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Como em qualquer tempo ou lugar, parte da melhor literatura produzida em Minas Gerais muitas vezes chegou ao leitor, primeiro, nas páginas de revista ou jornais, publicações materialmente precárias e quase sempre efêmeras, antes de ganhar embalagem menos perecível sob a forma de livro. É nelas que, na juventude, muitos bons autores afiam e afinam seus instrumentos.

Humberto Werneck

A RL, além de incentivar os estudantes universitários a escreverem textos de cunho artístico-literário, também serviu de inspiração para alunos de outras universidades brasileiras, ainda que, devido a normas editoriais, não pudessem publicar ali os seus trabalhos. Isso é comprovado mediante notas publicadas pelos editores no fim dos volumes do próprio periódico.

Os anos de 1950 presenciaram a explosão de contistas no cenário da literatura brasileira. Apesar do boom relativo a esse gênero literário, a RL não deixou de prestigiar os textos escritos em verso, publicando, inclusive, mais poemas do que contos. A título de ilustração, na primeira edição da revista foram publicados nove poemas e seis contos e, na segunda edição, foram publicados, no total, oito poemas e sete contos.

No que diz respeito à poesia, na década de 1950 presenciamos a transformação estrutural do poema, transformação percebida por Philadelpho

Menezes como “uma evolução do poema no espaço da página e um introjeção rumo ao epicentro do signo”.131 A tendência poética que emergia na época caracterizava- se como um movimento de vanguarda: “[poesia de vanguarda é] aquela que, experimentando novos procedimentos de composição de poemas, choca-se com o sistema estético vigente enquanto reflexo de uma ordem ideológica mais ampla, e, por isso, propõe, mesmo que subliminarmente, uma transformação desse complexo cultural.”132

Segundo nota publicada na terceira edição da revista, no primeiro número da RL a comissão editorial recebeu, para análise, 164 textos: 146 poemas e 18 contos. Na segunda, um total de 57 contos e 198 poemas. Esses números retratam o sucesso e a ascensão da revista no meio acadêmico em seu primeiro ano de existência. Também com base nesses números, é possível verificar a preferência dos estudantes universitários por textos em verso.

Dentre os poetas que iniciaram sua carreira na RL temos o mineiro de Santo Antônio do Itambé, Adão Ventura, que colaborou, ainda, com Suplemento Literário. Publicou seu primeiro livro em 1970, intitulado Abrir-se um abutre ou mesmo depois de deduzir dele o azul, enquanto fazia o curso de Direito na UFMG. Adão Ventura, posteriormente, publicou mais cinco livros de poemas.

A contribuição da RL para a fortuna crítica de textos poéticos se deve aos ensaios acadêmicos nela publicados sobre poesia ou sobre poetas, brasileiros ou estrangeiros. Logo na primeira edição da revista, foi publicado um ensaio sobre a obra do poeta mineiro Alphonsus de Guimaraens, trabalho acadêmico realizado por

131 MENEZES. Poética e visualidade, p. 69. 132 MENEZES. Poética e visualidade, p. 10.

Eleonora Fernandes Rennó, que recebeu o Prêmio Esso de Literatura, em 1966. A preferência literária dos estudantes pela composição de textos poéticos, conforme verificada anteriormente, não prevaleceu entre os temas abordados nos estudos críticos. Num total de 51 ensaios produzidos com base em pesquisas acadêmicas, apenas 12 foram realizados envolvendo obras de poetas.

Quanto aos poemas publicados na revista, a grande maioria não apresentava estruturas fixas ou rígidas de métrica e rima. Podemos associar esse fato à forte influência exercida, sobretudo, pelo Concretismo, movimento artístico-poético que surgiu, no Brasil, nos anos de 1950. A RL, ao lado de outros periódicos da época, incentivou e revelou uma geração vanguardista de artistas, repletos de novas propostas estilísticas de composição narrativa e poética.

Criada a partir da poesia de Mallarmé, com base na ideia de que a forma estética poética, por si só, carrega consigo uma significação, observa-se, na poesia visual, a substituição da ordem sintática discursiva por uma condensação paratática prenunciadora da nova realidade rítmica, espaço-temporal, onde o “ritmo tradicional, linear, é destruído”.133

FIGURA 13 Oswaldo Augusto Palhares Teixeira. Sol – pó ente, 1996.

FIGURA 19 Maria Consuelo Porto Gontijo. A coruja, 1977.

A poesia visual, tendência em emergência naquele contexto, impulsionada pelo movimento do Concretismo, surgiu nos anos de 1950 com os poetas Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, momento em que passou a ser largamente difundida principalmente em periódicos de arte e de literatura:

Mas se a dificuldade de circulação estava vinculada à novidade da abundância gráfico-visual nos poemas, com o passar do tempo a própria função dessas revistas, enquanto divulgadoras de uma poesia experimental, foi se esvaindo, pois que os experimentadores pareciam ter chegado à conclusão de que a inovação poética estava então no último grito da música popular: retomou-se a verbalidade discursiva e o poema versejado (que na música popular

assumem outros valores ao se imbricar com a melodia, os arranjos, os ritmos), abandonando-se a trilha da visualidade.134

No que diz respeito à temática proposta pela revista, por imposições regulamentares da comissão editorial, era vedado aos textos que nela circulariam veicular ideologias de cunho partidário, abordar fatos, acontecimentos ou questões relacionadas à política. Entretanto, acredita-se que, pela situação política da época (ditadura militar, censura, etc.), os textos premiados pela comissão editorial e selecionados para publicação estavam carregados de mensagens de cunho ideológico, que se apresentavam de forma implícita, subentendida. A fim de verificar essa ocorrência, foram selecionados e analisados, na próxima seção desta pesquisa, três contos publicados na RL.

Por fim, constatou-se que o periódico contribuiu, artisticamente, de maneira peculiar, para o debate do contexto histórico-político da época. Essa contribuição social é, portanto, uma função importante que a revista desempenhou e desempenha ainda hoje, apesar de seu esquecimento. Também se deve a essa função social, aliada a sua contribuição cultural, que a RL ocupa papel de destaque na história da Universidade Federal de Minas Gerais e no cenário das literaturas mineira e brasileira.