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A essência da liberdade é carregada pela vontade, pelo elemento intensivo- emocional que visa a irromper e se realizar irrestritamente. A essência da ordem, por sua vez, tem a seu favor o elemento lógico perfeito, a compreensibilidade do que se tornou bom ou foi bem-sucedido.
Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2006b, p. 87)
A liberdade pode ser esquecida pela ―miopia da luta diária e os mìseros triunfos nessa luta‖, mas não corresponde a uma caricatura desenhada pela ordem (BLOCH, 2005, p. 432). Na tensão entre a liberdade e a ordem, o realismo está em questão. Se o homem despertar para a verdade ilusória, o capitalismo não poderá manter escondida a sua personalidade obscura, a sua personalidade falsa, a ordem como argumento para negar a liberdade.
Na utopia blochiana, a liberdade flui da juventude dos tempos, em regiões utópicas, como foi o ímpeto de revolta que a Revolução Francesa levou para dentro das massas e as impeliu para derrubar a aristocracia de maneira ―especialmente contundente‖, que não aconteceu na Alemanha: ―[...] economicamente atrasada, politicamente não treinada, os sentimentos não se ligaram sem mais nem menos ao Iluminismo burguês oficiail‖ e logo o que se viu foi o rosto do Estado policial (BLOCH, 2006b, p. 58). O engajamento da França à Revolução trouxe, como desafio, a prática da liberdade, igualdade e fraternidade, de conteúdos reais, que jamais se concretizoupor inteiro, porque a Revolução não aboliu a propriedade privada. Na Alemanha faltou mediação utópica e o romantismo revolucionário do Sturm und Drang se esgotou, como se dilaceradopela águia (ou abutre) de Zeus – que torturou Prometeu no rochedo –, reativando esse mitológico símbolo da repressãono encarceramento da liberdade pela ordem.
Seria nesse momento, se aqueles conceitos não se transformassem em lei, mas não em prática libertadora, que deveria entrar em cena o conceito de libertar-se de ―algo‖ (Freiheit zu Etwas). Englobaria a liberdade psíquica, a liberdade ética, a liberdade de ação e a liberdade de olhar o mundo para a frente. Como ideias, liberdade, igualdade e fraternidade, são de fácil compreensão e podem ser entendidas como o desejo humano de construir sua identidade. Estavam presentes no cristianismo primitivo e na aliança entre burgueses e operários para derrubar a aristocracia. A barreira da dificuldade encontra-se na prática de libertar-se da herança cultural burguesa, como assinala Marx em O 18 Brumário de Luiz Bonaparte ao referir-se às ―ilusões‖ de Cromwell e Robespierre. Protagonizaram revoluções vitoriosas, mas
ocultaram de si mesmos a herança burguesa que limitava suas lutas (MARX, 2011, p. 118- 26).
Esse fio histórico enreda o homem e seus valores. Pode ser visto como um direito natural, tanto como um corpo estranho à sociedade burguesa e da sua superestrutura jurídica, mas na filosofia blochiana, a liberdade, a igualdade e a fraternidade são conquistas da sociedade. Exigem luta permanente pela dignidade humana e da amplitude do conceito de liberdade. Encerram o contraste entre o desejo do ideal burguês e a sua concretização.
Preludiam, para Bloch (2006b), que o nascimento da verdadeira história do homem ainda não aconteceu, mas que as filosofias voltadas para o passado e o niilismo não resultam em pressões dialéticas. A história, em processo, abre-se para o ainda-não que pode alcançar a plenitude (a totalidade final) como desembocar no nada. Esse desfecho preocupa Bloch. Ele se interessa em construir o futuro com os saltos de qualidade da vida presente. O sistema filosófico blochiano faz parte desse propósito, objetiva o tempo-espaço e o inscreve nas categorias de causalidade, processo e finalidade.
Não é por coincidência, que Bloch (2005) se refere à práxis revolucionária e ao ainda- não-consciente ou que Hegel lembrava que o ―Espìrito‖ precisava superar a natureza e que Marx destacava a ―humanização da natureza‖. Estão tratando de que a natureza parece ser sinônimo de equidade, mas é a história humana que precisa caminhar nessa direção. A diferença é que Bloch supõe ser possível influenciar o processo histórico se transformar o conhecimento imperfeito das coisas e se converter o ―poder ser‖ em ―poder ser‖. Isso depende da vontade humana, mas pode ser pensada como ―o possìvel objetivo real‖ (das objektiv-real Mögliche).
