4. KRĐZ YÖNETĐMĐ
4.5 Kriz yönetiminde değişikliklere uyum sağlama mekanizmaları
Afim de compreendermos melhor todo o prospecto da IMPD é necessário discutir suas crenças e teologias, a intenção do tópico é apropriar-se do discurso da IMPD para comparamos em qual grau existe a reprodução do mesmo na igreja local em estudo, se há alguma modificação e adequação da mensagem, ou se ele é reproduzido de maneira integral.
Sendo impossível abordar todas as doutrinas e teologias empregadas nos cultos da igreja, optamos por escolher as doutrinas e práticas mais recorrentes nos programas e mensagens do apóstolo, dessa forma observando a teologia da cura divina dentro do escopo do discurso da IMPD.
A cura preconizada pela IMPD acontece em um ambiente mágico, os sequazes ali presentes, inseridos na cosmovisão encantada do mundo, acreditam na ideia de duas forças antagônicas que disputam a alma humana, explicam o mundo através da dominação dos deuses e entendem que o apóstolo tem poder para dominar tais forças.
Aliais é possível que o próprio título apostólico remeta a construção mítica entorno do sujeito Valdemiro Santiago, não é à toa que, assim como todos os heróis mitológicos, Valdemiro possui um chamado especial por Deus, dificuldade em aceitar esse chamado, um mito fundador, o naufrágio, um nêmeses bispo Edir Macedo e IURD, além de sofrer, segundo ele, constante perseguição, mas tudo em prol de sua missão Santigo não desiste afirmando que o povo precisa dele.
A prática de cura é antiga e faz parte do imaginário social, todos os povos e civilizações tinham pessoas especializadas e separadas para curar, e normalmente elas representavam forças sacralizadas, espíritos, homens e mulher que poderiam manifestar o divino.
A cura divina não é algo novo nem na magia, nem na religião, muito menos no cristianismo. O próprio Cristo, em vários relatos bíblicos demostrou seu poder de cura por onde que andasse. Curou paralíticos, cegos, surdos, mudos e toda a sorte de doenças características em seu tempo. (BITUN, 2010:128)
O movimento pentecostal surge como uma nova interpretação da cura divina, essa interpretação distancia-se tanto dos católicos como dos protestantes históricos e inaugura um novo modelo de igreja.
Paul Freston propõe uma tipologia baseada em três ondas no desenvolvimento do pentecostalismo, essa tipologia ajuda-nos no entendimento esse desenvolvimento ao longo dos anos. (1996)
A primeira onda do movimento pentecostal é de 1910 a 1950, as principais representantes desse período são: Congregação Cristã do Brasil e a Assembleia de Deus, para Mariano suas principais características são: “anticatolicismo, pela ênfase no dom
de línguas e por radical sectarismo e asceticismo de rejeição do mundo” (MARIANO,
2004). Embora a ênfase dessas igrejas constituísse na ação do Espirito Santo nenhuma delas ainda realizava curas divinas, foi apenas na segunda onda que a prática passa a ser exercida e difundida.
A segunda onda, também chamada de pentecostalismo da cura divina, inicia nos anos de 1950 e começo da década de 1960 com as igrejas: Igreja do Evangelho Quadrangular, Igreja Evangélica Brasil para Cristo e Igreja Pentecostal Deus é Amor.
Os quarentas anos que separam o início destas duas ondas – primeira e segunda – justificam o corte histórico-institucional proposta para distingui-las. Quanto à teologia, entretanto, as duas primeiras ondas pentecostais apresentam diferenças apenas nas ênfases que cada qual confere a um ou outro dom do Espirito Santo. A primeira enfatiza o dom de línguas, a segunda, o de cura. (MARIANO, 1999:31)
Outra diferença entre igrejas da segunda onda e da primeira onda são os meios evangelísticos, igrejas de segunda onda usam constantemente o rádio, cruzadas missionarias, teatros e estádios para evangelização, além disso o espirito apolítico delas é deixado de lado, ao contrário, as igrejas de segunda onda promovem política e discursam que “crente vota em crente”.
