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O desenvolvimento de uma sociedade global e informacional implicou modificações profundas nas culturas e nas identidades locais, visto que colocou as pessoas em interação em todo o mundo, impulsionando mudanças em suas maneiras de ser, de pensar e de sentir. Entre as ocorrências do plano socioeconômico e político que repercutem no plano cultural, podemos destacar as inúmeras interconexões pessoais possibilitadas pelos avanços tecnológicos; o declínio da autonomia econômica do Estado-nação8; o movimento de integração dos Estados – regionalização – a fim de preservar seus interesses; as transformações ocorridas na esfera do trabalho que criaram tanto o executivo, que atua em diferentes países quanto um exército de força de trabalho barata, que migra, à procura de emprego, para diferentes partes do mundo.

Sendo assim, a formação da sociedade global e informacional tem possibilitado não só uma maior interpenetração entre pessoas e culturas como também a formação de uma cultura global. Featherstone (1999) considera que não é possível estabelecer um conceito de cultura global, no que se refere à homogeneidade e à integração que a cultura supostamente proporciona aos indivíduos, mas é possível utilizar esse conceito no sentido de um processo de integração e de desintegração que vem ocorrendo em nível transnacional.

Para o autor, os processos culturais trans-sociais assumem variadas formas que “[...] sustentam a permuta e o fluxo de mercadorias, de pessoas, de informações, conhecimentos e imagens que dão origem aos processos de comunicação que adquirem uma certa autonomia a nível global” (FEATHERSTONE, 1999, p. 7). Ainda na concepção desse autor, essa interação pode originar sistemas culturais que não devem ser interpretados como resultantes do

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Conforme Afonso (2001), o projeto de modernidade capitalista consolidou-se em torno do Estado-nação como um projeto de sociedade constituído a partir do desenvolvimento econômico e social representado pela revolução industrial e um projeto político-cultural inspirado no racionalismo humanista burguês das revoluções americana e francesa. Incorpora-se à organização política do Estado o conceito de nação para reforçar a idéia de unidade de território, etnia, governo e identidade nacional.

enfraquecimento da soberania dos estados nacionais; tampouco como sistemas que seriam absorvidos em unidades maiores para, futuramente, constituírem um estado mundial capaz de produzir homogeneidade e integração cultural.

Nesse sentido, a cultura que se desenvolve nacionalmente é diferente daquela que se universaliza. Para Smith (1999, p. 190-191), as culturas nacionais são “[...] particulares, ligadas ao tempo e expressivas [...]”, possuem fortes conotações emocionais para os que dela compartilham, são historicamente específicas, limitadas e expressam uma identidade que une os indivíduos em um sentimento de unidade, singularidade, pertencimento e confiança9. Ainda conforme o autor, a cultura global, ao contrário, são culturas de Estado, cuja base técnica e elitista não apresenta referência às tradições dos povos. É uma cultura que não possui vínculo com nenhum lugar ou tempo, sendo uma mistura de componentes trazidos de diversos lugares, veiculados pelos sistemas de comunicação global, sendo, portanto, artificial, técnica, atemporal, neutra afetivamente e, por isso, não responde às necessidades dos povos de uma determinada época ou lugar.

Ao contrário dessas formas culturais, as culturas locais são continuamente reforçadas pela existência de objetos, animais, acontecimentos, pessoas e instituições que têm força simbólica e que celebram a unidade dos que compartilham um passado, relembrando, reiteradamente, a história construída em comum. Por isso, elas não podem desaparecer cedendo espaço para a cultura global. Contudo, não se pode negar que estão ocorrendo mudanças nos modos de vida locais, movidas por imagens e concepções suscitadas globalmente.

Além disso, uma vez que na sociedade global e informacional diferentes culturas se inter-relacionam, ocorre entre as pessoas o confronto, a aceitação, a necessidade da afirmação de crenças particulares, a preservação dessas e a dominação de outras, o que implica processos de dissolução, afirmação e hibridização cultural em longo prazo. Sabemos que a história humana é repleta de exemplos de marginalização, de escravização e de discriminação de grupos e de pessoas que adotam formas diferentes de ver e de sentir o mundo.

