Bruch (1978) descreve em um capítulo de seu livro Eating Disorders como o jejum foi, ou ainda é, uma tradição na relação social de certas culturas. No Japão antigo, um homem podia humilhar e desonrar seu inimigo jejuando contra ele, à sua porta (ibid., 1978, p.12). No ocidente, greves de fome foram e ainda são utilizadas como forma de rebelião. Na Índia, Gandhi utilizou várias vezes o que é chamado de “sitting dharna”, na tentativa de obter a atenção das autoridades em sua luta pela independência do país. Se práticas de jejum já existiam, numa clara alusão ao fato de que para o ser humano a alimentação serve a outros propósitos além da satisfação de suas necessidades biológicas, a medicina reuniu os sintomas do que chamaria de anorexia nervosa, passando a constituí-la como uma entidade nosológica no final do século XIX. Vários relatos esparsos de práticas auto-infligidas de jejum já haviam sido lançados anteriormente na literatura médica.
O primeiro a levar este crédito foi Richard Morton (1637-1698), médico inglês, que, em 1689, descreveu a história de uma moça de 18 anos de idade que se recusava a comer e recusou também a medicação dada por ele, vindo a falecer após três meses, e de um rapaz de 16 anos de idade, que não faleceu, mas teve sua anorexia cronificada.
Philippe Pinel (1754-1826), médico francês fundador da psiquiatria, no início do século XIX, fez uma primeira reflexão sobre a conduta alimentar e suas particularidades, desde a abstinência dos brâmanes e dos faquires até as orgias romanas e as francesas sob o reino de Luís XIV e XV. Considerava que as práticas alimentares participam de um conjunto de regras, rituais e interdições, que convém situar no contexto de cada época.
Na sua própria considerava os desvios desta função como “neuroses das funções nutritivas” (BIDAUD, 1998, p.16).
Freud contava com 17 anos de idade quando o psiquiatra francês Ernest-Charles Lasègue (1809-1883) publicou, em 1873, um trabalho em que descrevia os sintomas da anorexia em oito mulheres entre 18 e 32 anos de idade, nomeando-os anorexia histérica. (LASÈGUE, 1971, p.135-150). Dizia que, apesar de pouco numerosos, tinham entre eles uma tal similaridade que, nos últimos casos ele já não tinha nenhuma indecisão, nem quanto ao diagnóstico, nem quanto ao prognóstico.
Logo em seguida, 1874, Willian Gull (1816-1890), psiquiatra inglês, publicou um estudo onde apresentava sintomas semelhantes em três pacientes, mas chamou a entidade clínica de anorexia nervosa. Ele já havia descrito esta condição seis anos antes, só que na época, durante um encontro da British Medical Association em Oxford, descrevera-a sob o título de “Apepsia Histérica” e a atribuíra à tuberculose latente ou à doença mesentérica (BUSSE, 2004, p.33).
Portanto, o que se observa desde a caracterização médica desta síndrome, são controvérsias sobre sua etiologia.
Gull, de maneira absolutamente pragmática, relata em seu artigo que acreditava ser a anorexia um estado mental mórbido de origem central, orgânica, uma afecção dos nervos, e assim a nomeou: nervosa.
Lasègue descreve detalhadamente sua experiência com as pacientes e insistia que fosse uma afecção histérica. Naquela época, a histeria era concebida da forma como ele afirmava:
“A histeria jamais foi definida e é certo que nunca o será; seus sintomas não chegam a ser constantes, semelhantes ou iguais em duração e intensidade para que um tipo descritivo compreenda todas as [suas] variedades.” (QUINET, 2003, p.7)
O diagnóstico de histeria era feito com base em sinais negativos de doença orgânica e em alguns sinais preconceituosos, como a imaginada irrigação da genitália, mas também por seus sintomas inespecíficos e pela exagerada importância atribuída à simulação. Coube a Jean-Martin Charcot (1825-1893) descrever e classificar suas manifestações, afirmando sua autenticidade e objetividade contra o preconceito e a suposição de que fosse apenas simulação dos doentes, além de descrevê-la também em homens e crianças (ibid., 2003).Essa organização permitiu a Freud prosseguir com a descoberta de que a histeria era uma estrutura psíquica.