A terceira onda é marcada no final de 1970, mas ganha força somente na década de 80 com o surgimento das igrejas denominadas de neopentecostais, elas possuem uma forte ênfase na teologia da prosperidade, a IURD é um ícone desse novo movimento,
embora alguns autores a consideram como pentecostalismo tardio como é o caso de Campos:
Em todos os modelos construídos, a Igreja Universal do Reino de Deus, como parece ser obvio para todos, é classificada como uma igreja “neopentecostal”. Preferimos considerá-la também como um
pentecostalismo tardio, cuja especificidade está justamente em
adequar a sua mensagem às necessidades e desejos de um determinado público. Trata-se de uma igreja que atua dentro de um quadro de pluralismo religioso, cuja estratégia é localizar nichos de pessoas insatisfeitas, provocando nelas estímulos diferenciados a fim de atrai-las para novas experiências religiosas. (CAMPOS, 1997:52)
Outras igrejas da terceira onda são: Igreja Internacional da Graça de Deus, Igreja Renascer em Cristo, Comunidade Paz e Vida, Igreja Sara Nossa Terra, entre outras. As igrejas de terceira onda, seguindo o exemplo das igrejas de segunda onda, concentraram seus investimentos em compras e alugueis de horários televisivos, o grande apelo a teologia da prosperidade e o crescimento do mercado “gospel”, com produtos voltados inteiramente para os fiéis.
A mídia, o mercado e o entretenimento – indicam que o gospel não se restringe a um movimento musical; ele tem sim, na música um elemento forte, articulador, mas é muito mais do que isso. O que ocorreu nos anos 90 no Brasil foi uma explosão do gospel como um movimento cultural religioso, de um modo de ser evangélico, com efeitos na pratica religiosa combinadas em contextos socioculturais os mais variados, o que torna possível uma unanimidade evangélica não-planejada sem precedentes na história do protestantismo no Brasil. Essas vivencias são expressas por meio da música, do consumo e do entretenimento. (CUNHA, 2007:231)
A IMPD mescla aspectos de igrejas da segunda e terceira onda, o que o autor Ricardo Bitun chamou de “Remasterização”, a IMPD apresenta a cura divina aliada a uma forte teologia da prosperidade, o que possibilita uma convergência entre esses dois aspectos, por isso a necessidade de esboçar algumas palavras sobre tais teologias.
Já é aceito que não há possibilidade de definir uma teologia para o movimento pentecostal e neopentecostal, o mais aceito é a existência de pentecostalismos e neopentecostalismos, cada qual com suas especificidades, a cura divina surge como uma inovação nascida nos Estados Unidos da América e influencia os movimentos pentecostais.
O grande pregador desse movimento é Kenneth Hagin, nasceu em McKinney, Texas. Tornou-se pastor da Igreja Assembleia de Deus americana, igreja que se desligou para seguir um ministério independente. É autor de 52 livros, entre eles o mais celebre
“O Nome de Jesus” que tem influenciado muitos líderes religiosos como: Missionário
R.R Soares, Apostola Valnice Milhomens, Apóstolo Rene Terra Nova, Pastor André Valadão, etc.
Ela foi trazia em solo pátrio por meio de pregadores, livros e cursos que eles realizam aqui ou até mesmo por líderes neopentecostais que, indo aos Estados Unidos em busca de direitos autorais em feiras e congressos, tomam conhecimento da literatura e do impacto que eles estão causando por lá e trazem exemplares para o Brasil. (BITUN, 2010:135)
O movimento da Cura Divina credita a doença, a pobreza, os males humanos nas ações demoníacas, cujo foco é tirar todo o potencial humano que Deus estabeleceu. Por esse pensamento, constantemente a cura divina está ligada a práticas de exorcismo.
Coloque a mão no seu coração e faça silencio [...] a presença de Deus é forte em nosso meio, e as doenças e demônios estão sendo sufocados pelo poder de Deus. Onde tiver um espirito mau, você vai ouvir o seu grito de derrota. Espirito de morte, de câncer, suicídio, depressão, espirito de miséria, separação, destruição, dê seu grito de derrota demônio! (ALMEIDA, 2010:08)
Essa alocução do próprio Valdemiro em um culto da IMPD demonstra a ligação entre cura e exorcismo, associa-se doenças a obras demoníacas. As igrejas neopentecostais, nesse caso a IMPD usam formas maniqueístas e atribuem o corpo humano como território dessa luta, não é à toa que Kenneth Heign diz:
Deus quer que vivamos o período integral da nossa vida, aqui em baixo, sem enfermidades e sem doenças [...] não é da vontade de Deus que fiquemos doentes [...] não disse que o diabo não me atacou. Mas antes de findar o dia, já estou curado. Quando o diabo me ataca, digo-lhe: “satanás, estas enfermidades foram carregadas no corpo de Jesus. Você não tem o direito de trazer a imagem delas para cá a fim de me assustar. Agora pegue as suas coisas, ponha-as na mala e sai daqui”. (1985:222-225)
Edir Macedo afirma em seu livro: “Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou
demônios” que todo o mal proveniente desse mundo é originário do diabo. O pregador,
para a ministração da cura, é ele que tem o poder de manifestar o sagrado expulsando o mal do fiel.
