A análise de correspondência canônica (CCA), Tabela 8, entre os valores de abundância das espécies e as variáveis ambientais mais importantes gerou autovalores baixos para os dois primeiros eixos de ordenação (< 0,5), indicando que a maioria das espécies está distribuída por todo o gradiente (TER BRAAK, 1995). O teste de permutação de Monte Carlo corroborou com esse resultado, pois demonstrou valores não significativos tanto para os autovalores dos eixos sumarizados (p = 0,096), quanto para a correlação das matrizes de variáveis ambientais e abundância das espécies (p = 0,181). Assumimos, portanto a hipótese inicial, que não existe relação linear entre as matrizes. De fato a porcentagem da variação dos dados explicada pelos dois eixos foi baixa (55%), sendo que valores baixos são comuns em dados de vegetação (TER BRAAK, 1988). Esses resultados indicam que a abundância das espécies não apresenta uma nítida relação com as variáveis ambientais coletadas.
Tabela 8 - Resultados da Análise de Correspondência Canônica (CCA) da abundância das espécies (>9 indivíduos) em 14 parcelas na Floresta Paludosa de Bauru/SP em 2006
Eixo 1 Eixo 2
Autovalores 0,185 0,082
Variância dos dados de espécie (%):
(%) variância explicada 38,2 17
(%) cumulativa variância explicada 38,2 55,2 Significância para o teste de Monte Carlo¹:
para os autovalores² 0,096
para as correlações espécie-ambiente³ 0,18
¹ O teste de Monte Carlo foi aplicado somente ao Eixo 1, pois os eixos subsequentes são dependentes do primeiro.
² Proporção de análises aleatórias com autovalores > autovalores observados. ³ Proporção de análises aleatórias com correlação espécies-ambiente > à observada.
As correlações de Sperman entre a ocorrência das espécies com maior abundância nas parcelas, o número de indivíduos por hectare, a média de altura e a área basal desses indivíduos, e as variáveis de macronutrientes do solo e nível do lençol freático foram apresentadas na Tabela 9, onde estão apresentados os coeficientes de correlação das variáveis estatisticamente significativas.
Para essa correlação algumas variáveis ambientais apresentaram correlações tanto negativas quanto positivas com as 10 espécies analisadas. As variáveis
correlacionadas foram: PH, Matéria Orgânica (MO), Acidez potencial (H+AL), Altura do Lençol Freático (Alt Len), Potássio (K) e CTC = capacidade de troca catiônica nas duas profundidades: de 0-20cm e de 20-40cm.
Desta forma Tapirira guianensis pode ser associada a sítios mais encharcados enquanto Xylopia emarginata mostrou-se relacionada com sítios mais secos nesta formação estudada. Resultados contrários a esse foram descritos em outros trabalhos onde T. guianensis foi associada a solos mais bem drenados e X. emarginada a solos menos drenados (TEIXEIRA; ASSIS, 2009; TEIXERIA; RODRIGUES, 2006), mais uma evidência da pouca variação ambiental a que está submetida a floresta de Bauru. Diferente do que descreveram alguns autores para florestas tropicais com diferenças no gradiente de umidade estudado (VAN DEN BERG; OLIVIERA FILHO, 1999; OLIVEIRA FILHO et al., 1994, 1997; SCHIAVINI, 1997), nesta Floresta Paludosa, o regime de água no solo não é o principal fator associado a distribuição das espécies arbóreas na área, pois não foi encontrada uma forte correlação entre as espécies e a saturação hídrica do solo. Neste caso, as espécies que ocupam esta Floresta Paludosa são tolerantes e adaptadas as variações de fertilidade e encharcamento, e não se mostraram mais adaptadas a uma ou outra variação estudada.
De maneira geral, a maior fertilidade do solo representada pelas concentrações de matéria orgânica, soma de bases, capacidade de troca catiônica não foram representativas para a densidade e desenvolvimento em altura e área basal das principais espécies. Calophyllum brasiliense mostrou significativa relação com acidez potencial representada por altas concentrações de hidrogênio mais alumínio no solo.
