito do alienado.
O essencial, a propósito da constituição histórica da doença mental, diz Foucault (1968, p.82-83), “não é a medicalização: é a confusão, num mesmo discurso, de controle moral e intervenção médica”. Esse discurso veicula a mistura entre a concepção orgânica, a moral e a psicológica: a de que a loucura é uma doença e, ao mesmo tempo, a de que a loucura é um erro. “Um erro, no sentido moral”, nos indica Francisco Paes Barreto (no prelo).
É a ordem pública que se tenta restabelecer quando se insiste na “modificação comportamental” a que se referia Bruch, seja lá qual for sua nomeação atual. Esta é a força motriz da “correção” alimentar na anorexia ou bulimia, seja a correção feita de maneira explicitamente coercitiva ou de maneira mais velada. O objetivo é a “eliminação do espaço social de tudo que perturbe a manutenção de suas regularidades”, como filosofa a psiquiatria. De forma muito semelhante aos métodos dos séculos XVIII e XIX, verifica-se que, ainda hoje, tenta-se uma abordagem da anorexia e bulimia através do isolamento e de uma pedagogia moral.