O processo de “tornar-se humano” somente é possível via cultura, essa cultura16 é transmissível e modificável, ou seja, o indivíduo é submergido em uma cosmovisão simbólica, cheia de significações e representações. Assim a visão de mundo de um indivíduo, a moral, os comportamentos sociais e a própria expressão corporal são produtos de herança cultural, tanto do convívio familiar quanto da vivencia em sociedade. Geertz (1989)
Sendo assim a cultura é subjetiva, ou seja, não é sempre manifesta conscientemente pelo indivíduo ou pelo grupo social, mas pode ser moldada por eles, construída e reconstruída na relação com os grupos sociais no qual interagem.
A cultura é ação, interação, comunicação. O indivíduo não é somente produto da cultura, mas também a constrói, a recria, em função das problemáticas e das estratégias diversificadas e num contexto marcado pela diversidade e pela pluralidade. (RAMOS, 2001:165)
A cultura não é uma instância estática da vida humana, mas uma obra em constante mudança e adequação, Berger & Luckman (1999) afirmam que o ser humano é produto e produtor da sociedade na medida em que a sua ação produz uma ordem
16 Stuart Hall define cultura como toda a ação social e práticas sociais que expressam ou comunicam um
institucionalizada, uma certa forma de agir que é interiorizada no processo de socialização. Nesse processo as imagens, ações, símbolos e sentidos são subjetivados tornando-se uma parte de nossa cultura.
Destarte a realidade quotidiana tem dois aspectos que se completam, uma realidade objetiva e interpretada por cada ator social, e um mundo subjetivo com origem nos pensamentos e simbolismos dotados de sentido. Nesse aspecto a identidade é, também, uma construção social, são representações, através da cultura, sobre o modus
operandi daqueles indivíduos sociais. (HALL, 2005: 57)
As identidades são representações construídas através da cultura, são elementos subjetivados através das relações sociais entre os indivíduos, assim a identidade é produzida através de sistemas discursivos, dialógicos, imagens e símbolos que corroboram para a subjetivação da identidade social.
As pessoas em mobilidade urbana têm sua identidade permeadas de contradição, uma vez que elas trabalham com sistemas de valores e símbolos diferentes dos apreendidos em sua terra natal. Dessa forma a origem passa a ser um lugar mítico, uma vez que é impossível de ser resgatada plenamente, nem encontrará mais a realidade que deixou a tempos atrás, além disso o lugar de destino nunca acolherá, ou mesmo, o satisfará inteiramente. A identidade do migrante fica fragmentada, esta é exatamente a experiência de diáspora, longe o suficiente para experimentar o sentido de exilio e perda, perto o suficiente para entender o enigma de uma ‘chegada’ sempre adiada. (HALL, 2006:393)
A vivencia cotidiana em um ambiente de múltiplos pertencimentos forma uma base cultural hibrida, compartilhada a partir de inúmeros referenciais. Esses ambientes fronteiriços podem ser encontrados principalmente em ambientes eclesiais. Assim ter uma identidade seria pertencer a um país, a uma cidade ou um bairro, uma entidade que seja compartilhada por todos aqueles que ocupam o mesmo espaço, de forma a tornarem-se idênticos. É também compartilhar os mesmo símbolos e objetos, rituais e costumes, e aqueles que não compartilham tais coisas, são outros, os diferentes. (COLFEIRAI, 2010:08)
Quando analisamos os indivíduos migrantes em 2° geração percebemos que essa relação é ainda mais conflituosa, pois o próprio processo de construção de sua identidade é problemático, uma vez que ela é estabelecida em cima de duas culturas, no qual muitas vezes não se aceitam mutuamente, embora dividam o mesmo espaço.
Dessa forma a pressão sobre o migrante de 2° geração é enorme, uma vez que o grupo dominante, muitas vezes, desqualifica e desvaloriza culturas diferentes, construindo imagens caricatas e exóticas dessa cultura, pressionando o indivíduo a aculturar-se, na mesma medida sofre pressão de seu grupo de origem para que se mantenha fiel à cultura de suas raízes.
A construção da cultura em migrantes de 2° geração, principalmente em idade infantil ou adolescente é especialmente cruel, onde o indivíduo é mais fragilizado emocionalmente, principalmente por passar pelo processo de aceitação do grupo, que nesse caso possui a cultura dominante, o que ocorre, normalmente, é a estigmatização do migrante de 2° geração, que cresce enquanto se constrói em uma cultura que lhe é hostil, ou seja, encontra-se no “limbo” identitário, uma vez que não se apropria plenamente da cultura materna e nem reconhece a nova cultura como sendo integralmente participante dela.
