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Um bom conteúdo não se enfraquece ao ser corrigido. Ao passo que os autênticos ruminantes têm diante de si de forma cada vez mais insossa o que certa vez fora um alimento melhor ou ao menos fresco.
Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2006a, p. 448)
Sem apologia da sociedade socialista, Bloch (2006a) enfatiza a esperança na dialética das utopias antigas com a utopia marxista. A dialética é o prólogo e o alicerce do seu sistema filosófico – no passado a revolução burguesa, no futuro a emancipação do homem. A dialética, como definiu Marx (1982, p. 851), derruba as ―figuras autônomas e precipita tudo no oceano da eternidade‖. Esse ìmpeto, para Bloch (2006b), situa-se no confronto entre as possibilidades de transformação e a repetição. Segundo Bloch (2006b), a dialética, no seu intercâmbio com o mundo prático, conciliaria o homem com a categoria da finalidade e orienta na satisfação das necessidades.
Não há concessões ao que Bloch (2006b) define como ―empirismo raso‖ da ―ortodoxia marxista‖, nem à reforma do capitalismo por desconhecer o significado das relações de produção, da propriedade privada, da luta de classe e do processo histórico que modela as diferentes formas de alienação. Também, não há concessões ao ―espìrito humanitário‖, que não passaria de uma versão ―trivializada‖ da solidariedade operária ou uma versão ―kitsch‖ do comunismo, pois a ―humanização‖, por muito tempo, tem sido ―malograda‖ ou ―impedida‖ pela sociedade de classes (BLOCH, 2006b, p. 448).
No final do Livro II, de O Princípio Esperança, Bloch (2006a) revela-se obstinado: não aceita a possibilidade da terceira via para o socialismo, como não entende o socialismo de Estado como socialismo autêntico. Pode acontecer a abolição da propriedade privada e da economia de mercado, mas não haverá o definhar do Estado (BLOCH, 2006a, p. 456). Sem o definhar do Estado, o aparelho de poder continuará a existir. E, o que é pior, a se reproduzir. O Estado é onde reside o poder multiplicador da ideologia da classe dominante. Se o Estado não desaparece, a emancipação humana é adiada.
Ao lado do capitalismo, em Bloch (2006b), contracenam o socialismo de Estado e o capitalismo de Estado. Não têm como objeto a utopia em seu conteúdo. No socialismo de Estado, apenas se sonha com a utopia. Não há movimento para a frente. Grassa a aparência coletivista, mas a economia, governada de cima, apenas pode alegar o crescimento do capitalismo para ―dentro do socialismo‖ (BLOCH, 2006b, p. 452).
No capitalismo de Estado, o que persiste é a dominação autoritária. O que muda do capitalismo de Estado para o socialismo de Estado é a relação com o mercado e a sensação de liberdade. O homem, no socialismo de Estado, não se defronta com as relações de troca, deixando este papel para o Estado. Embora a veia utópica reapareça constantemente no decorrer do processo histórico, não foi por acaso que o socialismo utópico se desintegrou. No capitalismo, as relações de troca são tarefas dos homens de negócios. A utopia é uma miragem.
A filosofia, por meio da práxis, necessitaria romper as cadeias que a ligam à educação burguesa para promover a aliança entre a teoria marxista e o movimento do homem trabalhador. Não poderia existir filosofia revolucionária sem a abolição da pobreza e da cultura capitalista. Foi esse o terreno de possibilidade que Bloch tornou fértil e a ideia da utopia concreta. Exigia prática, não só teoria e propaganda. Sem a práxis, autopia não consegue transpor os limites especulativos.
Bloch (2006a, p. 418), ao tratar da práxis, acolhe o conceito de Marx de que a contemplação não passa de ―radiante repouso‖. Sem a prática, pode existir o conhecimento, mas não a transformação. No entendimento da realidade e da prática transformadora, a palavra-chave é processo. Onde está o ser humano, de acordo com Bloch (2006b), deveria estar a filosofia do processo, não exclusivamente em pensamento, mas como práxis.