Esse conceito não é inviável. ―O realmente possìvel principia com o germe em que foi disposto o vindouro‖ (BLOCH, 2005, p. 235). Daì, o homem e seu trabalho serem ―elementos decisivos‖ no processo histórico do mundo, sendo o trabalho ―um instrumento de humanização‖ (BLOCH, 2005, p. 244). Esse processo não se completou, mas existe como tendência histórica. Pode, portanto, ser mediado, desde que não fique prisioneiro de construções abstratas. O sentimento de liberdade surpreendeu, por exemplo, Tocqueville ao descobrir que, na América do Norte, nos idos de 1835-40, quando escreveu De la Démocratie en Amérique, existia um coletivo burguês que, em nome da liberdade, equilibrava a balança da individualidade e dos negócios (BLOCH, 2006b, p. 49).
No socialismo, o coletivo sem classes busca a liberdade por meio do utópico aberto de modo que possa existir a equivalência do ―nós‖ com o indivìduo, no lugar da alienação (BLOCH, 2006b, p. 55). A ordem exige, como disse Sócrates, a ―habilidade da parteira para
trazer a criança à luz‖ (BLOCH, 2006a, p. 86). Assim que deixa de ser um jogo e preserva sua caracterìstica de organização do ―reino da liberdade e da liberdade como reino‖ (BLOCH, 2006a, p. 87). Contrapõe-se à ordem burguesa que se sustenta em uma série de eventualidades, tais como felicidade do lucro e destino, natureza humana e vocação humana, direito natural e propriedade privada. A liberdade e a ordem concreta, pela ligação dialética, procuram fazer da vontade humana o seu conteúdo. É isso que submeteria a ordem à liberdade.
Em Marx, a liberdade faz-se presente no centralismo democrático, como lembra Bloch, a ―organização conjunta de processos produtivos, é o plano comunitário unificado de informação e do cultivo humano‖, nos moldes da Utopia de More (BLOCH, 2006a, p. 88). Inexistindo a liberdade isolada da superação do domínio do capital, a desordem mascarada na aparência de ordem ergue sucessivas barreiras à solidariedade e amizade social.77
Mas existiria, teoricamente, a liberdade concreta, a começar pela liberdade dos homens socializados, transformados em produtores e que utilizariam a razão para realizar suas trocas com a natureza e com outros homens em condições dignas (MARX; ENGELS, 2007, p. 93-106). Sem correlatos com a ilusão, sem que a realidade exiba a máscara da representação, a liberdade conduzirá o homem para a causa do futuro. Transcender o abismo da inconsciência, do sonho de perfeição e funde o querer humano com ―montanha‖ a ser conquistada como expressão da realidade coletiva-individual (BLOCH, 2005, p. 433).
A busca dessa atmosfera de liberdade não pode se limitar à negação da estrutura dominante, senão se perderia no labirinto da determinação do esclarecimento particular, não na construção do universal. Deslizaria para uma comunidade ética, situando-se mais para o ―decreto do que constatação‖, tal como fizeram Fourier e Owen ou convergindo para as construções lógicas no estilo de Saint-Simon, desejosas de substituir a emperrada máquina social da burguesia por uma máquina perfeita, portanto, impossível de existir (BLOCH, 2006a, p. 134).
Inverter a sociedade da ordem pela sociedade da liberdade é uma exigência prática. A subordinação da ordem à liberdade só se concretizará, porém, se a dialética materialista tomar para si a transformação do homem real para que este transforme a sociedade, colhendo os
77 Em Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (Zur Kritik der Hegelschen Rechtsphilosophie), Marx defende a tese de que, na sociedade burguesa, a liberdade é ilusão, enquanto a ordem traduz a vontade do Estado. Abstrata na forma, de conteúdo real na dominação, é elemento da existência, da conciliação e permite camuflar os conflitos reais (MARX, 1982, p. 864-79). Além de tornar a filosofia dependente da classe dominante, deixando-a entregue aos ―favores do poder governamental‖, esconde, sob o manto do estado político, a barbárie da propriedade privada, que faz do direito, exceção e, do privilégio, a regra (MARX, 1982, p. 879-97). De ―espìrito romano‖ e ―alma germânica‖, faz do Estado a propriedade privada, faz da confiança o formalismo (MARX, 1982, p. 996-1018).
frutos não só da libertação da sociedade burguesa, mas de si mesmo. Dessa forma, o conceito de liberdade-ordem, em Bloch, aparece como um espaço de transformação superestrutural.
Como conceito transformador, não fala a linguagem dos heróis salvadores. É o desafio dos fundadores do futuro. Nasceu e se aperfeiçoou do choque entre as forças econômicas que brotam da Revolução Francesa e o antigo sistema de trocas. A sociedade ainda feudal recuou e, em seu lugar, o comércio em larga escala e a manufatura se desenvolveram modelando a liberdade individual.
