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Ainda está muito distante o forno do qual surgem com sucesso as novas coisas úteis.
Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2006a, p. 208)
Na luta constante contra as utopias abstratas e autoritárias, Bloch desloca o conceito de utopia para a natureza das relações sociais e a realidade material do homem. Mas recorre às antecipações subjetivas quando revelam ser tendências concretas da realidade. O propósito é demonstrar que a filosofia marxista não nutre aversão pela utopia, como Marx sugere em O Manifesto Comunista,50 mas que o pressuposto central é de que a utopia seja concreta. Nessa relação entre a utopia concreta e a mera abstração se situam as utopias de Campanella e Bacon.
Astrológica e antimaterialista, a utopia de Tommaso Campanella,51 com o progresso amparado na ordem, transmite a ilusão de futuro sem tumultos e sem oposições, distante da experiência democrática e sequer da acepção de conto de fadas. De feições absolutistas, suas possibilidades escapam ao curso da história e ao conceito de futuro com a utopia se
50 O Manifesto Comunista, a obra mais crítica de Marx à utopia revela-se, ironicamente, a sua obra mais utópica. Concebe a revolução burguesa na Alemanha, às vésperas de se concretizar, como ―o prelúdio imediato de uma revolução proletária‖ (MARX; ENGELS, 1998a, p. 69). Subestima a capacidade de renovação do capitalismo e a universalidade do operariado ao afirmar que ―a subjugação do operário ao capital, tanto na Inglaterra como na França, na América como na Alemanha, despoja o proletário de todo o caráter nacional‖ (MARX; ENGELS, 1998a, p. 49). E considera que a burguesia compromete a existência dos pequenos comerciantes, pequenos fabricantes e camponeses como camadas médias, sendo evidente que ―é incapaz de continuar desempenhando o papel de classe dominante e de impor à sociedade, como lei suprema, as condições de existência de sua classe‖ (MARX; ENGELS, 1998a, p. 50). A verdade da burguesia é a contradição e essa contradição é que a levaria ao desastre: ―Tudo que era sólido e estável se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar sem ilusões a sua posição social e as suas relações com os outros homens‖ (MARX; ENGELS, 1998a, p. 43). 51 Escrita no cárcere, onde Campanella (1568-1639) viveu 27 anos e foi sete vezes vítima de torturas, A Cidade
do Sol foi revisada em 1613 e publicada, em latim, em 1623, com o título Civitas Solis. Corresponde ao relato minucioso feito pelo viajado genovês, Gubernator Geneunsis, ao seu anfitrião. No imaginário de Campanella, a cidade abaixo da linha do Equador, erguida numa colina, faz do Estado a imagem de Deus. Dominada pelo templo do sol, reunia sete grandes círculos concêntricos, cada um com o nome de um dos sete planetas, separados por sólidas muralhas que se comunicavam entre si por quatro vias e quatro portas pesadas de ferro e orientadas por pontos cardeais. Surge num ambiente político em que a Igreja celebrava a paz católica entre Espanha e França para enfrentar o inimigo comum: a reforma luterana. Duas datas capitais: 1542 – o Concílio de Trento se arrasta por três anos. A Itália, embora contra a Reforma, vinha se esforçando para acabar com a dominação espanhola; 1559 – em 3 de abril, é celebrada a paz católica entre França e Espanha para combater a Reforma luterana. Os jesuítas passam a ofensiva contra os reformistas na Itália meridional, que corresponde praticamente a toda a Itália, grassa a opressão política. A ação da Igreja e das grandes potências europeias caracteriza-se pela política de influência territorial. A Inquisição opõe-se à expansão mercantil, econômica e financeira. Os jesuítas, empenhados em conter a Reforma, promoveram as Missões do Paraguai. O sentido era realizar ações para manter as expectativas messiânicas.
constituindo em sua base social e sendo ―a manifestação mais prática dos desejos humanos‖ (BLOCH, 2006a, p. 37). Sendo ―finito e limitado‖, o ser precisa de Deus para lhe dar amor, força, saber e protegê-lo (BLOCH, 2006a, p. 62). A Cidade do Sol germinou quando a produção artesanal transitava para a manufatura e corresponde à consonância entre o interesse burguês e a monarquia.
