No ato de imaginar, como no ato de pensar, há um ato de intencionar.
Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2005, p. 73)
Para Bloch (2006a), quanto mais distante o homem estiver do prazer falsificador da contemplação, mais próximo estará da experiência vivida, da realidade e do materialismo histórico, da revolução. Onde termina o materialismo inerte, começa o materialismo dinâmico e dialético. O materialismo utópico de Bloch (2006a) tem a sua origem e o seu topos nesse ponto de mudança em que a força da matéria em movimento impeliria a utopia a se realizar.
A experiência vivida favorece a análise da realidade, sem exercício de profecias ou utopias abstratas. Como a utopia concreta existe para ser realizada, inexiste conteúdo científico na separação entre a contemplação e a ação. Como não há conteúdo humano na dicotomia Apolo-Dioniso. São dualismos desprovidos de prática revolucionária.
Dioniso nada é além de procurador daquilo que, no ser humano, arde e não está resolvido, continua sendo o fogo obscuro do abismo. Apolo nada é além da definição progressiva do material em fermentação dionisiacamente, caracterizado, como o abismo nas alturas, que foi levado às alturas. Ambos estão inacabados como o conteúdo humano a que se referem e para o qual estão a caminho; aqui, na vontade e na carne; lá, no espírito. O ser humano ainda não foi encontrado nem como dionisíaco nem como apolíneo, sua incógnita ainda é tão grande que tanto o canto dionisíaco como o apolíneo e a respectiva imagem do desejo anterior a ele têm quanto não têm razão. A vontade impulsiva e o espírito oscilam, e aquilo que eles formam alternadamente, na totalidade dialética, terá apenas um único nome. Será o último Apolo e o primeiro Dioniso, assim desaparecem as duas alternativas (BLOCH, 2006b, p. 33-4).
O valor libertador da unidade Dioniso-Apolo e sua completude seriam como curar a sociedade enferma de uma doença grave. Restaurando a vida nova em que a infância fosse despreocupada, não houvesse a luta por moradia e alimentação saudável, o homem poderia ser pleno. Sem curar as doenças do capitalismo, o homem não poderá andar ereto, porque ―a própria sociedade está suja e doente, e precisa de atenção clìnica‖ (BLOCH, 2006a, p. 28).
A imagem da restauração da saúde Bloch trouxe da realidade histórica: no capitalismo é a capacidade de trabalhar, enquanto, na Idade Média, a ausência de saúde foi pensada como
fruto do pecado. Quem tinha boa saúde era visto como pessoa de poucos pecados. Na Antiguidade, a visão era mais simples: saúde era a ausência de doença.
Construir a saúde é arte do modelar da vida e da sociedade. A enfermidade não é culpa do indivíduo, mas do grupo. Quando Malthus atribui os males da sociedade aos males da superpopulação e influenciou Darwin e o conceito da luta darwiniana pela sobrevivência, dava a entender que o controle da natalidade era a salvação da humanidade. Não é o que pensa Bloch. Na Terra existe lugar para todos, e a vida seria muito distinta se fosse administrada pelo ―poder da satisfação das necessidades‖ e não pela administração das ―necessidades do poder‖ (BLOCH, 2006a, p. 29).
No capitalismo, a saúde significa lucro. A ideologia do poder é de que todos devem ser saudáveis e desfrutar da liberdade para serem saudáveis se assim desejarem. Nada mais ilusório. Bloch vai encontrar a necessidade da saúde sucessivamente no estoicismo e seus hábitos da convivência saudável com a natureza, em La République de Platão (2007), na Utopia de More (1999), na Cidade do Sol de Campanella (2001), na Nova Atlântida de Bacon (2008), até Marx e Engels (2007) com as Teses sobre Feuerbach.
O itinerário para o homem é extenso, como antecipa Bloch (2006a, p. 28): ―[...] sem dúvidas, não será percorrido no contexto da produtividade e no empreendimento capitalista, pois a saúde visa a ser desfrutada e não consumida‖. É uma saúde que, como lembra O Manifesto Comunista (MARX; ENGELS, 1998a), implica não na sucessão de desenvolvimentos individuais, mas no ―desenvolvimento de todos‖ (BLOCH, 2006a, p. 31).
Por conseguinte, a saúde social depende do valor dado à vida, desintoxicada da cultura do lucro, sem as circunstâncias tortuosas do nascimento à idade adulta, da velhice à morte. Desembaraçar-se do magnetismo insalubre do lucro é tarefa acima da linha do horizonte individual. Na vida historicamente material, a totalidade social e dos indivíduos evoca a história da exploração do homem pelo homem. Daí, para o futuro, a sociedade não dialética projetar apenas sombras: na sociedade capitalista, a pretensa ubiquidade da sua existência é a negação do devir.