A rebeldia foi condenada com sua exigência de submissão do homem ao Estado na ordem temporal e, também, pela sua concepção do homem como ser decaído (BLOCH, 2006a, p. 239-4). Em nome da ordem, a Revolução Francesa viria a separar o direito da moral, emancipando as leis das convicções interiores e opondo a sociedade solidária e a felicidade de ser cidadão, o que Sócrates definia como ―a grande felicidade‖ à sociedade em que o homem é o lobo do homem por direito (BLOCH, 2002, p. 60-9).
Bloch (2006b) pensa no mundo sem a semeadura das ilusões, com a liberdade prometeica renovando a existência. Vislumbra um mundo sem confrontos entre ordem e liberdade, sem que o sentido da antecipação seja algo irrelevante. Rejeita o entendimento de que o homem, para ser livre, precisa ser um homem de negócios, dispor de privilégios e da segurança burguesa. O homem de negócios considera o Estado como se fosse seu, e sua ordem só pode ser rompida em uma hipótese: se o interesse individual estiver ameaçado. Essa é a gênese da ordem no sistema burguês. A sua lógica volta-se para a produção e o lucro, não para os direitos do homem.
No mundo da ordem, o homem é excluído. A ordem tornou-se um positivismo, invade todas as instâncias da vida, da sistematização da filosofia à arquitetura, da limpeza, pontualidade à opressão e às diferenciações de classe. Para além da justificativa de ter sido construída, acondiciona seu valor no propósito de excluir da vida manifestações de emoção. Caracterizam a ordem, a aparência e, supostamente, a eliminação do acaso.
O ponto comum de todas as manifestações da liberdade é a vontade de não serem determinadas por algo alheio ou alienante à vontade, mas o ponto comum das manifestações da ordem é o valor de esta ter sido construída, de se ter desembaraçado de qualquer situação em que a emoção ainda se justificava. É esse elemento, alçado e chegado a seu lugar, sim, é essa característica de reino que explicita, em mundos menos problemáticos que o político, que jazem menos no maligno, o melhor repouso e que o explicita como a melhor coisa (BLOCH, 2006a, p. 87).
A liberdade, além de valorizar a emoção, tende a ser coincidente com a ordem concreta e não mera representação que escapa à realidade e ao sonhar com o futuro: a vontade manifesta da sociedade determina o êxito social, não as aparências. Uma coisa é ter o direito de ser egoísta, de pertencer à sociedade burguesa, outra são os direitos do cidadão.78 Essa identificação não é tácita. Nela, a ordem chega pelo entendimento entre os homens, não pela imposição: ―Apenas a vontade de liberdade tem conteúdo, o termo ordem não possui conteúdo próprio‖ (BLOCH, 2006a, p. 88-9).
Desse modo, o percurso do processo consciente da realidade é, de modo crescente, o da perda do ser estático, fixado e até hipostasiado, o processo de um nada crescentemente percebido, então certamente da utopia. Esta, então, abrange totalmente o ainda-não, bem como a dialetização do nada do mundo: ela, no entanto, tampouco escamoteia, no possível-real, a alternativa aberta entre o nada absoluto e o tudo absoluto. A utopia é, na forma concreta, a vontade testada rumo ao ser do tudo: nela, atua, portanto, o
páthos do ser que, anteriormente, esteve voltado para uma ordem do mundo, até uma ordem do supramundo, bem-sucedida, supostamente fundada no mundo já acabado (BLOCH, 2005, p. 307).
Bloch (2005) acrescenta que a chave para o reino da liberdade situa-se na consciência não alienada de fazer da ordem a melhor sociedade possível para o Homo homini homo (o homem ser humano para ser humano). Não é a ordem estática, nem a ordem daqueles que temem as mudanças do mundo. Seria uma ordem empolgante, não uma ordem voltada apenas para os interesses do pragmatismo comercial ou a uma sociedade despida de senso humanístico.