Processo, categoria basilar na filosofia blochiana, remete ao ambiente humano mediado pelo homem pretendido – no início, o homem rebelde, aquele que não fundou nenhuma religião e apenas trouxe o fogo para o homem. Trata-se de Prometeu que, na visão de Ésquilo, almejou partilhar com ―os seres humanos todos os bens reservados aos deuses‖ (BLOCH, 2006a, p. 295). E ele simboliza a mistura do socialismo e da rebeldia romântica.
O raiar de uma aurora em que a epistemologia revolucionária é construída no espaço entre o desejável e o possível, entre a utopia e a necessidade objetiva. Em todas as situações, a linha da ética é aquela que determina a vida melhor. ―A âncora que submerge até ao fundo é, ao mesmo tempo, a âncora da esperança‖ (BLOCH, 2005, p. 163). Equivale dizer que o ideal norteador pode submergir, mas volta à superfície, mais revigorado, se o homem possuir alvo e consciência.
Bloch (2005) realça categorias processuais, reflexos gerais, em lugar de categorias de transmissão, simples reflexos do ser, como destaca Kant (2010) na Crítica da Razão Pura quantidade, qualidade, relação, modalidade. São categorias processuais, aquelas reveladoras da objetividade real, da possibilidade do ―ser em utopia‖. Conceitos como ―matéria processual‖, ―processo natural‖ e ―qualidade processual‖ aproximam Bloch (2005) de Schelling (2012) do período romântico, das Eras do Mundo, muito cultivado quando do The Spirit of Utopia (Geist der Utopie) e do interesse pela doutrina schellinguiana das potencialidades (MÜNSTER, 1997, p. 146-7).
O processo é multiforme e se desenvolve por etapas, podendo haver avanços e recuos, concentrados nos movimentos da história. Não no horizonte do passado, como o ―Espìrito Absoluto‖ de Hegel ou a matéria mecânica desde Demócrito, mas no horizonte do futuro. O processo é, assim, o ser em possibilidade, aberto para o novo. O novo, em Bloch e em Marx, está na inversão do papel da filosofia: em lugar da filosofia da sociedade de classes, a filosofia da sociedade sem classes (BLOCH, 2005).
Segundo Marx (1982, p. 843), a filosofia é aquela que procurar desvendar os mistérios por trás do ―mundo visìvel‖: desenvolve-se ao mostrar que o mundo é dividido em partes e encontra a sua totalidade ao revelar o significado dessas partes no seu conjunto. Bloch (2006b, p. 450) retoma essa ideia ao tratar, de maneira recorrente, do tema da ilusão e argumenta que a filosofia, como a ciência, foi enriquecida por coisas ―jamais vistas, jamais pensadas‖, a exemplo do par de conceitos ontológicos ―dynamis-entelequia‖ e matéria-forma, concebidos por Aristóteles. É pelo impulso do novo que a filosofia não se seculariza.
A filosofia, nesse quadro, não é uma especulação individual, é a procura do possível na totalidade do pensamento. É mais do que o amor pelo conhecimento e a sabedoria, mais do que o homem em potência aristotélico. É o homem em movimento, característica imanente do processo social, controlado pelo homem. Eis o objetivo supremo do processo na filosofia blochiana: inaugurar uma nova sociedade.
Não é um modelo moral ou ideal, mas o retrato do amálgama teórico-prático em que acondiciona a utopia concreta. Bloch (2005) discute as características do processo nas Teses sobre Feuerbach (MARX; ENGELS, 2007) e também em O Capital (MARX, 1965), entendendo a filosofia como revolucionária, porque a transformação do mundo concebe o ―desenvolvimento relativamente alto da força de trabalho‖ e a mudança da superestrutura: ―O que se reconhece aqui é que, humanamente, sempre se deve partir da alienação‖ (BLOCH, 2005, p. 256).
