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5 Çoklu Ortam

As velhas utopias eram doutrinárias porque aliaram seu modo de ser, rico em fantasias, sim, fantástico, com o estilo de pensamento racionalista da burguesia.

Ernst Bloch, O Principio Esperança (2006a, p.134)

Bloch concentra-se no não-alvo: a construção da sociedade nova não é feita com indignação sentimental e abstrata. Enquanto as utopias abstratas dedicaram ―nove décimos de seu espaço à descrição do Estado do futuro‖, Marx fez exatamente o contrário e, por isso, escreveu O Capital e não ―Convocação para o Socialismo‖ (BLOCH, 2006a, p. 175).

Não pinta um paraíso na Terra, mas desvenda o mistério da obtenção de lucros e o mistério, quase mais complicado, da distribuição dos lucros. Marx aplica a lei do valor, enunciada por Ricardo, à mercadoria da força de trabalho. Descobre a dialética da mercadoria pela via do valor de troca e dentro dela. Compreende que o lucro é uma mais-valia extorquida e que a curiosa taxa média de lucro constitui a base para a solidariedade de classe dos capitalistas. Dessa maneira, fundamenta a dialética da história, que leva a tensões, utopias, revoluções, sendo primeiramente dialética material (BLOCH, 2006a, p. 175).

Esse pressuposto recria o papel da filosofia na sociedade de classes. Em vez da investigação das causas primeiras ou dos primeiros princípios do espírito humano, Bloch procura a transformação material da vida, a filosofia como expressão da necessidade da prática, não mais como designou Feuerbach um ―empirismo especulativo e mìstico‖ (MARX,

1982, p. 463). No lugar do estudo da sabedoria e de todas as coisas que o homem pode saber, Marx enfatiza a filosofia de total revolução emancipadora, a filosofia que se identifica com a ciência da revolução socialista,39 o princípio de construção de uma história nova.

Em vez de negar os nexos entre o marxismo e a filosofia, reduzindo-os a uma crítica científica da sociedade, tal como fez o marxismo ortodoxo, Bloch examina ampliá-los, tornando-os indissoluvelmente associados à prática. Entende como Marx (1982, p. 1537, tradução nossa) que ―o mundo se tornará filosófico quando a filosofia se tornar terrestre, interesse e paixão de cada um e de todos‖.40 Bloch procurou ampliar o sentido da ideia

marxista da filosofia como transformação do mundo, não só como intérprete: a coincidência da consciência com a realidade e com o sonho revolucionário, considerando-a como característica da dialética materialista. Marx (1982, p. 1537-82) considera a filosofia ética como ―imperativo categórico‖ para a transformação do mundo, enfatizando que o filósofo não deve se restringir ao pensamento, mas abraçar todas as atividades humanas, deixando de ser ―suprimida e conservada‖ numa ética vazia. Precisa mudar de papel, ser a filosofia da revolução.

A transformação filosófica está associada a um saber incessante a respeito da conjuntura; pois, mesmo que a filosofia não seja uma ciência própria acima das demais ciências, ela é, isto sim, a ciência e a consciência próprias do

totum em todas as ciências. Ela é a consciência progressiva do totum progressivo, já que este totum não está estabelecido, ele próprio, como

factum, mas lida com o que ainda não veio a existir unicamente no gigantesco contexto do devir. A transformação filosófica é, assim, uma transformação segundo a medida da situação analisada, tendências dialéticas, das leis objetivas, da possibilidade real (BLOCH, 2005, p. 277).

A transformação filosófica está ao alcance do homem porque exige a unidade teórico- prático, com a supressão do que é acentuadamente prático ou acentuadamente teórico. Não é uma transformação impossível. Exige que se abandone a ideia de uma filosofia autárquica ou contemplativa, o mesmo que uma filosofia meramente interpretativa, em que o alvo prioritário seja a filosofia da revolução tendo no bem comum o seu alvo prioritário.

39 A expressão socialismo científico foi cunhada por Engels em série de artigos publicados no

Vorwärts(Adiante), órgão central da social-democracia alemã, de 1876 a 1878 e reunidos no livro Do

socialismo utópico ao socialismo científico, como resposta aos ataques de E. Dühring, docente da Universidade de Berlim, que ao aderir ao socialismo em 1875, publicou um livro com coléricos ataques a Karl Marx. Em três alentados volumes, Dühring compôs sistemas completos da filosofia, da economia política e do socialismo, além de uma História Crítica da Ciência Política.