Mas, foi a partir de Lasègue, que os fenômenos anoréxicos puderam ser organizados no discurso médico. Ele os descreve com muita propriedade, e, desde então, já captava a presença da dimensão de algo que ia além da compreensão médica:
“O que domina no estado mental da histérica é, antes de tudo, uma quietude, diria quase uma satisfação verdadeiramente patológica. Não somente ela não suspira pela cura, mas se satisfaz na sua condição, apesar de todas as contrariedades que esta lhe suscita.” (LASÈGUE, 1971, p.143)
Fez também alguns alertas aos médicos, desde o fato de que a anoréxica era “toda- poderosa em sua anorexia”, como
“Ai do médico que, desconhecendo o perigo, tratar como um capricho passageiro e sem significado essa obstinação que ele espera resolver através de medicamentos, de conselhos amigáveis ou do recurso ainda mais ineficaz da intimidação. Com as histéricas um primeiro erro médico jamais é reparável. (...) Neste período inicial a única conduta sensata é observar e calar-se...” (ibid., p.138)
Tanto Lasègue, quanto Gull, apesar de discordarem quanto às causas da anorexia, concordavam que o tratamento deveria ser moral, um pensamento corrente na psiquiatria como já foi dito anteriormente. Mas, ainda assim, uma diferença crucial entre os dois deve ser ressaltada. Lasègue faz uma longa narrativa sobre os fenômenos observados por ele, coloca-se como observador expectante, duvida do sucesso médico e se furta à ação imediata. Assim escreve:
“Quando, depois de muitos meses, a família, o médico, os amigos vêem a inutilidade persistente de todos os esforços, a inquietude começa e com ela o tratamento moral, é a esse momento que vai se designar perversão mental, que lhe é quase característica e que justifica o nome que propus na falta de outro melhor, de anorexia histérica.” (LASÈGUE, 1971, p.142, grifo do autor)
Gull, de forma assertiva, coloca a obviedade do tratamento, denunciando sua certeza:
“O tratamento requerido é obviamente aquele adequado para pessoas alienadas. Os pacientes devem ser alimentados em intervalos regulares e rodeados por pessoas que deverão ter controle moral sobre eles; parentes e amigos são geralmente os piores assistentes.” (GULL, 1874, p.26)
Charcot também reconhece na anorexia um sintoma puramente histérico e inaugura o isolamento como única forma terapêutica. Bidaud (1998) descreve este momento como sustentado pela ideologia psiquiátrica da época, para a qual era necessário trancar, encerrar, conter o “alienado” no hospício e só deixá-lo sair com pleno discernimento:
“Na ausência de luzes teóricas esta prática do isolamento é sustentada por critérios puramente empíricos: a retomada do peso” (BIDAUD, 1998, p.18)
Já a bulimia, era mencionada nos dicionários médicos desde o começo do século XVIII. Em 1743, R. James descreveu esta “grande fome” baseando-se nos relatos do grego Galiano(130-200) (BRUSSET, 2003, p.16). Apesar de mencionar a intensa preocupação desses pacientes com a alimentação, ele acreditava que o problema se devesse a uma disfunção digestiva. Desde então, tiveram lugar na literatura várias publicações, nas quais eram discutidos os fenômenos bulímicos e se travavam os debates entre as causas orgânicas e psíquicas (ibid., p.16-20). Entretanto, o primeiro caso bem documentado a sugerir bulimia como síndrome clínica foi relatado por Ludwig Biswanger em 1944 (NUNES, 2006, p.36). Outros trabalhos, também desta época, tentavam abrir caminho para o reconhecimento da presença de uma nova síndrome alimentar onde eram discutidas as diferenças e similaridades com a anorexia nervosa. Em 1979, Gerald Russel publicou um trabalho no qual descrevia os sintomas em 30 mulheres, intitulado Bulimia Nervosa: an ominous variant of anorexia nervosa, propondo uma nova síndrome com seus critérios (RUSSELL, 1979, p.429-448). No ano seguinte o DSM-III incorporou a bulimia como um novo transtorno alimentar.