Considera que o homem rebelde, revolucionário, não deve estacionar onde estacionaram a filosofia de Feuerbach e o materialismo mecânico: na autoalienação, em relações sociais dilacerantes, no desencanto e na negação da dialética da história. Desfecho pálido, sem força para ir adiante; ensaio que se perde na tentativa de decifração do homem, que, sendo teoricamente não mediada, resume-se na ―coisa para nós‖, não na práxis teoricamente conquistada (BLOCH, 2005, p. 264).
A práxis conquistada é a ontologia do homem criador, do homem sensual, do homem da felicidade, no sentido prometeico, artista-arquiteto-construtor do belo, rival de Deus, mas que se encontra em processo (BLOCH, 2006a, p. 364). Não significa que a noção do pode-ser seja ―apenas lìquida‖, uma ―tolice‖, ―diáfana‖, ―contrassenso‖, não seja uma caracterìstica humana, a exigir abordagem rigorosa no rumo da esperança (BLOCH, 2005, p. 222-3).
A utopia é, na sua forma concreta, a vontade testada rumo ao ser do tudo; nela, atua, portanto, o páthos do ser, que, anteriormente, esteve voltado para uma ordem do mundo, até uma ordem do supramundo, bem-sucedida, supostamente já fundada de modo bem-acabado. Porém, esse páthos age como um páthos do ainda-não-ser e da esperança do summum bonum que está nele (BLOCH, 2005, p. 307).
A forma concreta da utopia procura o pensamento ―lìmpido‖, sem obscuridade, fazendo do invólucro transitório dos acontecimentos o tecido permanente do futuro, sem almejar o sistema perfeito, mas que é a chave transcendente do novum (BLOCH, 2005, p. 293). O homem, para Bloch (2005), é assim: o sol em movimento, sem que esse movimento tenha necessariamente o conteúdo imaginado. Certamente, por causa da inclinação ilusória para dizer ―eu‖ antes de dizer ―nós‖.
Em Bloch (2006b), nada se situa mais próximo do ―nós‖ do que a sociedade sem classes e a libertação do ―legado titânico‖ do mal, que impede o homem de despertar para o coração livre do puro Dioniso, deixar de camuflar o ―temìvel‖ por trás da ―máscara do belo‖, acordar para o problema do ―para-onde‖ caminhar e do ―para-quê‖ existir, fundados na vontade do ―para-diante‖ que retrata, em última análise, uma ―nova Terra‖, um ―utopicamente proposto‖ (BLOCH, 2006b, p. 284-90).
1.6 ―NÓS‖ ANTES DO ―EU‖ E AS RAÍZES DO FUTURO NOVO
O pensamento para frente já há muito está na ordem do dia e pode ser ouvido.
Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2005, p. 246)
Antes, muito antes, de Thomas More, Owen, Fourier e Saint-Simon fazerem os primeiros esboços da futura comunidade socialista, na Antiguidade, podia-se ouvir Aristóteles dizer: ―Amigos têm tudo em comum‖ ou ―os bens dos amigos são comuns‖ (BLOCH, 2006a, p. 44). Considerava que o círculo dos amigos é menor que a menor das polis, mas que vislumbrava, na amizade, o liame da concórdia, dos direitos comuns e do Estado.
A amizade produz, sem coerção, o que a justiça só pode exigir, efetiva aquela concórdia em que não ocorre mais a lesão dos direitos recíprocos, portanto, em que não há mais razão alguma sequer para pensar em justiça. Assim, uma vez mais, como já no caso do princípio do inter amicos omnia
communiaI, a utopia aristotélica da amizade precede a do Estado, a concordância política, um bem indiscutível, que não podia ser apresentada nem pela sociedade dos escravistas, encontrou, na amizade, seu refúgio (BLOCH, 2006b, p. 45).
