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TRABALHO
A obra dos autênticos sonhadores sociais foi diferente, honesta e grandiosa. Assim precisa ser entendida e guardada no coração, com todas as debilidades de sua abstração e de seu otimismo demasiado expedito, mas também com sua incessante insistência em paz, liberdade, pão. E a história das utopias evidência: o socialismo é tão antigo quanto o Ocidente, sim, bem mais antigo no arquétipo que sempre o acompanha: o período áureo.
Ernst Bloch, O Princípio Esperança (2006a, p. 138)
Owen (1993a, p. 66) acreditava que o homem não era livre porque o meio em que vivia não lhe proporcionava liberdade. Se fosse educado, e essa era a primeira tarefa da sociedade, agiria racionalmente, não praticaria injustiça ou maldade e desenvolveria sua capacidade física e mental a favor da comunidade. O segundo ponto: no livro The Social System (1993b), Owen volta-se da previdência social para o socialismo; em The Book of the New Moral World (1993c), caminha para a solução reformista, mas condena as greves e a luta pelas liberdades políticas.
Não pregava a revolução, mas a conciliação: que os industriais, parlamentares, ministros e governantes renegassem o capitalismo por reconhecimento das suas mazelas e amor humanitário. E que a aristocracia e os governos combatessem as leis que incentivavam a pobreza, a desigualdade e, igualmente, patrocinassem a felicidade da raça humana. As instituições eram responsáveis pela formação do caráter dos homens desde a infância. Definia-se, publicamente, como ―amigo dos pobres e da classe trabalhadora‖ (OWEN, 1993d, p. 187).
A alquimia dos projetos e atitudes fez dele um ―comunista filantrópico‖ e um lìder reformista que procurou organizar a sociedade a partir da distribuição dos lucros, não da produção e da mais-valia (BLOCH, 2006a, p. 112). Pensava organizar a sociedade em cooperativas, sem propriedade privada, mas esbarrou nas limitações das escalas de produção.
Suas referências maiores eram o economista David Ricardo58 e a sua teoria do valor do trabalho, além de Thomas More e a unidade grega entre o poder da mente e o poder do
58 David Ricardo (1772-1823), economista clássico inglês, inspirou-se na doutrina utilitarista, muito apreciada por Owen e, com seu método analítico, lançou as bases da moderna economia. Marx foi largamente influenciado por Ricardo, em particular na teoria do valor. Owen o considerava Ricardo um liberal, de ideias sólidas, com quem manteve múltiplas divergências (OWEN, 1993a, p. 157).
corpo, que nenhum outro povo da Antiguidade logrou conquistar, algo que os romanos, nos dias de glória do regime republicano, tentaram imitar, mas que nenhuma nação moderna jamais alcançou. A degeneração a esse respeito repercutiu na ―imperfeição fìsica de uma porção da população‖ e na ―imperfeição intelectual de outra porção‖, gerando ignorância, doença, miséria e decadência moral (OWEN, 1993c, p. 62). Acreditava superar a imperfeição física, intelectual e moral, removendo as suas causas, com o exercício das faculdades naturais do homem.
O seu objetivo maior era aperfeiçoar o homem, ―soerguê-lo purificado da sujeira das fábricas‖, e construir uma ―nova humanidade‖, tendo como filosofia social a neutralidade ética do trabalhador que seria ―alegre e bom‖ se as condições de produção fossem humanas (BLOCH, 2006a, p. 113). Os paradigmas mais evidentes estavam nas tentativas de construção de grupos federativos de trezentas a duas mil pessoas, que só existiram em New Harmony, no estado norte-americano de Indiana. Fundada em 1824, a colônia instalou-se em regiões desérticas, desfrutando de liberdade total: não havia propriedade individual, nem religião, nem laços legais nas relações sexuais. Embora estivesse partindo do zero para construir as relações de produção, fracassou.
Como também fracassou a condenação de Owen ao matrimônio que, junto com a propriedade privada e a religião positiva, formariam, segundo ele, a ―trindade do mal‖ (BLOCH, 2006a, p. 113). Nada traziam de positivo para o ser humano, a exemplo do matrimônio que representaria, como qualificou, ―a escravidão vitalìcia sexual‖ (BLOCH, 2006a, p. 113). Diferentemente de Bloch, Owen acreditava na reforma do capitalismo e na possibilidade do trabalhador organizar-se independentemente do Estado, comprometido com o capital. O perfil que Bloch (2006a) traça de Owen é de um utopista a-histórico: ele considerava que, se as circunstâncias estivessem em ordem, o homem também estaria em ordem. Recusava-se a enxergar que as estruturas estavam acima das circunstâncias.