Estranhos – não são os prussianos na Prússia, mas sim os prussianos na Bavária (...) estranhos não são os turcos na Turquia, mas sim os turcos em Berlim – Kreuzberg. Estranhos são os turcos alemães, filhos de turcos, nascidos e crescidos na Alemanha, onde também foram à escola (...), mas que viajam com o passaporte turco e se sentem como turistas em sua “pátria” (terra natal), na Turquia. (Beck, 1996:320)
Nesse contexto a identidade estabelece-se em contraste com o que é semelhante e diferente de seu sistema de valores e crenças, a socialização primaria (fundamentos culturais na infância) e a socialização secundaria (viver em sociedade) são dois elementos importantes na elaboração e identificação daquilo que é semelhante e díspar na cultura vivenciada, em processos migratórios a identidade estabelece-se como memória mitológica de descendência e histórica.
Nenhum indivíduo é pleno em sua identidade, todos sofrem de rupturas anexando ou substituindo sistemas de valores, crenças, mitos, cosmovisões, dependendo do local em que se encontra, ou mesmo das pessoas presentes naquele momento. Mas no caso dos sujeitos em mobilidade humana, a identidade passa a ser nevrálgico, uma vez que, o indivíduo precisa assumir modelos dispares ao seus, e em muitos casos, uma identidade coagida pelos contingentes da migração forçada, em busca de melhores formas de vida.
2.1.1. Migração e Identidade Religiosa.
Entre as religiões e migrações populacionais existem laços históricos e simbólicos. Não são poucos os fundadores de tradições religiosas que passaram, de alguma forma, por processos migratórios, exemplo disso é o êxodo de Moises, a fuga de Jesus para o Egito, Égira para Maomé. Com o passar do tempo, o processo de mobilidade humana, nas tradições religiosas acabam ganhando conotações simbólicas interpretativas, não é incomum a migração em ambientes religiosos serem interpretados como caminho, passagem, processo de morte para a vida, escravidão para libertação etc. Além do processo histórico-simbólico, a migração possibilitou um maior alcance da mensagem de muitas tradições religiosas, principalmente o cristianismo, recentemente com a intensificação de processos de mobilidade humana internacional proliferou-se diversas manifestações religiosas ao redor do globo terrestre.
Dessa maneira as tradições religiosas usufruíram do deslocamento humano para aumentar a fluidez de suas fronteiras religiosas, Berger expõe que: a conversão é
sempre possível, mas é mais provável em contextos migratórios, pois aumenta com o grau de instabilidade ou descontinuidade da estrutura de plausibilidade em questão.
(1985:59-60)
Contudo, as religiões não somente interferem na religiosidade do migrante, mas ela também articula mudanças na sua estrutura por influência migratória, Pace (2009), sociólogo da religião, assevera que as religiões são sistemas dinâmicos que se modificam constantemente em comunicação com o ambiente social, a religião interage na sociedade buscando gerenciar a pluralidade urbana e a imprevisibilidade dos ambientes externos em que se desenvolvem.
As religiões são como grandes compassos: partem de um ponto gerador e depois, à medida que se abrem em círculos cada vez mais amplos, aceitam os caminhos sempre novos dos ambientes que se alternam (cultura, populações, línguas distintas). (PACE 2009:12)
Podemos assim considerar que a religião não é um sistema totalmente estável e rígido, mas, em algum grau, é dinâmico em sua interação com o ambiente, nesse caso, o processo religioso é uma estratificação de crenças, rituais e símbolos, que, no decorrer dos anos, foram estruturando-se mediante a processos de fronteiras fluidas para responder as demandas da atualidade em contato com o ambiente externo.
Em ambientes migratórios a dinâmica religiosa é produtora de sentidos metafísicos que encarnam no objetivismo cotidiano, em muitos casos, as religiões em processos migratórios produzem experiências simbólicas que reconfiguraram e adequam o fenômeno de mobilidade humana no escopo dos planos divinos. Eximindo, pelo menos em parte, a culpa associada ao abandono da família, parentes, amigos e o alivio da frustação do não pertencimento de uma realidade utópica.
A capacidade de dilatar suas fronteiras simbólicas permite aos sistemas religiosos auxiliar os indivíduos em mobilidade humana na reinterpretação de suas próprias biografias, além de integrar-se aos aspectos culturais do lugar de destino, por sua vez, o migrante interagem com a religião modificando-a e atualizando suas estruturas e simbolismo a novas demandas e desafios sociais presentes no cotidiano.