40 ―Le monde deviant philosophique quand la philosophie deviant terrestre, affaire et passion de chacun et de tout le monde.‖

Na visão de Bloch (2005), que deixou de ser apocalíptica, a matéria passa a ocupar o lugar do ―Espìrito‖ hegeliano e a dialética compreende a unidade sujeito-objeto da harmonia teórico-prático da filosofia de transformação do mundo. Com essa percepção do valor da prática, Bloch transfere o papel de mediador do partido para a experiência do homem trabalhador e abre espaços à visão do todo social utópico. Faz da prática a própria expressão direta da teoria.

A consciência torna-se um movimento, o ainda-não-consciente torna-se uma aspiração revolucionária inseparável do processo revolucionário. Rompe com a noção mecanicista de que a história possui suas próprias leis, reivindicando a função prática das Teses sobre Feuerbach (MARX; ENGELS, 2007). De maneira indireta, Bloch demonstra a impossibilidade de construção do socialismo em um só país e, também, critica a idealização da teoria como saber puro que bastaria ser aplicado para que a realidade se transformasse.

Foi assim que Bloch seguiu os passos de Marx e Engels, da utopia apocalíptica para a ciência da história, mas estabelecendo os limites da ciência e os horizontes do aprendizado a conquistar a partir da prática. Filosofia, conhecimento material da realidade e sonhos revolucionários trilham a mesma rota, pois não se tratava de simplesmente descrever o fenômeno utópico, e sim, construí-lo. O futuro emergiria não só da antecipatória sociedade sem classes, na visão de Marx (1982), e do reino da liberdade, na concepção de Engels (2005); mas da utopia social do ainda-não-consciente.

Assim como rechaçou os devaneios dos utopistas, Marx também renunciou aos devaneios filosóficos e, nas palavras de Franz Mehring (2003, p. 21-5), ao superar ―o diletantismo filosófico‖, abriu ―novos e amplos horizontes‖ para a consciência humana, dando real conteúdo ao espìrito grego. Deixou de lado a abstração da ―autoconsciência‖ e da filosofia da natureza, espelhada nos deuses e na religião, para mirar-se no materialismo e no homem. Reinterpretou a perspectiva filosófica do epicurismo, do estoicismo, do ceticismo e do hegelianismo, os primeiros como centro do sistema materialista da Antiguidade, o último com a crítica ao direito (MARX, 1982, p. 785-808; 900-5). Negou, como acontece em A Sagrada Família (MARX; ENGELS, 2003), a identidade mística do pensamento e do ser, concentrando-se nos conceitos de ―comunismo de massa‖ e de ―proletariado de massa‖ como movimento prático e material dos trabalhadores (LÖWY, 2002, p. 160-1).

Era na mediação entre a exploração e a revolução que Marx encontrava a capacidade das massas operárias de desfrutar da ―liberdade‖, em sentido materialista, de fazer valer suas necessidades ―não através do poder do indivìduo concreto, mas sim, através do poder da sociedade‖, ou seja: ―Se o homem é formado pelas circunstâncias, será necessário formar as

circunstâncias humanamente‖ (MARX; ENGELS, 2003, p. 150). Do socialismo utópico, saltou para o comunismo materialista e com a continuidade, em âmbito filosófico, no entendimento de Löwy (2002), do materialismo do século XVIII para a doutrina do humanismo real.

Dessas premissas, Bloch (2005) extraiu a mais veemente das suas argumentações quanto ao ainda-não-consciente – a evidência de que o homem precisa tornar consciente a construção do socialismo. Na teoria marxista, a prática é mais do que uma demonstração de crença no homem e na sociedade sem classes, mas uma coincidência sujeito-objeto. Agir é acreditar, e acreditar é transformar. Nada é estanque, nada é dissociado do todo. Ser racional é compreender a estrutura de classes e o relacionamento com ela. Ser racional é entender o processo histórico, analisar situações e transformá-las. Isso exige mudança de valores e a superação de tensões entre as forças produtivas e as forças da economia política.

O socialismo como ideologia do proletariado revolucionário é pura e simplesmente boa consciência, relacionada com o movimento compreendido e a captada tendência da realidade. Contudo, à relação dessa ideologia verdadeira com o aspecto antecipador na má consciência da ideologia anterior, aplica-se à seguinte sentença de Marx (a Ruge, 184341): ‗Nosso lema de campanha deve ser, portanto: reforma da não consciência não por meio de dogmas, mas da análise da consciência mística, à qual ainda falta clareza. Ficará evidenciado, então, que o mundo, há muito, possui o sonho de uma coisa da qual ele só precisa da consciência para possuir realmente. Ficará evidenciado que não se trata de um grande travessão entre o passado e o futuro, mas da efetivação das ideias do passado (BLOCH, 2005, p. 154-5). O escrito de Marx, datado da primeira metade do século XIX, quando o socialismo tateava à procura de uma saída luminosa para a escuridão capitalista, parece pertencer aos dias atuais. Que Bloch procure estabelecer uma linha de continuidade entre o passado e o futuro, não é propriamente a novidade. Caracteriza o novum o entendimento de que o homem necessita construir, uma sociedade livre e igual. Teria duplo aspecto: a mediação dentro do capitalismo e a mediação dentro do socialismo, uma para superar o sistema, a outra para