Teixeira et al. (2008) analisaram a ocorrência de espécies em diferentes gradientes de encharcamento do solo em uma Floresta Paludosa em Rio Claro/SP. Neste trabalho foram encontradas diferenças significativas na ocorrência de espécies associadas a solos permanentemente encharcados, solos bem drenados, com encharcamento apenas na estação chuvosa e espécies que ocorrem em todo o gradiente. Neste estudo Calophyllum brasiliense, Magnolia ovata e Dendropanax
cuneatus, também presentes na FPUBA, foram espécies encontradas em abundância
em toda floresta independente do gradiente. Cedrela odorata que na floresta de Rio Claro foi associada a solos poucos drenados e ácidos, na floresta de Bauru não teve
essa relação, mas mostrou correlação negativa de área basal em solos pouco drenados.
A heterogeneidade na estrutura e composição florística de Florestas Paludosas pode variar em poucas centenas de metros e está associada principalmente a fatores do substrato (TEIXEIRA; ASSIS, 2007), no caso da FPUBA não foi evidente. Isso se deve ao pequeno tamanho do fragmento (2,3ha) e a pouca variação do substrato. A variação na altura do lençol freático e a na fertilidade do solo nas 27 parcelas amostradas não foram suficientes para alterar de forma significativa a ocorrência das espécies.
Souza et al. (2003), e Kent e Coker (1992) já alertaram para a dificuldade em definir interações de espécies com interações ambientais. Essas podem ser informações pontuais e meramente exploratórias, podendo apenas direcionar outros estudos, mas não são conclusivas.
Tabela 9 - Coeficientes de correlação de Spearman com sua significância e as seis variáveis de macronutrientes de solo usadas para as espécies mais abundantes da FPUBA. As variáveis de macronutentes de solo não acompanhadas de número foram amostradas na profundidade de 0a20cm e as variáveis acompanhadas do número 2, foram amostradas na segunda profundidade, de 20 a 40 cm. CBRA = Calophyllum brasiliense; CPAC = Cecropia pachystachya; CODO = Cedrela odorata; DCUN = Dendropanax cuneatus; MOVA = Magnolia ovata; PSPR = Protium spruceanum; RGAR = Rapania gardneriana; SPOH = Styrax pohlii; TGUI = Tapirira guianensis; XEMA = Xylopia emarginata. M-alt = Média de altura; AB-ha = Área basal por hectare; N-ha = número de indivíduos por hectare
Espécie Variável PH PH2 MO MO2 H+AL H+AL2 Alt Len k k2 CTC CTC2
CBRA M-alt -0,63* - - - - AB-ha - - - - 0,56* 0,56* - - - - - N-há - - - - 0,56* 0,53* - - - - - CPAC M-alt - - -0,93** -0,84* - - - - -0,84* - - AB-ha - - - -0,82* - - - - -0,82* - -0,88* N-há - - - -0,87* - 0,87* - - - CODO M-alt - - - - AB-ha - - - -0,52* - - - - N-ha - - - - DCUN M-alt - - -0,63* - - - - -0,64* - - - AB-ha 0,67* - - - -0,49* - - - - N-ha - - - - MOVA M-alt - - - - AB-ha - - - - -0,59* - - - - -0,74** - N-ha - - - -0,68** - PSPR M-alt - -0,64* - - - - AB-ha - 0,75* - - - - N-ha - 0,77** - - - -0,71* - - - - - RGAR M-alt - - - - AB-ha - - - 0,88* - N-ha - - - - SPOH M-alt - - - - AB-ha - - - - N-ha - - - - TGUI M-alt - - - - AB-ha - - - 0,79** - - 0,64** - 0,64* - - N-ha - - - 0,49* - - - - XEMA M-alt - - - - AB-ha - - - -0,45* - - - - N-ha - - -0,62* - - - -0,44* -0,64* - - - *, P < 0,05; **, P < 0,01; -, não significativo.