C. Diğer Konularda Oy Kullanmak Suretiyle
VI. Mali Hakların Belirlenmesine Etki Eden Unsurlar
Vivenciamos as primeiras décadas do século XXI e se as vislumbrássemos de um futuro distante como fazemos com as primeiras décadas do século XX, caracterizando-as em todos os seus aspectos sociais, recortando as particularidades que servem à análise de determinado estudo, cremos que, no plano do humano, poderíamos dizer que o século XXI iniciou-se com o ideal de inclusão de todos em função de uma sociedade harmônica.
Sabemos que a harmonia social sempre foi o anseio de toda sociedade e comunidade em qualquer época, mas nenhum tempo supera esses no que se refere à criação de estratégias para alcançá-la, estabelecendo-se bases legais e morais de direitos e deveres comuns a todos. Após a Declaração dos Direitos Humanos e a instituição da ONU em meados do século XX, a maioria dos países se uniu na defesa de um mundo diferente que não permitisse a repetição de barbaridades como o holocausto durante a Segunda Guerra Mundial, e inúmeras desumanidades praticadas em diferentes períodos históricos. Obviamente, a barbárie não se encontra completamente no passado, pois todos os dias acompanhamos a miséria, a fome, violência, o terrorismo e destruição de nossos semelhantes, provocados pela desigualdade de riquezas, pela defesa de ideais religiosos e de espaços territoriais, ou simplesmente por falta de tolerância quanto à existência de um outro que “perturba” a realização de desejos pessoais. Enfim, pelo egoísmo radical, a causa maior que sintetiza as demais. Apesar disso, o ideal de sociedade harmônica permanece e se intensifica quanto mais prevalece a barbárie entre os homens. E talvez seja esse sonho que ainda coloque alguma ordem nas relações humanas. Na realidade, a ordem e a desordem estabelecem uma relação dialética em que a ordem subsiste para a eliminação da desordem, enquanto essa só existe como desafio à existência e permanência da ordem. “a ordem que não pode viver sem a desfiguração dos homens” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 79).
A tão propalada sociedade harmônica se configura nos discursos como aquela que permitiria a coexistência de todas as diferenças humanas em um mesmo plano de igualdade de direitos e deveres, o que seria concretizado pela via da tolerância e do respeito a quaisquer modos de vida que causem alguma estranheza aos “normais” e aos seus “modos normais de viver”. Pobres, negros, índios, homossexuais, deficientes ou excessivamente eficientes, são defendidos legalmente e qualquer comportamento discriminatório destinado a eles cabe punição, ou ao menos um discurso crítico que os defenda e abomine o impedimento da plenitude de suas vidas. Posteriormente, discutiremos os sentidos dessa inclusão indiscriminada e os significados desses “diferentes”, mas nesse instante, s referimo-nos àquela crença comum de que somos privilegiados por constituirmos a sociedade do esclarecimento e que as pessoas têm permissão de ser e estar conforme os seus princípios individuais e grupais, desde que não representem ameaça à harmonia da coletividade.
A Educação é a principal disseminadora dos ideais inclusivistas, pois é por meio dela que os homens se tornam “esclarecidos” e “tolerantes”, não somente quando aprendem a articular os discursos politicamente corretos, mas quando convivem com as diferenças dentro
da escola. Tais aprendizagens, de acordo com o ideal inclusivista, são importantes para a formação de mentalidades moldadas em função de práticas de convivência harmônica entre todos, independentemente de suas diferenças. Essa proposta é concebida como estágio
superior ao anteriormente vivido — quando a exclusão acontecia de forma explícita e
consentida — em detrimento dos modelos de inclusão atuais que indicariam a superação da
ignorância pela via do esclarecimento. Por isso, consideramos importante a análise da ideia de sociedade esclarecida para, em um movimento dialético, evidenciar contradições no conceito de inclusão.
No texto “O que é esclarecimento?” Kant, como filósofo do século XVIII, define o esclarecimento como a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do entendimento sem a direção de outro indivíduo. Esclarecimento, para Kant, relaciona-se diretamente com a capacidade do homem de assumir sua autonomia e liberdade nas suas decisões, pelas quais ele seria o único responsável. Aquele que permite que outrem dirija sua vida é o único culpado por sua menoridade, ou seja, pela falta de coragem e não precisamente pela falta de entendimento. A menoridade estaria na
comodidade de permanecer menor, nas palavras de Kant “preguiça e covardia” que fazem
com que muitos homens não assumam a própria condição de maioridade que a natureza lhes proporcionou, libertando-os de uma direção estranha. Kant fala de comodidade, de preguiça e de covardia, porque é mais fácil pagarmos a um tutor para tomar conta de nossas decisões, evitando, assim, termos que pensar e usar a própria consciência e assumir os riscos. É mais fácil, portanto, ao homem, ser menor, do que admitir sozinho as consequências das decisões advindas de uma consciência autônoma.
Kant afirma que a imensa maioria da humanidade considera difícil a passagem à maioridade, além de ser perigoso e desagradável lidar com certos negócios, sendo gratificante ter tutores que de boa vontade se encarreguem de supervisioná-los. Como os homens não aprenderam a andar sozinhos, tal intento consiste em um perigo, pois perderam a noção da própria capacidade de fazê-lo, quando, na realidade, bastaria reconhecê-la na própria natureza humana e assumir o risco de algumas quedas, sem considerá-las como sinal de incapacidade. Não obstante, Kant reconhece a dificuldade de emergir dessa menoridade por meio da transformação do espírito e eis as causas de pouquíssimos o conseguirem:
É difícil, portanto, para um homem em particular desvencilhar-se da menoridade que para ele se tornou quase uma natureza. Chegou mesmo a criar amor a ela, sendo por ora realmente incapaz de utilizar seu próprio entendimento, porque nunca o deixaram fazer a tentativa de assim proceder.
Preceitos e fórmulas, esses instrumentos mecânicos do uso racional, ou antes, do abuso, de seus dons naturais, são os grilhões de uma perpétua menoridade. Quem deles se livrasse só seria capaz de dar um salto inseguro mesmo sobre o mais estreito fosso, porque não está habituado a este movimento livre (KANT, 1783).
Nesse sentido, seria então possível assumir direção própria e empreender um andar Seguro? Kant diz que é perfeitamente possível que um público se esclareça, sendo isso quase inevitável se lhe for dada a liberdade. “Sempre se encontrarão alguns indivíduos capazes de pensamento próprio que após o desvencilhamento do julgo da menoridade podem reconhecer racionalmente a vocação e o valor de pensar por si mesmos” (KANT, 1783).