Essa era a forma de cura diagnosticada por Owen para a sociedade: pequenos grupos reunidos em unidades federadas, sem divisão do trabalho, sem separação da economia rural e urbana, sem burocracia. Seria o reino pedagógico de uma humanidade futura, contrapondo ―a longa noite imóvel‖ da vida interior ao raiar de um novo dia. Era, como admite Bloch (2006a), uma utopia ingênua, mas já prefigurava o valor do trabalho e a supressão do livre mercado.
Fourier, como Owen, pouco voltado para a defesa dos interesses de classe, revelou-se dialético: na sua utopia, demonstrou não acreditar na mudança do mundo como obra da burguesia, nem pelas conquistas ou pela força. E, embora não tivesse conhecido Hegel e fosse
mais de uma geração anterior a Marx, percebeu que a miséria nascia da abundância, e esta era o ―reverso dialeticamente necessário do esplendor capitalista, instituìda por ele, inseparável dele, crescente com ele‖ (BLOCH, 2006a, p. 114).
A percepção levou Fourier a antever o fim da livre concorrência e a formação de grandes monopólios. As barreiras das guildas estavam ruindo, e Fourier alimentava a esperança de que a organização cooperativista da sociedade pudesse pressionar por estágios posteriores aos monopólios para produção e distribuição de bens. Daí, ter projetado, como Owen, pequenas comunidades, os phalanstères (falanstérios), sem abolição completa da propriedade privada.59 Em lugar de reformar o homem, como pretendia Owen, Fourier aspirava transformar a sociedade para satisfazer as paixões humanas e combater a hipocrisia.
Não concordava com a exploração do homem pelo homem, mas entendia ser necessária a constituição de ―fortunas módicas‖ para a preservação do equilìbrio entre a individualidade e o coletivo (BLOCH, 2006a, p. 115). Do choque entre as comunidades e a propriedade privada, a ilusão burguesa seria expulsa e, gradativamente, haveria transformações reais no mundo.
A utopia de Fourier encarregou-se de antecipar o futuro: o trabalho, não mais do que duas horas, movido pela paixão, a indústria harmonizando o mundo material, o mundo moral- afetivo harmonizando o mundo social e o mundo intelectual harmonizando as leis da ordem universal. ―Sem pobreza e sem aquela subdivisão que seleciona o próprio ser humano‖, a comuna era o retrato da construção da felicidade, ―semelhante à jovem América de Walt Whitman, mas sem capitalismo‖ (BLOCH, 2006a, p. 116).
Na direção oposta do a-histórico Owen e do dialético Fourier, com ambos procurando equilibrar a vida individual com a coletiva, Saint-Simon, com suas construções lógicas e o culto ao industrialismo, com suas jornadas de trabalho reguladas, como as de Campanella e com engenheiros e técnicos controlando o mundo, envolveu-se com a utopia centralista. Era um utopista normativo, também não dialético, que considerava o proletariado de então ―totalmente passivo e não emancipado‖, devendo ser liderado pelos industriais. E, em particular, pelos banqueiros capazes de privar ―reis e parasitas feudais do dinheiro‖, podendo, pela sua capacidade administrativa e pelo papel de representantes centrais da moderna economia, prestar ―auxìlio ao povo‖ na ―comunidade industrial do povo‖ (BLOCH, 2006a, p. 119).
59 ―O falanstério era para Fourier uma verdadeira alucinação. Ele o via por toda parte, na civilização e na natureza‖ (BENJAMIN, 2007, p. 673).
Saint-Simon ―utopizou" o trabalhador, o industrial e o banqueiro: desprovido da consciência de Fourier, não olhou em torno para ver o rastro de miséria deixado, na Europa, pelo capital. Acreditava na Revolução Industrial com a mesma convicção que acreditava no socialismo industrial. Odiava e amava o feudalismo. Seu projeto industrialista era antifeudal, mas sua oposição ao liberalismo era fonte de veneração duradoura à Idade Média e à instauração de uma nova ordem hierárquica que abolisse o caos e a anarquia. Em sua opinião, o homem, para ser feliz, necessitava de ordem social, mais do que qualquer outra coisa, e a prosperidade produzida pela indústria devolveria à humanidade um padrão de ordem só encontrado na Idade Média.
Não tinha em vista um objetivo reacionário, na análise de Bloch (2006a, p. 121), mas ―visava a reprogramar o liberalismo, a fim de alcançar, através dele, o valor humano dos laços sociais‖. Estava convicto de que épocas passadas, no caso a Idade Média, não se restauram, mas que o lugar do feudalismo e o da igreja podiam ser ocupado pela indústria e pela ciência. Pregava o retorno da unidade europeia.
