III. ÇOBAN SESLENMESĠ
2.2. Efsanelerde Çobanlık
2.2.1. Çobanın TaĢ Kesilmesi
A indústria do entretenimento, como gênese da cultura midiática, implica na já citada relação intima entre a celebridade e o fã, que Rojek (2008) alega ser muito próximo a um rito de adoração, onde celebridades seriam como deuses, glamourizadas, como uma máquina social, de forma que “o modo público de ser é elaborado através de novos idiomas do corpo, critério de notabilidade e estilos de comportamento” (ROJEK, 2008, p.112), em um reflexo que relacionaria a democracia, a mídia e o povo. Sairia desta relação, através da cultura midiática, o surgimento da chamada celebritização ou celebrificação.
Muito embora de escritas diferentes, ambos os termos apresentam um significado semelhante, já que ambos se referem a transformação de indivíduos em celebridades. Gamson (1994, p. 191) descreve a celebrificação da política como um golpe do modelo de entretenimento-celebridade e, de forma muito próxima, Turner (2006, p. 155) a explica como um processo para torna-se famoso. Assim, celebridades seriam produtos da cultura pop, de caráter mercadológico, mas que, dentro das normas deste tipo de indústria cultural, estariam enraizados pelas estratégias de consumo, sem com isso desvalidar seu valor de inovação e criatividade, no que tange a produtos midiáticos. Pierre Bourdieu estudou o assunto buscando articular cultura e as estruturas sociais e econômicas, buscando compreender a influência das bases de um mundo social nas probabilidades de sucesso econômico do indivíduo, na crença de um mundo sem inércia, no qual as oportunidades de acumulação financeira são equivalentemente disponíveis a todos (BOURDIEU, 1986, p. 242). Para descrever tais oportunidades, Bourdieu cria um conceito para entender tipos específicos de conhecimento, modos de comportamento, gostos e estilos de vida: o Capital cultural. Assim, o gosto por certos gêneros musicais e expressões culturais, designam uma espécie de hierarquia responsável pela organização de diferentes classes ou camadas sociais (BOURDIEU, 2000), de forma que escolhas culturais não refletem as origens socioeconômicas dos indivíduos
apenas, mas ainda ajudam a reproduzir a estrutura social na qual eles se encontram. O capital cultural, então, é adquirido pela exposição a diferentes ambientes inacessíveis a outras classes sociais.
Bourdieu (1997) trata ainda deste capital social como centrado em um círculo de relações estabelecido por um sujeito, e não apenas no que ele mantém como seu interesse ou gosto pessoal, mas capaz de gerar benefícios pessoais. Neste mesmo intuito, ao tratar de celebridades, a visibilidade alcançada pelas mesmas é um tipo específico de capital social, chamada de capital de visibilidade, focada na imagem e sua reprodutibilidade técnica. Esta reprodutibilidade ganhou força no surgimento das mídias de massa e no avanço de tecnologias digitais e, desta forma, celebridades como atores, apresentadores e músicos, tiveram a possibilidade de conviver no cotidiano das pessoas, e a superexposição de atores e cantores é ao mesmo tempo consequência e causa de sua celebridade (HEINICH, 2012).
Morin (1989), tratando sobre as estrelas de cinema neste mesmo âmbito, analisa esta relação de exposição e benefícios. Para o autor, a relação entre a presença de estrelas de cinema em grandes produções cinematográficas e retorno financeiro para os estúdios é diretamente proporcional, além de afirmar a ideia de que estas estrelas acabam por desempenhar papeis que as fazem adquirir características de divindades (venerados pelos público, criando os chamados espelhos entre público e artista) e, ainda, resultam em uma simultânea projeção e identificação do público (MORIN, 1997, p. 107).
É nesta ideia de projeção e identificação que se baseia a celebritização como fator de atuação no cenário global político e social. Um exemplo é a participação de celebridades em campanhas sociais, ideais religiosos ou ações políticas, capazes de gerar um capital social qualitativamente diferente daquele ligado à outras formas de visibilidade, dos chamados capitais solidários, estes diferentes no que tange ao campo moral (CURTIS; MCCARTHY, 2012; MARTÍN, 2010; SANKORE, 2005). Celebridades são parte, portanto, da chamada cultura pop, e temos através delas um conjunto de produtos norteados pela lógica de consumo midiática (LEMOS, 2008), originadas do entretenimento, ligados à produção da indústria cultural, especialmente no que tange a música, cinema e televisão, gerando um senso de pertencimento a uma determinada comunidade. De caráter global, através dos meios de comunicação, afeta diretamente ou indiretamente a política no espaço em que estiver inserida. Como exemplo, a participação de uma celebridade em um evento que visa arrecadar fundos para combater a fome de um país africano sob regime ditatorial, faz com que tal participação atinja seus fãs e aqueles que acompanham tal evento. Como resultado, além da forte
exposição midiática do problema, envia a mensagem de que através daquele evento se estaria frente ao fim da fome da África.
Assim como as formas imateriais de capital descritas por Bourdieu e Heinich, o chamado capital solidário não se mostra claramente como uma forma de capital, mas sim como um conjunto de competências que irão transmitir uma capacidade do artista, no caso estudado, de ser visível na sociedade midiática, somada com sua capacidade de agir de forma moralmente exemplar em causas contemporâneas e, quanto maior credibilidade de ação humanitária ou social, maior sua exposição e, consequentemente, maior efeito gera ao público, que “compra” seu capital solidário. Se torna, ao fim, um ciclo benéfico tanto para a causa social quanto para o próprio artista, que tem sua imagem moldada de forma a se expôr como um agente humanitário. De qualquer forma, não se consegue de forma segura quantificar ou qualificar este capital, mas a ação solidária tende a valorizar, através da indústria do entretenimento, uma nova forma de existência midiática, ou seja, a de celebridade solidária.
Não apenas buscando manter uma relação entre os eventos narrados e o fenômeno da celebridade solidária, a pesquisa se propões, de forma mais aprofundada, a refletir e entender os efeitos na política internacional decorrentes da participação de celebridades em campanhas socialmente engajadas. Tem-se como ponto de partida a participação de celebridades em campanhas capazes de produzir uma espécie de capital simbólico, ou capital solidário. E bem como as outras formas de capital defendidas por Bourdieu (1986; 2000), este tipo específico de capital pode dar visibilidade e, muito mais, credibilidade a ações desconhecidas que carecem de força no cenário político internacional, fazendo com que haja maior demanda do público consumidor por celebridades socialmente engajadas e instituindo, à celebridade, um caráter cada vez mais “politicamente correto”, qualidade que nunca esteve tão em alta como nos tempos contemporâneos. A este tipo de novas celebridades, engajadas em causas humanitárias e sociais, se identificará posteriormente como Celebridades Diplomatas.
3.2A DIPLOMACIA PÚBLICA COMO ATIVIDADE DA INDÚSTRIA DO