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As pesquisas que investigam o perfil e a motivação dos bolsistas figuram em menor número que as obras incluídas nas categorias de impactos. Contudo, existem em número bem superior aos trabalhos que abordam os critérios de seleção dos bolsistas. Dos trabalhos encontrados que descrevem e analisam características dos bolsistas (AGUIAR, 1997; ARAGÓN & VELLOSO, 1999; NEDER, 2001; PERES, 2006; ROCHA, 2007), apenas um tem essa dimensão como seu objeto central (SILVA & PORTES, 2005).

Entre os estudos com objetivos mais difusos, destacam-se o de Neder (2001), que utilizou dados secundários disponibilizados pela Capes e pelo CNPq sobre os bolsistas de IC entre 1989 e 2000; o de Aragón e Velloso (1999), que realizaram um survey com os bolsistas do CNPq apenas do ano de 1997; e o de Aguiar (1997), que entrevistou bolsistas dos cursos de Medicina, Biologia e Farmácia da UFRJ, do ano de 1995. Tanto Aragón e Velloso, quanto Aguiar e Neder constataram que a maior parte dos bolsistas tinha entre 20 e 23 anos de idade

e era do sexo feminino, com exceção das áreas de Ciências Exatas e das Engenharias. Neder notou que a presença de bolsistas do sexo feminino aumentou ao longo do período estudado. Aragón e Velloso verificaram que os bolsistas da área das Engenharias eram os mais jovens, e os de Ciências Humanas, os mais velhos. E Aguiar ressaltou que a maior parte dos bolsistas entrevistados começou a iniciação científica ainda nos três primeiros semestres do curso.

Aragón e Velloso (1999) trazem outras informações sobre o perfil do bolsista de IC, a saber: a) que a bolsa constitui uma fonte de renda muito importante para apenas 25% dos bolsistas das universidades públicas e para menos de 15% dos bolsistas das universidades privadas; e b) que metade dos bolsistas afirmou que a iniciativa de procurar pelo orientador partiu deles próprios, enquanto outros 30% disseram terem sido convidados a participar da pesquisa.

Por sua vez, Silva e Portes (2005) realizaram uma pesquisa com os bolsistas da UFSJ, entre 2004 e 2005. A pesquisa se propôs analisar o peso do capital cultural familiar no acesso à bolsa de IC. O que se observou foi que a maior parte das famílias dos bolsistas passou por um acentuado processo de mobilidade cultural, posto que os avós eram trabalhadores rurais (apesar da baixa taxa de analfabetismo entre eles) e os pais desempenhavam ocupações predominantemente urbanas, mas possuíam um nível de escolaridade que raramente ultrapassava o ensino médio38. Entretanto, quase 90% dos irmãos dos bolsistas cursaram o ensino superior e em idade regular. Quanto aos bolsistas, mais da metade deles apresentou – durante todo o ensino fundamental e médio – um rendimento escolar superior à média. Sua educação básica foi realizada predominantemente em escola pública, embora no período diurno, e cerca da metade deles exerceu alguma atividade remunerada antes de ingressar na universidade. Considerando que uma parte importante dessas variáveis é constituída por fatores que a literatura sociológica associa ao insucesso escolar (frequência à escola pública, exercício de atividade remunerada), é possível levantarmos a hipótese de que se trata aqui, em boa parte, de famílias com baixa posição social, mas altamente mobilizadas na escolarização dos filhos. Com efeito, os autores do estudo informam ainda que os pais dos bolsistas declararam ter se informado sobre as escolas (de educação básica) antes de matricular seus filhos, ter participado ativamente das reuniões de pais e mestres, e ter ajudado os filhos com os deveres de casa, apesar de que menos da metade das famílias possui uma biblioteca em casa. A conclusão a que chegam os autores é:

38 Em relação às práticas culturais, poucos pais tinham o hábito de leitura, de frequentar cinemas, teatros,

Se por um lado o capital cultural atua fortemente para um grupo significativo de bolsistas de iniciação da UFSJ, por outro ele não é suficientemente capaz de explicar como parte desses bolsistas pôde adquirir as bolsas de iniciação científica, considerando a história escolar pregressa dos jovens analisados e o desempenho acadêmico no interior da universidade. Essa constatação nos leva a crer que existe uma margem significativa de indeterminação na distribuição dos privilégios que demanda outras formas de investigação para ser detectada. (SILVA & PORTES, 2005, p.31).

