Outra mudança verificada ao longo do tempo na apresentação e performance dos bois é o distanciamento do brincante para com o público. Na origem, os bois apresentavam-se na porta de casa de quem convidada. A interação era direta: brincante e comunidade comungavam por horas a festividade desse momento, que tinha como pagamento bebida e/ou comida.
Entretanto, com a implementação e o desenvolvimento do turismo, de políticas públicas culturais e da institucionalização das manifestações culturais, a forma de apresentação ao público ficou mais distanciada ou performática. O palco montado nos arraiais é o limite para apreciação da brincadeira popular, deixando certo distanciamento entre a comunidade e os brincantes.
Tem grupo de boi que não interage com o público, faz seu espetáculo e vai embora. Cultura popular não é assim. Cultura é para o povo, para o turista. Um dos diferenciais do Brilho da Ilha é este: interação com seu público, mesmo que seja no palco, alguns brincantes ficam no chão para brincar próximo ao povo, além de algumas vezes descermos do palco. Claro que queremos mostrar a nossa coreografia, a evolução de todo grupo, mas sempre, sempre liberamos o boi para quem quer dançar as últimas músicas. (Junia Caroline, brincante desde 1998 do Brilho da Ilha. India).
Com o distanciamento dos brincantes em relação aos espectadores, o apelo visual e performático dos grupos de bois de orquestra com a criação de um cenário normatizado – o palco, sonorização, locutor e mídia televisiva, sobressaem certa passividade do público. O espetáculo é foco de apreciação e variavelmente, os bois de orquestra34 possibilitam pela estrutura montada, a participação direta na dança. Ressalto que existem arraias fora deste circuito, em bairros, que mantem apresentação da forma de outrora, comunidade e boi próximos.
Assim, os grupos de Bumba-meu-boi, que se apresentavam em terreiros ou arraiais, acompanhados do público. Com o passar dos anos e as novas estruturas de palco instaladas nos locais de apresentação, passaram a conviver com um público que fica distante do grupo, observa, dança, tira fotos à distância. Proíbe-se do público adentrar o palco, por questões de segurança e falta de espaço. Muitos reclamam desta estrutura, afirmando que só assistir ao espetáculo é muito bom e bonito, mas que Bumba-meu-boi é foi para todos brincarem e não só para turista ver e tirar foto.
Em algumas ocasiões, o grupo Brilho da Ilha, desde o palco e com a orquestra tocando, faz
um cortejo pelo local de apresentação, pois o seu presidente Claudio Sampaio, “considera que
todos devam observar o boi, mas participar também é importante. O boi foi feito para eles, o
público”. Em contrapartida, presenciei anos posteriores o presidente de o grupo questionar
com a organização do arraial por não poder apresentar-se no palco com a orquestra, local exclusivo de show de cantores, não reservado aos bois. Portanto, os grupos tinham que se apresentar no chão, sem estrutura de palco, som e iluminação.
Atualmente, os contratantes do Bumba-meu-boi têm uma preocupação com a montagem do palco e todos os equipamentos que proporcionem um espetáculo. É comum os grupos elogiarem os técnicos do som e iluminação, mostrando que o profissionalismo e a técnica estão aliados à manifestação cultural popular para acentuar o espetáculo.
Uma novidade que vem acontecendo na cidade de São Luís, desde o ano de 2013, é a propagação de shoppings realizarem um a festa junina, com contratação de grupos, tendo um palco (pequeno), som, iluminação, cordão de isolamento e seguranças. As brincadeiras ficam
34 Os bois de matraca, zabumba, costa de mão direcionam sues músicos para o palco e os brincantes, por serem
numerosos, brincam no chão, podendo alguns ficarem também no palco para que todos possam visualizar a performance. Constato que os grupos de orquestra preferem e até “brigam” pelo palco, caso vivenciado pelo Brilho da Ilha ao longo de seus 25 anos. Todos querem ser vistos e para o boi de orquestra a coreografia é o diferencial a ser mostrado, no palco de preferência.
sem espaço para evoluir as coreografias, mas ganharam mais um espaço de divulgação e apresentação.
A festa do Bumba-meu-boi, no mês de junho, é organizada pela prefeitura e pelo governo do estado, especificamente pela FUNCMA (Fundação de Cultura do Maranhão). Em 2007, por exemplo, a programação oficial da festa incluiu quarenta arraiais distribuídos pela cidade de São Luís, tendo início no dia 22 de junho e término em 01 de julho, de acordo com a programação publicada pelo órgão. O apoio oferecido vai desde a decoração da cidade com a criação dos diversos arraiais até o auxílio financeiro aos grupos que, em contrapartida, precisam cumprir uma programação oficial nos arraiais da cidade, previamente estabelecida.
Nessa perspectiva, a festa focaliza-se como uma atividade social do lazer, de encontros pela possibilidade de contatos entre indivíduos pertencentes a grupos sociais distintos, similares, próximos ou distantes, que buscam na brincadeira do boi, diversão e sociabilidade.
Percebe-se, portanto, que este espetáculo popular recebe influências do cotidiano: o boi, a cada ano, veste um novo couro, que parece refletir as experiências vivenciadas pela comunidade, revelando os processos sociais pelos quais a novidade e a mudança, como a conservação e a preservação, se tornam parte da vida social.
Quando eu entrei no boi, havia disputas entre os brincantes, acho ate que pouca valorização por parte dos donos. Hoje percebo que há consciência e valorização do brincante. A maior mudança do boi são suas indumentárias. Hoje o boi tem roupa para homem (vaqueiro) e para mulher (vaqueira), isso diferencia e valoriza mais e atrai mais mulheres. Permanência para mim é nos bois de zabumba e de matraca. O de orquestra tem que mudar, se inovar. Tem que ter beleza. Tem que acompanhar o dia-a-dia que muda o tempo todo. Tem que interagir geral. Não brinco mais no boi por causa do serviço ,mas sempre que posso acompanho. É amor pela brincadeira. (Luciano da Silva Costa. Ex-brincante do Brilho da Ilha. Entrou no grupo em 2000 e saiu em 2006, Vigilante.
O brincante quer agradar aos olhos de quem assiste ao espetáculo - o público. Capricha na coreografia e na indumentária, geralmente dá um toque a mais, colocando algum adereço para que fique singular. Vejamos o depoimento da brincante Karine:
Quando recebo minha indumentária, tenho a preocupação de personaliza-la, colocando algo que chame atenção e que fique bonito. Bordo a minha sapatilha, não é obrigado fazê-lo, mas eu quero me apresentar bonita e com muito brilho. O público espera beleza, bordados e brilho. (Karine Sales Santos, brincante do Brilho da Ilha).
Assim, apresentar o boi em um palco traduz novos olhares à brincadeira e proporciona novas formas de interação. O espetáculo institucionalizou-se em um grande evento com estruturas modernas de um show. Em locais que não a possuem, porém, os grupos apresentam-se com o mesmo entusiasmo e interagem mais diretamente com quem o assiste ou brinca ao seu lado.
Para além dos palcos, outra novidade controversa em termos do local onde ocorrem as apresentações foi o uso de trios elétricos.