Não é difícil imaginar por que a teologia da cura divina, atrelada ao problema do mal, é um dos meios de crescimento mais utilizados pelos pregadores neopentecostais, em particular a Igreja Mundial do Poder de Deus. Estamos em um país onde o atendimento público é precário, o “bom atendimento médico” é quase inacessível por grande parte da população e as políticas públicas de saúde são fundamentadas em um modelo excludente. Essas situações ainda são agravadas por diversas violações às leis ambientais, poluição, falta de saneamento básico, altíssimas taxas de doentes mentais, neuroses, psicopatias e sociopatias de uma população submetida a um estado de miséria, violência, além de diversos distúrbios sociais. (BITUN, 2010:135)
Muito por influência da Igreja Universal do Reino de Deus, os relatos de curas na IMPD sempre vêm acompanhados de fotos, documentos, laudos médicos do antes e depois, que comprovaria a veracidade do poder da cura realizada na igreja. A cura na IMPD é muito mais que uma dadiva divina, mas também simboliza salvação, doenças que são consideradas incuráveis pela medicina como: câncer, leucemia, paralisia, entre outras, na igreja de Valdemiro encontram seu final, constantemente há relatos de pessoas “desenganadas” pela medicina, declaradas mortas pelos médicos, que ao ouvirem ou tocarem em algum objeto consagrado da Igreja Mundial do Poder de Deus, são milagrosamente curadas.
A cura pregada pelo apóstolo Valdemiro, não vem somente através de exorcismo e orações, mas de símbolos “ungidos” como a fronha dos sonhos, que garante uma noite de descanso ao fiel, martelo da justiça, capaz de dar “causa ganha” a qualquer julgamento na justiça, toalhinha embebida no suor de Valdemiro Santiago, que possui poderes curativos, além desses existem rosas, tijolos, chaves, cajados e inúmeras outras formas de objetos, que fetichizados contribuem para a ambientação da cura.
O cristão deve, portanto, colocar sua fé em ação e se tornar um sócio de Deus. Isso é feito quando o adorador se compromete a “devolver” aquilo que é de Deus, ou seja, o dizimo. Deus, em contrapartida, garantirá as bênçãos da cura e o sucesso no empreendimento. (CAMPOS, 1997:368)
Valdemiro Santiago garante que a cura não acontece somente pela fé do sequaz, mas também através da sua própria fé. Não é incomum ouvi-lo dizer “se não tem fé para ser curado, venha pela minha”, essa atitude reforça ainda mais o carisma dele com os adeptos que buscam e depositam no apóstolo Valdemiro e na Igreja Mundial do Poder a esperança para a cura de suas mazelas.
Nas práticas de cura utilizada por muitas igrejas o paralelo entre magia e religião se estabelece quase que inevitavelmente, obviamente não queremos aqui identificar, ou estabelecer que a prática de cura no xamanismo39 e no neopentecostalismo sejam iguais, entendemos que religiões diferentes produzem conceitos e práticas de curas diferentes, mas é inegável que o neopentecostalismo possui seus próprios ritos mágicos.
No neopentecostalismo as fronteiras entre religião e magia são fluidas:
Neopentecostalismo, ao integrar largamente o uso de símbolos aos seus rituais, e ao enfatizar interpenetrações e influências reciprocas entre campos e esferas de uma lógica mais formalista havia demarcado como espaços separados, torna também fluidas as fronteiras da magia e religião40
No neopentecostalismo o ato de cura é associado ao exorcismo de demônios, esse poder geralmente é coligado ao pastor, bispo, apóstolo, obreiro, missionário etc. Eles são elementos centrais é através deles que todo o processo de cura se inicia, podemos dizer que: esse mago não é uma pessoa qualquer, mas aquele que possui um
determinado poder e que através de técnicas especificas controla forças ocultas direcionando-os a fins específicos como, por exemplo curar doenças. (GUERREIRO,
2003:13)
Podemos observar isso nos relatos dos fiéis que são curados nas igrejas da IMPD, a cura é sempre atribuída ao apóstolo Valdemiro Santiago ou um dos bispos e pastores da IMPD, em um programa da Igreja Mundial do Poder de Deus uma mulher afirma: é só a unção do apóstolo que pôde curar minha irmã41, segundo o relato sua irmã foi curada de câncer e HIV pela IMPD.