Civitas Solis era a representação da concentração de poder em mãos do soberano e procurava afirmar a filosofia natural e moral, subtraindo, do ser humano, ―a possibilidade de escolha e a própria liberdade‖ (BLOCH, 2006a, p. 81). Campanella vai justificá-la com o argumento de que o mundo era mau, que a sociedade não funcionava, que ninguém sabia o seu lugar, que o sol era deus e que a ciência necessitava de um Estado-Sol. Abolia a liberdade, incentivava a superstição (BLOCH, 2006a, p. 71-2).
Antes de tudo, Campanella acreditava que a Civitas Solis pudesse ganhar textura de realidade. Diferentemente de More, o Estado utópico em Campanella representa a liberdade como trunfo da ordem. Não um despertar social. Viver sem atrito significava que o ser humano iria se contentar em viver escravizado. Regida no invólucro metafísico dos astros, condenando qualquer ruptura com os espaços demarcados, associados à ordem autoritária e à felicidade, A Cidade do Sol tangencia as ilhas dos estoicos pela ausência de conflito, mas o sol da liberdade não refulge. Predominam a ―dramaticidade da hora certa, da localização certa, da ordem correta de todas as coisas e pessoas‖ (BLOCH, 2006a, p. 79).
A Cidade do Sol traz o fardo da imobilidade do tempo: em Campanella, os seres humanos, ontologicamente, existem para permanecer em seus lugares e, neles, ficarem inertes. Não reivindicam a pulsão vital da expressão. A vida é ―utopizada em termos de socialismo estatal‖, e os sonhos são os mesmos das grandes potências dominantes da época – França, Espanha e Inglaterra –, tendo o Estado como a imagem de Deus (BLOCH, 2006a, p. 79).
Bloch (2006a) entende que Campanella foi uma exceção, ao lado de Bacon, ao antecipar avanços técnicos na arquitetura ―ainda não existentes‖, como no desenvolvimento da imprensa escrita, que preencheria a história do mundo com ―mais histórias do que o mundo anteviu em quatro mil anos‖ (BLOCH, 2006a, p. 210). A diferença é que Campanella fundou a tecnologia a serviço do Estado autoritário, concebendo o futuro como uma ―catedral fortemente hierarquizada‖ que a tudo envolvia com seu manto de ordem (BLOCH, 2006a, p. 62).
Bacon nunca teve tal intenção. Ele, como a Inglaterra, absorveu o espírito desbravador de Colombo, e sua filosofia estava fortemente influenciada pelo avanço do saber, que
considerava a verdadeira fonte de poder (BLOCH, 2006a, p. 115). O conhecimento, segundo Bacon (2008), deveria servir ao homem, ao aperfeiçoamento do mundo e à utilização da natureza. Considerava a palavra ―técnica‖ como palavra mágica, mas não uma magia supersticiosa. Uma magia de sonho, separada de toda a superstição.
Bacon foi o primeiro a falar do mitológico Prometeu como um rebelde da técnica, da inventividade, multiplicador ao infinito do poder criativo do homem (BLOCH, 2006a, p. 146). É com esse olhar que Bloch (2006a) entende a utopia de Bacon. Preparava o terreno para a futura Revolução Industrial. Não perseguia ilusões. Perseguia uma utopia totalmente histórica.
Bloch (2006a) identifica a Nova Atlântida de Bacon52 com a possibilidade do humanismo tecnológico. Seria o inverso da Atlântida platônica, metáfora da cidade injusta, governada despoticamente, fundada por Posídon e destruída por castigo de Zeus.53 Na utópica Bensalem, homem e técnica caminham lado a lado com refinado sentido de integração, prosperidade e harmonia. Seus cidadãos são cientistas, tolerantes e igualitários. No livro II de O Princípio Esperança, Bloch (2006a) reconhece a força prodigiosa da invenção que irrompe dos subterrâneos da Idade Média e do Renascimento para modelar os laboratórios imaginários da ―ilha inteligente‖, perdida na imensidão do Pacìfico.