Talvez, por isso, Marx escreveu, de forma ―concisa e antitética‖, a Tese 11 sobre Feuerbach: ―Os filósofos não fizeram mais que interpretar o mundo de diferentes formas; trata-se, porém, de transformá-lo‖ (BLOCH, 2005, p. 271). A frase é crucial. Designa a diferença radical da filosofia marxista das suas antecessoras. Não significa que todos os filósofos tivessem sido, até então, contemplativos. Quer dizer que o suporte da transformação do mundo encontra-se na filosofia materialista, de Demócrito e Epicuro aos materialistas franceses do século XVIII (La Mettrie, D'Holbach e Diderot) aos materialistas alemães, anteriores a Marx e Engels, tal como Feuerbach. A Tese 11 significa que a filosofia deixava
78 Bloch refere-se a essas questões Droit Naturel et Dignité Humanine (Narurrecht und menschliche Würde), citando A Questão Judaica e A Sagrada Família de Marx. Destaca que as mudanças acontecerão quando o cidadão se descobrir como força política e portador da liberdade socialista (BLOCH, 2002, p. 212-4).
de ser condenada à não realização para se realizar. Essa concepção rompe as muralhas do idealismo e abre as portas para a criatividade.79
Com as Teses sobre Feuerbach, Marx, segundo Bloch (2005), trouxe para a filosofia a primeira grande dimensão da potência-possibilidade humana de andar ereto ao ver, no ser humano trabalhador, a raiz concreta da transformação. O que antes era possibilidade em latência, tornou-se realidade possível, imagem do desejo (Wunschbild), ideal humano concreto.
Pelas Teses, o homem não seria mais explicado por si mesmo, mas pelas relações da sociedade de classe. E a liberdade seria erguida a um novo patamar de compreensão: seria a liberdade para criticar a propriedade privada e o egoísmo do lucro que isola o homem da totalidade social e o degrada por torna-lo solitário. Não só a liberdade para o indivíduo egoísta, mas para todos os homens. Não o direito natural do homem, mas a comuna de liberdade.80
Nessa linha, assinala o rejuvenescimento do direito natural com o direito materialista e utópico. O parâmetro do direito natural rousseauniano instalou o conceito de razão nas relações sociais, mas Bloch (2006a) o critica não tanto pela falta de horizonte revolucionário para conciliar a ordem social com a liberdade e dignidade do homem, mas pela sua visão ser anterior ao proletariado da grande indústria. Abarcou a filosofia do seu tempo, mas não podia conter a luz utópica dos tempos futuros. Não deixou de ser uma porta de entrada para a dignidade humana, uma porta que rompe com a imobilidade que envolvia o tema desde os antigos gregos e que, na visão de Bloch (2002, p. 231), se transforma numa vontade eterna quando, com Marx, fica evidente de que o homem não é naturalmente bom ou mau.
A visão de que o homem é bom não foi monopólio de Rousseau, mas envolveu também os anarquistas. Para eles, todo o mau provinha da Igreja e do Estado, dogma inverso
79 O Idealismo Alemão data de 1871 com a publicação da Crítica da Razão Pura e se prolonga por meio século até à morte de Hegel. Entre seus principais pensadores estão também Fichte e Schelling. Em seu conjunto, abriram passagem para Marx, a fenomenologia, o existencialismo, a teoria crítica e o pós- estruturalismo, influenciando, ainda, a filosofia analítica e a tradição filosófica europeia e americana. Nasceu da reação de Kant ao ceticismo de David Hume (1711-1776). Pretendia, na visão de Kant, suplantar o dogmatismo com ―uma filosofia verdadeiramente moderna que estabeleceria e asseguraria os limites da cognição racional e da ação‖, de conteúdo ―radicalmente‖ igualitário e libertador (DUDLEY, 2013 p. 13-26). Schelling, na sua crìtica ao Idealismo alemão, deu ―impulso e direção‖ à filosofia pós-hegeliana, ao considerar que a filosofia de Hegel era ―incapaz de oferecer valores que possam guiar a vida humana‖ (DUDLEY, 2013, p. 2).
80 Bloch trata do direito natural também em livro específico, Naturrecht und menschliche Würde (Direito natural e Dignidade Humana, tradução nossa). O livro foi publicado em 1961. A luminosidade do tema emana da sua obra. Faz-se presente com intensidade em O Princípio Esperança, com a defesa da destruição de todas as relações em que o homem seja degradado, escravizado ou desprezado, prática que será banida da Terra quando o homem for senhor da sua vida.
ao pecado original. No marxismo, não haveria o sentimento especulativo, sim o não-existente utópico a ser conquistado com a prática. Falta, alerta Bloch (2002), erradicar a ilusão de que a burguesia possa aspirar que o homem seja livre e que tenha uma vida fora do trabalho, que a burguesia tenha o mais vago interesse numa filosofia da natureza que não seja vazia de conteúdo real. A realidade se encontra no terreno da desalienação humana e só a esperança de mudança é que pode acender as luzes utópicas do amanhã.
2.7 ESPERANÇA PELA MUDANÇA DE VALORES, O HOMEM SEM MEDO DO