O desenvolvimento de uma cultura global pode representar formas de dominação entre os povos em amplitude mundial. A despeito de os meios de comunicação possibilitarem o acesso às informações provenientes das mais distantes regiões do planeta, nem todas as pessoas usufruem dos benefícios de uma formação global; ao lado do homem universal,

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Segundo Smith (1999), os sentimentos e os valores compartilhados por um povo referem-se: 1) ao sentido de continuidade, visto que as experiências do grupo são passadas às novas gerações; 2) a memórias compartilhadas acerca de eventos e de personagens que fizeram parte da história do povo; e 3) ao senso de destino comum que une as pessoas do grupo no qual compartilham experiências.

existem muitos excluídos das vantagens da sociedade global e informacional. Não só o acesso à informação não está igualmente disponível a todos os grupos ou classes sociais como nem todos são capazes de produzir e de veicular mensagens mundialmente. Portanto, a cultura global não é a expressão da igualdade, mas de concepções de minorias privilegiadas.

Pela via da globalização econômica são difundidas imagens e culturas de Estado que visam modificar as culturas locais conforme as necessidades do processo de reestruturação do capital. O atual processo de globalização representa, conforme Jameson (2001), uma nova fase de imperialismo10, cuja principal política é a propagação do mercado livre por todo o globo, que representa uma forma de dominação cultural e econômica que os países desenvolvidos impõem aos demais. Entendemos que estes países forçam a abertura das fronteiras econômicas dos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, tendo em vista não somente a acumulação de capital mas também a alteração dos modos de vida dos povos e nações para atender aos propósitos de acumulação. O desenvolvimento das tecnologias de comunicação e de informação bem como a globalização dos mercados econômicos não apenas propiciam a difusão de imagens, de informações e de diferentes formas culturais em todo o mundo como também possibilitam a construção de novas formas de pressão econômica.

Interferindo nessa discussão, Jameson (2001) afirma que o processo de globalização econômica e a expansão do poder norte-americano subordinam os Estados-nação. Esses, além de perderem a autonomia econômica, perdem também a autonomia cultural, uma vez que países como os Estados Unidos pretendem que seus interesses sejam considerados como universais. O modo de vida norte-americano vem sendo largamente difundido em todo o mundo graças aos avanços na área das telecomunicações e ao processo de globalização da economia, que respondem pela propagação do consumismo característico dessa cultura.

Jameson (2001) também esclarece que da mesma forma que existe um movimento do econômico para o cultural, o movimento da cultura para a economia não é menos significativo. Após a Segunda Grande Guerra Mundial, os Estados Unidos esforçaram-se para dominar o mercado estrangeiro da indústria de entretenimento, utilizando-se da via política e de pacotes de ajuda econômica, derrotando as políticas protecionistas locais. Acordos da

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Segundo Jameson (2001), o imperialismo pode ser definido como as formas que alguns países utilizam para pressionar economicamente outras nações a assumirem determinadas posições. Esses modos de influência e de poder foram se modificando conforme o período histórico e assumem novos contornos na atualidade. Antes da Primeira Grande Guerra Mundial, o imperialismo tinha uma forma colonialista e era exercido por algumas nações européias, pelos Estados Unidos e pelo Japão. Após a Segunda Guerra, com a descolonização, torna-se mais sutil visto que os Estados Unidos da América e alguns países da Europa Ocidental passaram a se utilizar de pressões econômicas e de chantagens para obter benefícios.

