• Sonuç bulunamadı

2. BÖLÜM

6.2. Ötekileştirilen Kadın

Silvestre (1991) esclarece que o sintoma, aqui representado pela anorexia ou bulimia, é aquilo que se acrescenta ao sofrimento para fazer dele uma queixa.

“Portanto: de um lado, um sofrimento que o sujeito pode suportar com um heroísmo estóico e sem soltar um pio. De outro os portadores de sintomas que chateiam os que os cercam, sem contudo nada sofrerem. Quando ambos se juntam numa só pessoa isso pode produzir uma demanda de análise. Temos então aqui uma visada possível da análise, uma visada ‘terapêutica’: trata-se de deslocar o sintoma para separá-lo do sofrimento.” (ibid., 1991, p.23)

Nos pacientes com anorexia e bulimia, o encontro com um analista pode ter este efeito de deslocar o sintoma, separando-o do sofrimento.

“Este é o objetivo que assume o analista quando escolhe tratar a queixa de seu paciente – o que se chama, em termos técnicos, analisar a demanda” (ibid., 1991, p.23).

São os chamados efeitos rápidos: o sintoma anorexia ou bulimia desloca-se e o paciente pode retomar a vida. Uma demanda de análise poderá acontecer a partir de uma operação de torção na demanda do sujeito, possibilitando-lhe uma abertura para querer saber sobre seu sofrimento. Mas isto não ocorre obrigatoriamente.

Ou seja, nem sempre um paciente atendido em serviços desenvolvidos nos moldes do NIAB irá se engajar em um trabalho de psicanálise. Observa-se que muitos se dão por satisfeitos, pelo menos em um dado momento, mas outros irão se interrogar sobre coisas além do sintoma alimentar, irão se interrogar sobre o sofrimento que originou aquele sintoma, podendo, então demandar um trabalho analítico.

A psicanálise tem sido descrita em vários artigos médicos como ineficaz em sintomas como anorexia e bulimia, seja em virtude de estes serem vistos como transtornos pela ____________________________

32 “

Não se deve recorrer à psicanálise quando se trata de eliminar com rapidez fenômenos perigosos, como, por exemplo, na anorexia histérica.”(FREUD, 1905, p.250)

medicina, seja em virtude do desinteresse desta em relação àquela. O mínimo que se diz é que seria um tratamento demorado e caro e, por isso, ineficaz nestes “transtornos”. Utiliza-se freqüentemente uma citação de Freud em que ele diz que “a psicanálise não deveria ser tentada em casos graves, como na anorexia”32. Entretanto, a psicanálise evoluiu e tem mostrado bons resultados, que até poderiam ser contabilizados, mas jamais reproduzíveis, o que é uma dificuldade diante do discurso da eficácia e avaliação da ciência.

A medicina científica nada quer da psicanálise; à ciência interessa que as coisas caminhem. A psicanálise com sua tychē é um empecilho. Um analista é insuportável, como sempre foi. Já dizia Freud, ao inventar a psicanálise, que a partir daquele momento ele passaria a fazer parte do grupo daqueles que “perturbam o sono do mundo” (FREUD, 1914, p.34). Na atualidade, um analista está ainda mais insuportável, ele não se adéqua às normas, recusa-se a se submeter às avaliações, aos controles de qualidade, às medidas neo-higienistas, aos dispositivos da técnica. A supremacia da técnica acredita que para tudo exista uma solução, que não há espaço para o enigma, pois só existem problemas e, para estes, acredita-se, sempre há solução.

Entretanto, quando um médico não dá mais conta, não encontra respostas, soluções, pode recorrer à psicanálise. Ou um paciente, após percorrer todos os caminhos científicos e alternativos, muitas vezes, pode encontrar um psicanalista. Este, nem sempre, é um bom encontro, tanto para o médico que o encaminha, ansioso por respostas, quanto para o paciente. Freud discorre sobre dois de seus discípulos na psicanálise, que, não tendo um bom encontro, desvirtuaram-na: Adler e Jung. Como ele diz, “a estada no submundo da psicanálise pode ser desagradável demais para o gosto de alguns” (FREUD, 1914, p.73). Mas um médico, ao ter um bom encontro com ela, passa a encontrar ali algumas respostas.

Então, pode-se perguntar: por que não disseminá-la, como queria dr. Royer?

Porque a psicanálise nunca poderá se tornar uma especialidade médica, um tratamento, entre outros tantos da patologia mental. Não. O lugar do psicanalista é o de fora, ele está fora e dentro do discurso ao mesmo tempo. Assim como o sujeito do inconsciente também está em um ponto de exceção, o lugar de um psicanalista é do lado de fora, mal visto, mal quisto. É só daí que ele causa algum efeito, é só aí que ele existe.

A partir desse princípio, a equipe do NIAB, com vários profissionais reunidos em torno do referencial psicanalítico, ou seja, em um diálogo com a psicanálise, têm conseguido

que muitos pacientes desloquem seu sintoma, às vezes, de forma rápida, saindo do risco de morte e da perturbação familiar. A partir daí, se haverá ou não demanda de análise, é outra história.

Um psicanalista pode pouco, pode deixar em aberto um enigma sobre o sofrimento que aquele sujeito lhe trouxe; mas este é o espaço para a manifestação do desejo de um sujeito, e isto é muito, é a chance de sobrevivência do sujeito do inconsciente.

Enquanto a medicina tira a responsabilidade do sujeito por seu adoecimento, e conseqüentemente, fecha-lhe um espaço, a psicanálise busca implicá-lo, jamais culpá- lo. Uma moça que tenha uma anorexia e bulimia, para a medicina, é uma moça que tenha motivos familiares, ou motivos genéticos, ou motivos neuroendócrinos, ou motivos culturais. Os motivos estão sempre fora dela. Para a psicanálise, não. Por mais que estes outros motivos possam existir, permanece a questão: qual a parcela daquele sujeito nisto? E será a partir desta essência, que ela terá a chance de se haver com seu sofrimento e ter a liberdade de escolha.

Podemos dizer, com Heidegger, que um analista seja um guardião da essência. Ele refere-se, em sua relação, com a essência da técnica – e, se aí está o perigo, aí também está contida a salvação. Pode-se dizer o mesmo em relação ao sujeito com sua essência. Pois, “questionar é a piedade do pensamento”. (HEIDEGGER, 2007, p.38)

PARTE IV