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1. SÂMĠHA AYVERDĠ’YE GÖRE ESTETĠK VE SANAT EĞĠTĠMĠ

4.1.18. Müzik ve Sanat

Os estudiosos de Plotino que se ocuparam do tratado III, 5 [50], ou da questão dos mitos, normalmente traduzem % por discursos. Mas, em certos casos, eles induzem a uma confusão entre a função dos mitos e a linguagem filosófica de Plotino em geral. Assim, Hadot julga haver uma certa “conivência” ou “estreito parentesco” entre o mito e os “discursos racionais”, sua tradução para % Ademais, ele considera que, já na filosofia de Platão, há um parentesco entre o mito e os discursos filosóficos, exemplarmente no Timeu. E que tal elo entre mito e discursos, tratando-se agora de Plotino, “deixa entrever que há algo de mítico na construção racional e algo de racional na ficção mítica. Razão (lógos) e mito são efetivamente a expressão da temporalidade da alma que, saída da intemporalidade perfeita do Intelecto, deve desenvolver nos discursos o que estava envolvido e concentrado no Intelecto”154. Em um estudo anterior, Hadot nota que o percurso dialético consiste em dividir o que está unido e em reunir o que foi dividido, aproximando-o portanto, do mito. Assim, ele aproxima mito e dialética, concluindo que os mitos e os discursos racionais correspondem à queda da alma no tempo e no espaço155.

Lacrosse traduz lógos por discursos, entendendo que “se trata de todos os lógoi, quer dizer, tanto dos escritos dos antigos, quanto das palavras de Platão, que implicam ambos narrativas míticas e raciocínios dialéticos”156. Donde ele considera que os mitos constituem um modo privilegiado da racionalidade filosófica, quando esta enseja manifestar a eternidade

154 HADOT, P. In: PLOTIN. Traité 50 (III, 5). Introduction, traduction, commentaire et notes par P. Hadot.

Paris: Cerf, 1990, “Commentaire”, p. 23.

155 Cf. HADOT, P. “La figure d’Eros dans l’oeuvre de Plotin”. Résumés des Conférences et Travaux. Annuaire de l´École Practique des Hautes Études. Vème section: Sciences Religieuses, 91 (1982-1983), p. 347.

156 LACROSSE, J. “Temps et mythe chez Plotin”, p. 270. Na seqüência do parágrafo, seguem-se as

em um mundo submetido ao tempo. Segue-se que ele associa o tempo do narrador de mitos ao do dialético, porquanto julga que a distorção entre tempo e eternidade, nos discursos míticos, encontra seu princípio, como a dialética, na alma dianoética. Por conseguinte, ele reputa a originalidade de Plotino ao fato de ter atribuído um sentido aos mitos que pode ser qualificado de dialético, como é possível depreender do final da passagem III, 5 [50] 9, 24-29, onde Plotino diz que quem inteligiu o sentido dos mitos pode reunir o que fora dividido. Há um paralelismo de termos, sem dúvida, entre este procedimento e a dielética, que opera por divisão e síntese. Cabe, entretanto, investigar se tal paralelismo realmente significa que o mito possa ser qualificado como dialético, o que será feito na última seção deste capítulo.

Wolters, por seu turno, traduz % por “reasoned discourses”, em oposição a ! !. Ora, Wolters não desenvolve, no comentário à linha 27, esse tema, deixando pairar uma certa ambigüidade. Todavia, ele considera que Plotino esteja descrevendo as limitações de toda a linguagem metafísica, incluindo a sua própria. Wolters nota que é um erro comum considerar a distinção temporal como sendo um traço característico dos mitos em Plotino; ele entende que Plotino diz explicitamente que isso pode ser aplicado a todos os % isto é, discursos filosóficos157. Por sua vez, Collette julga não haver simetria possível entre os discursos racionais e o mito, uma vez que não se situam no mesmo registro. O discurso racional é próprio da alma e o único que ela pode ter por seu caráter intermediário. “O mito é apenas uma forma de atualização possível do discurso racional”158. Com isso Collette parece, de certo modo, subordinar o mito ao discurso racional, porquanto é uma atualização deste.

Diante dessas análises controversas, é necessário que se estabeleçam algumas distinções. Primeiro, é preciso notar que, nas análises que tentam nivelar o mito e os discursos

157 Cf. WOLTERS, A. M. Plotinus “On Eros”. Acad. Proesfschirift, Uitg. Fil. Inst., V.U., Amsterdam, 1972,

p. 98, nota 9. 27 e p. 97, nota 9. 24-29.

158 COLLETTE, B. Dialectique et hénologie chez Plotin, p. 78. Para ele, outras formas de atualização do

filosóficos, ou racionais, conforme a terminologia dos intérpretes, ocorre uma mistura de duas coisas distintas: por um lado, é evidente que todos os discursos humanos, sejam ou não filosóficos, são diacrônicos, na medida em que são uma expressão sensível do pensamento da alma, o qual é temporal. Mas isso não significa que os discursos dividam em um esquema temporal – como é exatamente o caso das genealogias – coisas ingeradas. Ou seja, em Plotino, nem todo lógos passível de ser entendido como discurso se ocupa da temporalidade como um instrumento para conduzir a alma até o inteligível, conforme parece ser o caso dos mitos genealógicos. Por certo, todo discurso está submetido a divisões lógico-semânticas, evidentemente inscritas no esquema sucessivo da linguagem proposicional, mas a sucessão lógica não reflete a sucessão cronológica de que Plotino faz uso através das genealogias míticas. Dois exemplos recorrentes nas Enéadas ilustram o fato de ser uma especificidade dos mitos, que se inserem no esquema das genealogias, fazer uso da temporalidade como instrumento para conduzir a alma até ao inteligível. O primeiro são os discursos apofáticos, tão largamente utilizados nas Enéadas para tratar do Um. O segundo, as metáforas que se encontram praticamente em todos os tratados de Plotino. Em nenhum dos dois casos, está em jogo a oposição gerado/não-gerado. Mesmo nos mitos, como adiante se terá ocasião de observar, nem sempre é o caso de dividir em genealogias aquilo que é ingerado. Com relação a Collette, ele parece ter entrevisto isso que acaba de ser dito, mas, na sua investigação, não se ocupou em mostrar a especificidade do mito em relação aos demais discursos filosóficos e à dialética. Isso propõe-se o presente capítulo.