1.3. Mebsut’ta Rıza İlkesinin Uygulama Örnekleri
1.3.2. Mallar Üzerindeki Tasarruflarda Rıza İlkesi
A argumentação e a demonstração, na teoria de Perelman e Tyteca (2005), são postas lado a lado e confrontadas. A finalidade da demonstração é que se prove a verdade de uma tese baseando-se nas premissas. Já a argumentação tem seu fim relacionado à adesão obtida por um interlocutor ou auditório a partir da persuasão ou convencimento.
Para os autores do tratado, a argumentação se desenvolve de acordo com o auditório ao qual é dirigido e ao qual o orador, que é quem apresenta uma argumentação, deve se adaptar. Assim, o orador expressa sua argumentação, oral ou escrita, e o auditório, por sua vez, corresponde aos ouvintes ou leitores. O auditório varia conforme a situação que ele participa, sendo que a idade, o sexo, a competência, etc., influenciam na maneira que os ouvintes ou leitores chegam a uma conclusão ou constroem uma determinada opinião. É com base nessas diversidades de crenças e culturas dos auditórios que Perelman ressalta que:
Toda argumentação visa, de fato, a uma mudança na cabeça dos ouvintes, trate-se de modificar as próprias teses às quais aderem ou simplesmente a intensidade dessa adesão, medida pelas consequências posteriores que ela tende a produzir na ação. A perspectiva da argumentação não permite, como a da demonstração, separar inteiramente o pensamento da ação, e compreende-se que o exercício da
argumentação seja, ora favorecido, ora impedido, e amiúde regulamentado por aqueles que na sociedade detêm o poder ou a autoridade. (PERELMAN, 1997, p. 304)
A distinção entre argumentação e demonstração estabelecida por Perelman (1997) gira em torno do tempo, uma vez que na argumentação o tempo é fundamental, e o mesmo não se pode dizer a respeito da demonstração.
Em se tratando da argumentação, Perelman (1997) ressalta seu poder não coercivo. Quer dizer, um ouvinte/leitor tem a opção de aderir ou não a uma determinada tese, já que os efeitos de uma argumentação estão sempre sujeitos à modificação, seja em função do tempo, do comportamento, das crenças, podendo aumentar ou diminuir sua adesão. O que para a demonstração essa liberdade de escolha não faz sentido, uma vez que é definida como uma série de estruturas fixas, imutáveis, sem o poder de ser recusada pelo ouvinte, pois a partir do momento em que se forma uma conclusão, ela é única, sem o poder de mudança. Sendo assim, a verificação para saber se a demonstração alcançou sua meta é desnecessária, haja vista que sua natureza é coerciva.
Em suma, como ressalta Perelman (1997), em certo sentido a memória é o suficiente para provar uma demonstração, já que não há necessidade da repetição, da insistência, da coerção, já no caso da argumentação é preciso reviver uma determinada situação, porque nunca uma argumentação é totalmente suficiente de se declarar adesão a ela, uma vez que a escolha de determinados argumentos podem ser válidos para um certo auditório, mas insuficientes para outros.
Portanto, no que tange à argumentação, um dos fatores determinantes para se conseguir a adesão do auditório em uma determinada situação de comunicação é a escolha certa dos argumentos, uma vez que todo argumento possui, na prática, um determinado tipo de força, ora mais forte ora mais fraca e esses argumentos estão constantemente interagindo entre si, embora em condições imprecisas.
Nesse sentido, o orador escolhe para fomentar seu discurso os argumentos que, para ele, possuem uma força maior. Essa força dos argumentos está vinculada tanto em relação à intensidade de adesão do ouvinte às premissas quanto à relevância dos argumentos utilizados. Entretanto, tanto uma quanto a outra vão depender de uma outra argumentação, que será
construída a fim de derrubar a primeira. Assim, o auditório e o objetivo da argumentação são fatores indispensáveis para medir a força de um argumento. É o que salientam Perelman e Tyteca (2005, p. 525):
Não basta escolher premissas nos quais se apoiar; cumpre prestar atenção, uma vez que a força do argumento se deve em grande parte à sua possível resistência às objeções, a tudo quanto o auditório admite, mesmo ao que não se tem nenhuma intenção de usar, mas que poderia ver opor-se à argumentação.
O mesmo vale para a refutação, cuja escolha é guiada pelo próprio argumento que se combate. Contudo, a objeção continuará no âmbito proposto pelo orador, contrapondo, por exemplo, um lugar de qualidade ou de quantidade, ou ainda, o útil ao de justiça.
Todavia, o contexto tradicional influencia diretamente na força dos argumentos, fazendo com que o orador utilize todo tipo de argumento ao abordar um determinado assunto, porém sua argumentação é limitada, seja em função do hábito, seja em função de uma lei ou de uma técnica própria, o que leva a determinar o que é válido e o que não é no âmbito da argumentação.
Assim, com base na classificação de Perelman e Tyteca (2005), os tipos de argumentos podem se enquadrar em três grupos, como: os quase-lógicos (incompatibilidade, ironia, definição, regra de justiça, ad ignorantiam, entre outros); os que se baseiam na estrutura do real (sucessão, causalidade, pragmático, finalidade, a fortiori, ad hominem, etc.), real entendido aqui como o que o auditório crê, ou seja, o que ele considera como fato, verdade ou presunção; e os que fundamentam a estrutura do real (comparação, ilustração, metáfora, analogia e exemplo).