Bacon cortou as amarras restritivas da natureza do seu tempo, da história humana, ―das diferentes Tróias em chamas‖ e da ―mitologia do destino‖ (BLOCH, 2006a, p. 210). Sonhando com o equilíbrio entre a vida ativa e contemplativa, consciente de que a humanidade deveria caminhar rumo à abundância, não se deixar prender pelas tragédias das
52 Na Nova Atlântida, ficção filosófica inacabada de Francis Bacon (1561-1626), o vir-a-ser se identifica com o mundo da ciência. Bacon, nesta obra, publicada em 1627, 111 anos após a Utopia, de More, e apenas quatro anos após A Cidade do Sol, de Campanella, propõe uma filosofia nova para um mundo novo. Nascido em Londres, período em que a Inglaterra se firmou como potência marítima, acreditava que, no Renascimento, a sociedade estava construindo uma nova história, que o homem estava destinado a afirmar a si mesmo e, graças ao poder da imaginação, não retrocederia à Antiguidade. A liberdade do ―filósofo da técnica‖ ou da ―ciência aplicada à indústria‖, estava na ―substituição da velha filosofia por uma outra superior‖ (BACON, 2008, p. VIII).
53 O nome ―atlantes‖ evoca a arrebentação e o desfazer-se das espumas do mar. Eram os atlantes, na origem, os filhos de Atlas. E Platão, ao concebê-los, filhos do Céu e da Terra, os humanos primeiros, filhos dos filhos do Céu, não do Homo sapiens, de estatura grandiosa e feito nas mesmas proporções. Platão mantém-se fiel à magia mítica e cria Atlântida parecida com La République (2007), mas habitada por guerreiros e guardiões, famosos em toda a Europa e Ásia ―pela beleza dos seus corpos e por todas as virtudes de suas almas, e eram os mais ilustres de todos os homens da época‖ (PLATÃO, 2009, p. 199). Não eram cientistas, como não podiam ser, pois a ciência, em Platão, estava na ordenação do cosmo e de todo o existente (LABORDA, 2005, p. 120-1). Se pela episteme vemos o mundo, pela ciência, saberíamos como é este mesmo mundo. Nessa maneira de ver, as invenções não estavam em questão. As preocupações estavam assentadas nas soluções para os problemas primeiros, tendo o ―Bem comum‖, a ―alegoria do sol‖ e o ―mito da Caverna‖ no epicentro das coisas inteligíveis e não inteligíveis, no coração daquilo que é e não é explicado pela matemática. Eram, assim, os atlantes sacerdotes, pastores, caçadores, lavradores, criadores. Viviam em terras absurdamente férteis e ricas em metais, ouro em abundância.
epidemias e carestias, procurava um alvo para o saber, não o saber pelo saber. Uma Atlântida, ―em que tudo serve ao ser humano, serve-lhe para o melhor‖ (BLOCH, 2006a, p. 207).
O escrito de Bacon representa, mesmo nos tempos subsequentes, a única utopia de nível clássico que atribui um valor decisivo às forças produtivas técnicas da vida melhor. De qualquer modo, ao contrário da vida real, nas utopias, nem sempre o mundo das máquinas e o mundo socioeconômico aparecem relacionados. Nesse ponto, a Nova Atlântida de Bacon teria merecido ser imitada, de modo a suscitar a elaboração de obras que correspondessem seriamente à evolução técnica e suas possibilidades imanentes (BLOCH, 2006a, p. 209).
Na Casa de Salomão, onde pulsa o coração da ilha, há recursos para produzir chuva artificial, neve e o ar da montanha. São produzidas novas espécies de plantas, frutas, animais, minerais artificiais, materiais de construção, remédios e cabos de longa distância. Na Casa de Salomão, havia máquinas de voar, máquinas a vapor, turbinas de água. Os atlantes imaginaram o telefone, o submarino, o microscópio e o microfone (BLOCH, 2006a, p. 208- 9). O que o rei Salomão imaginava fazer com o uso da magia, os cientistas da utopia de Bacon fazem por meio da técnica.
Eles dedicavam-se a experimentos, não à magia, tronco ancestral da ciência. Bacon, sabia que os contos de fadas podiam se tornar realidade não pela mudança das palavras ou da forma narrativa, mas pela progressão do particular para o geral, pela observação da natureza e pela fundamentação metodológica. A filosofia, na Nova Atlântida, projetava-se para além da invenção em benefício do progresso humano. Com Bacon, o mítico Prometeu, no sentido do conhecimento, torna-se humano. Com More, a utopia deixa de ser arcaica e se volta para o futuro. Com Campanella, a utopia não sai do lugar e permanece imóvel, recua, volta-se para trás.