Saint-Simon apenas acreditava que a extorsão total do fraco não era essencial ao ―sistema industrial‖: por isso, sendo abolido o direito de herança e outras formas senhoriais de auferir renda sem trabalhar, as bênçãos do industrialismo poderiam começar de imediato (BLOCH, 2006a, p. 120). Ele dividia a sociedade em dois grandes grupos: os banqueiros e os ociosos. Os banqueiros marchariam unidos pelo trabalho aos industriais, agricultores, cientistas e operários e se distinguiriam daqueles que não trabalham – os militares e o clero – pela capacidade de produção. Sintetizou sua visão de mundo em três obras marcantes: Reorganização da Sociedade Europeia (1814), Sistema Industrial (1821) e O Novo Cristianismo (1825).
As qualidades de Saint-Simon esvaziam-se por ele ser contrário à revolução social e conceber, no Estado industrial, a ―Igreja da inteligência‖, rejuvenescida pelo espìrito do cristianismo (BLOCH, 2006a, p. 120). Dessa forma, tendeu mais para o lado de Campanella do que de More. Arrebatado pelo conceito de ordem, limitou-se a mascarar ou reformar os vícios da sociedade burguesa.
Em Saint-Simon, a revolução seria a revolução na indústria. O vir-a-ser da liberdade foi unicamente social, orientada para o alvo comum da produção, que, acreditava, não viveria crises tìpicas do capitalismo. Admirava a ―capacidade administrativa‖ dos banqueiros, acreditava que o poder da riqueza advinda do trabalho era ―mais progressista que a riqueza do
poder baseado na tradição feudal‖ e entendia que a ―organização‖ dos grandes empreendimentos se revelava mais socialista do que a associação de pequenos produtores. Essa posição, Bloch (2006b, p. 120-1) interpretou como sendo uma crítica a Fourier, além de evidência do ―romantismo liberal‖ saintsimoniano, sem perceber o que essa atitude continha de reacionária. Assim, agia porque visava, por meio do liberalismo, a restaurar os laços sociais.
Saint-Simon acrescentou, na era das fábricas e do romantismo, o papa industrial e determinadas correspondências nos laços sociais que continuariam atuando e que, antes, não existiam: as correspondências entre socialismo e a organização eclesiástica. Independente disso, reina aqui o
páthos da organização social, que ainda significa: uma indústria estatal social, formulada de maneira esplendidamente liberal. A utopia de Saint- Simon está significativamente mais próxima de Campanella que Morus e apresenta todas as vantagens, e também todos os perigos, de uma ideia coletiva, que, na organização centralizada, não vem equipada de elementos federativos e democráticos, sim, que não constrói solidariamente com eles a rigorosidade da própria organização (BLOCH, 2006b, p. 123).
O papa industrial é uma referência direta ao forte centralismo de Saint-Simon. Guiado por um ―sumo sacerdote social‖, a inteligência dos mais capazes, que colocaria o ―páthos da ordem mistificada‖ no lugar da liberdade manchesteriana de empreender (laissez-faire, laissez-aller), e pelo casamento ―altamente paradoxal‖ entre o reacionarismo e o socialismo, a utopia de Saint-Simon submetia a produção a um controle e supervisão únicos, procurando se manter imune aos supostos ―caos e anarquia‖ (BLOCH, 2006a, p. 121).
Nesse passo, o governo e a indústria seriam como uma religião, com seus dogmas, seus mistérios e seus sacerdotes. A prática da exploração, com Saint-Simon, saía da órbita da superestrutura industrial para ter a sua origem no hábito feudal do senhor de explorar o servo. A nova ―igreja industrial‖ não mais permitiria que isso acontecesse. Não foi o que fez o liberalismo, na análise de Bloch: no início, convergiu para o oposto ao feudalismo, mas logo se colocou em seu lugar e adotou meios ―igualmente impiedosos de opressão‖ (BLOCH, 2006a, p. 120).
À linhagem dos utopistas sociais, claramente centralista, Bloch (2006a) adiciona ainda Cabet60 e Louis Blanc. Cabet, com seu ideário de ordem, mas acreditando também na força
60 Cabet era um igualitário, avesso à violência e às revoluções, defensor de um comunismo de inspiração em Cristo. Na sociedade de Cabet, não deveria existir nem propriedade privada, nem sistema monetário. De origem jacobina, converteu-se ao comunismo pela leitura da Utopia de Tomas More. Considerava a democracia burguesa um estágio de transição necessária. Seu livro Viagem a Icária, publicado em 1842, na França, alcançou grande êxito popular. Era inspirado nas sagradas escrituras cristãs. Mehring considera-o a expressão do ―moralismo utopista‖ (MEHRING, 2003, p. 77-85). Viagem a Icária é um romance filosófico
das tensões sociais entre ricos e pobres, e suas Icárias, ―edifìcio unitário altamente industrial, sustentado por uma poderosa nação de trabalhadores‖ (BLOCH, 2006a, p. 116-7). Cabet, em 1840, utilizou a palavra communiste, em oposição às communités partialles.61 No seu programa, enaltecia a indústria e a sua força revolucionária.
