III. ÇOBAN SESLENMESĠ
2.1. Destanlarda Çobanlık
2.1.1. Kutlu Çobanlar
Embora não haja consenso em ser um indivíduo reconhecível como ator de relações internacionais, e por conseguinte uma celebridade não podendo ser considerada através apenas de sua influência como o mesmo, nota-se que certos indivíduos, pelo menos, vêm exercendo um papel muito importante sobre a opinião pública e de grande destaque no cenário político internacional. Seitenfus (1994) já discutiu tal controvérsia, considerando que a falta de conceituação acerca deste tema, unido à falta de estudos empíricos, não podem ser, de forma alguma, motivo para se afastar o indivíduo como ator no cenário internacional. O autor alertou que mesmo não sendo possível conferir atenção a qualquer ação do indivíduo neste cenário, cabe ser revista a ideia de que comportamentos individuais não possam gerar reações e efeitos além das fronteiras do Estado.
Em uma era de novas tecnologias da informação, divulgar uma ideia não parece ter mais grandes impedimentos, graças ao maior número de instrumentos de divulgação que surgem ano após ano. Como forma de entender esta possibilidade de participação do indivíduo no cenário internacional, Seitenfus (1994) apresenta uma classificação de três grupos distintos de indivíduos. Um primeiro grupo é referido como de especialistas, ou seja, detentores de saber com vasta experiência em determinado tópico já colocado em prática, que teriam a capacidade de influenciar decisões importantes no cenário internacional. Um segundo grupo de indivíduos seria o de profetas ou “pseudocientistas” que, despreocupados com a legitimidade, se julgam detentores de um saber “autônomo e absoluto, desprovido do princípio da incerteza e avesso ao contraditório”. Por fim, um terceiro grupo seria composto por detentores de notório saber, ou seja, de indivíduos com reconhecimento público internacional, que ao serem premiados, usam a mídia para discutir com ares de especialistas temas internacionais.
E é nesta relação entre o indivíduo e a mídia que estas classificações tomam forma, já que para a divulgação de uma notícia ou assunto internacional em área específica tornar-se- ia necessário conferir a credibilidade destes especialistas. Observada a velocidade da informação e como tais acontecimentos se dão através dela, os indivíduos acabam por se
tornar aquilo que Bourdieu (1997) se refere como fast thinkers, ou seja, pessoas referências em suas áreas determinadas e que teriam a capacidade de não apenas formular, mas dar credibilidade a pensamentos acerca de fatos importantes, já expostos na mídia ou ainda desconhecidos, com a mesma instantaneidade (BOURDIEU, 1997, p. 38-41).
Observando-se tais indivíduos, podemos identificar que, dentre vários nomes reconhecíveis frente a ações de caráter internacional, diversos são parte da indústria do entretenimento. Mesmo sendo de fora desta indústria, porém como forma de exemplificar ao menos a capacidade de um indivíduo emergir como um verdadeiro ator no cenário internacional através dela, podemos citar Al Gore que, em 2007, já ex-vice presidente dos Estados Unidos, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por divulgar os efeitos das alterações climáticas, o que fez com que o ora político ganhasse, frente a opinião pública, um papel de respeitabilidade. A partir deste momento, Gore se tornou uma personalidade dotada de respeito e legitimidade para versar sobre assuntos referentes ao tema do aquecimento global, substituindo, em eventos e conferências, especialistas no assunto. O público, ao se referir em um expoente sobre o tema, facilmente citava no nome de Gore um defensor do planeta.
De posse desta credibilidade, e se utilizando da indústria do cinema como difusor de suas ideias, foi com seu documentário Uma Verdade Inconveniente que atingiu um imenso público através do Globo, recebendo em 2007 o Oscar de melhor documentário pela academia de artes cinematográficas de Hollywood. Através de seu documentário, somado a sua recém adquirida credibilidade no assunto, difundiu a preocupação e a atenção às questões climáticas mundiais, em especial ao que se referia ao aquecimento global (NOBEL PRIZE, 2007).
Outro exemplo a ser citado se deu com engajamento da atriz Emma Watson às causas feministas, assunto predominante em discussões no ano de 2015. Levantando a bandeira da igualdade de gêneros, a atriz se posicionou em um momento onde diversas atrizes de Hollywood citavam a causa em seus discursos, seja nas redes sociais ou até mesmo em premiações, lutando desde a equiparação salarial na indústria, até no aumento de papéis de destaque em filmes e series televisivas. Indo por um caminho diferenciado, a atriz iniciou a promoção da causa para seus diversos fãs, claramente mais jovens, elucidando o assunto para um público que cresceu com ela através da série Harry Potter, tentando engajar ao discurso feminista um viés inclusivo, sem separação de gêneros na causa.
De posse deste tema, e tendo como suporte ser jovem e influenciadora (já que a atriz é considerada um exemplo de profissional e de boa índole), Watson chamou a atenção de diversos veículos internacionais, que noticiavam suas declarações, passando a ser chamada
para defender a causa em eventos e congressos de universidades que estudavam o tema. Não demorou até que a ONU, em 2014, criando a campanha HeforShe, parte de uma seção da ONU chamada UN Women e de caráter mundial, a convidasse para ser sua porta voz, como Embaixadora da Boa Vontade para Mulheres, visando recrutar, em 12 meses durante os anos de 2015 e 2016, cerca de 1 bilhão de homens, entre jovens e adultos, para militar pela igualdade dos direitos civis entre gêneros, tratando-se de uma tentativa inédita da ONU de incluir o sexo masculino na luta feminista.
A escolha de Emma Watson, portanto, não foi em vão. A organização internacional entendeu que, como porta voz da causa, a atriz influenciaria milhões de jovens ao redor do globo, e seria uma representante engajada que se identificaria com a causa, o que se provou acertado quando a atriz anunciou que reservaria o ano de 2016 apenas para divulgar a campanha HeforShe, fazendo uma pausa em sua carreira.
Se entende frente a estes exemplos citados, portanto, que é possível ser através da indústria do entretenimento que um indivíduo, isoladamente, consiga fazer alguma pressão internacional, ou se, na soma de vários indivíduos formadores de opinião pública sobre um determinado assunto, também se possa interferir nos assuntos políticos, ultrapassando as fronteiras estatais. Ora, a opinião pública interfere nos Estados, uma vez que pode ela influenciar o comportamento dos indivíduos, seja eles em grupos ou organizações, e também instituir um novo interesse do próprio governo. E mesmo que alguns autores também acabem questionando se o grande público se preocupa realmente com problemas ligados à política externa de seus países, e se realmente a mídia ou qualquer outro ator das relações internacionais consegue retirar essas pessoas dessa condição de passividade, conforme aludido anteriormente, quando apresentado um fato via meios que demonstrem a gravidade de um tema em um formato dramático (como uma tela de cinema), ou através de um formato desafiador (uma campanha de combate a uma cultura instituída, como o machismo, presente em todas as camadas sociais e culturais) o comportamento tende a sofrer alteração, especialmente no que se refere aos conceitos de opinião pública (VIVES, 1979).
2.4 PERSUASÃO: CONCEITOS E DEFINIÇÕES QUE FAZEM DA CELEBRIDADE