2. SÂMĠHA AYVERDĠ’NĠN ESERLERĠNDE EDEBĠYAT EĞĠTĠMĠ
4.2.12. Gelenek
Se Eros pode corresponder a um deus, a um daím n, e ainda a um estado da alma, Afrodite igualmente apresenta distintas faces nas Enéadas. A polissemia dos mitos em Plotino, entretanto, não se afasta muito de uma prática comum no mundo grego, e a figura de Afrodite parece testemunhar adequadamente isso. Ao percorrer a poesia épica, encontram-se diferentes faces de Afrodite, duas das quais foram postas em um esquema hierárquico por Platão. Segundo Hesíodo, na Teogonia, ela descende de Urano250. Em Homero, na Ilíada, Afrodite não descende de Urano, mas figura como uma deusa Olímpia, filha de Zeus e Dione251. Essas diferentes faces de Afrodite resultaram em duas Afrodites distintas, cunhadas pela imaginação platônica no Banquete. Plotino segue a divisão estabelecida por Platão, ajustando os atributos de Afrodite às exigências da sua filosofia. Além disso, Plotino dá mostras de conhecer alegorias físicas dos mitos de Afrodite correntes à sua época.
250 Cf. HESÍODO, Teogonia, 189 ss., onde é narrado o surgimento de Afrodite, a partir do esperma do falo
decepado de Urano.
251 “Dione é uma das deusas da primeira geração divina. A sua origem diverge consoante as tradições: ora se diz
que é filha de Urano e Gaia (...), ora se considera ser uma das Ocêanides, filha de Oceano e Tétis. Por vezes conta-se também entre as filhas de Atlas” (GRIMAL, P. Dicionário da mitologia grega e romana, p. 121, “Dione”).
Afrodite, na Teogonia, desde seu nascimento, é acompanhada de Eros252. Além disso, ela aparece como deusa da procriação253 e das estratégias amorosas254. Mas não é só isso: ela surge como elemento de doçura e beleza em oposição às potências violentas nascidas das gotas de sangue do falo decepado, que respingaram a Terra, as Erínias vingadoras de crimes entre consangüíneos, os Gigantes que personificam a violência guerreira e as Melíades, Ninfas que habitam os freixos donde provém a madeira para as lanças guerreiras255. Afrodite desposa Ares, nascido de Zeus e Hera, com quem tem três filhos: Fobo, Deimo e Harmonia256.
Em Homero, além de uma genealogia distinta, também se percebem outras relações de parentesco. Por exemplo, na Ilíada, Afrodite é irmã de Ares257. Na Odisséia, Afrodite e Ares passam a ter ligações de outro gênero: ela é amante do deus guerreiro, embora seja casada com Hefesto258. Além disso, Homero também nomeia de Afrodite os prazeres da união sexual259. A propósito, ao longo das variantes do mito, são conhecidos os episódios dos amores de Afrodite por outros deuses, como Hermes e Dioniso, ou heróis, tais como Anquises e Adônis. Outrossim, as etimologias dos epítetos de Afrodite adquirem, para os escoliastas da
Odisséia e da Ilíada, significados distintos dos estabelecidos nos poemas épicos. Cípria e Citeréia eram relativos a lugares, Chipre e Citera260. Cípria passa a significar “aquela que faz conceber”, e como a ação se aplica também aos bichos selvagens, ela é chamada Citeréia261. Mais tardiamente, por volta do século V a.C., as versões do mito de Afrodite variam, e
252 Cf. HESÍODO, Teogonia, 201.
253 Desde que surgiu, por onde Afrodite pisava, relva nascia (cf. HESÍODO, Teogonia, 194). 254 Cf. HESÍODO, Teogonia, 203-206.
255 Cf. HESÍODO, Teogonia,182-187. 256 Cf. HESÍODO, Teogonia, 934-937. 257 Cf. HOMERO, Ilíada V, 370 - 430.
258 O famoso episódio em que Hefesto flagra os amores de Ares e Afrodite é narrado pelo aedo Demódoco, em
HOMERO, Odisséia,VIII, 266-367.
259 Cf. HOMERO, Odisséia, XXII, 444.
260 Afrodite é chamada de Citeréia, por exemplo, em HOMERO, Odisséia, VIII, 288. Também em HESÍODO, Teogonia, 198-199.
passam a considerá-la mãe de Eros e Himeros, além dos outros filhos que Homero lhe atribui. Quanto à paternidade, por vezes Eros é filho da sua união com Ares, outras com Hermes.