Com a sedução do lucro, vieram a devastação da natureza, o egoísmo, a inautencidade da vida. Há muita praticidade, pouca humanidade: não há mediação entre o homo faber burguês, medido na balança da produtividade, e o sujeito da história, o ser humano – o trabalhador humanizado desalienado. A utopia concreta, com a metáfora da restauração da saúde, resignifica o objetivo do marxismo e do processo utópico do homem humanizado: ―O possível não sendo totalmente condicionado, é o não-consumado‖ (BLOCH, 2005, p. 244).
Há medo na esperança e esperança no medo, mas o homem é capaz de fazer preponderar a esperança.
A busca da esperança não comporta o egoísmo e se volta para as características coletivas de uma sociedade nova. Bloch ensina que a utopia não pode existir sem romantismo revolucionário, mas não pode igualmente prescindir da análise das possibilidades da ―corrente fria‖ da realidade. O romantismo foi ―um hino à genialidade‖ em contraste com as regras, a sanidade, a racionalidade iluminista, no dizer de Isaiah Berlin (2015, p. 89). Sua virtude encontra-se no arrebatamento a que se dedica na construção de uma sociedade melhor.
Trata-se de visão sincera e profunda da realidade. Bloch rejeitava a destruição de uma cultura pela outra. Fez desmoronar a ideia de uma vida perfeita e entendia que os ideais de vida dos mais elevados podiam ser alcançados em todos os lugares ao mesmo tempo. O seu postulado básico era a ação que abre espaço para outra ação, caso contrário, nada teria sentido (BERLIN, 2015, p. 105-8). O Sturm und Drang foi emblemático. Sua conotação é múltipla. Sturm é sinônimo de tempestade, dilúvio, confusão. Drang significa élan, desejo, paixão.
Bloch, na sua porção romântica, dispõe-se a ultrapassar as verdades estabelecidas. Mas ensina que essa corrente quente do pensamento (Wärmerstrom), originária do estudo filosófico da natureza, com raízes na esquerda aristotélica, na Idade Média, em Goethe e no marxismo, não pode desprezar a corrente fria do pensamento marxista (Kälterstrom), essa oriunda da física quantitativa de Galileu, Newton e Kepler, do materialismo francês do século XVIII e do materialismo alemão do século XIX. São contrárias, mas complementares.
Bloch (2006b) ensina mais: a esperança utópica é integrada pela base filosófica da arte de viver, do bem viver, pelo tempo livre, pelo otimismo militante e pelo desenvolvimento saudável do homem, fios revolucionários no labirinto da vida. A cultura do lucro não finda pela oposição abstrata. Há obstáculos imensos nas possibilidades de realização do futuro. Talvez, o principal deles seja a possibilidade do ainda-não. Conceito, em termos filosóficos, pouco ―rastreado ontologicamente‖, permanece no domìnio da lógica formal: pode ser dito, mas não pensado, porque predomina a cultura contemplativa (BLOCH, 2005, p. 238). Não seria o processo permanente da práxis humana o imperativo da vida?
O possível e, consequentemente o ainda-não, são interpretados como determinação do conhecimento, não do objeto real. Não fosse assim, o homem e seu trabalho não seriam separados da transformação do mundo e o homem trabalhador, ―pivô da história‖, não seria ―alienado, reificado e subjugado em prol do lucro de quem o explora‖ (BLOCH, 2005, p. 246).
O homem, nessas condições, oscila entre a suposição, a irrealidade, o subjetivo, a cautela, a abstração vazia, sem citar a distância que é levado a viver da infinidade de possibilidades. Precisaria não ser fundado na ontologia supostamente acabada do ser existente, mas do ser-ainda-não-existente. Essas ideias são cristalinas nas Teses sobre Feuerbach analisadas por Bloch (2005), ao longo de 36 páginas, no livro I de O Princípio Esperança.
É como se o possível e o impossível não representassem quase nada para a filosofia e mesmo a mediação do vindouro fosse quase supérflua. Isso torna direta e transparente a enorme distância entre o ainda-não-consciente e a possibilidade-realização do torná-lo consciente. A visão blochiana, em nada pessimista, não elimina o alvo contemporâneo da utopia: nascer e se realizar pela ação histórica não egoísta, alcançar um futuro em que o homem, ao despertar para o ainda-não-consciente, possa conquistar.