• Sonuç bulunamadı

2. BÖLÜM

5.2. Mürit Kadın

Embora ambos os médicos presentes naquela mesa, em 1966, não soubessem bem do que se tratava a psicanálise, tinham algumas demandas a fazer em relação a ela. Já haviam inclusive dado início a elas ao endereçarem seus pacientes à dra. Jenny Aubry, no espaço que ela havia aberto no hospital em que trabalhavam. Desta parceria surgiu a mesa redonda no Colégio de Medicina, onde se tentou uma colaboração, um diálogo. Os médicos necessitavam compreender algo em seus pacientes que escapava ao saber da medicina. Dr. Klotz ansiava pela democratização da psicanálise, demonstrando preocupação com o alto custo do tratamento, não só o financeiro. Queria a medicina do homem total, como explicitou no final, após discursar sobre os avanços das neurociências.

Já dr. Royer dizia necessitar de técnicas psicológicas adequadas, já que tinha sob sua responsabilidade uma grande equipe de profissionais da saúde, que se viam às voltas com os pacientes e suas famílias. Ele se sentia requisitado na função do antigo médico de família, ao qual não se sentia à vontade em responder. Sua principal preocupação era a pesquisa e queria um psicanalista para isso. Queria ter medida a eficácia da psicanálise no atendimento aos pacientes e, após a sua comprovação em números, que esta fosse disseminada entre os serviços.

Isto era o que queriam dr. Klotz e dr. Royer, mas o que quer a medicina da psicanálise? Pode-se dizer que a medicina científica nada queira da psicanálise; ela só quer progredir. Entretanto, um médico pode querer, um médico que lance mão da exclusividade da medicina científica e se depare com a demanda do paciente, como confessou dr. Klotz. Um médico que se veja colocado no lugar de médico de família e não saiba o que fazer com isso. Um médico que não entenda porque um paciente anoréxico insiste em recusar sua ajuda, às vezes de forma violenta e outras vezes de forma muito dócil, a ponto de pagar por isso com a própria vida. Um médico que não

saiba o que fazer ao receber repetidamente uma paciente com exames que caberiam em um morto.

Mas quando um médico pede algo à psicanálise, o que ele pede? O que realmente pediam dr. Klotz e dr. Royer? E o que a psicanálise pode oferecer?

Ela não pode oferecer a “medicina do homem total” como sonhava dr. Klotz, justamente porque a falha epistemo-somática designa bem que aí há uma falha. Não pode oferecer a democratização da psicanálise, pois um psicanalista não se forma só com conhecimento literário e nem só por sua experiência, já que ser psicanalista não envolve uma vontade. E não pode oferecer um psicanalista de pesquisa para validar a experiência e entrar no modo de produção da técnica. A única coisa que o psicanalista pode oferecer é um lugar onde o sujeito do inconsciente possa se manifestar.

Por promover um apagamento do sujeito do inconsciente, a ciência tem provocado sua manifestação por formas antes nunca imaginadas: não só as anorexias e bulimias, mas as novas formas de toxicomania, as mutilações corporais através do abuso das cirurgias plásticas, tatuagens, piercings; os assassinatos inexplicáveis de jovens alunos em suas escolas, os suicídios, multidões de jovens japoneses trancados em seus quartos sem nenhum contato exterior, “epidemias” de depressões etc. São as novas formas de manifestação do sujeito. E porque, ao darem seus gritos, eles encontram ainda mais a voz da ciência e da técnica, pode-se supor que isto só vá piorar. Novas formas de expressão vão surgir, cada vez mais violentas e mais agarradas ao corpo.

Além do mais, o apagamento do sujeito do inconsciente faz com que o trabalho do psicanalista precise ir se modificando também. Ele precisa tentar resgatar, lá nas profundezas cada vez mais profundas, aquilo que o indivíduo vem recusando aceitar, ao longo do tempo, de forma acachapante: que nele há algo mais.

A este algo mais, da ordem de um vazio na existência humana, como cantam muitos poetas, a técnica científica vem respondendo com objetos, quaisquer objetos que possam estancar este vazio, este sentimento de falta. O mercado pós -moderno oferece objetos os mais variados, torna-os indispensáveis e sempre passíveis de troca. O homem responde, consumindo-os, e, assim, acredita tamponar o vazio. Objetos que vão desde bugigangas eletrônicas, medicamentos e até mesmo doenças. Desta forma, algo do sofrimento de um sujeito pode encontrar, em patologias bem caracterizadas como anorexia ou bulimia, um objeto consumível para aplacar, nele, a dor que sente. O consumo desse objeto, tornando alguém portador destas “doenças”, aplaca o sofrimento, de forma que, muitas vezes, não há nenhuma queixa por parte do sujeito. A dor, de

origem psíquica, sofre uma espécie de curto-circuito e passa a existir como dor no corpo, ganhando, assim, nome, reconhecimento, tratamento. Deste modo, pode ser manejada por profissionais especialistas e pode-se passar uma vida inteira experimentando algum tipo de objeto científico que a faça parar.

Da mesma forma, um médico, ao consumir protocolos e medicamentos no tratamento de tais pacientes, tem aplacada sua dor de não saber o que fazer com eles.

Se a medicina nada demanda à psicanálise, mas um médico sim, o que ela pode oferecer não se constitui de mais um objeto; trata-se, sim, de oferecer um espaço onde o objeto falta, mas de onde é possível emergir um sujeito, esteja ele no lugar de médico, esteja no lugar de paciente.