4. Ribâdan Uzak Olma İlkesi
4.2. Kur’an-ı Kerim’de ve Sünnet’te Ribâ
Nesse contexto jornalístico, ao falar dos sujeitos, devemos nos ater à noção de identidade. Sabemos quem são os sujeitos comunicantes dos blogs, já que se trata de uma pesquisa cujos autores dos blogs são jornalistas conhecidos da mídia brasileira. Entretanto, nossa pesquisa trabalha também com alguns comentários de sujeitos anônimos, em resposta aos relatos postados pelos jornalistas, fazendo com que seja necessário um aprofundamento na questão dessas práticas identitárias dos sujeitos.
No mundo virtual, segundo Kleiman e Vieira (2006, p. 122), “o sujeito liberta-se do físico, adquirindo certa incorporeidade, também manifestada no evitamento de contato pessoal e na separação promovida pela tecnologia”. As autoras afirmam que, o fato de o sujeito não necessitar da presença física, acaba construindo uma nova identidade emancipada, e, ao mesmo tempo, diminui a responsabilidade social em relação ao grupo local que ele pertence.
Essa isenção da responsabilidade e a construção de novas identidades, em virtude do anonimato propiciado pelo meio virtual, fazem com que o sujeito expresse mais livremente sua opinião, sem censuras, sem se preocupar com a exposição. Isto é, para todos os efeitos quem está escrevendo um comentário pode não ser o próprio “eu” e sim um “eu” “vestido” de coragem em razão da criação da sua nova identidade.
Ainda sobre a questão do sujeito, Kleiman e Vieira (2006) afirmam que o sujeito torna-se linear no discurso cibernético, devido ao contexto não situado em que se mostra. E é esse
espaço cibernético que permite que o sujeito maquie e transforme seu discurso na intenção de preservar sua face.22
Em contrapartida, nesse mundo cibernético, os sujeitos da interação perdem a possibilidade de utilizar certos artifícios, como, por exemplo, gestos e expressões faciais, tão recorrentes na interação face a face. Então, no contexto dos blogs, se de um lado os sujeitos ganham por terem tempo de elaborar com mais clareza suas mensagens (pois não estão em uma interação imediata) e se manterem até certo ponto no anonimato, em contrapartida eles perdem por ser a escrita um meio de comunicação que não conta totalmente com as manobras existentes na oralidade, embora nesse meio seja possível a reprodução, até certo ponto, da fala por meio de
emoticons ou estratégias da escrita, como, por exemplo, a caixa alta para reproduzir um tom mais exaltado, por exemplo. E ainda, por dar “brechas” de ser interpretada de outra maneira que não tenha sido a intenção real do sujeito, sem chance imediata de uma contrarresposta.
Ressaltamos aqui o imediatismo da contrarresposta, porque o blog, apesar de não ser um canal em que as pessoas trocam mensagens em tempo real, permite que o sujeito comunicante, no caso, o autor jornalista do blog, responda a uma mensagem postada por um leitor como resposta da notícia inicial desse autor do blog. Ou seja, uma espécie de réplica e tréplica ou quantas mais forem necessárias para que se encerre um determinado assunto.
É importante destacar também que a comunicação via Internet vem crescendo cada vez mais, e hoje é possível fazer quase tudo sem sair de casa e as possibilidades vão de fazer compras a namorar, passando por infinitas atividades. Essa comodidade estabelece uma relação à distância com o outro, pois como afirma Coracini (2006), o distanciamento facilita as relações por eliminar os sentimentos e as emoções, mas também isola o indivíduo, que vive só com seu computador. O que a autora quer dizer é que essa imobilidade do sujeito, que o acomoda e o transforma, está trazendo uma mudança para a constituição de sua identidade.
A autora ainda discorre sobre o que ela chama de ficção do “eu", que seria o autor, por exemplo, de um blog. Para ela, um blog, que está cada vez mais acessível na Internet, possui uma linguagem com tom ora mais confidencial, ora menos. E ainda, escrito em uma linguagem que transgride as regras gramaticais. Os autores dos blogs - também chamados de
22 De acordo com Goffman, citado por Kleiman e Vieira (2006, p. 127), “face é a imagem do self delineada em função de atributos positivos, socialmente aprovados e partilhada com os outros”.
bloguistas, blogueiros – relatam, de uma forma geral, acontecimentos banais do seu dia a dia. A autora ressalta que toda essa banalidade, a princípio aparente, está relacionada ao momento histórico-social em que se vive hoje. Nesse sentido, essa banalidade não se torna assustadora, já que o que os autores escrevem em seus blogs são relatos comuns compartilhados também com a vida de muitos, despertando uma curiosidade nos leitores por meio da instauração de um processo identitário.
As banalidades do cotidiano pertenceriam aos blogs pessoais, em sua maioria de jovens que pretendem apenas expor sua vida e compartilhar de seus anseios com outros leitores que fazem parte de seu universo particular. Contudo, há blogs mais engajados, que procuram de alguma forma uma reflexão, uma troca de ideias, como, por exemplo, podemos citar os próprios blogs jornalísticos de nossa pesquisa, que tratam dos acontecimentos do mundo, em especial, da política nacional, e são abertos às discussões.
Apesar de esses blogs possuírem um tom mais comprometido, Coracini (2006) ressalta que estamos sempre construindo uma imagem ficcional de nós mesmos, à medida que construímos nossa história e essa história vai sendo interpretada de diversas maneiras e gradativamente vai se constituindo e transformando nossa identidade. E essa ficção do “eu” vai se tornando mais latente na Internet, devido à possibilidade de permanecer anônimo, e da invenção de nomes, ou seja, da possibilidade de criar personagens.
Ainda na perspectiva da ficção do “eu”, Coracini (2006) aborda esse assunto em um quadro contextual dos blogs, afirmando que é por meio da linguagem que o sujeito se revela ou se esconde:
De qualquer forma, o diário virtual é mais um “espaço” criado pela sociedade do espetáculo para sua encenação e, desta vez, o protagonista do espetáculo é o “eu” que se exibe ao público, ao se (re)velar pela e na linguagem escrita.E aí o sujeito do inconsciente, o sujeito que se submete à linguagem se (re)vela nas brechas dos significantes em rede que, ao mesmo tempo, o protege e o esconde. (CORACINI, 2006, p. 148)
Observamos, então, que o meio digital é um ambiente propício para a construção de novas identidades, e dizemos no plural por ser possível não só mais uma, e sim várias, dependendo do que se pretende no momento. Nesse sentido, Carmagnani (2006) afirma que nesse meio não há a possibilidade de se manter uma identidade fixa e estável, questionando a noção de
sujeito uno e indivisível. A autora afirma que a cultura digital propicia a criação de uma identidade multifacetada e conflituosa.