41 Berlin (2007, p. 85-6) traça um retrato elogioso e cáustico de Arnold Ruge: jornalista talentoso, mas pomposo e irritável, um radical hegeliano descontente, mas que, depois de 1848, tendeu gradualmente ao nacionalismo reacionário. Perseguido pela censura na Alemanha, mudou-se para Paris e convidou Marx, a quem admirava, embora fosse 16 anos mais velho, para editar o Jornal Deutsch-Französische Jahrbücher. Ao contrário de Marx, que sempre cultivou ―soberana indiferença ao dinheiro‖, Ruge era excessivamente apegado ao dinheiro, era avaro. Foi Ruge quem encomendou a Marx o ensaio para o seu jornal sobre a

Filosofia do Direito de Hegel (MEHRING, 2003, p. 62-99). Marx afastou-se de Ruge ainda no exílio nos anos de Paris. Ruge era quem mediava o diálogo entre Marx e socialistas conhecidos, como Proudhon, Louis Blanc, Cabet e fouerristas da Democracia Pacífica por intermédio de Victor Considerant (MARX, 1982, p. 1349).

afastar-se dos traços da sua cultura. Acima do duelo entre a ―boa‖ e a ―má consciência‖, há ―uma cultura de efeito continuado‖ da sociedade de classes que carece ser rompida.

A má consciência por si só não seria suficiente nem mesmo para dourar o invólucro ideológico do que ocorreu. Por si mesmo, ela não teria condições de produzir uma característica mais importante da ideologia: a harmonização prematura das condições sociais. Seria ainda menos possível compreendê-la como meio do substrato cultural sem o seu encontro com a função utópica. Tudo isso ultrapassa, notoriamente, tanto a má consciência quanto o fortalecimento até apologético da respectiva infraestrutura social. Da mesma forma, sem as funções utópicas ideológicas de classe teriam chegado a ser meramente ilusões passageiras, e não modelos na arte, na ciência e na filosofia. E é exatamente esse excedente que forma e mantém o substrato da herança cultural, como sendo aquele amanhã que está contido não só nos tempos primordiais, mas também, num nível mais elevado, em pleno dia a dia de uma sociedade e, parcialmente, na penumbra da sua ruína (BLOCH, 2005, p. 155).

Contra a cultura capitalista, faz-se necessário afirmar nova consciência. Essa postura exige uma transição dialética, que Bloch (2006b) não apenas reconhece, como admite exigir ação transformadora contínua e a fé na capacidade humana de cultivar valores universais. Se o braço longo do capitalismo alcança o homem na fábrica e na sensação de liberdade ao dormir, nas férias e no esporte, no convívio com a família e nas relações de troca, nas guerras e nos desejos, sem que o homem perceba, o socialismo precisa caminhar no sentido inverso e, na sua práxis, mostrar que os homens não são mercadorias, que o ser humano não existe para competir entre si, mas para ser a si mesmo, não alienado.

É fácil desejar transportar-se para longe de um lugar ruim. Mas a trilha para sair dele é menos óbvia, ainda precisa ser aberta. O terreno plano que se estende para todos os lados é tão difícil para o caminho certo quanto o montanhoso, com flagrantes bloqueios. Daí o desgarrar-se, uma das condições mais amargas, além de peculiar. Ela reside no prolongamento do querer, ao qual falta, ou ainda falta o poder no prolongamento do broto que nunca evolui realmente para a flor. O desgarrado encontra-se entre o desejo permanente e o caminho não permanente ou que não se revela. Porém o perigo a que o desgarrar-se expõe ao viandante, o perigo de perecer, perfaz também o tributo ao novo (BLOCH, 2006a, p. 299).

O novo é o broto que se transforma em flor, o sonho que transforma em lugar de se desgarrar da realidade. A função utópica é justamente esta: arrancar a cultura socialista da mera contemplação e levá-la a galgar os cumes da esperança humana. Portanto, a via inescapável para o socialismo seria essa: construir, na consciência humana, a imagem da boa consciência voltada para o futuro. É nesse contexto que pode ser compreendido, como

metáfora de moldura muito mais ampla, a citação da carta de Marx a Ruge. E a vontade blochiana de concretizar o novo.

1.5 EM LUGAR DA FILOSOFIA DA SOCIEDADE DE CLASSES, A FILOSOFIA DA