Louis Blanc, da escola de Saint-Simon, confiava em poder trocar as instituições capitalistas, inclusive os bancos, por instituições do Estado, instituições socialistas, eliminando a concorrência e fazendo do Estado o senhor da produção. Blanc, jornalista e polìtico, que influenciou Proudhon e Bakunin, autor do aforismo ―De cada um segundo sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades‖ (Organization du Travail, 1839),62
contribuiu para a descoberta da vida operária na França e a organização dos trabalhadores em cooperativas, sindicatos e comitês. Procurava influenciar a alta burguesia na melhoria das condições de trabalho e o operariado na defesa da organização de um sistema parlamentar democrático, por meio do sufrágio universal. Tentava pensar a República o Estado e a interdependência com o trabalho.
Na Revolução de 1848, ano da publicação de O Manifesto Comunista, ano que demarcou a separação histórica entre operários e burgueses, Blanc interrogou a sociedade a respeito do sentido das palavras Liberdade, Igualdade e Fraternidade, herdada da Revolução Francesa, num ambiente em que grassava o desemprego e no qual os direitos do trabalhador precisavam ser reconhecidos e ampliados, o que lhe valeu longo exílio na Inglaterra e
ambientado na imaginária Icária, pais desenvolvido com mais de um milhão de habitantes, organizado em torno de quatro princìpios: ―viver‖, ―trabalhar‖, ―a cada um segundo suas necessidades‖, ―a cada um segundo seus talentos‖. Expressa a convicção de que a futura sociedade socialista não poderá vir pela revolução e, sim, pela vontade da maioria, a exemplo do que aconteceu em Esparta, com Licurgo, 549 anos a.C, quando os ricos abandonaram voluntariamente suas terras, dividindo-as igualmente entre a população. Eram 39.000 cidadãos que possuíam 39.000 porções de terra, sem direito de aliená-las (MEHRING, 2003, p. 470-474). Esse é o ideal que Cabet traz para o século XIX, recorrendo, além das ideias de Louis Blanc, também as teorias de Fourier, Owen e Saint-Simon e a reconstrução do pensamento filosófico, desde Platão. A tese é a mesma de Marx: a propriedade privada é a fonte da desigualdade e precisa ser suprimida para que a humanidade progrida. A diferença está na escolha da via para o socialismo. No final da viagem, a conclusão é que Icaria progride porque é sob todos os aspectos um pais comunista: conta com uma ciência, uma doutrina, uma teoria e um sistema (MEHRING, 2003, p. 556).
61 A invenção da palavra socialismo é atribuída a Pierre Leroux, seguidor de Saint-Simon. Teria sido usada, pela primeira vez, no jornal Le Globe em 1832 e, na mesma década, pelos discípulos de Owen, na Inglaterra. Seus partidários buscaram inspiração, num primeiro momento, em A república de Platão, no comunismo das seitas da Idade Média e nos utopistas do Renascimento, em especial Thomas More e Campanella. A Utopia de More mereceu mais atenção por denunciar os primeiros sintomas da acumulação capitalista e por pregar a abolição da propriedade privada, o significado universal do trabalho, a igualdade de direitos e riqueza, a organização da produção pelo Estado e a erradicação da pobreza e da exploração (KOLAKOWSKI, 1990, p. 187-8). Leroux nasceu em 1797, foi tipógrafo e fundador do jornal Le Globe, porta-voz do sansimonismo (LEROUX, 2009, p. 13).
condenação à deportação. Blanc reagiu negativamente ao O Manifesto Comunista de Marx e Engels.
A revolução da classe operária era estrangeira ao seu pensamento. Como ao sentido da palavra ―organização‖ era estrangeira a planificação da economia. ―Organização‖ era a união dos trabalhadores para pressionar e participar da República. Defendia o socialismo de um Estado servidor.63 Remetia ao impasse ainda presente: reforma ou revolução? Em 1870, se opôs ao levante da Comuna de Paris, mas condenou a violência da repressão e, já de volta, à politica francesa defendeu a anistia dos integrantes do movimento.
Louis Blanc viveu 71 anos. Criticava Saint-Simon, segundo Bloch (2006a) por querer construir um capitalismo de Estado, não um socialismo de Estado. Seu itinerário não passou de um ―mascaramento do capitalismo de Estado como socialismo de Estado‖, porque não se fundamentava na revolução social. Era como o mestre Saint-Simon, um centralista. Como aconteceu com o mestre, sua obra se deteriorou.
2.2 A UTOPIA SOCIAL CONQUISTA O TRABALHADOR: O IGUALITARISMO