A eficácia das práticas magicas na IMPD só é funcional à medida que os adeptos da igreja assumem a crença na qual o apóstolo Santiago possui força o suficiente para realizar tal ato. Levi-Strauss afirma que a crença na magia acontece em três aspectos, a crença do feiticeiro na eficácia de suas técnicas, a crença do doente que o feiticeiro é
39 Xamanismo é um conjunto de crenças ancestrais que engloba práticas de magia e evocações para
estabelecer contato com o mundo espiritual. O xamanismo é um fenômeno religioso que confere ao xamã a capacidade de entrar no mundo espiritual, assim, ele adquiri a habilidade de curar doenças, afastar o mal, predizer o futuro, etc.
40
ORO, Aro Pedro. Neopentecostalismo: dinheiro e magia. In. ILHA- Revista de antropologia, v.3, n°1,
novembro. 2001,p.71-85. Disponível em:
http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/ilha/article/view/14957/15665. Acesso em 22 de julho de 2013.p.83.
41 Cura de Câncer e HIV. 2009.IMPD Mundial. Visto em 22 de julho de 2013. Proveniente da World
capaz de cura-lo e a crença coletiva no poder do feiticeiro (1985:194). Assim de forma análoga, as curas procedentes da IMPD acontecem pela crença do apóstolo Valdemiro em suas técnicas, a crença dos prosélitos que vão até seus templos e cultos, e a crença dos fiéis da igreja na magia/fé empregada por Valdemiro Santigo na vida daqueles em que ele toca.
A cura não acontece somente pelos ritos mágicos da IMPD, mas pela legitimação na pessoa de Valdemiro Santiago, tanto o fiel, quanto a comunidade precisam estabelecer um contrato com o apóstolo, esse contrato coletivo sanciona e legitima as ações mágicas de Santiago, esse por sua vez franqueia o poder creditado para seus obreiros, pastores e bispos. Os sequazes que procuram a Igreja Mundial do Poder de Deus já vão condicionados e esperando que aconteçam curas, milagres e manifestações do poder divino pelo apóstolo Valdemiro, e consequentemente estão propensos a pagar, doar, ofertar e dizimar em busca dos milagres oferecidos pela igreja.
Nesse sentido nos lembramos das reflexões de Max Weber: a religião se
caracteriza pela submissão e serviços prestados à divindade, enquanto a magia é uma coerção de Deus (1991:294), essa coerção é encontrada nas práticas do apóstolo
Valdemiro, seja no sopro na cabeça dos fiéis, na oração com imposição de mãos, na consagração de óleo e águas “oradas” ou em inúmeros objetos veiculados pela IMPD. Tudo contribui magicamente para a coerção da vontade divina em prol de benefícios para os adeptos, ao mesmo tempo em que garante ao apóstolo capital simbólico e legitimidade no campo religioso.
As relações entre magia e religião são às vezes muito mais continuidades e complementariedades do que de exclusão. A visibilidade do mágico e a tensão existente entre ambos os polos sejam mais perceptíveis porque o seu público alvo é formado de pessoas em situações limites. Tais indivíduos experimentam as incertezas da vida urbana, isso tudo cria oportunidade para o emprego de rituais que reduzem as incertezas e restauram nos indivíduos a crença de que o mundo pode deixar de ser não- manipulável e arbitrário. (CAMPOS, 1997:42)
A magia é elemento presente e recorrente na IMPD, Santiago usa do imaginário simbólico e social para construir sua imagem de “homem divino” por meio de ritos de cura e objetos que garantam ao fiel à continuidade da magia apresentada na igreja para seu cotidiano, assim não existe um rompimento entre religião, magia e cura, o que existe é uma amálgama desses elementos em favor do domínio do campo religioso brasileiro.