Embora fosse árduo harmonizar a amizade entre escravocratas, Aristóteles considerava indispensáveis o bem-querer, a concórdia e o bem-fazer. Nas utopias anarquistas e federativas, advêm, por iniciativa do homem, da amizade em pequenas comunidades e seitas, além do princípio da colonização da América do Norte, como gérmen da dissolução da ordem social tradicional. Entre os precursores, Aristóteles, com sua plêiade de amigos, dialoga com gerações de pensadores e profusões de sonhos, os mais díspares e esplendorosos que cresceram através dos séculos.
Havia, naquele tempo, La République de Platão (2007), a primeira grande utopia, e que veio a influenciar Thomas More e Campanella, sendo frequentemente citada nos idos do Renascimento, e As Ilhas do Sol de Jâmbulo, em número de sete, sem escravos, nem senhores. O quadro completa-se com a utopia estoica, que tinha as figuras dos seus realizadores no conquistador Alexandre, e no filósofo Zenão, este com a Politéia, e a concepção da fraternidade universal, sob o império romano (BLOCH, 2006a).
Na ideia de filósofo da Antiguidade, predominava o ideal de vida não violenta, comunal e racional, com o cultivo da interioridade e do senso fraternal. A Bíblia também falava da utopia do reino do amor ao próximo, da ―felicidade e riqueza para todos,
caracterizada como riqueza socialista‖ (BLOCH, 2006a, p. 54). Na economia capitalista, como na escravista, a amizade tornou-se onírica, mas não efetiva. As utopias antigas soavam vazias ou desimportantes, incompletas ou foram transformadas em forças originais para outras utopias.
Bloch (2006a) não se descuida da variedade de utopias, mas não deixa de criticá-las. Faz objeção à Antiguidade pela ambição da ―frugalidade‖, restrita ao desejo de fruição compartilhada da felicidade, da convivência civilizada e da liberdade individual. ―A vida social deve ser tão pouco imperativa quanto perambular pela praça‖ (BLOCH, 2006a, p. 49). Em certa medida, repetia a máxima de Sólon: ―O desejável para nós não é a riqueza, mas a virtude, e somente ela facilita a vida comunitária‖ (BLOCH, 2006a, p. 38).
Os tempos antigos com broa de centeio, leite e beterrabas eram os únicos saudáveis, naturais, e pessoas que aderem abertamente a eles, convivem entre si com a mesma facilidade que os saciados. Entre pessoas sem necessidades também se torna supérfluo quase todo o trabalho, basta bater um pouco de água para que o nadador despido se mantenha na superfície. E uma cidade de tonéis, nos quais vivem as pessoas livres não requer muito esforço para que se mantenha sem inveja. Acima de tudo, a pessoa, nessa frugalidade, dorme sem sobressaltos à noite, anda ereto de dia, porque não se demora na proximidade de acontecimentos sobre os quais não tem poder (BLOCH, 2006a, p. 39).
Em Platão (2007), a utopia considera a particularidade antecipatória dos tempos modernos, a ambição da ordem.42 O Estado, em La République, seria, no olhar de Bloch (2006a), o centro organizador da vida e a encarnação da harmonia política. Seu modelo era o de Esparta e a panaceia da autoridade, com homens austeros e uma casta superior, os filósofos, e um conselho de anciões, a gerúsia, com leis construtivas, mas direcionadas a uma hierarquização do homem.