Afrodite representa, para alguns dos exegetas de Homero, o desejo desregrado, estranho à razão. E isso não somente devido aos seus amores adúlteros, mas também por ter infundido uma loucura em Helena, que fê-la entregar-se aos braços de Páris262. Aliás, o episódio dos amores de Ares e Afrodite é uma das passagens da Odisséia que mais fez correr tinta na Antigüidade. Zoilo de Anfípolis, um orador que parece ter escrito nove livros contra Homero263, fornece um bom exemplo do tipo de ataque a tal episódio. Quando os dois amantes são pegos em delito, os deuses riem forte e Hermes diz que gostaria de estar no lugar de Ares, ainda que isso implique certa vergonha264; ora, diz Zoilo, o riso dos deuses é inconveniente, e as palavras de Hermes, deslocadas. A que, tempos depois, replica um escoliasta: “Os deuses dos poetas não são os dos filósofos; eles riem”265. De fato, o sentido filosófico dos mitos não admite nem a imoralidade nem o sarcasmo dos deuses. Por sua vez, para os alegoristas, a poesia pode se servir de imagens inconvenientes, pois tanto a imoralidade quanto o sarcasmo são sinal de que há um sentido subjacente à letra do texto. Além disso, quanto mais um mito é atacado, tanto mais ele é defendido: os amores de Ares e Afrodite receberam interpretações que os transformaram em princípios cosmogônicos, elementos ou forças físicas266. Plutarco é testemunha de tal tipo de interpretação, a qual ele condena:
Estes mitos, alguns comentadores, com o que eles chamavam outrora subentendido, e que chamamos agora alegorias, torturam e falseiam a interpretação. O adultério de Afrodite e Ares, denunciado por Hélio, significa que a conjunção dos planetas Marte e Vênus determina
262 Cf. HOMERO, Odisséia, IV, 260.
263 Cf. BUFFIÈRE, F. Les Mythes d’Homère et la pensée grecque, p. 22.
264 Sobre o adultério de Afrodite e Ares, cf. HOMERO, Odisséia, VIII, 266-369.
265 Cf. Scholia in Od., 332. .
266 Cf. BUFFIERE, F. Les mythes d’Homère et la pensée grecque. Paris: Les Belles Lettres, 1956 pp. 168-172 e
naqueles que nascem sob seu signo, o gosto pelo adultério, e que, se o sol, subindo no céu, os surpreende, estes adúlteros não permanecem ocultos. Quando Hera veste-se em honra a Zeus e recorre a um cinto mágico, querem que se trate na realidade de uma purificação do ar que se aproxima do elemento ígneo. Como se o poeta não desse ele próprio, uma explicação!267
Plotino certamente conhecia tais interpretações, mas, assim como Plutarco, não parece ter concordado com elas, pelo que deixa entrever a única menção a Ares nas
Enéadas:
Sustentar que determinados planetas, sendo eles Ares ou Afrodite, causam adultérios, se estiverem de determinado modo, como se com a licenciosidade dos homens preenchessem eles mesmos o que necessitam um do outro, como não é isso uma grande desrazão?268
Dessarte, pode-se concluir que Plotino conhece distintas interpretações alegóricas da figura de Afrodite e diferentes faces da figura mítica. No entanto, no tratado III, 5 [50] ele propõe uma exegese de certos atributos da figura de Afrodite, principalmente a partir do discurso de Pausânias, no Banquete. Mas, evidentemente, Plotino interpreta o mito segundo elementos da sua filosofia, transformando o significado que Pausânias confere a Afrodite: nas
Enéadas ela passa a representar a Alma em suas duas divisões internas, como será visto a seguir. 267 ! ! ! % , ! % ! , . , ! : , 0 :, ! = ( ! : , ! , :, ! ! % ! = 0 , . ! ! =, ! 3 ! , % ! , ! , . ( , ! , !
! ! (PLUTARCO, Como o jovem deve escutar os poetas, 4, Moralia, 19). Sobre a vestimenta de Hera, ver HOMERO, Ilíada, XIV, 153-189.
268 II, 3 [52] 6, 1-4 [trad. BARACAT JUNIOR, J. C.]. :, : , !
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