A Cidade do Sol corresponde, na narrativa de Bloch (2006a), ao país das maravilhas. Encontra-se na luta contra o dragão (São Jorge, Apolo, Siegfried), na libertação da donzela presa pelo dragão (Perseu e Andrômeda), no arquétipo do apocalipse religioso ―vingador e redentor‖ e nas irrupções, de caráter não libertador, não humanizador, do ―antigo chão mìtico da fantasia‖, que não fazem sonhar com o futuro (BLOCH, 2005, p. 161-2). Os sonhos emanados da Utopia de More e da Nova Atlântida de Bacon anunciam o encontro dos ideais com a função utópica; e da dança em torno da árvore da Revolução Francesa, arquétipo novo, vida latente no final do Fidélio:54 ―Louvado o dia, louvada a hora‖ (BLOCH, 2006a, p. 462).
54 Fidélio (em alemão, Fidelio), única obra teatral de Beethoven, foi apresentada, pela primeira vez, em 20 de novembro de 1805, em Viena, no momento em que tropas de Napoleão invadiam e ocupavam a cidade.
Louvados o dia e a hora da liberdade, igualdade e fraternidade, permanentemente presentes na utopia rejuvenescedora do socialismo. Como princípio, Bloch (2006a) transforma a possibilidade em esperança. Busca acordar o homem para o significado de viver uma época, como ele viveu, ―a primeira a possuir os pressupostos socioeconômicos para uma teoria do ainda-não-consciente e do que está relacionado a ele no que-ainda-não-veio-a-ser do mundo‖ (BLOCH, 2005),
O marxismo, sobretudo, foi o pioneiro em proporcionar ao mundo um conceito de saber que não tem mais como referência essencial aquilo que foi ou existiu, mas a tendência do que é ascendente. Ele introduz o futuro na nossa abordagem teórica e prática da realidade. Esse conhecimento da tendência é necessário para rememorar, interpretar e revelar as mensagens que até o não-mais-consciente e o existente podem continuar nos enviando, além de ser necessário para reafirmar sua eterna vigência. Dessa maneira, o marxismo resgatou o núcleo racional da utopia e o da dialética na tendência ainda de cunho idealista, trazendo-os para o concreto (p. 141).
Pela utopia concreta, Bloch separa o final feliz ilusório e o final feliz autêntico, orientado pela postura crítica e pela luz das possibilidades (BLOCH, 2005, p. 432-3). Separa a crença passiva no avanço automático das relações sociais e a fé no processo histórico, com ou sem alienação, com avanços e recuos. Em Bloch, não há dialética petrificada, não há purificação apenas pela técnica ou pela ciência. A alienação do homem, com relação à natureza, reflete a alienação social do homem, produto de ―liberação extremada das forças produtivas‖ (BLOCH, 2006a, p. 460).
Bloch (2006a) diagnostica que as utopias, além da interpretação das possibilidades futuras, criam relações de vasos comunicantes entre o sentimento revolucionário e os heróis trágicos, como Prometeu, o valoroso titã que na mitologia foi acorrentado por Zeus no Cáucaso (onde todos os dias uma águia ou abutre devorava o seu fígado que, também todos os dias, regenerava-se, permitindo suplício sem fim), mas, que não capitulam diante do medo, do sofrimento e do chamado destino. Por isso, Prometeu Acorrentado de Ésquilo (1977) encontra-se, na avaliação de Bloch (2006b, p. 295-6), no centro da tragédia grega, fazendo de todas as demais ―variações‖ do drama do titã a raiz da rebelião de Dioniso e do homem.
O passo seguinte da revolta prometeica está na ambivalência crucial do homem de abraçar e negar Deus: combina religião e ateísmo, sonha com o futuro, mas apaga-se à repetição dos valores da sociedade existente, nega o mundo burguês das máquinas, mas o
Revisada em 1814, a ópera se passa em uma prisão durante a Revolução Francesa e celebra o vigor da liberdade e da esperança (LOCKWOOD, 2005, p. 296-303).
cultua como sinônimo de progresso; e se contradiz ao querer tomar nas mãos a realidade das causas sociais, limitando-se, porém, a manter-se como uma ―esfinge encoberta‖ mudando apenas pela metade a natureza da vida (BLOCH, 2006a, p. 250). Mas as ambivalências do processo histórico não impediram que a partir das utopias de More e de Bacon, o homem deixa de ser criação de Deus para nascer da dialética da história. As chamadas utopias sociais irão confirmar tal evidência.
CAPÍTULO II
SONHOS DE REFORMAS E OS NOVOS FUNDAMENTOS ECONÔMICOS DO