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O NIAB é um serviço que funciona em um hospital universitário, como a maioria dos serviços que estão estruturados no Brasil, segundo dados de um levantamento conduzido por Appolinario (NUNES, 2006, p.169-181). É constituído por dezesseis profissionais com as seguintes formações: quatro médicos clínicos gerais, um nutrólogo, dois endocrinologistas, três psiquiatras e sete psicanalistas.

O trabalho desta equipe baseia-se na constatação de que a medicina oferece subsídios valiosos, porém insuficientes, à compreensão e ao cuidado desses pacientes e que a clínica médica e a psiquiatria se enriquecem ao buscar contribuições em outros campos do saber, em especial na psicanálise. Desta forma, o discurso em que se baseia o trabalho da equipe é a interface entre psicanálise e medicina.

Parece ser uma experiência pioneira no Brasil, já que não sabemos, até o momento, de nenhum outro serviço em funcionamento no país que trabalhe com esta integração interdisciplinar para o atendimento da anorexia e bulimia. Sabe-se que a Argentina, Espanha e Itália possuem serviços que atuam nesta interface, sendo o mais conhecido o Instituto Jonas em Milão.

Quando chegam ao NIAB, os pacientes nem sempre são acolhidos por um médico. A partir daí, os encaminhamentos são feitos, quando necessários, de acordo com a escuta deste profissional sobre a demanda do paciente e suas necessidades clínicas. Todos os profissionais reúnem-se duas vezes por semana para discussão dos casos e para discussões teóricas. Tem-se um grande número de casos muito graves, mas a discussão e a escuta psicanalítica proporcionam um suporte aos profissionais, de forma a tratar

suas angústias para que consigam sustentar seu lugar na clínica com os pacientes. Nas reuniões, dá-se o que foi chamado por Viganó de “construção do caso clínico”25. Trata- se de uma nova localização da equipe de profissionais em relação aos diversos campos do saber. A equipe parte de uma posição onde muito pouco está construído a priori. O saber prévio é importante, mas é colocado de lado para dar lugar ao surgimento de um novo saber, que terá sua matriz construída a partir do doente.

No NIAB, todos os profissionais envolvidos, sejam ou não psicanalistas, sabem que “não se trata disso”, não se trata da doença, não se trata da anorexia ou da bulimia. Acima de tudo trata-se do sujeito que há no doente, sujeito que se apresenta à equipe com sua anorexia e/ou bulimia, reflexo dos tempos pós-modernos.

O doente passa, então, de espectador a protagonista.

“Construir um caso é partir da posição de não-saber. A história do paciente, com seus registros de memória e significações próprias, só ele sabe. Isso não se aprende na universidade e deixa toda a equipe numa posição de igual ignorância, ou seja, só quando o paciente começa a falar de sua história é que aprendemos os caminhos de sua subjetividade. Portanto, isso implica em operar com o saber do paciente e não, um saber sobre o paciente. Significa, também, criar um ‘vazio do tempo clínico, que não é um vazio de assistência, mas um vazio de saber’, que permite que o paciente faça suas próprias perguntas sobre seu mal estar.” (ALKMIM, 2003,p.44, grifos nossos)

O enfoque não é dado aos problemas alimentares, mas ao sujeito que os apresenta. O trabalho focaliza a emergência de um sujeito com sua queixa subjetiva, naquele paciente que procura o serviço representado por um fenômeno. Os problemas alimentares não são negligenciados, mas considerados em sua dimensão de sintoma de algum mal-estar psíquico e são acompanhados quanto à gravidade clínica. O enfoque não é dado ao peso, ao mesmo tempo em que se dá assistência às complicações orgânicas de acordo com a gravidade de cada um. Todos os profissionais estão alinhados na construção do caso clínico do paciente e não no patrulhamento alimentar. O caso é construído ao longo do tempo, de acordo com a escuta em relação à definição da estrutura psíquica, às demandas do paciente, ao manejo da transferência na equipe, e ao modo como aquele paciente se relaciona com seu sintoma no que tem de mais singular.

Ao mesmo tempo são muitas as dificuldades nesse tipo de trabalho em equipe.

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25

O termo é desenvolvido no texto VIGANÓ, C. Construção do caso clínico em saúde mental. Curinga, v.13, p.50-59, 1999.

Como todo grupo, os profissionais estarão envolvidos em questões interpessoais e institucionais. O NIAB não é um serviço ideal, mas vem tentando construir uma base sólida, porque há um desejo comum entre seus membros. A partir desse desejo, desenvolvem-se esforços. E, como nos outros serviços brasileiros a grande maioria de seus membros é voluntária.

Uma situação freqüente com a qual nos deparamos é com a escolha do profissional de referência. Esta escolha é feita pelo paciente. Muitas vezes o paciente foi acolhido por um profissional e após algum tempo é encaminhado a mais um ou dois. Pode acontecer de o paciente desenvolver a transferência analítica com outro que não aquele que o acolheu, ou pode ser que a transferência não se dê com aquele que se nomeou psicanalista no início do tratamento. A equipe deve estar atenta e afinada para estes movimentos e respeitá-los.

Outra grande dificuldade enfrentada neste tipo de serviço é a exposição das próprias falhas. Ao ter um caso debatido, cada profissional envolvido expõe-se perante seus pares. Nem todos suportam esse tipo de prática, por isso é primordial que o trabalho neste tipo de equipe parta de uma escolha, de um desejo pessoal.

O NIAB é um serviço recente, foi constituído oficialmente em 2003 no Hospital das Clínicas da UFMG, conta com mais de duas centenas de pacientes atendidos e ainda vem construindo sua experiência. Ainda não existem dados estruturados para publicação, apesar da percepção subjetiva de que os resultados sejam bem satisfatórios diante do que é relatado na literatura.