No que concerne à motivação dos bolsistas em relação à iniciação científica, encontram-se os estudos de Campos, Martinez e Escudero (1998); Bridi e Pereira (2004); Behling (2006); Kirsch (2007); Oliveira, Alves e Luz (2008); e Bridi (2010). Campos, Martinez e Escudero (1998) – em pesquisa realizada, em 1996, com 28 bolsistas de IC das áreas de Ciências Humanas, Exatas e Biológicas de uma IES privada do estado de São Paulo – tiveram como principal resposta para a motivação em realizar a iniciação científica a “oportunidade de iniciar a carreira de docente-pesquisador” (citado por 17 entrevistados), seguido por “forma de aprimorar os conhecimentos científicos sobre a área estudada” (respondida por oito sujeitos).

Por sua vez, Bridi e Pereira (2004) interrogaram, por questionário, os bolsistas da UNICAMP no período 2000/2001. Em que pese o baixo índice de resposta obtido (18,3%, ou seja, 78 sujeitos), a grande maioria deles apontou a vontade de aprimorar sua formação como a razão principal para a procura pela iniciação científica, revelando a expectativa de que a iniciação científica oferecesse uma orientação pessoal e direta ou, em termos mais concretos, que o orientador esclarecesse dúvidas, indicasse bibliografia, propusesse e debatesse novas questões, etc. Mas os autores descobriram ainda que há uma minoria de jovens que procuram a iniciação científica em razão da remuneração financeira. Eles concluem que, de uma maneira geral,

A iniciação científica é vista pelo aluno bolsista como um momento para, além do desenvolvimento pessoal, desenvolver seus conhecimentos científicos e específicos, ter contato com a prática, ampliar conhecimentos numa área profissional, começar sua carreira acadêmica, estabelecer contatos com os professores e pesquisadores qualificados e ter a possibilidade de trabalhar em grupo. (BRIDI & PEREIRA, 2004, p.6).

Em um trabalho posterior, Bridi (2010) realizou uma pesquisa com 212 alunos (amostra estratificada por área do conhecimento e com erro amostral de 6%), inseridos em 2008 nos programas oficiais de IC da Unicamp, nas áreas de Artes, Ciências Biológicas e Profissões da Saúde, Ciências Exatas, Tecnológicas e da Terra, e Ciências Humanas. Foram aplicados questionários, também, aos professores orientadores que compuseram uma amostra

de 188 sujeitos, com erro amostral de 6%. Os questionários aplicados diferenciavam-se entre bolsistas e orientadores e possuíam, majoritariamente, questões abertas. As questões buscavam entender a motivação dos alunos ao buscarem a IC, a orientação realizada durante a pesquisa e os benefícios da experiência. O motivo mais citado pelos bolsistas e pelos orientadores – de todas as áreas do conhecimento pesquisadas – para inserção dos alunos em atividades de IC relaciona-se à categoria “Pesquisa como Formação Técnica do Pesquisado” (citada por 62% dos orientadores e 63% dos alunos). As subcategorias mais registradas dentro de “Formação Técnica do Pesquisado” foram “Aquisição de Conhecimento de Metodologia Científica” (25% dos professores; 33% dos alunos), “Conhecimento de Tema Específico” (16% dos orientadores e 15% dos bolsistas) e “Preparação para a pós-graduação” (17% e 10%, respectivamente).

Isto significa que os alunos procuram a atividade de Iniciação Científica com a intenção de se formarem pesquisadores e receberem uma remuneração. Apenas 17% dos professores e 24% dos alunos apontaram que os alunos ingressam na Iniciação Científica para adquirirem uma formação ampla. Uma porcentagem reduzida dos nossos respondentes (7% dos professores e 4% dos alunos) apontou que os alunos buscam tanto formação técnica como formação ampla (BRIDI, 2010, p.177).

Bridi ressalta que a maioria dos bolsistas e orientadores reconhece que a IC contribui para a formação técnica do bolsista, sendo esse percentual maior na área de Ciências Exatas, Tecnológicas e da Terra (87% dos professores e 82% dos alunos), e menor na área de Artes, pelo menos na percepção dos bolsistas (100% dos professores e 60% dos alunos). E, apesar do interesse inicial ser justamente a formação técnica, a maioria dos orientadores e bolsistas também alega que ela contribui para a formação ampla (76% e 74%, respectivamente), principalmente em relação à aquisição de conhecimentos gerais e na integração com pesquisadores.