A sua arquitetura corresponderia a um Estado-policial, ainda na interpretação de Bloch (2006a). Em nome da sensatez e da virtude da obediência, teria se isolado do futuro: La République esquece os desejos profundos, esquece as novas dúvidas, esquece a rebeldia. As
42 Na perspectiva do bem comum, Platão (2007) concebe o rei-filósofo ou o estadista, educado na filosofia, capaz de levar o mundo das ideias para a realidade prática, dedicado a utilizar a inteligência para dar ordem às coisas. Sábio em pensamento e ação, rígido de caráter, flexível na união da vontade enérgica e na moderação, seria como um tecelão: usa o fio rígido e o fio flexível na trama para garantir a felicidade. A educação era o elemento mediador. Tratava-se de uma espécie de comunismo inspirado na simplicidade de hábitos. Emanação de um Estado ideal para tempos de crise, não um Estado absoluto. Como assinala o livro VII de La République (PLATÃO, 2007), o surgimento do Estado perfeito dependeria deque a filosofia descesse à caverna para iluminar os homens. A filosofia, a ciência e a justiça dariam sustentação ao bem, mas este não dispõe de definição precisa, nem em La République, nem em qualquer outra obra escrita de Platão. Em La République, possivelmente, é o ideal de justiça.
atenções voltam-se para uma Constituição perfeita. Pintam-se os sonhos sociais com as tintas da ―abstração e do amor‖, ―nada nela haveria de ser difìcil‖ (BLOCH, 2006a, p. 36).
Com a supressão de qualquer desejo libertacionista, a predominância do Estado, regido pelas leis e a ordem, ditadas por uma estratificação social, continua a negar-se a promover a liberdade. Desse modo, os filhos seguem a profissão dos pais e não há possibilidades de ascensão social. Ignora-se o que Leibniz chamaria de ―possibilités éternelles‖, com os sonhos sociais antecipadores (BLOCH, 2006a, p. 37).
A crítica de Bloch a Platão parece ser de rejeição total, mas não é. Bloch (2006a), ao longo de O Princípio Esperança, cita referências utopizantes, cerca de meia centena de vezes, e outras cinco vezes em The Spirit of Utopia (Geist der Utopie) (2000), colhidas de Platão. Em Sócrates, que fala pela voz de Platão, Bloch encontra o argumento de que o homem é bom e ninguém, voluntariamente, pratica injustiças, mas por causa das circunstâncias. Bloch assinala, explicitamente: Sócrates ―não saberia dizer se a morte é um mal, mas sabia que cometer uma injustiça é um mal‖ e, com isso, liberta o homem da sua origem ―obscura e, muitas vezes, tosca‖ (BLOCH, 2006a, p. 420).
Bloch (2006a, p. 419) recorre ainda a Platão para argumentar: a virtude pode ser ensinada e aprendida como saber do bem. Para Bloch, Sócrates, por meio de Platão, entendeu a vocação histórica do homem: ―ensinar e aprender a virtude‖ (BLOCH, 2006a, p. 421). Ao examinar o pensamento de Platão e os estamentos de La République – produtivo, defensivo e docente, as três castas do Estado platônico –, o que Bloch não encontra sentido é que, a despeito da ausência de conteúdos revolucionários, Platão não tenha cessado de influenciar também as utopias de caráter comunista. Em particular, no Renascimento, quando ele foi considerado precursor do socialismo e na revolta camponesa liderada por Münzer.
Em consequência, reconstruiu-se, no grande idealista, praticamente a ―ideia‖ da utopia social, como sendo sem classes e estamentos. Analisando de perto, alimentava-se, no contexto de Esparta, o sonho desejante de um reino eclesiástico medieval, sim, clerical e militar, em lugar de uma construção socialista. E muito antes de a liberdade encontrar seu romance de Estado, A
República de Platão idealizou utopicamente a ordem. Uma ordem espartana perfeita, com seres humanos como pedestais, muros, janelas, na qual todos possuem apenas a liberdade de ser sustento, proteção e iluminação para o edifício articulado segundo a hierarquia (BLOCH, 2006a, p. 44).