Para complementar a classificação descrita acima, Emediato (2006), tomando como base Perelman e Tyteca (2005), apresenta os tipos de argumentos em: argumentos empíricos ou fatuais; causalidade (argumentos causais); argumentação pragmática (ad consequentiam); argumentar sobre fatos atestados; os argumentos fundados em uma confrontação; o argumento
ad personam; o argumento de autoridade; a incompatibilidade, a autofagia e a retorsão; os argumentos de identidade; a definição, os argumentos associativos e dissociativos; o dilema: o menor mal é o mal melhor?; o argumento que parte do geral para caracterizar o particular; a
transitividade; o argumento da regra de justiça; o argumento dos inseparáveis: não há A sem B; a argumentação probabilista: sondagens, estatísticas; a identificação manipuladora.
Tendo em vista a força desses argumentos, o orador ou o ouvinte pode utilizá-la de maneira explícita ou implícita, dependendo do que for mais apropriado em cada situação argumentativa. Desse modo, podemos enumerar diversos fatores que podem aumentar ou diminuir essa força.
Em virtude de tornar o argumento mais forte, o orador pode superestimar voluntariamente a força dos argumentos que ele propôs, apresentando, assim, uma conclusão mais certa do que realmente é, fazendo uso de seu prestígio perante o auditório, acrescentando um argumento suplementar. O que é considerado “um estado médio entre a má fé e a temeridade,” segundo Bentham, citado por Perelman e Tyteca (2005, p. 529). Entretanto, o orador que decide por essa atitude, deve, eventualmente, prestar contas.
Outra estratégia utilizada pelo orador para superestimar a força do argumento se dá pela supressão dos acordos particulares sem a adesão explícita por parte do interlocutor, isto é, há uma conclusão sem adesão às premissas que poderia ser contestada. Considerada por Schopenhauer, citado por Perelman e Tyteca (2005, p. 529) como “a forma grosseira de um processo inexorável.”
Por outro lado, técnicas de moderação e atenuação às pretensões da argumentação acabam por favorecer a ponderação e a sinceridade, como, por exemplo, as figuras de insinuação, reticência, litotes, diminuição, eufemismo, etc., interpretadas e expressadas como uma vontade de moderação. Assim como a hipótese e a utopia.
E ainda, além das técnicas de aumentar e atenuar a força dos argumentos, existe a possibilidade também de diminuir, em especial, a força dos argumentos do adversário. Para isso, Perelman e Tyteca (2005) ressaltam que é preciso utilizar estratégias inversas aos processos anteriores, como por exemplo, extrapolar no grau emotivo que não seja compatível com o assunto ou então minimizar o efeito de determinados argumentos, atribuindo fatores inerentes à pessoa do orador e não ao próprio valor do argumento. Ou ainda, a utilização de argumentos previstos, genéricos, banais, já que um tipo de argumento, a partir do momento que o adversário o enuncia, impede a diminuição da confiança que se tem no orador, perdendo,
assim, seu poder de crítica e contribuindo para sua desvalorização. Por esse viés, portanto, os autores chegam à conclusão que:
Toda refutação – seja ela de uma tese aceita, de um argumento do adversário, de um argumento não expresso, de uma objeção e um argumento – implica a atribuição, ao que é refutado, de certa força que convenha à aplicação útil de nosso esforço: consideraremos o que combatemos elevado o bastante para tornar a refutação importante, digna de ser levada em consideração, e isso não só com um objetivo de prestígio, mas também a fim de atrair melhor a atenção do auditório, de assegurar aos argumentos empregados uma certa força para o futuro; e o consideraremos baixo o bastante para tornar a refutação suficiente. (PERELMAN; TYTECA, 2005, p. 533)
Nesse sentido, diversos são os fatores que determinam a avaliação da força que se pretende combater, e muitos deles partem de como o orador reproduz certos argumentos do adversário para descrever o poder de suas afirmações, tais como seu comportamento, sua segurança ou sua falta de segurança. Ou ainda, verificar se o adversário se vê acuado na discussão, se ele questiona em vez de responder o que lhe foi proposto, etc. Com isso, o orador manipula a força dos argumentos que provocam esses tipos de reações no adversário, facilitando sua argumentação e atacando exatamente os pontos fracos demonstrados pelo adversário.
Em suma, nos estudos da Nova Retórica, Perelman retoma alguns fundamentos referentes à argumentação da antiga retórica clássica. Essa nova teoria, proposta juntamente com Tyteca, apesar de se basear na retórica antiga, busca uma reconstrução empírica da teoria da argumentação obtida pelos meios de provas constituintes dos inúmeros tipos de discursos observados em nosso universo textual. Segundo Menezes, é possível perceber a Nova Retórica sob “uma perspectiva engajada, em que a argumentação é vista como um fenômeno da linguagem relacionado à participação social e política em questões do interesse público [...].” (MENEZES, 2001, p. 185)