OMC e do NAFTA11, tendo em vista a expansão econômica, procuraram abrir as fronteiras de outros países para o cinema, a televisão e a música americana, o que resultou em crise da indústria cultural nesses países (JAMESON, 2001). Da mesma forma, a OMC vem atuando, com o apoio de instâncias multilaterais de poder, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, no sentido de ampliar a ação do mercado econômico, inclusive inserindo nas relações de mercado áreas que anteriormente não estavam sujeitas ou tinham pouca penetração da racionalidade econômica, como é o caso da educação.

Por todo o mundo, são divulgadas imagens globais, segundo as quais o econômico e o cultural se entrelaçam para reforçar interesses políticos, divulgar modos de vida e valores próprios de grupos hegemônicos, além de estabelecer relações entre o que é valorizado localmente e o que se espera vender. O imperialismo econômico-cultural, exercido por algumas nações desenvolvidas, faz com que as mais pobres se integrem ao contexto de concorrência mundial no mercado em condições desiguais, que abram as suas fronteiras econômicas para a atuação de empresas transnacionais e implementem uma série de políticas para adequá-las à concorrência mundial.

Nesse contexto, as imagens veiculadas mundialmente associam o Estado à ineficiência e, ao mesmo tempo, ressaltam a eficácia e a eficiência dos setores empresariais que devem ser tomados como parâmetro de ação nos setores públicos. Assim, procura-se legitimar a redefinição do papel do Estado, sob a orientação do ideário neoliberal, como regulador das políticas transnacionais na esfera local, e a ampliação das forças de mercado.

Nesse embate de forças mundiais, a educação é considerada um instrumento capaz de preparar a força de trabalho para sua inserção no mercado global e impulsionar o desenvolvimento dos países. Para tanto, devem ser aceitas as propostas de instituições multilaterais de poder que indicam os caminhos para o desenvolvimento. Dessa forma, o imperialismo do mercado global procura modificar as práticas educativas e as culturas locais realizando reformas nos sistemas educativos. Além de ser uma área importante para a exploração do capital, a educação ainda desempenha a função de socialização de valores e de representações que os donos do poder consideram importantes para a formação da classe trabalhadora.

Por meio de comunicações globais e da ação educativa, difundem-se discursos e sentidos que se constituem em condição de funcionamento da economia. Tendo em vista o fato de que, na sociedade global e informacional, a dimensão cultural assume grande

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importância, os processos econômicos característicos dessa sociedade dependem da constituição de significados em comum. Nesse sentido, analisa Hall (2006, p. 17, grifo do autor) que o

[...] ‘econômico’, por assim dizer, não poderia funcionar nem teria efeitos reais sem a ‘cultura’ ou fora dos significados e dos discursos. A cultura é, portanto, nestes exemplos, uma parte constitutiva do ‘político’ e do ‘econômico’, da mesma forma que o ‘político’ e o ‘econômico’ são, por sua vez, parte constitutiva da cultura e a ela impõem limites. Eles se constituem mutuamente – o que é outra maneira de dizer que se articulam um ao outro.

Assim, ambas as dimensões (econômicas e culturais) se entrelaçam para reforçar os interesses político-econômicos, atribuindo maior força a esses quanto mais os significados que lhes dão sustentação forem absorvidos pelos sujeitos. Em função disso, organizações transnacionais de poder orientam reformas educativas em diversos países, em especial na América Latina, com o objetivo de socializar sentidos que reforçam os interesses de grupos hegemônicos das sociedades capitalistas.

Assim, pois, no âmbito da sociedade global e informacional desenvolve-se uma cultura com características diversas das nacionais. A cultura global constitui-se em culturas de Estado, considerando-se que os grupos hegemônicos da sociedade global e informacional difundem imagens, valores e modos de vida que atendem aos atuais interesses do sistema capitalista. Apesar de existir um imperialismo econômico-cultural, localmente, as pessoas compartilham uma história, sentimentos e significados comuns e, portanto, não modificam as suas concepções ao sabor dos grupos hegemônicos. As mudanças que estão ocorrendo nas culturas locais são marcadas por conflitos, permanências, rejeições e hibridizações de diversas formas.