Certamente, Bloch interpretou a utopia de Platão pela dimensão da ordem e da hierarquização dominante em La République e relegou a dimensão dialética do bem comum e da justiça. Mas Bloch não passa por cima da imensa sabedoria platônica, nem se subtrai ao
estudo de La République, porque seria se subtrair à própria filosofia. Critica-a, discute-a no que existe de peculiar, toma posições que destacam a utopia concreta, como negar a hipostasia, o Estado, a preponderância da ciência sobre o indivíduo e concebe o socialismo como processo em que a ordem resulte da liberdade.
É possível que a crítica direta à utopia platônica seja uma forma indireta de criticar o socialismo de Estado soviético por ter sido uma sociedade burocratizada. Dessa perspectiva, pode ser assimilada a aversão à La République, àquela que Bloch considera a ―primeira e célebre utopia‖ (BLOCH, 2006a, p. 34). A utopia platônica, no entender de Bloch, tornou-se o símbolo da imposição da ordem.
Da crítica aos conceitos de Estado, hierarquia e ordem em Platão, Bloch passa à crítica aos estoicos43 e ao reino do amor ao próximo, anunciado na Bíblia. Na utopia estoica, as fragilidades do conceito do vir-a-ser encontram-se no caráter reformista e na concepção fraterna do universo romano. A seguir, vem a utopia do reino de Deus. Nela, na versão conservadora da Igreja, o vir-a-ser foi simbolizado pela De Civitate Dei agostiniana e estava circunscrito ao céu. O Estado terreno pertencia ao mal e como a vida correta estava à deriva, só encontraria recompensa na Cidade de Deus.
O sagrado almejado conviveu com o mal não sagrado. O mesmo Estado a que Agostinho distinguiu é o Estado que ele despreza com a utopia intemporal de A Cidade de Deus. Elevava a Igreja acima do Império, mas se rendia à reverência, acolhendo ―a tensão entre a noite e a luz‖, como limitação polìtica (BLOCH, 2006a, p. 59). Chegava a admitir a escravidão, rejeitada por quase todos os estoicos, na tentativa de conciliar as relações da Igreja com o Estado, embora não deixasse de ser uma utopia da fraternidade, com os homens utopizados como irmãos e a proposta de uma nova Terra regida por Deus.
43 Os estoicos difundiram o igualitarismo ainda no terceiro e no segundo séculos antes da era cristã, com a descrição das sete ilhas da bem-aventurança. Seus habitantes desfrutavam de perfeita saúde, inteligência e força. Viviam até à idade de 150 anos. Criado por Deus, o esplendor do sol era para desfrute por todos os homens que, na Idade de Ouro, viveram em ―estado de igualdade‖ (COHN, 1970, p. 189). A Idade Média assimilou a doutrina do igualitarismo, mas passou a identificar a sua não existência com o pecado original e a corrupção humana. O homem rico deveria usar sua fortuna para restaurar o igualitarismo e a sociedade natural. Criar homens livres e não promover a opressão, a escravidão e a pobreza.
A Civitas Dei era literalmente concebida como um pedaço do céu na Terra, tanto sob o aspecto da felicidade quanto, sobretudo da pureza que, embora não transforme os seres humanos em anjos, faz deles santos, ou seja, segundo a doutrina católica, transforma-os em algo mais. Ao sombrio pessimismo de Agostinho quando contempla a vida do Estado mundano, contrapõe-se uma espécie de otimismo clerical ardoroso, porém abridor de espaços, e também secularizável na época posterior da Civitas Dei, alicerçado sobre a existência de santos e seu crescimento na Igreja. Despir-se das obras do velho Adão, revestir-se de Cristo, em suma, a esperança por renascimento espiritual de um número sempre expressivo de pessoas, tornou-se, assim, a questão política utópica do Estado de Deus de Agostinho (BLOCH, 2006a, p. 62).
No momento em que aborda as utopias de Thomas More e Bacon, a noção da utopia blochiana amplia-se com a preponderância do homem ante os desígnios dos deuses e se multiplica nos efeitos da revolução científica. Em More, as raízes da utopia emergem como