• Sonuç bulunamadı

Se a natureza não lhe satisfazia, que fosse domesticada; se a história não amparava seus desejos, que fosse negada; se as culturas não se espelhassem no modelo dominante, que fossem educadas” e substituídas. Com o passar dos anos, o homem aprendeu, a duras penas, que sua ação sobre o mundo e as coisas tinham seus limites éticos e até mesmo de sobrevivência. Ao mesmo tempo, ele recuperou o sabor pela terra, pela diversidade e pelo legado de tantas gerações. Aprendeu que a natureza não era fonte inesgotável de energia, que a injustiça social ameaçava os próprios grupos dominantes que se julgavam intangíveis, que a memória era importante na construção de sua própria identidade (...). Aprendeu que sua manipulação sobre as coisas do mundo tem seus limites e que seus filhos têm o direito de receber um planeta e uma história ainda vivos e ainda saudáveis. (CARSALADE, 2009, p. 237). Um estudo desenvolvido em 1968, divulgado como o Relatório do Clube de Roma, caracteriza a primeira versão do conceito de desenvolvimento sustentável como uma “necessidade de consenso internacional para mudanças nos moldes produtivos” (MAGNOLI, 2006, p. 34). Segundo Magnoli (2006), pela primeira vez, o puro crescimento econômico dos “anos dourados” fora desmistificado e cinco grandes tendências passaram a conformar o novo modelo mundial: “industrialização acelerada, rápida expansão demográfica, desnutrição generalizada, esgotamento dos recursos naturais não renováveis e a degradação ambiental” (MAGNOLI, 2006, p. 34). Para o autor, a perspectiva teórica e metodológica da ecologia evoluiu da temática proteção da natureza para o meio ambiente que, ao final do século XX, já abrangia um campo de ação econômica, política e social.

A questão do meio ambiente adquire consistência e atingiu uma dimensão internacional nos últimos 30 anos do século XX. Nesse período, estabelecem-se nos EUA e no Canadá as primeiras formas de avaliação ambiental de empreendimentos, e são criados organismos controladores dos impactos ambientais. Kahtouni (2006) relata que, em 1969, é implantado nos EUA o National Environmental Policy Act (NEPA), um sistema de estudo de impacto ambiental para empreendimentos, que passa a vigorar em 1970. Segundo Tommasi (1994), a Alemanha adota o sistema em 1971, seguida pelo Canadá, em 1973, a França e a Irlanda, em 1976 e, por último, a Holanda em 1981. Em meados da década de 1980, diversos países, incluindo o Brasil, adotam legislações de controle ambiental e, como descrito anteriormente,

passam a exigir licença prévia de estudo de impacto ambiental para o licenciamento de empreendimentos que pudessem causar algum dano ao ambiente.

Em 1987, publica-se o Relatório Brundtland no documento “Nosso futuro comum”, que serve de base para a Conferência sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, realizada em 1992, no Rio de Janeiro (ECO 92). Na ocasião, o desenvolvimento foi definido como algo que “satisfaz as necessidades do presente sem comprometer a capacidade das futuras gerações poderem satisfazer suas próprias necessidades”. (MAGNOLI, 2006, p. 53). Porém, salienta-se que “hoje precisamos de uma nova era de crescimento econômico, um crescimento vigoroso e, ao mesmo tempo, social e ambientalmente sustentável.” (MAGNOLI, 2006, p. 53).

A Declaração de Joanesburgo, datada de 2002, não apresenta um cenário muito otimista em relação aos danos ambientais, mas reafirma com veemência o anseio por um mundo mais sustentável. Apesar de toda a evolução humana e de todas as inovações tecnológicas criadas pelo homem, nada é capaz de suprir a dependência que temos em relação à natureza, que permanece a base insubstituível da vida. A relação do homem contemporâneo com o mundo natural é bastante contraditória. Por um lado, o desenvolvimento da ciência e do conhecimento técnico possibilitou diversas formas de conforto e de bem-estar à sociedade. Por outro, resultou em uma impiedosa exploração do meio ambiente onde o homem vive.

Em linhas gerais, o objetivo da sustentabilidade é manter as responsabilidades frente à preservação do patrimônio em conjunto com a hegemonia do mercado e da economia, sem deixar de lado o mais importante que é a questão social. O uso correto do território, a gestão das paisagens e a participação da sociedade são de extrema importância para se assegurar o desenvolvimento sustentável. O mundo é dinâmico e temos que aprender a realizar as transformações de forma respeitosa e harmônica. Carsalade (2009) aponta que a conciliação das novas demandas com a história e a natureza é o grande desafio da contemporaneidade.

Para ele, há um limite até o qual o meio físico é capaz de resistir aos impactos das transformações, sem contudo, esgarçar sua tessitura social, deteriorar seu corpo físico, matar sua história ou aniquilar seu legado da natureza. Todas essas questões devem ser levadas em consideração antes de licenciar uma atividade extrativa. Isso não quer dizer que a extração de recursos deve ser diminuída ou reduzida em função de sua degradação. Todavia, se a exploração ultrapassar os limites conformadores da paisagem cultural e desrespeitar seus

valores culturais intrínsecos que se relacionam com a sociedade, ela deve ser bem planejada ou até mesmo repensada. Carsalade (2009) ressalta a importância desses valores ao refletir que a cidade se comporta como um corpo vivo em que “seus conjuntos históricos, seus monumentos, não apenas qualificam e diferenciam o ‘continuum’ urbano, como garantem à população o senso de cidadania e continuidade histórica. Se destruídos, empobrecem a cidade e se desvanecem os laços da comunidade” (CARSALADE, 2009, p. 239). Constata-se aí a importância do patrimônio e a função social da cultura, responsável pela identidade, singularidade e pela qualidade de vida.

Felizmente, a visão depredatória da natureza tem se modificado bastante, apesar de ainda haver um longo caminho a ser trilhado. A sociedade atual tem se mostrado preocupada com o meio ambiente, com o desenvolvimento sustentável e vem abrindo os olhos para as questões de memória e de identidade cultural que o patrimônio cultural traz. O licenciamento ambiental foi um importante passo tomado em direção à sustentabilidade, mas ainda requer aprimoramento e uma fiscalização mais eficaz. Viana (2007) salienta que esse modelo tem por foco empreendimentos individuais, privados ou públicos, de certo porte, o que desfavorece as pequenas empresas. Portanto, ele deve ser pensado caso a caso, como um instrumento de melhoria ambiental. O autor aponta que a inclusão do PRAD no EIA/RIMA constitui apenas uma sobrecarga burocrática, uma vez que o PRAD é tecnicamente falho e em geral não é analisado pelo órgão ambiental. Ele se limita, na maioria das vezes, a reconfigurações topográficas e revegetação da área degradada.

As empresas que possuem compromisso ambiental melhoram sua reputação e são bem vistas pelos acionistas e stakeholders. Iniciativas internacionais vêm procurando estabelecer indicadores para uma política de sustentabilidade bem definida pelas grandes mineradoras. A

Global Reporting Initiative (GRI), fundada em 2004, elaborou diretrizes para a produção de

relatórios de sustentabilidade claros e responsáveis que ajudam a melhorar inclusive a gestão das empresas. Os documentos gerados abordam questões como controle, gestão de rejeitos, uso e manejo do solo, direitos indígenas, ciclo de vida dos projetos e políticas de reassentamento de comunidades e planejamento para o encerramento de atividades nas minas (GRI, 2011). As propostas de uso de indicadores, principalmente aqueles relacionados ao fechamento de mina, ainda se encontram em estágio embrionário.